Revista Rosa

Volume 9

9

O lume e a lâmina: sobre Rubens Rodrigues Torres Filho

Miguel Nassif

Um enigma permeado de linguagem. Talvez isso caracterize o “sentimento de mundo” que emana da obra de Rubens Rodrigues Torres Filho, que nos deixou em dezembro de 2023. Ele foi poeta, tradutor, professor e filósofo ou, como preferia dizer, historiador da filosofia. Embora fosse avesso ao alarde, deixou digitais por toda parte. Ao examiná-las, é difícil não ceder à tentação de buscar certa unidade a partir de certos motivos recorrentes. Entre poesia e filosofia, passando por tradução e a ensaística, pontes ligam uma produção incomum e variegada, construída no equilíbrio entre rigor e imaginação.

Poesia e reflexão

Um texto mínimo dá o mote para entrarmos no assunto. Está no primeiro livro de Torres Filho, publicado em 1963, mesmo ano em que ingressava no curso de filosofia da USP. É um livro de poemas, mas com título de filosofia: Investigação do olhar. A epígrafe é um minimanifesto poético. Diz assim: “A poesia, esforço da linguagem, será primeiramente ‘lógica’”. A isso, segue-se a reivindicação lírica: “A poesia deve ser escavação e tortura”. Duas exigências à primeira vista antagônicas, configurando uma antinomia que, examinada mais de perto, não é nova. Mário de Andrade a havia enfeixado sob a tensão entre técnica (“Ordem Intelectual”) e espontaneidade (“Ordem Subconsciente”) e, sobretudo em seus primeiros escritos, advertiu que aproximar a poesia da “lógica” poderia ferir de morte o elemento subjetivo, indispensável à mistura. Em contrapartida, e como preveniria logo adiante Drummond, fora daquele “esforço da linguagem”, de que dá notícia Torres Filho, a matéria sentimental permanece anódina: “o que pensas e sentes, isso ainda não é poesia” (Drummond, “Procura da poesia”). A epígrafe escrita por Torres Filho em 1963 traça um caminho: a matéria poética, feita de contradições, arroubos, sentimentos e perplexidade, deverá ser organizada a ponto de exprimir, no nível da linguagem, como se comunicam opostos nem sempre amigos.

Uma vez aberta, a temporada dos contrários não demoraria a revelar seus resultados. Da fase inicial, veja-se o par “interno” × “externo”, no poema avulso, “migração” (1962):

Me revejo, transfigurado,
redescoberto pelos que me inventam
para o seu convívio.
Com que clareza suas intenções me tocam,
nasce meu nome de suas bocas
como uma flor.
Vou viver neles com transparência,
renasço inteiro de sua fala
para habitar a memória.
Neles eu falo, movo a cabeça,
telefono. Tudo sem mim,
tudo fora, com grande paz e condescendência.

Embora o poeta registre a alienação impregnando as relações até a medula, isso suscita menos indignação ou militância que autoironia. O que poderia surpreender: eram os anos 60. O contraponto ajuda. Ingressando na cena paulistana pela mesma época, Roberto Piva designava seu livro de estreia, Paranoia (também de 1963) de “beat-surreal”, junção peculiar de Bréton, Rimbaud e Ginsberg. Dessa mistura, emergia uma voz poética recendendo erotismo de ampla circulação, inclusive gráfica: versos longos seguem-se uns aos outros alternando tempos verbais e imagens (de repente, Mário de Andrade cola no ouvido do poeta, perambulando com ele pelo centro da cidade), o texto tornando-se urbes portadora de energia indivisível, nuclear, sexual. Eliane Robert de Moraes, em ensaio luminar sobre a poesia de Piva, comenta que, nela, o escape do ordinário é mergulho homoerótico na aventura noturna, que representa o contradiscurso “a todo tipo de aparato repressivo, seja do capital, da Igreja católica, dos guardiões dos bons costumes ou de qualquer outra instância de sujeição da libido”. É também o que diz o poeta, no Posfácio de Piazzas (1964): “Contra a inibição de consciência da Poesia Oficial Brasileira a serviço do instinto de morte (repressão), minha poesia sempre consistiu num verdadeiro ATO SEXUAL, isto é, numa agressão cujo propósito é a mais íntima das uniões”.

A conduta de Torres Filho é diversa. O título do poema, migrar, consiste em passar de um a outro (o)posto, num vaivém ao longo do qual a variação entre experiências contrapostas faz com que o poeta assista a sua repartição em dois. Ao invés de rejeitá-la, torna-se consciente de sua alienação: “tudo fora, com grande paz / e condescendência”. A síncope entre “interior” e “exterior” não transforma as coisas; mas o “eu”, disponível aos outros nesta exterioridade que faz “tudo sem mim”, gira sobre si mesmo e empreende sua autodemarcação. Graças ao curso do pensamento em palavra (discurso), o significado da oposição inicial é atualizado. Reconhecendo-se objetivado por expectativas alheias, o “eu”, apesar de afigurar-se como impróprio, permanece (numa medida sempre variável, que Torres Filho não cansará de recalcular em sua trajetória) intacto. Assim como um olho que se vê, o poeta se põe a refletir, descobrindo muito cedo a vocação que será reiterada noutra epígrafe, de O voo circunflexo (1981):

O que é vestígio, investe e instiga
ou, se é do olhar, investiga.
Um ao outro: o olho se olha,
Se se recolhe em si, se se desfolha.

O assunto é próximo, a abordagem muda. Se, no caso de “migração”, a consciência nascia da duplicação de si no “dentro” e no “fora”, na epígrafe de 1981, em contrapartida, o olho que se olha, correspondendo ao “eu” já constituído, hesita entre recolher-se e desfolhar-se. Num caso, a reflexão é autoconsciência; noutro, hesitação diante da escolha. Pergunta parecida reaparece em “poema sem nome”, de 1989: “Prezado rio das coisas, / qual dos dois: fluir, florir?”. A interrogação, interior ao poema, o questiona: por que, afinal, não desescrever-se e cair na vida? Mas como seria este salto para fora da linguagem, visto nela fundir-se o próprio sujeito? “Se caio / é sem sair do lugar”. Resta laborar por dentro, formalizar o rio heraclitiano para instituir, no verso de suas antinomias e sem rejeitá-las, um leito original, feito de golpes de vista, lembranças, projeções. É o que assistimos, por exemplo, em “outra miragem”, de 1993:

Era verão, e a lua lá
(pois era noite) enluarava
As lâminas-cocares dos coqueiros
(pois era praia) e abria uma clareira
para os olhos (dos dois) na noite clara.
O que dizíamos (você
se lembra?) estava
por um fio. Era nada. Ia formando
uma rede levíssima de nexos
e de elisões. No espelho desse instante
duplicou-se
mais uma vez (pois era,
como já disse, verão
e praia e havia lua)
outra miragem de felicidade.

Como em “poema sem nome”, o mundo se expõe ao flagrante dos momentos decisivos, mesmo quando prosaicos (a ponto de quase sumirem: “você se lembra?”). O álbum dessas fotografias é obra da poesia, cujas escolhas são reduplicadas pela ausência de um discurso capaz de rememorar ou compreender tudo. A atmosfera suspensiva da oficina poética de Torres Filho o preveniu contra a ideia de uma verdade integral, fosse desejo, razão ou história. O verdadeiro em si dissolve-se diante das prerrogativas da metáfora, que pede passagem. Compreende-se melhor essa poesia, que se equilibra sobre o comércio dos opostos e rejeita a ideia de resolvê-los numa progressão bem realizada. Hesita, problematiza; a impossibilidade de uma “síntese dialética futura”1 a faz contentar-se em abrir janelas e acenar com perspectivas que são como partículas entrevistas numa névoa quase permanente, com dias mais ou menos amenos. Escrita epidérmica que comporta variações, como atestam estes dois poemas de 1987:

Happy beginning
Nesse mesmo instante
Nossos lábios se uniram
Por si mesmos
e ela já me murmurava entrebeijos: — Sinto
que vamos nos amar (no sentido figurado) agora mesmo.

Já o desfecho de “Capítulo” evoca outro clima, itabirano:

Capítulo

Urgência de desenredar essa multidão de sentidos e nexos que se apresentam e negam de formas múltiplas, enredados. As perplexidades continuam valendo, obtusas. Espelho de convexidades endoidecidas, a face dos dias se dispõe para a malícia. Fútil, fugaz, o olhar escorrega pelas superfícies. Andando, mãos nos bolsos, ensaia um assobio desafinado, depois silencia, magro.

A invasão iminente dos sentidos (perceptivos e mentais) dá o gatilho nos dois poemas. Mas, contrariamente à certeza dos amantes, em “Capítulo” as perplexidades permanecem, soberanas. Como se vê, a premência de desenredar a multivocidade pode dar em beijo ou vazio. Abrir-se para essas variações exige incorporar, no plano formal, jeitos diversos de poetizar: do trocadilho vizinho a Leminski (“poema semipronto”, 1985) a versos que mimetizam Camões (“Quatro sonetos”, 1981), coexistem dicções interpostas, incorporadas por quem mergulha no que lê ou sente, a fim de traduzir-se e assim reinventar-se. É o que se lê em “uma prosa é uma prosa e uma” (1985): “a escrita inventa a escritura e nos pousa nas linhas que vão seguindo a pista para dentro — de fora para denso — de dentro para fera”. O ponto foi notado por Arthur Nestrovski, que, avaliando o conjunto, diz que os poemas “vão vestindo as roupas mais variadas, do soneto ao aforismo, da anedota à meditação, do verso regular à linha livre e à ‘prosa porosa’, ou ‘respirada’, onde o efeito poético fica reservado às ‘imagens-surpresa’ e ao ‘barroquismo fônico’”2. Uma versatilidade que tem que ver com o recuo reflexivo, a permitir que, afiando-se, o poeta se torne escrevente de sua própria variação. O centro dessa poesia, então, tende a ser oco — o vazio que reverbera acordes diversos, do murmúrio do “entrebeijos” ao olhar que se esgueira e nada encontra, põe as “mãos no bolso” e ensaia um assobio desafinado, seguido de magro silêncio. Se a máquina do mundo se reabrisse ao poeta neste momento, só lhe restaria — como a seu precursor, o de “pupilas gastas na inspeção / contínua e dolorosa do deserto” — baixar os olhos e seguir caminho, “vagaroso, de mãos pensas.”

Filosofia e poesia

À época em que Torres Filho ingressou no curso de filosofia, a máquina do mundo acabara de realizar seu pouso na Maria Antônia, mas de ponta cabeça: era o “marxismo uspiano”. Em suas memórias, Fernando H. Cardoso recorda o que ia pensando um de seus protagonistas (e que seria o primeiro orientador de Torres Filho no doutorado, até sua cassação, em 1969): “Giannotti defendia que no Capital estaria presente algo como um desdobramento lógico, dialético, fundamentado nas coisas, nas estruturas objetivas do trabalho, nas relações objetivas entre as pessoas”. Diante de revelação assim imensa, que valor dar à poesia: alienação, enfeite?

Nesta acepção antipoética, a “lógica” anda de mãos dadas com a ontologia. O contrário do que insinuava Torres Filho desde a epígrafe de Investigação do olhar, quando, privilegiando o viés expressivo da linguagem, a tomava como exigência de formalização das vivências subjetivas a fim de refleti-las em sua variação para comunicá-las ao leitor. Na orelha de Poros (1989), Benedito Nunes chama a atenção para o fato de que, para Torres Filho (assim como, antes dele, Novalis), “a vida originária da linguagem” é a metáfora. Entenda-se: passagem ou mudança de perspectiva3, não “superação” (Aufhebung) de um registro discursivo por outro, em tese superior e mais próximo da verdade. Nenhuma vocação pelo alpinismo do Conceito, portanto, até porque não carece galgar o Evereste especulativo para elevar-se às alturas. É o que atesta com máximo rigor e surpreendente leveza — bossa-novisticamente? — o trapezista (com essa imagem Fernando Paixão crava a poética de nosso autor): salta entre bastões ligados apenas pela ponte que faz e refaz sobre os abismos da linguagem. Quase um “transcendental circense”, que converte o entreter-se do sujeito com suas representações (a “lona azul do céu” de que nos fala outro poeta) numa livre-reflexão — o minério que, no garimpo de seus anos de formação filosófica, Torres Filho descobriu em J. G. Fichte. Acerca deste último, dirá o seguinte: “a radicalidade da reflexão do Wissenschaftslehre [isto é, de quem exerce a filosofia em acepção fichteana] está justamente na agilidade que lhe permite deslocar-se entre os pontos de vista” (O espírito e a letra, 1975, p. 64).

Para compreender melhor do que se trata (pois nisto reside, creio, a atitude intelectual de Torres Filho), o contraste com Hegel é útil. Examinemos uma nota de rodapé na página 193 de Hegel: a ordem do tempo, de Paulo Arantes. O livro, que apresentava a versão brasileira da tese defendida por Arantes em 1973, em Paris X, foi traduzido para o português por Torres Filho. Em 1981, data da publicação, ambos eram professores no departamento da USP e especialistas no pensamento alemão — mas por times diferentes. Sabe-se o quanto Fichte foi criticado por Hegel. Fichte, diz este último, não teria logrado contornar o dualismo entre “sujeito” e “objeto”. Preso às antinomias da consciência, teria negligenciado a História e permanecido numa reflexão incompleta — de modo que, na falta de mediação para resolver a antinomia entre os opostos, teria se contentado em “fazê-los alternarem em lugar de identificá-los no mesmo processo” (Hegel: a ordem do tempo, 1981, p. 284). Ao que retruca Torres Filho (inventando novo gênero de comentário, o “rodapé intrometido”):

Em suas análises, Hegel não leva em conta que esse meio-termo (das Dritte) percorre de ponta a ponta, como um fio vermelho (a expressão é de Fichte), a Doutrina-da-Ciência de 1794, servindo de fio condutor (Leiter) para a reflexão, até que ela explicite seu eixo radical: a imaginação produtiva.

Confrontam-se, então, dois modelos de dialética. O de Hegel (seguido por Marx) faz do “meio-termo” (= trabalho) o fio-terra que inscreve o “universal” ou a “razão” na realidade. O de Fichte, que se desloca entre os pontos de vista sem reificá-los nem, tampouco, objetivar-se. Eis-nos diante daquela relutância subjetiva que expôs Fichte à objeção de “abstrato”: afinal, de que serviria tal liberdade de movimento, posto exercer-se no intelecto puro, apartado do mundo?

Entretanto, como mostra Torres Filho, o intuito de Fichte em circunscrever um pensar autônomo, desembaraçado de todos os pontos de vista, não é o de enclausurar-se em si mesmo. Verdade que a doutrina-da-ciência se recusa a ser “um saber material (saber de algo)” (O espírito e a letra, 1975, p. 68); ela é, antes, “ciência a-temática por excelência”, “uma filosofia estritamente não-figurativa” (op.cit., p. 250). Mas isso não proíbe quem a assume de falar sobre o mundo. Ao contrário. Falar dele com propriedade passa por relativizar os dogmas e desprender-se da positividade irrefletida que impregna o uso natural dos signos. Tornar as palavras vãs (“deixar as palavras serem palavras”, como diz o título de um dos capítulos do livro sobre Fichte) revela-se pressuposto para reaver o alcance expressivo do discurso — e, assim, apresentar (cenicamente) o “suprassensível” no “sensível”. Com esse acréscimo contra mal-entendidos: “é na letra, e não além dela, que o espírito tem corpo e realidade” (Ensaios de filosofia ilustrada, 1987, p. 112). O “suprassensível”, portanto, não existe da solo, mas requer a exibição sensível possibilitada pela reflexão pura (quando, por um átimo, o olho se vê olhando). Contrariamente ao que se dá com Hegel, o termo médio dessa operação, para Fichte, é a imaginação produtiva. Faculdade a um só tempo espiritual e sensível, ela não religa o pensamento à coisa, como fazia a ontologia dogmática, mas o traduz livremente em imagem. Seu parâmetro é a intersubjetividade, sua prova dos nove é tornar a invenção comunicável.

Algo desse método comparece desde cedo na poesia de Torres Filho, quando a neutralização do sentido habitual dos signos dá ocasião para reinventá-los, como ocorre em “O dia é mais”, de 1961:

Hoje não vou pensar
O dia é mais forte que a noite.
Sonho as mais mansas abóboras.
Aqui é sempre este agora.
Não. Não vou pensar.
Mal-me-quer, bem-me-quer,
mal-me-quer etc.
Vou só deixar.
Dimensão. Dimensão.
Vou só queimar.
A noite é mais forte que o dia.
Não é?
Comer as mais úteis luas.
O dia… como se diz?

Transformado em condição do poema, o não pensar amplia o leque da experiência (as “mais mansas abóboras”, as “mais úteis luas”). Mas nem sempre esse viés suspensivo é alegria. Ao contrário. Retomando o contencioso que habita o subsolo de tudo, vários poemas de Torres Filho mal suportam o impasse. Diferentemente de “Áporo”, de Drummond (“o labirinto / (oh razão, mistério) / presto se desata”), aqui o nó insiste (como neste poema sem título de 1962): “Flor / ou labirinto / de mistério sem saída / por onde girar sem fim?” E por aí vai: das “flores pedindo para nascer” (“largo-allegro-largo”, de 1965), e da pura dor “onde se pede / uma outra lentidão de florescer” (“amor”, de 1965–1967), até o canto que, “refratário a todo ritmo / menos ao nosso, ao interno / que se fizera perito / em persistir sem remédio” (“redondilha”, de 1981), o travo que mal se desfaz fica remediado pela ironia dos poemas mais maduros: “obra: nosso comunicado / ao exterior” (“3 expoemas”, de 1981). Nesses momentos, a poesia redefine-se como irresolução produtiva: ela “tem firmeza de arremesso / e desespero de gala. / Sua marca é o fio avançando / nem sim, nem não, só viagem” (“arte poética (sic)”, de 1981).

Filosofia = história da filosofia?

Parece lícito discernir, nesta permanência aporética — que, ganhando viés de alta com o domínio progressivo da ironia, dista da atitude melancólica que Hegel objetava aos românticos —, o germe da mesma reflexão que anima a doutrina-da-ciência fichteana. Como escreveu Torres Filho, o transcendental é como uma espécie de “aurora, limbo matinal onde há significações antes de haver mundo”4. Eis as palavras momentaneamente subtraídas da falação mundana, ruidosa a ponto de esquecer do mundo.

Torres Filho, então, já tateava Fichte antes de travar contato com seus textos? Crer nisto é desconhecer como procede o historiador da filosofia. Longe de resumir-se à passividade dos escribas, seu ofício comprova que a evidência do texto emerge apenas na vidência de quem o lê, o intérprete. Logo, este Fichte que apurou o rigor suspensivo de Torres Filho, amadurecendo sua contrapartida expressiva, não é o Fichte “em si mesmo”. Até porque este é incognoscível para nós. O espírito não existe fora da letra que o traduz. Mais exato, então, seria declarar o oposto: foi Fichte quem se tornou “rodrigueano”, quando Torres Filho se apropriou dele para iluminar questões que eram suas e de seu tempo.

Apropriação reveladora da tabela entre poeta, filósofo, tradutor, ensaísta e historiador da filosofia, unidos sob a certeza de que o lume só ganha visibilidade através da reativação da linguagem (“novolume”). Nisto, vale lembrar, consistiu a novidade do Iluminismo. Fora de sua caricatura como crença abstrata no progresso ou emancipação, o Aufklärer reaparece como quem vive no contratempo do presente — como se deu com Torres Filho, que abriu a golpes de lâmina reluzente o vão através do qual nossa maneira de ler, imaginar e agir se redescobre. “Entre dentais e fricativas vai a língua / bulinando nomes para o que é querido” (“ao pé da letra descalça”, 1985). Com o fim da ontologia, só mesmo pedindo as palavras em namoro — mesmo quando somente nos entendemos “por um fio”. Bastará então o saber mínimo, a “rede levíssima de nexos / e de elisões”. Entre iluminismo e iluminações, o céu que toca com a boca a imaginação nos fará redescobrir que “no colo das estrelas / um paradoxo sorridente hesita” (“retícula”, 1993).

Vinicius de Figueiredo é professor de filosofia da UFPR e ensaísta, autor de A paixão da igualdade (2021).