Revista Rosa

Volume 9

9

Rosa Luxemburgo no Brasil: referencial de uma geração1

I

Pedro Martins

A recepção de Rosa Luxemburgo na intelectualidade brasileira está para ser estudada extensivamente.2 Mostra-se necessário mapeamentos como já foram feitos com Antonio Gramsci, György Lukács e outros autores.3 Não existe pleno desconhecimento, na verdade é preciso haver sistematização, aprofundamento e pesquisa. Existem alguns bons trabalhos que vão nessa direção, por exemplo os estudos sobre Mário Pedrosa, primeiro debatedor extensivo das ideias da pensadora no Brasil, feitos por Isabel Loureiro e Dainis Karepovs, e sobre a editoração de esquerda no Brasil, realizados por Edgard Carone e Lincoln Secco.4 Contudo, é preciso ir mais longe. Há que se destacar a relevância das investigações de Mário Pedrosa sobre Luxemburgo, como o seu livro A crise mundial do imperialismo e Rosa Luxemburgo, além de sua atuação no jornal Vanguarda socialista,5 mas existe também todo um material a ser enfrentando nas gerações de intelectuais posteriores.

O presente escrito visa a constituir uma colaboração nesse sentido. Mais precisamente, o foco é a maneira como algumas personagens se atentaram para a principal obra de Luxemburgo, A acumulação do capital, tornando-se responsáveis por trazê-la para a realidade brasileira. Na prática, propõe-se um exercício de micro-história das duas edições de A acumulação do capital, identificando a partir delas um conjunto de projetos intelectuais e políticos que, direta e indiretamente, permearam a recepção de Rosa Luxemburgo no Brasil.

Mostra-se significativo como tantos se envolveram para viabilizar as duas edições brasileiras de A acumulação do capital, uma publicada pela Zahar, em 1970, e outra, pela Abril Cultural, em 1984. Não se trata de interesses individuais que surgiram de um dia para outro, mas de estudos e curiosidades que se estenderam coletivamente, por algumas décadas. Duas pessoas destacaram-se dentre esse grupo: o professor da Universidade de Brasília (UnB) Luiz Alberto Moniz Bandeira (1935–2017) e o professor da Universidade de São Paulo (USP) Paul Israel Singer (1932–2018).

Partindo-se dessas duas edições e atentando-se para parte da trajetória desses dois docentes, poder-se-á vislumbrar dimensões de um contexto geracional e vinculações sociais que possibilitaram a tradução da pensadora alemã ao português. Não se está propondo investigar atores que não tiveram conexões e chegaram a objetivos em comum. Na verdade, aproximam-se diferentes intelectuais que, embora tenham nascido em espaços muitos distintos, se encontraram em certos momentos e, nessas oportunidades, demonstram um comum interesse por Luxemburgo, que se manteve durante décadas.

II

Pedro Martins

Pode-se perguntar quais ligações diretas possuem as duas traduções de A acumulação do capital, de Rosa Luxemburgo. Existe algo para além da condição de que os projetos se derivaram de pessoas atentas para a bibliografia da marxista europeia?

Na verdade, a edição desses títulos concatena-se com um processo formativo e um projeto político com que Moniz Bandeira e Singer se envolveram durante um momento da juventude, quando pertenceram à Liga Socialista Independente (LSI) e à Polop, nos anos 1950 e 1960. Ambos se integraram aos mesmos movimentos políticos em algumas oportunidades, e nesses espaços Luxemburgo se mostrou um horizonte analítico.

Com o passar das décadas, vincularam-se a outros grupos e empreenderam projetos distintos. Por exemplo, na virada dos anos 1970 aos 1980, Singer se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT), e Moniz Bandeira, ao Partido Democrático Trabalhista (PDT). As leituras de Luxemburgo, porém, permaneceram presentes em suas reflexões. Essa curiosidade motivaria os dois a constituir, independentemente, edições de Luxemburgo, quando já não tinham mais contato.

Paul Singer e Luiz Alberto Moniz Bandeira têm quase a mesma idade, três anos diferenciam um do outro — o primeiro é de 1932, e o segundo, de 1935. Embora contemporâneos, guardam profundas diferenças sociais. Enquanto Moniz Bandeira nasceu em Salvador, em uma família de origens aristocráticas, tendo vários de seus membros entre a elite cultural e política brasileira, Singer tem raízes que remetem à Europa. Foi concebido no seio de uma família de pequenos comerciantes judeus em Viena, Áustria. No Leste europeu, teve sua primeira educação, sendo alfabetizado em alemão. Não muito permaneceu naquele local, veio para o Brasil em 1940, após a anexação da Áustria pela Alemanha nazista, estabelecendo residência em São Paulo.

Moniz Bandeira se aproximou das ideias de esquerda através do seu tio Edmundo Moniz, quando o conheceu no princípio de 1951. Edmundo fora uma das lideranças da IV Internacional no Brasil durante os anos 1930 e 1940. Quando entrou em contato com o sobrinho, Edmundo não era mais militante trotskista. Concentrava-se em sua carreira de jornalista no Correio da manhã. Contudo, colocava-se ainda como uma pessoa de esquerda, apresentando essas ideias para Moniz Bandeira. Deu-lhe obras de Leon Trotsky, Rosa Luxemburgo e uma coleção completa do Vanguarda socialista.6 A aproximação seria tanta, que Moniz Bandeira decidiu ir morar com o parente no Rio de Janeiro pouco tempo depois, dando início a uma carreira de jornalista na capital da república. Lá, por meio de Edmundo, conheceu Mário Pedrosa e outros trotskistas históricos, os quais, naquele momento, estavam filiados ao Partido Socialista Brasileiro (PSB). Encantado pelo novo cenário, Moniz Bandeira optou por se filiar ao PSB.7

Singer teve um caminho diferente. Seu itinerário até as ideias de esquerda passa pelo movimento judaico chamado Dror — a palavra em hebraico significa “andorinha”, uma metáfora para liberdade.8 No pós-guerra, essa organização, vinculada ao Partido Trabalhista de Israel, recrutava jovens judeus para morar em kibutzim, no recém-criado Estado hebreu. Tal organização tinha uma linhagem socialista que fortemente marcou Singer. O rapaz permaneceu no movimento entre 1948 e 1952, alcançando a posição de secretário-geral estadual. Trata-se de uma tarefa significativa uma vez que o Dror tinha por volta de 1.500 membros na cidade.

A partir de 1948, passou a frequentar a sede do PSB, na praça da Sé, para ler bibliografia de esquerda e assistir aos cursos de formação. Nesse momento, Rosa Luxemburgo se tornou referência, presença constante que era nas edições do Vanguarda socialista ali disponíveis. Com o passar do tempo, Singer percebeu que sua relação com o Dror derivava mais de uma curiosidade sobre as ideias de esquerda do que de qualquer intenção de morar em Israel, o que o levou a renunciar à posição de secretário-geral. Filiou-se ao PSB em 1954, após conseguir a cidadania brasileira.

Moniz Bandeira e Singer não se conheciam até 1956. Morando com Edmundo, Moniz Bandeira aproximou-se de outro tio, o professor da Faculdade de Direito da USP Alberto Moniz da Rocha Barros, que também fora um militante trotskista.9 Assim como Edmundo, Alberto estava concentrado na sua carreira, não visando a constituir organizações.

Alberto mantinha uma grande amizade com a principal liderança do trotskismo em São Paulo durante os anos 1930, Hermínio Sacchetta. Esse homem, diferentemente dos parentes de Moniz Bandeira, preservava interesse na militância. Após se afastar da IV Internacional no começo dos anos 1950, promoveu a formação de um grupo chamado LSI. A empreitada foi composta fundamentalmente por jovens estudantes universitários e secundários, estando entre eles Alberto Luiz da Rocha Barros, Emir e Eder Sader, Gabriel Cohn, Luiz Alberto Moniz Bandeira, Maurício Tragtenberg, Michael Löwy, Milton Taccolini, Paul Singer, Renato Caldas e Renato Pompeu.

Singer aceitou participar da iniciativa porque estava frustrado com o PSB de São Paulo. Naquele momento, a sigla alinhava-se com os interesses de Jânio Quadros. Afastou-se nesse movimento de várias pautas socialistas de seu programa. Enquanto durasse essa conjugação, Singer, além de Antonio Candido de Mello e Souza e Febus Gikovate, permaneceriam afastados.10 Moniz Bandeira acatou o projeto porque era jovem e jamais tinha participado de uma organização política.

A iniciativa jamais alcançou dimensões razoáveis, sempre tendo no máximo trinta membros e editando um jornal, intitulado Ação socialista, com periodicidade instável. A relevância da LSI está na sua dimensão intelectual, pois reuniu e ofereceu experiência política para uma série de pensadores que seriam profundamente importantes na realidade brasileira na segunda metade do século XX.

A organização era marcada por uma forte presença das ideias de Luxemburgo, expressa na postura assertivamente contrária ao nacionalismo e ao centralismo democrático, sendo, na prática, a manifestação de uma severa oposição aos preceitos do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Pode-se ver nas páginas do Ação socialista citações de ideias características de Luxemburgo e também a propaganda de seu livro Reforma ou revolução?,11 lançado pela editora Elipse, com tradução de Lívio Xavier.12 Tal obra fora publicada originalmente na década anterior pela editora Flama, administrada por Hermínio Sacchetta.13

Apesar da relevância das ideias de Luxemburgo para o grupo, muitos desses jovens intelectuais jamais se destacaram como seus intérpretes. Gabriel Cohn, um dos maiores especialistas na obra de Max Weber na realidade brasileira, é um exemplo. Contudo, quatro membros se tornariam autores que mantiveram uma relação criativa com a obra de Luxemburgo. Além de Moniz Bandeira e Paul Singer, há de se elencar Maurício Tragtenberg e Michael Löwy.

Tragtenberg se tornaria professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Fundação Getulio Vargas (FGV) após se formar em História na USP, sendo responsável por constituir uma obra sobre o fenômeno burocrático14 e sobre a história da Revolução Russa.15 Ele frequentemente teve Luxemburgo como um referencial, tanto para compreender as consequências sociais da burocracia quanto para criticar a forma política centralizada existente no regime russo. Contudo, deve-se destacar também a relevância de Weber para os seus escritos.

Löwy constituiu quase toda a sua carreira na França, ainda que tenha feito Ciências Sociais na USP. Realizou um doutorado com Lucien Goldmann na Sorbonne e se tornaria pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS).16 A conexão de sua obra com o teórico húngaro Lukács é profunda, mas ao mesmo tempo Luxemburgo sempre esteve no seu horizonte — inclusive permeando a interpretação sobre a obra e a trajetória de Karl Marx que apresentou em sua tese de doutoramento, A teoria da revolução no jovem Marx, publicada pela Editora Maspero em 1970.17 Aliás, o grande responsável por apresentar e destacar as ideias de Luxemburgo para Löwy foi Paul Singer, demonstrando a LSI como um espaço de debate e divulgação de suas ideias.18

A considerar tal espectro de personagens e obras, se mostra difícil esboçar Moniz Bandeira, Paul Singer ou qualquer um desses outros intelectuais como luxemburguistas em um sentido puro. São intelectuais com formações complexas que, embora estivessem significativamente influenciados pelas ideias da pensadora europeia, consumiam ao mesmo tempo outros autores de esquerda críticos à União Soviética. Por exemplo, tanto Moniz Bandeira quanto Paul Singer destacaram a relevância das obras de Trotsky nesse momento de formação. Por isso, Luxemburgo, em grande medida, é recepcionada juntamente com outras referências que criticavam o comunismo à esquerda e elencavam suas facetas autoritárias, burocráticas etc.

A LSI foi uma iniciativa breve e incapaz de engajar de forma efetiva boa parte dos seus membros. Sua importância está nos contatos que conseguiu firmar. Singer logo se concentrou em sua vida universitária: entrou no curso de Economia da USP, em 1957, e foi progressivamente se reaproximando do PSB. Moniz Bandeira também se afastou da organização.

Em 1956, no período em que trabalhava no periódico carioca Diário da noite, conheceu uma personagem que o faria focar seus projetos políticos no Rio de Janeiro. Trata-se de Erich Czaczkes Sachs,19 um jovem judeu emigrado da Áustria, assim como Singer. Sachs era significativamente influenciado pelas ideias de August Thalheimer, Heinrich Brandler e da ala de oposição do Partido Comunista Alemão, crítica à ascensão autoritária na legenda na virada dos anos 1920 aos 1930.

Moniz Bandeira e Sachs conheceram-se no Correio da manhã e se aproximaram quando perceberam que cultivavam uma posição de esquerda semelhante, marcadamente crítica ao autoritarismo soviético. O primeiro diálogo tratou a respeito do XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), que ocorrera em fevereiro daquele ano.20 Rapidamente Sachs se tornaria o principal parceiro de Moniz Bandeira, com os dois decidindo constituir uma organização no Rio de Janeiro em 1957. Perceberam que o envolvimento com a LSI não possibilitaria uma ação mais ampla no Rio de Janeiro. Seus membros estavam em São Paulo e teria que se principiar o movimento do zero. Por isso, Sachs filiou-se ao PSB e eles decidiram criar um grupo de jovens da legenda, intitulado Juventude Socialista. Também se envolveram no projeto: Agilberto Pires, Aluízio Leite Filho, Bóris Nicolaewsky, Henrique Miranda Sá Neto, Piragibe de Castro e Ruy Mauro Marini.21

Sachs e Moniz Bandeira tinham atuado em jornal. O primeiro também trabalhara como gráfico quando morara em São Paulo nos anos 1940 e envolvera-se com o Grupo Radical de Ação Popular (GRAP),22 uma pequena iniciativa formada principalmente por universitários ligados à Faculdade de Direito do Largo do São Francisco que se reuniam para estudar, debater e manifestar-se contra o Estado Novo.23 Entre os seus membros estava o professor e crítico literário Antonio Candido de Mello e Souza. Em relato, Mello e Souza destacou o conhecimento de Sachs da bibliografia de esquerda alemã já naquele período.24

Considerando tal trajetória, Sachs e Moniz Bandeira decidiram constituir um projeto editorial em 1959, a revista Movimento Socialista. Essa publicação durou apenas um ano, resultando em dois volumes. Havia uma rede de leitores atenta ao seu conteúdo. Astrojildo Pereira foi um dos seus compradores. Michael Löwy recebia os exemplares e lia com muita atenção.25 Outro de seus leitores, Theotônio dos Santos, destacou o papel do editorial em criticar as posições nacionalistas do PCB.26 Éder Sader relatou que mantinha contatos com o grupo e que era leitor da publicação.27

A revista era administrada fundamentalmente pelos membros da Juventude Socialista do Rio de Janeiro, sendo Moniz Bandeira seu editor formal. Apesar de o movimento se considerar distinto da publicação, as partes se confundiam. A questão é que colaborações eram abertas para qualquer pessoa; a única restrição era que se deveria debater a partir de um prisma marxista. A revista anunciava, no seu manifesto inaugural, a função de difundir a ideologia revolucionária do operariado, questionar os movimentos “reboquistas” e romper com as tradições stalinistas.28

O número inaugural teve menos de 100 páginas. Todavia, mostrou-se significativo em dois sentidos. O primeiro foi a presença de um texto de Rosa Luxemburgo, “Estancamentos e progressos da doutrina”, com tradução de Moniz Bandeira, demonstrando a preocupação do grupo em divulgar as ideias da autora.29 O escrito, traduzido de uma versão espanhola, foi originalmente publicado em 1903 no jornal oficial da social-democracia alemã Vorwärts, com o título “Stillstand und Fortschritt im Marxismus”.30 Trata-se de uma defesa das ideias de Marx, colocado como um autor ainda plenamente capaz de oferecer instrumentos para analisar a realidade, não obstante a passagem do tempo. Aponta concomitantemente a necessidade de uma postura aberta, alocando os escritos marxianos como um horizonte analítico para mobilizar a luta operária, e não como uma verdade acabada. Na prática, é um escrito que se conecta com as polêmicas que Luxemburgo estabelecera com Eduard Bernstein em uma série de artigos publicados na imprensa operária entre 1898 e 1899, depois editados com o título Reforma ou revolução?31

O segundo número teve textos de Erich Sachs e Ruy Mauro Marini. O de Sachs, intitulado “Marxismo ou apologética nacionalista?”, foi assinado como Eurico Mendes. É uma longa exposição monográfica sobre a relação dos marxistas com o nacionalismo, apresentando os perigos da presença dessa ideologia entre o operariado brasileiro.32

O de Marini, “Verso e reverso do desenvolvimento”, assinado com o pseudônimo Agripino Soares Thomas,33 é mais interessante, porque demarca um momento de sua trajetória no qual se afasta de posições nacional-desenvolvimentistas e assume uma postura marxista revolucionária, começando a esboçar noções que estariam presentes na sua contribuição à teoria da dependência presente em Dialéctica de la dependencia.34 Até aquele momento, Marini era professor assistente de Alberto Guerreiro Ramos na Escola Brasileira de Administração Pública (Ebap), órgão da FGV, estando, portanto, profundamente concatenado com as teorias desenvolvimentistas então em dominância. Como declara em seu memorial, Marini faz um ajuste de contas com o nacional-desenvolvimentismo nesse texto.35

Pode-se ver uma postura crítica ao nacionalismo, que atravessa toda a revista. No segundo volume da publicação, a situação não é distinta. Uma vez mais Marini publica um artigo no qual esboça críticas a tal ideologia.36 Dessa vez, destinou ácidos comentários ao membro do PCB Rui Facó, que questionara pouco antes o novo projeto editorial no periódico comunista Novos rumos,37 colocando os jovens organizadores como sectários e incapazes de formar alianças.38

Singer também faria uma contribuição nesse novo volume. Já existiam contatos entre Moniz Bandeira e Singer desde a LSI, e provavelmente o convite se desdobrou dessa conexão. A partir desse momento, Singer e Sachs também constituíram uma amizade,39 a qual se mostraria importante para viabilizar a criação da Polop pouco depois. As origens austríacas e judaicas ajudaram a moldar tal vinculação, aproximando Singer da atuação da Juventude Socialista no Rio de Janeiro.

Singer ofereceu para o Movimento socialista o artigo “Esboço de uma análise marxista do nacionalismo” que, em certa medida, repete o roteiro analítico dos demais textos da publicação.40 Destaca as oposições de interesse entre burguesia nacional e estrangeira no Brasil, esboçando como resultado dessa disputa o desenvolvimento do nacionalismo. A classe operária não poderia assumir a ideologia nacionalista, uma vez que ela não resolve sua condição. Deveria, por sua vez, apresentar uma conduta socialista, visando a uma revolução para se emancipar da lógica desigual do capitalismo. A estratégia política do PCB, portanto, era uma vez mais questionada. Rosa Luxemburgo aparecia nesses roteiros sempre como um referencial crítico e como uma autora que, matutinamente, ainda durante a Revolução Russa, teve clareza sobre tais problemas.

Pedro Martins

Nos anos 1960, Moniz Bandeira e Singer ainda manteriam contato já que ambos decidiram se integrar à Polop, fundada em um congresso realizado entre os dias 16 e 19 de janeiro de 1961 na cidade de Jundiaí. O nome do grupo era Organização Marxista Revolucionária (ORM), no entanto ficou conhecido como Polop, porque essa era a síntese do nome da publicação oficial da organização — Política operária. Em certa medida, o nome destaca a influência de Sachs no grupo, já que esse também era o título de um jornal da ala opositora do Partido Comunista Alemão que existiu em Bremen, na década de 1930, intitulado Arbeiterpolitik.

Na fundação, membros da Juventude Socialista de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, da LSI e da Mocidade Trabalhista de Belo Horizonte se reuniram para formar a nova organização. Se na Juventude Socialista e na LSI a presença de Luxemburgo era uma referência, a Polop traria um contexto distinto. Pois, por um lado, entrou um grupo, a Mocidade Trabalhista, que tinha uma relação bem menos áspera com o nacionalismo e, por outro, eram anos conseguintes à Revolução Cubana. Nesse momento, a ideologia nacionalista começava a ser concebida com um potencial revolucionário na América Latina.

Assim, as críticas ao nacionalismo esboçadas por Luxemburgo são menos lembradas diante das suas ponderações sobre o caráter autoritário da forma política dos Partidos Comunistas. O que recebeu mais atenção dos militantes da Polop foram os escritos marxistas sobre imperialismo. Nas publicações oficiais e de seus membros, textos de Vladimir Lenin, Nikolai Bukharin etc. ganharam destaque — algo um tanto interessante, uma vez que vários dos seus membros se tornariam autores da vertente marxista da teoria da dependência mais tarde, como Theotônio dos Santos, Vânia Bambirra e Ruy Mauro Marini.41

Construiu-se entre os membros da Polop um projeto de edição dos livros que debateram o imperialismo. A empreitada foi limitada, resultando em um único título de Bukharin, O imperialismo e a economia mundial, traduzido por Marini e Aurélia Sampaio Leite por uma editora a que Moniz Bandeira era vinculado, a Melso.42 Em depoimento, Theotônio dos Santos expressou a preocupação do grupo em debater e divulgar autores que discutiam o caráter do imperialismo, embora houvesse a limitação da presença de Luxemburgo como uma intérprete dessa temática.43 Naquele momento, era Mário Pedrosa, oriundo de outra geração e pertencente a diferentes grupos políticos, que se colocava mais preocupado em debater as ideias da autora sobre o imperialismo. Tal situação mudaria somente na década seguinte.

Moniz Bandeira e Singer não atuariam cotidianamente na organização, por estarem concentrados nas suas carreiras nos anos conseguintes. O primeiro se tornou um importante jornalista no Rio de Janeiro, especializado em cobertura política nacional e internacional. O segundo, por sua vez, foi contratado como professor da USP após se formar em Ciências Econômicas e Administrativas em 1959. Quando Singer obteve o diploma, o professor Mário Wagner Vieira da Cunha o convidou para ser seu assistente, indicando-o para cuidar de uma matéria focada em produção agrária. Nos anos seguintes, Singer se tornou docente catedrático da casa.

Singer e Moniz Bandeira participariam da Polop de maneira esporádica, mais como intelectuais orgânicos do que como militantes. Integravam-se apenas em certos projetos editoriais ou quando o grupo organizava conferências. Além de ter sido editor responsável pelo Movimento socialista, Moniz Bandeira coordenou a publicação oficial da Polop, sendo auxiliado pelo conselho de redação formado por Gabriel Cohn, Renato Ribeiro Pompeu e Luiz Portes. Como seu viabilizador, Moniz Bandeira convidou uma vez mais Singer para colaborar na publicação, lançando o artigo “A luta dos camponeses no Brasil” na edição de outubro de 1962.44

O texto concatenava-se profundamente com a cadeira que Singer ocupava na USP, demonstrando mais a faceta de um pesquisador do que de um militante, já que buscava conceituar as formas de produção existentes no campo brasileiro, destacando a maneira capitalista que se expandia diante de formas pré-capitalistas que se diluíam. Singer não deixava de fazer um diagnóstico de cunho político, apontando que o campesinato brasileiro poderia ter um potencial revolucionário devido a seu processo de proletarização. Tal escrito, em grande medida, está conectado com as pesquisas de Singer, existindo aproximações com outro texto de cunho acadêmico publicado em uma revista especializada naqueles anos.45

Embora sempre com significativas limitações de atuação devido ao seu pequeno porte, a Polop conseguiu ter alguma presença no movimento estudantil carioca a partir da aliança que estabeleceu com a Juventude Universitária Católica (JUC), mais precisamente, com uma ala que se derivaria na Ação Popular (AP) em 1962. A conexão possibilitou a eleição de três presidentes da AP para a presidência da UNE: Aldo Arantes (1961–1962), Vinícius Caldeira Brant (1962–1963) e José Serra (1963–1964).

Os membros da AP dominaram o órgão de classe universitário no Rio de Janeiro e no Brasil nos anos 1960, a União Metropolitana de Estudantes (UME) e a UNE, tendo a Polop como uma de suas aliadas. A principal era parceira era a juventude do PCB, com quem dividia a vice-presidência ou a secretária geral. A Polop, por sua vez, tinha direito a uma pequena participação nos cargos.

Foi por meio dessa ponte que Singer foi convidado em três oportunidades para comentar a política econômica em vigência, primeiramente do governo de Jânio Quadros e, depois, de João Goulart.46 Nas duas primeiras, seus apontamentos apareceram em O Metropolitano, publicação oficial da UME, que saía como encarte do Diário de Notícias e era coordenado principalmente por membros da AP, como Raul Landim Filho, futuro professor de Filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tendo a colaboração de alguns membros da Polop, como Ruy Mauro Marini e Aluízio Leite Filho.

A terceira oportunidade de aproximação entre Singer e o grupo do Rio de Janeiro no qual Moniz Bandeira se integrava é, de longe, a mais importante, uma vez que resultou na sua primeira publicação em livro. A obra, intitulada Análise do plano trienal, foi lançada em 1963 pela própria editora da UNE.47 Trata-se da reunião de dois estudos, um de Singer e o outro do militante comunista Mário Alves, sobre o plano econômico elaborado pelo Ministro do Planejamento e Coordenação Econômica Celso Furtado (1962–1964) durante o governo João Goulart. O texto também integrou o seu primeiro livro autoral Desenvolvimento e crise.48

Após o golpe de 1964, os contatos de Singer e Moniz Bandeira se diluíram e jamais se recuperam até a final da vida dos dois. É sintomática a última entrevista que o economista deu em 2016. Questionado sobre Moniz Bandeira, Singer declara que o considerava um bom jornalista, demonstrando uma falta de aproximação com sua obra elaborada na segunda metade do século XX. Limita-se a rememorar a atuação do cientista social nos jornais cariocas nos anos 1950 e 1960.49

A Polop, que era o principal elo entre eles e que se manifestava esporadicamente, passaria por uma profunda crise a partir daquele momento, se diluindo em várias organizações. Moniz Bandeira deixou a organização formalmente em 1965 e passou a se concentrar na carreira de editor e escritor. Singer, por sua vez, foi progressivamente se afastando, tornando-se cada vez mais distante. Na realidade, encontrava-se rompido com a organização antes mesmo de 1964. Optou por se dedicar à vida acadêmica e ao PSB de São Paulo. Voltou-se plenamente para a sigla após a ala janista ser derrotada, quando alcançou a posição de secretário-geral do partido em São Paulo e de membro do diretório nacional.50 Pouco depois, o PSB deixaria de existir com a vigência do Ato Institucional número 2, em 1967.

Rosa Luxemburgo, que aparecia como um referencial teórico comum para Moniz Bandeira e Singer, principalmente na LSI, deixa de ser motivos de interações. Desloca-se cada vez mais como um problema reflexivo, o qual incitaria, cada um, de maneira distinta, a promover a tradução de A acumulação do capital nas décadas conseguintes.

III

Pedro Martins

Moniz Bandeira foi o primeiro a ter a intenção de produzir uma versão de A acumulação do capital em língua portuguesa. Seu trabalho apareceu em 1970 pela Editora Zahar,51 com sua tradução, mais de meio século depois do surgimento da primeira edição em alemão, em 1913.52 O texto não foi constituído de maneira simples. O Brasil passava por um dos momentos mais duros da ditadura militar.

Por incrível que pareça, foi na ditadura que se desdobrou um substantivo enriquecimento na bibliografia marxista no Brasil. Até aquele momento, a presença de autores como Antonio Gramsci, György Lukács, Rosa Luxemburgo era significativamente limitada. Por exemplo, a própria obra máxima de Karl Marx, O capital, só ganhou uma versão em português pela Civilização Brasileira em 1968, a partir do trabalho do tradutor Reginaldo Sant’Anna.53

Obviamente, a ditadura não constituiu nenhum estímulo para essa ampliação. O processo deriva-se da curiosidade de intelectuais que foram postos em reclusão e tinham pleno interesse em expandir o acervo de textos marxistas no país. Perseguidos, eles encontraram mais tempo para se dedicar a projetos de tradução, sendo bem recebidos por editores como Caio Graco Prado, Ênio Silveira, e Jorge Zahar.

O golpe militar afetou profundamente a vida de Moniz Bandeira. A carreira de jornalista foi totalmente inviabilizada. Para se proteger, decidiu concentrar-se em uma vida reclusa — como fizeram Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho e Paul Singer —, focando em atividades de escritor, tradutor e editor. Nos anos 1950 e 1960, publicara algumas obras de análise de conjuntura e de poesia, contudo a produção de livros jamais tinha se tornado o centro das suas atenções.

Desde o começo da década, Moniz Bandeira participava informalmente da Editora Melso, um pequeno empreendimento dirigido pelo empresário Manoel de Souza Sobrinho. O negócio durou entre 1957 e 1965 e não chegou a ter vinte livros publicados.54 Moniz Bandeira não tinha cargo oficial na empresa. Era uma presença constante que indicava projetos, intermediava com autores e tradutores e até mesmo publicava suas próprias obras. Por exemplo, os seus dois primeiros livros de análise política saíram pela casa, O 24 de agosto de Jânio Quadros e O caminho da revolução brasileira.55 Outras atividades que lá exerceu foram trazer Ruy Mauro Marini para traduzir o já citado livro de Bukharin e convidar o antigo militante comunista Agildo Barata para publicar as suas memórias, Vida de um revolucionário.56

Sabendo do desemprego de Moniz Bandeira, Sobrinho propôs ao colaborador assumir a coordenação do seu novo empreendimento. Em 1967, Sobrinho comprou uma das mais antigas editoras e gráficas do país, a Laemmert.57 Tal casa de publicação fora fundada em 1827, sendo a mais importante editora brasileira na virada do século XIX para o XX. Para se ter uma dimensão de sua relevância, a primeira edição de Os sertões, de Euclides da Cunha, apareceu por essa empresa em 1902, a qual também editou autores relevantes como Olavo Bilac, Alfredo d’Escragnolle Taunay, Sílvio Romero etc.58 No século XX, o empreendimento perdeu relevância, tendo momentos que se restringiu a atuar exclusivamente como gráfica.

Moniz Bandeira trabalhou como o editor da casa entre 1968 e 1969, comandando o negócio que estava instalado na rua Carlos de Carvalho, Centro do Rio de Janeiro. O vínculo se encerrou com a sua prisão. A editora funcionaria ainda mais três anos após esse incidente. Voltaria a atuar exclusivamente como gráfica a partir de 1972. Desde o início dos anos 1960, a Laemmert parara de lançar livros, mas em março de 1968 anunciou publicamente que retornaria ao ramo.59 Divulgou inclusive o seu primeiro lançamento: O que é o amor?, do médico e militante socialista argentino José Ingenieros.60 Na verdade, trata-se de uma reedição de um livro lançado no Brasil pela Melso, com tradução de Gesner Morgado.61 O texto original foi lançado em 1940 na Argentina e se intitulava Tratado del amor.62 Foi nesse exato momento que Moniz Bandeira tomou as rédeas da companhia.

A editora Laemmert nunca se transformou em um grande negócio sob o comando de Moniz Bandeira. Compunha-se de uma estrutura pequena que se especializou em editar traduções de intelectuais de esquerda. Para isso, Moniz Bandeira muitas vezes solicitava os direitos de traduções antigas feitas por seus conhecidos. Hermínio Sacchetta, por exemplo, permitiu que lançasse todos os textos que publicara na editora Flama nos anos 1940.63 O modelo de trabalho que Moniz Bandeira cultivava era quase artesanal. Realizava diversas tarefas ao mesmo tempo para distintas empresas, sendo pago por trabalho entregue. Dedicava-se a cuidar da Laemmert, enquanto preparava matérias para a revista Visão e recebia encomendas de duas das maiores editoras do país, a Civilização Brasileira e a Zahar.64

O proprietário da Civilização Brasileira, Ênio Silveira, contratou Moniz Bandeira repetidas vezes naquele período.65 Três livros foram encomendados. O primeiro foi publicado em 1967 e intitulou-se O ano vermelho,66 escrito conjuntamente com dois jornalistas militantes do PCB chamados Clóvis Melo e Aristélio Travassos de Andrade.67 Trata-se sinteticamente de um estudo sobre os reflexos da Revolução Russa no Brasil e a constituição do PCB. O segundo jamais apareceu, pois Moniz Bandeira foi preso em 1969 enquanto o estava preparando. Os manuscritos foram levados pela polícia e se perderam. Era um estudo sobre o levante da Aliança Nacional Libertadora (ANL) em 1935, muitas vezes chamado Intentona Comunista. O terceiro foi escrito em uma condição especial. Moniz Bandeira foi contratado em 1968 para atuar como ghostwriter, da biografia do presidente da Primeira República, Nilo Peçanha: Nilo Peçanha e a revolução brasileira.

Em duas oportunidades, Silveira também utilizou os serviços de Moniz Bandeira como tradutor. A primeira vez foi em 1967, para verter o texto “O que foi a Revolução de Outubro?”, de Leon Trotsky, que saiu no número especial, dedicado aos cinquenta anos da Revolução Russa, da Revista civilização brasileira.68 A segunda foi para traduzir uma coletânea de textos do biógrafo de Trotsky, Isaac Deutscher, intitulada O judeu não-judeu e outros ensaios, publicada em 1970.69 A conexão com a Zahar foi menos constante. Na realidade, o editorial encomendou a Moniz Bandeira, em 1968, a tradução do livro Literatura e revolução, de Leon Trotsky, inédito em língua portuguesa. O trabalho, feito a partir de uma edição espanhola, apareceu no ano seguinte, inclusive com texto introdutório do tradutor.70

Pedro Martins

Enquanto coordenava a Laemmert, Moniz Bandeira concentrou-se em constituir um catálogo com textos marxistas estrangeiros. Em muitas oportunidades, reeditou traduções de conhecidos seus: como os livros de Trotsky Da Noruega ao México e Revolução e contra-revolução.71 O primeiro vertido originalmente nos anos 1930 por seu tio Edmundo Moniz,72 tendo também uma edição pela Melso,73 e o segundo por Mario Pedrosa. Trotsky também aparecia em outra oportunidade no catálogo, em uma coletânea de diversos autores sobre a Comuna de Paris traduzidos por José Octavio de Aguiar Abreu, que se tornaria conhecido por verter a obra de Sigmund Freud.74

Ao longo do tempo, lançou A nova mulher e a moral sexual da revolucionária russa Alexandra Kollontai, vertido por Vera Bloch Wrobel;75 A questão agrária, do social-democrata alemão Karl Kautsky, com tradução de Carlos Iperoig,76 reedição de um texto originalmente lançado pela Flama nos anos 1940;77 Poemas do cárcere e A resistência do Vietnam, de Ho Chi Minh –78 o primeiro traduzido pelo próprio Moniz Bandeira e por Coema Simões, que se trata de um pseudônimo de Édila Pires,79 o segundo, por Edio Vieira; A questão judaica, de Karl Marx, traduzido pelo psicólogo Wladimir Gomide;80 Marxismo e existencialismo, de August Thalheimer, também vertido por Gomide;81 Tratado do materialismo histórico, sem indicação de tradutor, e O imperialismo e a economia mundial, de Nikolai Bukharin,82 com tradução de Ruy Mauro Marini originalmente lançada pela Melso; Cristianismo primitivo, de Friedrich Engels, sem indicação de tradutor, com apêndice de Leandro Konder;83 Guerra civil na Espanha, do militante trotskista espanhol Andreu Nin, vertido por José Bolívar, pseudônimo utilizado por Gomide em seu primeiro trabalho de tradução pela casa;84 História do socialismo e das lutas sociais, de Max Beer, com tradução de Horácio Mello, que, na prática, é uma reedição originalmente publicada pela Cultura Brasileira em 1934;85 Que é uma constituição?, de Ferdinand Lassalle, com tradução de Walter Stonner, originalmente lançada em 1933.86 Rosa Luxemburgo também apareceu no catálogo. Moniz Bandeira aproveitou a tradução de Lívio Xavier, que seu amigo Hermínio Sacchetta havia editado pela Flama nos anos 1940, de Reforma ou revolução?, contudo alterou o título para Reforma, revisionismo e oportunismo.87

Há também títulos que, embora não fossem marxistas, tinham forte apelo para a cultura de esquerda. A tradução de um livro de entrevistas feitas pelo jornalista e psicólogo Kenneth Bancroft Clark, intitulado Protesto negro, com três lideranças do movimento dos direitos civis norte-americano (James Baldwin, Malcolm X e Martin Luther King), vincula-se a esse plano.88 O trabalho de tradução também foi feito por Wladimir Gomide.

Outro livro do catálogo que se concatenou com esse nicho foi As táticas de guerra dos cangaceiros, de Maria Christina Russi da Matta.89 Trata-se de uma adaptação de uma tese de doutoramento em História feita na USP que não chegou a ser defendida devido ao falecimento de sua autora. O título filia-se a uma tradição bibliográfica que concebia o cangaço como um movimento social de cunho potencialmente revolucionário. Abordagem que pode ser conferida em autores como Eric Hobsbawm e Rui Facó.90 O título teve algum apelo social na época de sua edição, sendo indicado pelo militante Joaquim Câmara Ferreira, da Ação Libertadora Nacional (ALN), como um recurso para se preparar para a luta armada.91

Moniz Bandeira também publicou na Laemmert parentes e amigos de prestígio. Lançou o texto do seu tio-avô, pai de Edmundo Moniz, Antônio Moniz Sodré de Aragão A mocidade na democratização dos povos,92 que é uma exposição sobre as revoltas estudantis ao longo da história, e dois títulos do seu tio Alberto Moniz da Rocha Barros, professor de direito da USP, Que é o fascismo? e Origens e evolução trabalhista.93 Os livros de Rocha Barros foram uma homenagem do sobrinho ao parente que falecera no ano anterior, após sofrer um atentado da organização paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC). O amigo Clóvis Melo também foi colocado em circulação com a obra Os ciclos econômicos do Brasil.94

Ao analisar o catálogo da Laemmert, vislumbra-se uma ampla bibliografia de esquerda. Poucas são as exceções — um ou outro título especializado de filosofia ou uma reunião de sonetos aparecem como Matrimônio de Søren Kierkegaard e Sonetos escolhidos de Gioconda Labecca. Para além dos livros, consta-se também uma presença significativa de pessoas de esquerda viabilizando o projeto. Moniz Bandeira aproveitava os seus contatos formados nos anos de militância pela Polop, especialmente aqueles originários do movimento estudantil universitário. Trazia para trabalhar militantes que passavam por dificuldades econômicas. Muitas vezes eles estavam em condição de clandestinidade. A sede da Laemmert em Belo Horizonte era organizada por antigos militantes da Polop.95 As tradutoras Vera Wrobel e Édila Pires tinham partido do movimento estudantil universitário, sendo perseguidas e presas. Wladimir Gomilde fora militante da Polop. Foi trazido para a editora por Moniz porque tinha passado alguns anos na Alemanha Oriental estudando Germanística, Língua e Literatura Alemã na Universidade de Leipzig.96

Parecia ser um tanto inevitável que a editora Laemmert despertasse atenção da polícia. Contudo, não foi o negócio que sofreu intervenção ou seus livros que foram recolhidos. Após visitas da polícia ao escritório da editora no Rio de Janeiro, Moniz Bandeira foi condenado a cinco anos de prisão, no final de novembro de 1969, pelo Conselho Permanente da 1° Auditoria da Marinha. Usou-se a legislação da Lei de Segurança Nacional para se emitir a sentença. Moniz Bandeira era condenado por subversão devido à sua atuação na Polop no pós-golpe, embora tenha se desvinculado da organização em 1965. O editor decidiu não se entregar, entrando na clandestinidade. Contudo, foi preso no mês seguinte por um destacamento do Centro de Informações da Marinha (Cenimar). Passaria dez meses encarcerado, sendo libertado no segundo semestre de 1970, após a anulação da sentença.

Os prejuízos para Moniz Bandeira seriam vários. Perdeu o cargo na Laemmert e parte da sua biblioteca particular, além dos manuscritos do seu livro sobre a ANL que preparava para Civilização Brasileira. Alguns trabalhos se salvaram, porque estavam em um apartamento no Rio de Janeiro que não foi invadido pela polícia. Nessa residência, havia uma pequena biografia do revolucionário russo Lênin que sairia pela Coleção Vida e Obra, da editora José Alvaro, porém o texto jamais foi entregue para João Rui Medeiros, responsável pelo projeto. A prisão acabou por impedir a sua realização. Somente dez anos depois, quando a José Alvaro tinha sido comprada e integrada à Paz e Terra por Fernando Gasparian, o livro foi publicado já pelo novo selo.97

Moniz Bandeira tinha preparadas três traduções para saírem pela Laemmert no ano seguinte. Após sua prisão, os textos ficaram guardados durante anos. Um dos manuscritos era o de A origem do cristianismo de Karl Kautsky, obra lançada originalmente em 1908.98 A tradução permaneceu no arquivo do autor até 2010, quando foi editada pela Civilização Brasileira.99 A especificidade da obra e o pouco prestígio de Kautsky entre os intelectuais brasileiros dificultaram encontrar uma editora interessada. Além disso, Moniz Bandeira quis lançar o trabalho apenas após uma ampla revisão feita conjuntamente com o seu filho, Egas.

As duas outras traduções surgiram antes. Após publicar Marxismo e existencialismo, de August Talheimer, optou por produzir um outro texto do autor, Introdução ao materialismo dialético, lançado originalmente em 1927.100 O título não era original no país, havendo uma edição da década de 1930 da Cultura Brasileira.101 O material foi lançado em 1979 pela editora paulista Ciências Humanas, do militante do PCB Raul Castells Mattos.102

A última tradução é um momento importante na história da recepção de Rosa Luxemburgo no Brasil. Moniz Bandeira tinha preparado para lançar pela Laemmert a obra máxima da pensadora, A acumulação do capital. Ao longo do ano de 1969, preparou o texto a partir da edição espanhola da Cenit, traduzida por José Pérez Bances em 1933, e da edição francesa da François Maspéro, traduzida por Irène Petit e lançada naquele mesmo ano.103

Moniz Bandeira planejava lançar o título em 1971, quando se completassem cem anos do nascimento da autora e após a edição de O imperialismo e a economia mundial, de Nikolai Bukharin, dando assim uma certa continuidade a uma linha editorial que trabalhasse com a temática do imperialismo. Todavia, teve que abandonar o projeto quando foi condenado pela justiça militar. Na verdade, pegou esses manuscritos após se desligar da Laemmert e os entregou à Zahar, tendo o editor concordado em pagar pelo trabalho de imediato nos últimos meses de 1969. Moniz Bandeira precisava de dinheiro, já que iria para a clandestinidade. Foi a primeira e única vez que a Zahar se propôs a editar Rosa Luxemburgo.

A partir de março do ano seguinte, os jornais começaram a divulgar o lançamento de A acumulação do capital. O texto circulou com o seu tradutor preso. Embora a relevância intelectual do livro, que indica pela primeira vez a presença da principal obra de Luxemburgo no Brasil, a repercussão foi mínima. Poucas notícias de jornal anunciaram o título e nenhuma resenha ou comentário mais extensivo foi feito na mídia ou nas revistas especializadas. Em grande medida, o silêncio refletia o país que passava por um dos momentos mais duros da ditadura militar. Há de se considerar também que a Zahar se encontrava pressionada pela polícia política naquele momento e provavelmente não quis fazer grande esforço de divulgação da obra da esquerdista Rosa Luxemburgo.104

IV

Pedro Martins

Se a tradução de A acumulação do capital de Moniz Bandeira foi concebida apressadamente e de maneira quase artesanal, a versão de Paul Singer se caracterizou por grande profissionalismo, uma vez que por de trás do próprio livro havia toda a estrutura da Abril Cultural, do empresário Victor Civita. Mais precisamente, essa edição de A acumulação do capital integra a Coleção Os Economistas, que visava a lançar vários títulos clássicos do pensamento econômico universal. Ao longo de sua existência, originou 48 volumes de autores como Adam Smith, David Ricardo, John Maynard Keynes, Karl Marx etc., muito entre eles inéditos em língua portuguesa.105

A Coleção Os Economistas foi lançada formalmente em setembro de 1982, em um seminário no auditório da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP. Na ocasião, uma gravação de um debate entre o ex-ministro do Planejamento e da Fazenda Mário Henrique Simonsen e o professor da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo, com mediação do professor Manuel Cardoso de Mello, foi realizada.106 O evento marcava o aparecimento dos três primeiros volumes dedicados a Alfred Marshall, David Ricardo, Joseph Schumpeter e Karl Marx.107

Os Economistas não era exatamente um projeto original. A Abril Cultural começara a lançar desde 1972 uma coleção sobre filosofia intitulada Os Pensadores. A empreitada, coordenada pelo filósofo José Américo Motta Pessanha, teve grandes proporções. Principiou com um primeiro volume sobre Platão e até 1976 foram lançados mais 56, dedicados a autores como Jean-Jacques Rousseau, Max Weber, Santo Tomás de Aquino etc.108 A Abril Cultural aproveitava seus contratos com as bancas de jornal em todo o país para vender a coleção, alcançando o surpreendente número de 23 mil pontos de distribuição.109 Além disso, utilizava-se de extensa propaganda, inclusive em canais de televisão. Por isso, obtinha vendas elevadíssimas em pouco tempo. Por exemplo, o volume dedicado a Platão foi comprado por mais de 90 mil pessoas, e o volume dedicado a Voltaire, por mais de 70 mil.110

A opção por fazer um selo voltado à economia derivou-se das boas vendagens que tiveram os volumes da Coleção Os Pensadores dedicados a John Maynard Keynes, Karl Marx, Michal Kalecki e Piero Sraffa. O organizador da Coleção Os Economistas era Paschoal Miguel Forte.111 Seu trabalho era fundamentalmente administrativo, focado na viabilidade do negócio. A concepção intelectual do projeto ficava a cargo do escritor Jacob Gorender — o “editor de planejamento” —,112 antigo militante do PCB e então militante do PT.113

Gorender conversava com diversos professores universitários especializados em Economia para desenvolver o projeto. Buscava-se seu aconselhamento para sugestões de livros e elaboração de traduções e textos introdutórios. Na prática, a gama de docentes consultados foi mais ampla. Contudo, na época do lançamento da coleção, três economistas foram anunciados como os principais organizadores: Américo Cury da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Adroaldo Moura e Silva (USP) e Paul Singer (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo — PUC-SP — e USP).114

Moura e Silva foi convidado por Gorender para participar do processo porque naqueles anos se dedicava a ministrar cursos sobre keynesianismo e seus debatedores na pós-graduação da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP. Escreveu o prefácio do volume dedicado a Keynes e deu indicação de alguns autores, como Michal Kalecki e Irving Fisher.115

Singer foi integrado devido a seu conhecimento da língua alemã e seu domínio da bibliografia marxista. Esteve envolvido com o processo de produção e escolha de diversos textos marxistas e alguns vinculados à Economia Política — por exemplo, o volume de David Ricardo é apresentado por ele.116 O principal produto da coleção era a nova edição dos três volumes de O capital, de Karl Marx. Constantemente as propagandas destacavam esse empreendimento. Inicialmente não se pretendia fazer uma tradução nova, mas uma versão corrigida do trabalho produzido por Reginaldo Sant’Anna para a Civilização Brasileira nos anos 1960. Uma nova conversão teve que ser feita porque Sant’Anna não concordou que fizessem alterações em seu trabalho.117

Singer esteve profundamente concentrado nesse projeto, que deveria ser lançado em 1983 para aproveitar a efeméride dos cem anos do falecimento de Marx. Ele não foi o tradutor responsável. Na realidade, os volumes foram convertidos pelo economista Régis Barbosa e pelo crítico literário Flávio Kothe.118 Singer realizava uma revisão técnica na conversão feita por essas personagens, dando precisão conceitual ao escrito. O trabalho foi tão metódico que se chegou a criar um dicionário com a conversão mais adequada para determinados termos. O procedimento foi impecável nos dois primeiros volumes, porém o terceiro não teve revisão de Singer devido a atraso dos tradutores e a pressa da empresa em colocar o texto em circulação ainda em 1983.119

Profundamente concentrado em fazer uma edição cuidadosa da obra máxima de Marx, Singer não assumiu o papel de tradutor em outros títulos da coleção. Sua atuação limitava-se ao processo de escolha de textos, elaboração de prefácios e designação de tradutores. Por isso, embora tenha indicado a presença de Rosa Luxemburgo no projeto, não foi ele o responsável por verter ao português A acumulação do capital. Na realidade, Singer convidou para fazer esse trabalho uma aluna que tivera enquanto era professor visitante no Lateinamerika Institut da Universidade Livre de Berlim no primeiro semestre de 1975.120

Trata-se de Marijane Vieira Lisboa, atualmente docente do curso de Ciências Socioambientais da PUC-SP e importante ativista dos direitos ambientais.121 Lisboa possui uma trajetória que em certa medida rememora alguns dos tradutores que foram trazidos por Moniz Bandeira para trabalhar na Laemmert. Enquanto estudante de Ciências Sociais da UFRJ, esteve profundamente envolvida com o movimento estudantil, sendo uma militante da AP. Tal vinculação a levaria a ser presa no segundo semestre de 1969.122 Partiria para o exílio em 1971, indo inicialmente para o Chile.

No país latino, atuaria como secretária de arquivo na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) e retomaria o curso de Ciências Sociais na Universidade do Chile, contudo esses projetos foram interrompidos com o golpe de 1973. Teria que uma vez mais procurar asilo, indo para a Alemanha após uma breve passagem pelo México.

Na Europa, realizaria a partir de 1974 o curso de Ciências Sociais na Universidade Livre de Berlim. Foi aluna de Paul Singer nesse momento, enquanto o economista ministrava um curso sobre teoria do emprego e marginalização a partir de Keynes e Marx.123 Na oportunidade, começou a se naturalizar com o trato conceitual dado por Singer ao marxismo. O curso era composto fundamentalmente por latino-americanos, e Singer constantemente debatia a palavra mais adequada em português e espanhol para verter termos do alemão original de O capital e de outras obras da tradição marxista. Tal experiência seria importante para Lisboa mais tarde, quando foi convidada a se integrar ao projeto Os Economistas.124

Formou-se 1978 e no ano seguinte voltou ao Brasil com o início da anistia, tornando-se professora do curso de Ciências Sociais da PUC. Singer, que lecionou no departamento de Economia da PUC entre 1977 e 1983,125 convidou sua colega para realizar a tradução de A acumulação do capital. A experiência de ter realizado uma graduação toda em alemão e a naturalidade com as categorias econômicas, uma vez que frequentou em diversas oportunidades disciplinas de economia ao longo dos seus anos de estudo, contaram para o convite. Seu marido, Luís Travassos, também era membro da equipe de tradução de O capital, juntamente de Singer, Kothe e Barbosa. Sua formação em Economia na Universidade Livre de Berlim e a atuação profissional de tradutor de alemão teria sido uma aquisição valiosa para o projeto, no entanto, Travassos faleceu antes de poder colaborar.126

A questão é que Lisboa mantinha proximidade com vários membros que construíram a Coleção Os Economistas. As suas habilidades específicas e seus vínculos sociais fizeram que fosse convidada para participar do projeto quando um título escrito originalmente em alemão aparecesse. A situação desdobrou-se quando A acumulação do capital de Rosa Luxemburgo apareceu no horizonte da empresa.

Pedro Martins

A obra foi traduzida ao longo de 1983 e surgiu no mercado no ano seguinte. Usou-se a edição da Verlag Neue Kritik de 1970 como ponto de partida para a conversão.127 Diferentemente da versão de Moniz Bandeira, o texto foi feito a partir do original alemão, embora Lisboa também tenha cotejado seu trabalho com uma edição em espanhol. A versão da Abril Cultural teve outras colaborações. Os dois anexos, um texto de Gustav Eckstein que crítica a obra de Luxemburgo e a resposta da autora a esse escrito, foram vertidos por Otto Erich Walter Maas. Após terminar o trabalho, Lisboa não quis fazer um novo contrato para traduzir os anexos. A falta de tempo e a manutenção do mesmo valor pago por lauda, desconsiderando o acúmulo inflacionário nos últimos meses, fez a socióloga renunciar à oportunidade.128

Paul Singer não teve grande interferência no processo de tradução. Sua presença se fez presente na formação de Lisboa e nos diálogos que esporadicamente mantinham na PUC. O manual que guiava as traduções do alemão, elaborado para a tradução de O capital, não foi entregue para a socióloga. Não se concatenando, portanto, com aquele amplo projeto de tradução de O capital feito no interior da coleção. Além disso, Singer não realizou revisão técnica.129

Isso não quer dizer que Singer não tenha intervindo no texto. Na realidade, o economista pagou sua dívida formativa para com Luxemburgo com a redação de uma extensa apresentação ao livro. Nesse texto, o autor demonstra um domínio substantivo da vida e das obras da autora, esboçando inclusive o debate mais amplo sobre o caráter do imperialismo que A acumulação do capital está alocado. Em grande medida, é uma feliz tentativa de se apresentar o texto, articulando-se fatores contextuais e conteúdo, embora os primeiros sejam predominantes.

Não obstante as diversas qualidades do trabalho e o período de abertura política de sua publicação a versão de Lisboa e Singer não teve grande impacto. Houve um silêncio nos jornais e nas revistas acadêmicas sobre a publicação, da mesma forma como ocorreu com a edição traduzida por Moniz Bandeira para a Zahar. Não se localizaram eventos ou resenhas a respeito, apenas poucas propagandas. A diferença de quase quinze anos entre as edições não encontrou terreno fértil para um debate mais amplo sobre seu conteúdo. A transição do momento mais duro da ditadura à anistia parece não ter sido significativo para gerar uma mudança em relação a recepção da obra.

A dimensão técnica da obra, a falta de um movimento político ou tradição universitária que reivindicasse a autora, como aconteceu com Gramsci, Lukacs e, em certa medida, Althusser, fez Rosa Luxemburgo ser uma constelação menor dentro do espectro de referências do marxismo brasileiro. Mesmo autores que buscavam recuperá-la, como Paul Singer e Moniz Bandeira, ou ainda Michael Löwy e Maurício Tragtenberg, sempre a situam como um ponto importante dentro de um conjunto de outros autores. Por isso, A acumulação do capital, ainda que tenha sido objeto de grande esforço por parte de algumas pessoas, sempre habitou as páginas de referências de textos especializados.

Contudo, os desafios do século XXI parecem oferecer nova atualidade para Rosa Luxemburgo. Em 2003, David Harvey apropriou-se de algumas de suas ideias na elaboração do seu O novo imperialismo.130 A obra teve ampla repercussão mundial e demonstrou a atualidade de diversas ideias de Luxemburgo. Trata-se de um exemplo de possíveis usos. A questão é que as últimas crises econômicas, o recrudescimento do imperialismo, a catástrofe ambiental etc. trazem novo fôlego à obra de Luxemburgo, tornando sua leitura mais rica. Quem sabe, a inteligência brasileira encontre renovada riqueza na autora nessa segunda década do século XXI.