Revista Rosa

Volume 9

9

Até onde vai Milei?

Matéria escura, Manoel Veiga

Tudo foi muito vertiginoso e rápido. No mais impetuoso sentido maquiaveliano das coisas, o tempo como vetor indispensável para compreender o choque político na Argentina. Não houve tempo nem mesmo para um impasse ou um escalonamento sensato: escolhas políticas sem nenhum exercício prévio de gestão, com formas organizadas de comunicação pós-intelectual, a proposta de uma ordem social mais pretoriana como nunca se viu desde o retorno da democracia. Desde o início de seu governo, em dezembro do ano pasado, Javier Milei insiste num exercício claro: uma superprodução normativa — seja mediante decretos presidenciais ou propostas legislativas — que permita instalar um (novo) pacto institucional que, por sua vez, seja o início de um processo constituinte: o da constituição de uma “verdadeira” sociedade de mercado. Contudo, até o momento, é uma tarefa tênue; durante esses meses, esbarrou com o freio de um Congresso Nacional que vem travando a pretensão do Poder Executivo, ao deixar sem aprovar, por exemplo, seu propalado “pacote de leis fundamentais”; todavia, para além do imediato, é difícil fazer com que essa ansiedade institucional seja contida.

O panorama argentino mudou em muito pouco tempo; a própria vitória de Milei foi numa questão de meses. Nesse sentido, seu início foi tão incerto quanto o destino a que chegou: depois de uma queda nas pesquisas, o próprio Milei havia aceitado, no início de 2023, correr atrás do ex-presidente Maurício Macri, se este fosse o resultado de uma primária comum. Não ocorrendo o acordo, decidiu seguir sozinho, delineando e ampliando seu próprio espaço na competição. Assim, mesmo que suas primeiras incursões federais pelo país tenham sido bastante ruins, em vista inclusive da projeção portenho-cêntrica do personagem, conforme se aproximava da eleição as oportunidades (e os oportunistas) foram surgindo, graças a alguns locais que decidiram apoiá-lo de forma quase aleatória, até para que, chegado o momento, pudessem negociar melhor cotas próprias junto aos espaços políticos mais tradicionais.

Esse primeiro passo — sua vitória nas Primárias Obrigatórias de agosto do ano passado — foi chave para tudo o que veio depois; com efeito, um grande passo. Daí em diante apareceram possibilidades mais previsíveis: jornalistas que decidem apoiá-lo; empresários que doam recursos para a campanha; um dispositivo de redes que se aperfeiçoa e certifica seu predomínio nesse terreno. Tendo assegurado essa base, linhas adicionais da infantaria eleitoral começam a se prontificar; as redes globais de extrema-direita, os interesses geopolíticos hemisféricos, as corporações financeiras internacionais, assim como outras expressões dos colonialismos internos. Foi um alinhamento muito rápido de todos os elementos; a profunda crise econômica (inflacionária) do governo de Alberto Fernández, e a escolha do ministro da Economia como candidato presidencial, fizeram o resto.

O momento político dos libertários argentinos

Milei fundou seu partido — A Liberdade Avança (La Libertad Avanza: LLA) — apenas três anos atrás e se elegeu deputado federal pela Cidade de Buenos Aires. Seu passo seguinte foi ganhar inapelavelmente a corrida presidencial em 2023: venceu em 20 províncias (de 24); ficou mais de 11 pontos à frente de seu adversário no segundo turno; ganhou na província onde a participação eleitoral foi a mais alta, assim como na de menor participação; e teve uma votação contundente ao cruzar segmentos sociais (e etários) de forma emparelhada e homogênea. Uma “irrupção” político-eleitoral que começou nos estúdios de televisão há pouco mais de uma década, com movimentos grotescos, vulgares, misóginos, por trás de um disfarce (literalmente) e com muita obscenidade verbal. Instalado como colunista econômico, Milei adaptou e estilizou suas intervenções aos tempos pandêmicos e às formas particulares do entretenimento nesses tempos. Milei foi, antes de tudo, um produto por excelência do consumo comunicacional durante a pandemia: estridente e chamativo, caminhou entre as bordas dos sets televisivos. Chegou ao puro impropério, identificando-se com uma longínqua Escola Austríaca, como um “ultra” fã dos animais de estimação (a ponto de prolongar a existência de seu mastin inglês através de uma clonagem quádrupla); o goleiro de futebol frustrado e solteiro de uma família disfuncional (ainda que nenhuma dessas confissões fossem muito verídicas); e algo de homem comum. Este último ingrediente também lá está, e na certa explica algumas conexões com segmentos jovens e populares que deram, e em alguma medida continuam dando, seu apoio.

Durante o eterno ano de 2023 argentino, da dissolução da moeda argentina e da contínua perda de autoridade do governo de Alberto Fernández, Milei se movimentou por dentro do espectro ideológico em todo o processo eleitoral: e acabou plantado no mesmo ponto de onde começou (e assim continua; desde que assumiu a Presidência, não fez nenhuma concessão ideológica). Ficou à espreita diante da deterioração generalizada do cenário e, chegada a ocasião, também contribuiu para torná-la ainda pior. O candidato governista, Sergio Massa, tentou várias contorções durante a campanha, algumas quase desesperadas (o que também arrastou o peronismo em geral para uma desorientação de sua identidade enquanto força de governo). Uma vez excluídos do segundo turno, algumas parcelas do PRO (Propuesta Republicana) de Mauricio Macri e setores do Juntos pela Mudança (Juntos por el Cambio) moveram-se em direção a Milei. Sem dúvida, algumas propostas extremas, como “incendiar o Banco Central” ou “a venda de órgãos” se dispersaram um pouco entre os apotegmas libertários; e entraram com mais insistência os argumentos religiosos (“as forças do céu”) e as referências à história argentina: Alberdi, Roca, Carlos Pellegrini, todos os quais figuras do século XIX. Um jogo de inclusões e exclusões que, até o momento, não parece indicar caminho claro de como Milei irá resolver um de seus principais obstáculos (para além da vitória eleitoral): uma marcante debilidade na correlação de forças.

Um presidente sem Congresso, sem governadores

Matéria escura, Manoel Veiga

Ao longo das últimas quatro décadas democráticas, a disputa presidencial circunscreveu-se aos grandes polos da competição política — um peronista, outro antiperonista —, com algumas distorções. Por vezes, surgiram terceiros partidos que ganharam certa força gravitacional, inclusive superando um dos dois partidos (como foi o caso da Frepaso à UCR em 1995), ainda que terminassem incorporados à dinâmica das duas grandes coalizões. Nessa trajetória, o peronismo conservou sua condição de protagonista central do “apesar de” ou “graças a” pendular, com coalizões mais à centro-esquerda ou mais à centro-direita, segundo a ocasião. O espaço não peronista teve a União Cívica Radical (UCR) como referência principal, mesmo que, desde 2015, tenha sido deslocada desse lugar pelo partido PRO de Mauricio Macri (em aliança, naquele ano, justamente com o radicalismo). A imagem de 2023 revelou um novo quadro: chega à Presidência alguém que não pertence a nenhuma dessas duas tradições partidárias e que cresceu criticando publicamente ambos os espaços do imperfeito bipartidarismo argentino.

É certo que Milei logo acomodou em seu gabinete boa parte do PRO e setores antiperonistas. Mas sua “coalizão própria” não é nada robusta; sirva como exemplo o fato de que um dos principais atritos políticos desses meses de governo tem sido precisamente com um governador do PRO. A situação de A Liberdade Avança, o partido de Milei, é de debilidade estrutural: não tem nenhum governador próprio e muito poucas prefeituras com ela afinadas em todo o país; possui tão somente 7 senadores nacionais — de um total de 72 — e 38 deputados nacionais — de um total de 257. Uma fragilidade de origem que “obriga a negociar” a partir de uma posição de suprema desvantagem, e justamente da parte de um presidente que declara o tempo todo que “não vai negociar”. Pois esse é o perfil do personagem em questão, o signo de toda a mutação política que ocorre no país: para Milei, trata-se, definitivamente, de acelerar o processo de transformação da estrutura institucional, da maneira que for. Nada além parece lhe importar. E o faz agravando ainda mais um federalismo argentino já deteriorado — na medida em que a maior parte do corte do gasto público nesses meses concentrou-se nas transferências do Estado nacional às Províncias. E alimentando um “empate catastrófico”, que já começa a se projetar sobre o conjunto do sistema político argentino, com desenlaces institucionais imprevisíveis.

As tensões de um presidente em crise

Quanto ao conteúdo, há algo do “pacto democrático” que está em jogo. Não é a primeira vez que acontece na história recente: houve vários episódios durante esses anos que foram nessa direção. Mas nunca dessa forma, como projeto. Também suscitam preocupações o vínculo de Milei com os interesses de um tipo de capitalismo contemporâneo cujas relações econômicas internacionais ultrapassam os Estados: as grandes corporações, os megafundos de investimento; não é por acaso que o principal respaldo de Milei provenha dos grandes grupos econômicos do país e estrangeiros. Mas permanece uma incógnita como esse bloco histórico negociará com a cidadania argentina (ou de outras latitudes); embora não lhe pareça gerar contradição que se sucedam eventuais violações à democracia.

Por outro lado, há uma população anestesiada e fatigada por uma crise econômica muito corrosiva que já se arrasta por anos, a qual tem degradado vários aspectos microssociais da dialética coletiva, sobretudo nos grandes conglomerados urbanos entre os quais, principalmente, Milei teve sucesso. A deterioração social é profunda em termos de sujeitos, de organização, de infraestrutura da vida em geral, e de representação. E este último aspecto é fundamental. Pois as perspectivas são muito pouco auspiciosas para o país no curto prazo: segundo um estudo da Universidade Católica Argentina (UCA), durante os primeiros meses do governo Milei a taxa de pobreza estimada no país chegou a 57,4%, perante 49,5% em dezembro de 2023 e 44,7% no período de julho/setembro do mesmo ano. Aquí também aparece a questão da aceleração. A representação política, sindical, social dos setores subalternos em geral também terá de fazer uma recomposição muita rápida de seu protagonismo. Um impulso defensivo imprescindível.