Revista Rosa

Volume 9

9

Arroba, magia e tecnologia

Na passagem de uma rede social para outra (Facebook–Openmouth), as memórias dos usuários se perderam sem querer. A mídia sobrevivente fora de rede noticiou a virada para a OpenMouth como “a passagem de uma rede social para outra”. Tal como foi contada a história da passagem do feudalismo para o capitalismo, naturalizando o que na verdade era uma contrarrevolução: os modos de produção capitalistas surgindo para conseguir controlar as revoltas antifeudais.1

Alinhamento, Fabi Faleiros

A epígrafe deste texto vem diretamente de uma ficção que escrevi na minha tese de doutorado. Era 2017 e eu imaginava uma rede social fictícia, OpenMouth, onde a espécie humana gradativamente perdia os órgãos do corpo, restando apenas a boca. Era uma boca sem rosto, o que impedia o reconhecimento facial. “A única parte do corpo que permaneceu intacta e aumentou de tamanho ocupando quase o rosto inteiro foi a boca. Órgão único que começou a cumprir as funções dos outros órgãos, digeridos pelo intestino.” O tato demorou para desaparecer, até que só a boca sentia o toque. As pessoas só não perderam a boca porque quando perderam a memória estavam falando. O capitalismo touchscreen estava desaparecendo, sendo substituído pelo mouthscreen. A boca tocava as telas para curtir, compartilhar, comentar. Nesse cenário, onde falar era o que importava, as estratégias de colonização do mundo virtual trocavam a palavra “amigo” para “seguidor”, colocando seres uns contra os outros em forma de textão. Na ficção acadêmica, presente, passado e futuro se entrelaçavam a partir da análise de Silvia Federici sobre a expropriação dos espaços comuns na Caça às Bruxas, que foi o modelo de colonização das Américas,2 o que relacionei com os novos cercamentos digitais. As grandes ficções históricas tentam sistematicamente apagar saberes lançando-os no abismo da “superstição”, por isso criamos outras ficções. Como diz Donna Haraway, “O fazer científico e a fabulação especulativa precisam um do outro, e ambos necessitam do feminismo especulativo”.3

Por enquanto não retornaremos a 2018, ano em que se situa a narrativa. Vamos para a primeira década do século XXI, precisamente ao ano de 2006, quando a capa da revista Time estampava um computador cuja tela era um espelho e a personalidade do ano em destaque era “you” [você]. A revista enaltecia a importância dos internautas em “fundar e estruturar a nova democracia digital”.4 Se no ano anterior haviam sido Bill Gates, Bono e Melinda Gates, na época sua esposa e parceira na Gates Foundation; em 2006 o “você” era qualquer um que produzisse conteúdo online em blogs ou plataformas como as então recém criadas Youtube e Twitter e as extintas Fotolog, MySpace e Orkut. Os blogs ainda eram as versões digitais dos diários pessoais e não a pluralidade da blogosfera que caracterizou os anos seguintes. O Twitter, hoje X, — mais adiante falaremos sobre essa mudança nominal — foi criado no mesmo ano da capa “você” da Time. Não era um blog, e sim um microblog, onde se postava tweets de até 140 caracteres, mesmo tamanho das mensagens SMS da época, porém públicas e em tempo real.

Nesses quase vinte anos em que acontece a passagem para uma vida cada vez mais mediada pelas redes sociais, muita coisa aconteceu com o “você”. O Twitter foi consagrado como um serviço “jornalístico”, para transmissão de fatos em tempo real e não apenas para dizer “o que estou fazendo”. Em 2010, a frase mudou para “o que está acontecendo?”, dando um status de veículo de comunicação oficial ao “você” e um status de “você” aos veículos de comunicação oficiais. E o que estava acontecendo? A onda de protestos e manifestações, chamada Primavera Árabe, se desenrolava no Oriente Médio, utilizando o Twitter como ferramenta para organizar protestos e sensibilizar a comunidade internacional. Em 2013, as manifestações multitudinárias no Brasil entoavam o mantra “Eu sou ninguém”, ao mesmo tempo em que a comunidade afro-americana começava o movimento #BlackLivesMatter.

Diferente de Negri e Hardt, que teorizaram o “qualquer um”, imerso no fluxo de comunicações em rede do capitalismo cognitivo como a multitude, “figura mítica descrita como o um e o todo, singularidade e multiplicidade, indefinida em termos de raça, origem étnica, emprego, os trabalhadores imateriais”,5 o “você”, foi se tornando cada vez menos desencarnado. Criado a partir da biopolítica de Foucault, o conceito de empresário de si genérico está mais para secretária de si, a blogueira, uma subjetividade que resistiu a quase extinção da blogosfera e que migrou para as redes sociais arrastando sua denominação. Satirizada pela Blogueirinha, @ criada por Bruno Matos, que popularizou o bordão “Infelizmente não tem no Brasil”, referindo-se aos produtos importados dos tutoriais e resenhas de maquiagem, inacessíveis para a maioria da população, a blogueira também é conhecida como digital influencer.

Img. 1: Marlyn Wescoff [esquerda] e Ruth Lichterman estão entre as primeiras mulheres programadoras do Eniac (Electronic Numerical Integrator Analyzer and Computer). Foto: Computer History Museum

Mas, vamos seguir com a blogueira, já que ela vem da linhagem da secretária, a que escreve e manda a mensagem, a pessoa multitarefa, a quem era dito os segredos dos chefes. Secretária vem do latim secretum [segredo]. E vale lembrar que, quando os computadores eram máquinas analíticas gigantes, mulheres chamadas computadoras calculavam as trajetórias de mísseis para atingir os alvos com precisão durante as duas guerras mundiais, o que poderia demorar meses e exigia a intuição e paciência de uma mente multifocal, habilidade cada vez mais requerida para todes nas redes sociais. A blogueira, tanto meio quanto mensagem, denunciou o chefe, viralizou hashtags como #Metoo e #NiUnaMenos e mostrou que o trabalho afetivo também é trabalho. O empresário de si universal foi sendo contestado por pessoas historicamente subalternizadas que se situaram em termos de raça, classe, gênero e outras diferenças, na pluralidade da comunicação em rede.

A virada da @

A partir da segunda década do século XXI, o “você” da capa da Time foi se tornando cada vez mais uma @. O Twitter deslocou a @ de lugar, até então posicionada entre o nome de usuário e do provedor de e-mails. Enquanto esteve somente nesse “entre”, virou o símbolo da própria Internet, presente nos letreiros das l@nhouses e c@fés, dando aquele ar de conexão planetária para qualquer pequeno estabelecimento. Chegou na Rede Mundial de Computadores pois já estava no seu protótipo, a Arpanet. Em 1971, foi o caractere escolhido para separar o nome do utilizador e o do computador que enviava mensagens com dados militares sigilosos do governo dos EUA. A @ ainda estava adormecida no teclado do Teletipo asr-336, teleimpressor que interagia com o computador host. Usada apenas por contadores e comerciantes como “commercial at” nas máquinas de escrever, seria intuitivamente lida como at, preposição em inglês que indica lugar.

A virada da @ do “entre” para antes do nome acontece justamente quando as redes sociais passam a ser “o lugar”, o “at” onde se está, onde é preciso estar para existir. A @ vai para frente do nome, substituindo o provedor. O nome vai para depois da @, virando um prefixo identificador, entidade nominal símbolo da circulação econômica neoliberal, que coloca as subjetividades para trabalhar na economia libidinal dos likes e reações, dos números de visualizações e seguidores que acontece na masturbação compulsória das telas.7 Agora todos têm @ na frente, sejam grandes empresas ou grandes blogueiras. Enquanto as pequenas blogueiras ainda não lucram com a venda dos seus próprios produtos, “pagam com a @”, expressão que significa fazer uma permuta em troca de um produto ou serviço por divulgação em suas redes sociais.

A @ sobrepõe a subjetividade blogueira a qualquer outra. Um médico, uma militante, uma astróloga, uma artista contemporânea, uma cabeleireira. Mesmo que você seja a Xuxa, mesmo que você seja uma celebridade da Globo, mesmo que você seja a Globo. Cada vez mais ela aparece em tudo que se refere ao “você”, não só antecedendo o nome de perfis no Twitter, Instagram ou Tiktok, mas também como um marcador de identidade em posts ou comentários nas redes onde não está antes do nome de perfil, como no YouTube ou Facebook, ou nos grupos do Whatsapp, Telegram e nos textos de e-mail, cujo endereço se tornou uma identidade burocrática para verificação de senhas em aplicativos. Mesmo na superfície onde digito este texto, chamada Google Docs, toda vez que digito @, uma janela é aberta no corpo do texto sugerindo pessoas a serem “marcadas”, sendo eu a primeira, seguida de outras @'s com quem compartilho o texto.

@algoritmo

A passagem de uma rede social para outra implica em uma série de mutações nas tecnologias de produção de subjetividade. “Quando você instala um aplicativo, ele não está sendo instalado em seu celular ou seu computador, mas em seu aparato cognitivo.”8 A frase de Paul Preciado se refere ao viciante Candy Crush Saga, o jogo banal de azar onde se combinam as cores de caramelos flutuantes, que não treina habilidades, mas captura totalmente os sentidos enquanto se gera lucro para a empresa desenvolvedora. As redes sociais também são um tipo de jogo viciante do qual é impossível sair. O avanço das fases acontece com o engajamento cada vez mais difícil de alcançar que se dá pelo triângulo curtir, compartilhar e comentar, onde o que se ganha são seguidores.

Cada rede social tem as suas próprias tecnologias de produção de subjetividade, concorrem entre si e ao mesmo tempo se contaminam. Contágio/concorrência que tem levado a uma nova era das redes: se a passagem de amigo para seguidor estava presente na ficção e na realidade, o futuro é a passagem de seguidor para algoritmo. O modelo de recomendação algorítmica baseado no Tiktok, onde sequer é preciso seguir alguém para receber o conteúdo da plataforma — basta apertar o botão “For You”, para que o aplicativo decida, via inteligência artificial (IA), o fluxo de vídeos que o usuário gostaria de assistir — contaminou o Twitter, Instagram9 e o YouTube. Os posts dos seguidos/seguidores perde espaço tanto para o que o algoritmo privilegia quanto para conteúdos patrocinados, não se limitando à rede da @, fazendo a blogueira estar em constante reinvenção e adaptação de sua linguagem. Esse abismo na interação “social” das redes talvez nunca tenha sido tão grande, pois é feito de polaridades as quais os botões de “curtir” e “não curtir”, originários do Facebook, colaboraram para construir, e que parece crescer conforme os algoritmos aumentam a capacidade das plataformas de entregar conteúdos que reforçam bolhas, ampliando as polarizações.

Eis que, enquanto escrevo este texto, uma nova rede social de fato surge. Ela não é a OpenMouth da ficção e sim a Threads. Stalkeando um perfil no Instagram — atividade típica de uma @ — vejo na bio uma @ seguida de um número. Clico e estou na Threads, pensando o quão desnecessária é uma nova rede social, mas crio a minha, é necessário. Integrada ao Instagram da Meta de Mark Zuckerberg, a Threads foi criada para ser uma concorrente do ex-Twitter, agora a X de Elon Musk, que pretende torná-la um “super app”, o que vai muito além de um microblog. Inspirada no modelo chinês Wechat, da Tencent, a plataforma concentraria tudo o que se faz em todos os aplicativos: pedir comida, chamar um táxi, transferir dinheiro, pedir empréstimos, fazer compras. Enviar mensagens seria só mais uma função, na era em que o gesto de fazer que é cada vez se comunicar.

Se a X, quando era Twitter, fez a virada da @ para entidade nominal individual, agora a rede que surge para ser sua concorrente a utiliza como seu logotipo, visualizado em loop quando o aplicativo é iniciado. Ao mesmo tempo, pela primeira vez, a @ é enunciada enquanto um símbolo que dá identidade a alguém: “O logotipo do Threads, feito com a fonte Instagram Sans, é um sinal @, que significa o nome de usuário de alguém, o indivíduo e a voz”, explica o CEO do Instagram Adam Mosseri em post da Threads. O número de pessoas ativas caiu em 80%, logo nas duas primeiras semanas de seu lançamento, indicando uma certa fadiga da interação digital por parte da @ enquanto indivíduo. Apesar do flop, a @ utilizada para representar a mais nova rede social surge como sintoma das mutações nos padrões de interação das redes, que faz as recomendações algorítmicas serem mais relevantes do que o aspecto social da rede.

Img. 2: Print do logotipo da Threads.

Antes de se posicionar à frente dos nomes de usuários nas redes sociais, a @ atravessou o Atlântico e o Mediterrâneo como uma unidade de medida, abreviou letras na escrita medieval até chegar ao “entre” dos endereços eletrônicos. Agora é um prefixo identificador, entidade nominal que passa por mutações nas formas de existir conectadas com a inteligência artificial generativa, capaz de criar textos no chat GPT e imagens a partir de textos no Dall-E. Tecnologias que, quando utilizadas pelas Big Techs e outras grandes corporações, poderão extinguir os empregos da @.

O nascimento da @

Mãos, Fabi Faleiros

Minha busca pela origem da arroba começou no Google, onde uma infinidade de textos especulam várias origens para o símbolo, dentre elas, uma versão medieval utilizada por monges copistas para abreviar palavras e nomes próprios, economizando assim tinta e papel. Nos livros reproduzidos à mão, a arroba seria a letra A entrelaçada pela D na escrita uncial, abreviação da preposição ad em latim.10 No mesmo ano em que o e-mail surgiu, em 1996, a professora de linguística da National Taiwan University, Karen Chung, o utilizou para realizar uma pesquisa junto a colegas linguistas do mundo todo,11 na busca por significados adquiridos pelo símbolo em outros idiomas, que não o at do inglês. Criados a partir da similaridade de sua forma com animais em mais de 37 línguas, hoje os nomes estão reunidos no verbete do símbolo @ da Wikipedia,12 e vão de verme ou larva [kukav] em húngaro à “rabo de porco” [grisehale], em norueguês. Essas versões ciborgue-multiespécies me interessam, mas não ao filósofo italiano Giorgio Stabile que, em 2000, preferiu ignorar tais analogias realizando uma pesquisa paleográfica em línguas que não a associam à sua forma gráfica: no inglês “commercial at” e no espanhol e português arroba, transliteração da palavra árabe ar-rūb, “a quarta parte” de um quintal, antiga medida de massa, termo absorvido na Península Ibérica durante a longa invasão árabe.13 Ele encontrou o símbolo da arroba como abreviatura da palavra ânfora em documentos da escrita mercantil italiana do final da Idade Média, confirmando num dicionário espanhol-latim de 1492, onde arroba é traduzida como ânfora, a sua unidade de medida original. A palavra vem do latim amphora, que deriva do grego amphoreus e significa “carregador duplo”.

Por mais que Stabile tenha tentado fugir da forma, ela o perseguiu, já que a unidade de medida estava associada à ela, mas ainda não era um bicho. Existentes desde o Neolítico, ânforas eram vasos de cerâmica com alças, gargalo longo e base cônica, presentes no Egito e norte da África. Na Grécia e Roma Antigas, onde a palavra referia-se tanto ao vaso quanto à unidade de volume e peso do conteúdo, era utilizada para transportar e armazenar cereais, azeitonas, azeite e vinho. A ânfora parece uma @, ainda mais se a vermos a partir da teoria da bolsa da ficção, de Ursula Le Guin, que conta que o primeiro aparato cultural foi um recipiente, um pote, um saco, uma cesta, que guardava e transportava os alimentos coletados desde o Paleolítico, quando o cotidiano era desenhado nas paredes das cavernas e o tempo dedicado à colheita era “muito menos do que os camponeses escravizados nas plantações de outros depois que a agricultura foi inventada, muito menos que os trabalhadores pagos desde que a civilização foi inventada”.14 Sobrava tempo para outros fazeres, como contar estórias. Hoje não sobra muito tempo para a @ da era 24/7, que constantemente trabalha narrando a si mesma.

Com suas raízes antigas, o símbolo foi colocado a serviço da história dos heróis conquistadores, já que se tornou uma unidade de medida em toda a Europa e nas Américas colonizadas, onde foi escrita oficialmente como @ a partir de 1520, transmutando-se com a circulação de mercadorias, quando o capitalismo começava a ser um sistema global. No Brasil Colônia, foi a unidade de medida do café e do açúcar e ainda hoje é a usada para calcular o peso de grandes animais para abate, correspondendo a 15 kg. Depois de circular globalmente como unidade de medida e virar o “commercial at” em inglês, separando a quantidade de uma mercadoria do seu valor (10@$20) nos manuscritos contábeis, foi para os tipos móveis da imprensa e no final século XIX era “batido à máquina”, nas teclas que já obedeciam ao padrão QWERT. Permaneceu algum tempo adormecida no teclado do Teletipo ar33 da Arpanet, até renascer no mundo da informática, chegando ao teclado dos computadores e ao touch screen dos dispositivos móveis.

Img. 3: Documento contábil, 1630, Madrid, Arquivo Nacional. Fonte: https://blazetype.eu/blog/history-of-a-sign

Um bom método para seguir rastreando as mutações da arroba é a ciência sem nome do psico-historiador cultural Aby Warburg, que investiga a metamorfose das imagens como formas simbólicas por meio de uma arqueologia visual anacrônica, mostrando a transmissão e a sobrevivência de formas e gestos da Antiguidade pagã até o Renascimento — por acaso o mesmo período do nascimento da @, até a sua mundialização como unidade de medida. Ela também seria uma espécie de pathosformel de Warburg, as forças psíquicas presentes na memória coletiva, em cada “si mesmo”,15 em cada @, onde vive e sobrevive como uma forma espectral, imagem carregada de energia primordial.

Os rituais da @

Nenhuma das 37 línguas presentes no verbete da @ na Wikipédia usa a metáfora da serpente ou cobra para nomeá-la. O achado mais aproximado é uma minhoca no bico do pássaro do Twitter, prestes a ser engolida por ele, num meme criado logo que a Threads surgiu. Os bichos que mais se repetem são o macaco, ou somente a sua cauda, e o caracol, que é @ em esperanto [heliko], em Italiano [chiocciola], em turco [salyangoz], em bielorrusso [сьлімак], galês [malwen] e ucraniano [ravlyk], dentre outros. O caracol é uma espiral, a forma mais recorrente na natureza, e ela nos conduz à cobra.

A comunicação entre entidades e humanos é feita ao longo de espirais em cosmovisões distintas. Em quase todas as sociedades ameríndias, uma escada em espiral, liana ou corda trançada liga o céu e a terra para chegar ao mundo dos espíritos, sempre conectada a uma serpente cósmica, entidade dos seus principais mitos fundacionais.16 A dupla espiral combina os opostos num só gesto em caminhos de ascensão e descida, expansão ou contracção, aumento ou redução, evolução ou involução,17 seja no diagrama taoista Yin Yang, na serpente hindu Kundalini ou em Exu, que nas tradições Iorubás, é o princípio fundador do tempo espiral, mensageiro entre orixás, corpos-ancestres e seres humanos.18

Toda a espiral natural tem um centro de equilíbrio ou olho calmo à volta do qual giram o movimento e a turbulência. O olho da espiral evoca o próprio centro, a origem cósmica. Sugere o olho da sabedoria, que observa tudo, mas nunca se envolve na turbulência.19 Uma @ on-line está onde está, mas com um olho na rede social vizinha, dando match no app de relacionamento, enquanto esquece a panela no fogo, depois de ter respondido mensagens urgentes pelo WhatsApp. A @ está trabalhando at home, como o caracol que carrega sua própria casa.20

Rastejando com a ponta dos dedos sobre a tela, ela é conduzida por uma espiral regida por algoritmos que determinam o caminho a ser percorrido pelo conteúdo que a inteligência artificial interpretou como o mais relevante, arrastando-se para os lugares mais profundos dos feeds. Um gesto de consumo de si, já que a seleção do conteúdo é feita a partir do que mais se vê, e não por Chronos. A lógica é espiralar-algorítmica. Depois de ser tragada por si mesma, em imagens em movimento que não cansam de se repetir em reels, shorts ou vídeos do Tiktok, retorna à superfície para se encolher na forma @ novamente, num movimento diário infinito. Sair da turbulência é voltar ao eu, à superfície da tela onde está o perfil e onde será feito o próximo post, tal como Ouroboros que morde a própria cauda em eterno ciclo de nascimento, morte e renascimento. A metáfora navegar pela Internet já pode ser substituída por ser engolida pelas redes sociais. Ou, talvez, fosse melhor dizer serpentear pelas redes, pois o movimento é ambíguo e sinuoso.

Warburg relaciona o caráter ambivalente da serpente, que a faz um mito da eternidade em toda extensão do planeta, com a habilidade do animal de perder sua pele em “um ciclo de vida que vai do sono mais profundo da morte à total vitalidade”,21 de sair de seus buracos secretos da terra, impulsionando-se com grande velocidade; e de se camuflar pela lei do mimetismo. Para os Hopi, povos originários do território Pueblo, Novo México (EUA), a mitologia da serpente está conectada aos ciclos da chuva que tornam a terra fertil na região desértica, visitada por Warburg em 1896, e onde em 1968 foi instalada a maior exploradora de minério a céu aberto da América do Norte.22 Na Kiva, templo subterrâneo onde pinturas de areia representam serpentes como relâmpagos, a tempestade é evocada por meio da dança com cascavéis, integradas ao ritual como agentes vivas, presas entre os dentes.23 Elas geram os relâmpagos ao mesmo tempo em que são representadas por eles, fazendo o símbolo ser tão vivo quanto a própria serpente. Quando jogadas contra o chão, sua “presença” destrói a “representação”,24 desfazendo o símbolo na areia. A casa-mundo, tanto morada quanto lugar cosmológico da aldeia, tem dois andares cujo acesso se dá por uma escada apenas pelo andar de cima. É tanto a defesa contra o inimigo quanto o acesso simbólico ao céu, esculpido no telhado como degraus, que “são o símbolo da luta dentro do espaço, para cima e para baixo, da mesma forma que o círculo — a serpente enrolada — é o símbolo do ritmo do tempo.”25

Ao conhecer a lógica animista Hopi, Warburg a confronta com a serpente da Antiguidade pagã, que foi apropriada pelo cristianismo e expulsa do paraíso como um poder satânico por originar todo mal e pecado, e com a serpente de cobre, metáfora para os cabos elétricos da modernidade que aprisionaram os relâmpago da natureza. Sua conferência na clínica Bellevue, em Kreuzlingen, Suíça, em 1923, onde esteve internado com um quadro de esquizofrenia maníaco depressiva, hoje denominada transtorno afetivo bipolar,26 diagnostica a bipolaridade da civilização ocidental, criadora da cisão entre pensamento mágico e pensamento lógico, entre a animalidade e o humano, entre pathos e logos.27 Além de ter demonstrado sua sanidade mental com o texto, recebendo alta da clínica, ele mostra que a modernidade precisou de um outro a quem identificar como esquizóide, interpretando práticas mágicas como “superstição”, para assim se entender como moderna, mas não sem antes se afundar no próprio pathos (ou no sintoma).28 A serpente, mensageira entre logos e prática mágica dos Hopi, o fez aprofundar a noção de pathosformel ao criar o seu Atlas Mnemosyne (1924–1929). Uma busca infinita pela magia da semelhança e sobrevivência das formas primordiais em imagens, que costuma ser comparada ao Google Images, numa espécie de vidência de como as imagens seriam acessadas no futuro. Podemos também comparar a oscilação da @ entre o ódio/intolerância e o humor dos memes, proporcionada diariamente pelas redes sociais, ao veneno e antídoto da serpente e aos estados mistos da bipolaridade, diagnóstico psiquiátrico que tem tido um aumento expressivo.

É justamente o cruzamento entre a ciência moderna e as ciências indígenas que o antropólogo Jeremy Narby cria no livro A serpente cósmica, o DNA e a origem do saber, conduzido pela sugestão do tabaquero ayahuasquero Carlos Perez Shuma, da comunidade Ashaninka da Amazônia peruana: “A natureza fala por sinais e, para compreender essa linguagem, devemos estar atentos às semelhanças da forma.”29 As metáforas duplas e entrelaçadas tsai yooshtoyohto, presentes nas canções [koshuiti] dos ayahuasqueros yaminawa da Amazônia peruana, traduzidas para o inglês como “linguagem-twisting-twisting”,30 correspondem perfeitamente à linguagem dupla e entrelaçada do DNA, a molécula presente em toda forma de vida — seja um abacate, uma bactéria ou um ser humano. As letras das canções imitam os espíritos, que se comunicam nos rituais conduzidos pela ayahuasca e nos sonhos por imagens mentais. Como esses seres ao mesmo tempo “são e não são”, sem uma natureza estável nem unitária, a linguagem dupla e entrelaçada permite vê-los à maneira deles. A metáfora seria a única forma de nomeá-las. Peixes, por exemplo, são “pecaris de colar branco”, pois suas guelras se parecem com pontos brancos presentes no pescoço do peixe; jaguares são “cestos”, já que as fibras do cesto têm um padrão igual às manchas de um jaguar.

Ao longo da substância linguística que é o DNA, existe uma mensagem dupla na sua base com o texto principal numa das fitas da dupla hélice e o duplicado na parte côncava da outra. “A nossa mensagem genética, então, é duplamente dupla e contém, no total, 6 bilhões de pares de bases, ou seja, 12 bilhões de letras”.31 As duas fitas que constituem o genoma humano se enroscam em volta de si mesmas várias centenas de milhões de vezes, perfazendo um comprimento astronômico de 200 bilhões de km, dimensão cósmica que poderia conectar o céu e a terra. A hipótese do autor é de que os xamãs levam a consciência ao nível molecular, recebendo informação biomolecular, chamadas “essências animadas” ou espíritos, transmitidas por plantas como a ayahuasca e o tabaco. Com esse conhecimento botânico e fitoterápico milenar, eles sabem, muito antes das ciências acadêmicas, que descobriram a dupla hélice do DNA somente em 1953, que o princípio vital é único para todas as formas de vida, por meio das visões de duas serpentes entrelaçadas,32 obcecadas pela própria reprodução, mesmo que apenas em imagem.

Da origem da vida à inteligência artificial, a @ é obcecada em se reproduzir, estendendo-se em conexões planetárias por meio da sua linguagem viral chamada meme, termo criado por Richard Dawkins no livro O gene egoísta, como um replicador cultural, não necessariamente humano, para substituir o gene. Tal como os genes se propagam no caldo primordial dos óvulos e espermatozóides, os memes se reproduzem no caldo da cultura,33 saltando de @ em @, num processo que genericamente podemos chamar de imitação.

A boca de baixo e a boca de cima

Em 2017, enquanto eu escrevia minha ficção acadêmica, criando um habitante da rede social Openmounth que defecava e se alimentava pelo mesmo buraco, uma interlocutora atenta à tese me enviou uma reportagem do The Guardian sobre a descoberta de um dos primeiros ancestrais da espécie humana. Uma criatura aquática de aproximadamente um milímetro que viveu há cerca de 540 milhões de anos, a qual “possui boca, mas não tem ânus”.34 A notícia virou nota de rodapé da tese, como se fosse o personagem da ficção, mas, na verdade, era o pequeno fóssil Saccorhytus coronarius. Descoberto em 2017 no sul da China, foi classificado provisoriamente dentro do grupo dos deuterostômios, ancestrais primitivos dos animais vertebrados, incluindo seres humanos. Era um saco pontiagudo e enrugado com simetria lateral, pele fina e flexível, que se alimentava de partículas de comida com sua boca cercada de buracos e espinhos, os quais os cientistas acreditaram ter evoluído até se tornarem as escamas dos peixes. O que os surpreendia era a aparente ausência de ânus, sendo os resíduos eliminados pela boca. Tal descoberta científica gerou um meme em potencial: a sobreposição de uma imagem do Saccorhytus coronarius ao rosto de Trump.35 O Google Imagens me conduziu até ele enquanto eu buscava pelo fóssil original, bem como à uma ilustração que veste o pequeno saco enrugado com uma peruca que simula o cabelo do ex-presidente na imagem batizada de Saccorhytus Trumpus36 — ou Homo Trump —, perfeita para definir o representante da necropolítica em eterno retorno, entidade agonizante que volta para cumprir mais um ciclo reacionário na terra. Eleito em 2016 com apoio da máquina de fake news, com a boca só conseguia produzir excrementos e, no fim das contas, era muito similar ao personagem da ficção, um Falacentrix, um humano que usava o termo sensível somente para telas.

Img. 4: Homo Trump. Fonte: https://www.shapeways.com/product/S8XJLVBNJ/saccorhytus-trumpus

Mas, em 2022, uma imagem 3D, criada a partir de um raio x que utiliza um acelerador de partículas, possibilitou uma análise mais detalhada, mostrando que o Saccorhytus coronarius faz parte dos ancestrais das aranhas e insetos, os chamados ecdisozoários e não dos deuterostômios, como na primeira interpretação.37 Os orifícios que cercavam sua boca, classificados como poros para brânquias (ou guelras), característica primitiva dos deuterostômios, eram, na verdade, a base de alguns espinhos que se partiram na preservação do fóssil. A confusão evolutiva foi a falta de ânus no representante dos ecdisozoários, já que seu sistema digestivo tem apenas o orifício de entrada, sendo os resíduos expelidos pela boca. Nos deuterostômios, a boca primitiva (ou blastóporo embrionário) origina o ânus, sendo a boca definitiva formada a partir de uma abertura secundária na extremidade oposta do tubo digestivo do embrião.

Img. 5: Radiografia do Saccorhytus coronarius feita por Philip AL/UNIVERSITY+OF+BRISTOL&hl=pt-BR&as_sdt=0&as_vis=1&oi=scholart">Donoghue, University of Bristol.

Quando o novo estudo foi divulgado, os cientistas celebraram que a criatura sem ânus não é uma ancestral humana, mostrando o medo antropocêntrico de ser vinculado a outras espécies e o pavor da conexão entre a boca de cima e a boca de baixo, o que nos faz retornar a Ouroboros mordendo a própria cauda. O apagamento colonialista da conexão ancestral entre as duas bocas privilegiou o logos, negando o pathos, no sentido mais fecundo da palavra, a animalidade vinculada ao que vem do baixo ventre, lugar onde vive adormecida a serpente do submundo originária de todo mal, o que envolve a sexualidade.

Em 2018, ano em que se situa a minha narrativa ficcional, Bolsonaro se elegia ao modo Trump no Brasil. Falacentrix perdiam os órgãos enquanto falavam, restando somente a boca e Novs, outros seres da ficção, desenvolviam outros órgãos, e conseguiram viver fora das redes. Seres que criavam clitóris-cordas vocais e tetas que tocavam theremins. A relação entre a anatomia da boca com a região do baixo ventre, ambos canais abertos e úmidos, por onde se produz o som, o gozo e a vida, eram constantemente investigados por Novs. No texto “O gênero do som”, Anne Carson traz relações fisiológicas entre a boca de baixo e a boca de cima descritas pela medicina antiga misógina, quando a @ ainda era uma ânfora e ter duas bocas já era desconcertante e constrangedor:

Trata-se de um axioma presente na teoria médica e na discussão anatômica na Grécia e Roma Antigas que dizia que mulheres são seres com duas bocas. Tanto o orifício por onde se realiza a atividade vocal quando o orifício por onde se realiza a atividade sexual ganha o nome de stoma em grego (os em latim), com a adição dos advérbios ano ou kato para diferenciar a boca de cima da boca de baixo. Tanto a boca vocal quanto a boca sexual são conectadas ao corpo por um pescoço (auchen em grego, cervix em latim). As duas bocas dão acesso a uma cavidade oca protegida por lábios que ficam em melhor condição se mantidos fechados.38

Carson ainda comenta sobre estátuas de terracota recuperadas da Ásia Menor do século IV a.C., que representam o corpo feminino com quase nada além de duas boca fundidas num volume corporal sem outras funções anatômicas. Elas estão invertidas. A que é usada para falar está na base da barriga da estátua e a genitália, a boca de baixo, está aberta no topo da cabeça. Ela é a anciã Baubo, a deusa pagã do riso e das obscenidades, a quem a mitologia grega atribui “um gesto duplo de erguer a roupa para mostrar a genitália e de gritar obscenidades ou contar piadas sujas”39.

Img. 6: Estátua Baubo em terracota, tipo Priene, segurando uma lira. Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Baubo

O que separou a boca de cima da boca de baixo no processo evolutivo dos deuterostômios (do grego deuteros, posterior + stoma, boca), foi a coluna vertebral, ausente na Baubo. E é pela coluna vertebral que a energia primordial da serpente hindu Kundalini faz sua ascensão. Enrolada e adormecida na região do osso sacro, é despertada com a meditação, mantras e mudras, práticas comuns ao yoga, e com sexo ritual, que torna física a mitologia tântrica erótica da criação do mundo.40 Ela sobe em movimento espiral pelas duas correntes nervosas da medula espinhal, parecendo a dupla hélice do DNA, passa pelos 7 chakras (roda ou vórtice em sânscrito), que se abrem para unir em êxtase Shakti, energia que dá forma manifestando a consciência e Shiva, a consciência cósmica disforme, desde o chakra raiz, no osso sacro, até o chakra coronário, no topo da cabeça, onde ativa a glândula pineal. A interpretação ocidental dessa cosmovisão tântrica desvincula a energia sexual da energia vital. Mas, para o tantra, a excitação sexual se aproxima da energia cósmica e a busca espiritual se conectava com as revoltas sociopolíticas que visavam a quebra do sistema de castas da Índia. Não é por acaso que o mantra Sat Nam, em sânscrito “Eu sou a verdade”, Sat [verdade eterna] Nam [nome], num sentido menos vinculado ao ego e mais conectado ao cosmos, virou Satã nas religiões monoteístas. Ser si mesmo é o mal em forma de diabo, a expressão da serpente do submundo que não pode ascender ao céu.

Existe uma correspondência entre os sete chakras e os sete Ierês, rodas energéticas em tupi-guarani. Como explica o escritor e ambientalista Kaká Wera, eles conectam o plano físico e o espiritual, criando a interação entre a anatomia vibratória da alma e o organismo biológico. Essa anatomia sutil, muito mais difundida no ocidente pela tradição hindu, por meio dos chakras e pela tradição taoísta chinesa, pelos meridianos, nas tradições tupi-guarani é a anatomia vibratória alinhada e vitalizada por meio dos sons das sete vogais entoadas em determinada frequência e ritmo para que os Ierês sejam abertos e alinhados.41 A 7ª vogal é a “não vogal”, o silêncio, e a vogal gutural uhu, a mais ancestral, ativa o chakra raiz na base da coluna.

Qual é o campo vibracional da vida de uma @? O seu aparelho celular. Os sons e vibrações emitidos pelo celular capturam a sua energia vital. É ele quem vibra, oferecendo ao desejo a dopamina necessária, a ponto de, a todo momento, buscarmos a recompensa que vem por meio de likes, o famoso biscoito. Se ela não chega, a @ vai atrás dos fantasmas que observam os stories sem esboçar nenhuma reação. Se a vibração, que é energia vital criadora, foi apropriada pela psiquiatria, no final do século XIX, como uma forma de cura da histeria, tendo como objeto de poder os vibradores mecânicos, que depois se tornaram elétricos,42 um pouco antes de Warburg deixar a Clínica Bellevue, agora o celular, que concentra todas as atividades de uma vida versão @, também vibra.

Os osso da @

A palavra símbolo vem do grego symbolon, e quer dizer “carregar metade de um osso de uma articulação (a junta de um tornozelo de carneiro, por exemplo) como maneira de provar sua identidade a alguém que tenha a outra metade. Juntas, as duas metades compõem um significado.43

Não só a boca de cima e a boca de baixo têm estruturas anatômicas semelhantes, mas também os ossos que as sustentam. Depois da ficção acadêmica, passei a investigar o esfenoide, que fica na base do crânio, e a pélvis, no baixo ventre. Ambos têm a forma de uma borboleta. Feito de tecido esponjoso, o esfenoide — assoalho da caixa craniana (sim, também temos um “chão” na cabeça) —, é o primeiro osso a se formar no embrião, e é a partir dele que o esqueleto se desenvolve. Ele separa o cérebro visceral do racional e carrega a memória genética ancestral impressa no DNA desde a origem humana. Está relacionado, entre outras coisas, com a articulação da mandíbula e as pressões da mastigação e do bipedarismo, além de conectar o crânio com a coluna vertebral. Conforme a sua estrutura se flexionou cinco vezes ao longo de 70 milhões de anos, as espécies humanas passaram por mutações.44

Vista interna do assoalho da fossa craniana anterior em corte sagital. Esfenóide (parte do corpo do esfenóide ou plano esfenoidal, na porção medial com suas duas pequenas asas). Fonte: https://anatpat.unicamp.br/bineucranio.html

A quarta flexão corresponde ao Homo erectus, quando a espécie se torna bípede e esfenoide e pélvis passam a ter uma relação verticalizada, não mais na horizontal, como quando era quadrúpede. As habilidades psicomotoras se desenvolvem, assim como o aparelho fonador e a linguagem. O Homo sapiens surge com a quinta dobra esfenoidal, paralela ao aumento do cérebro e ao início do pensamento abstrato. A partir daí começa a se delinear a linha divisória que inventa a superioridade humana em relação às outras espécies. Ficar ereto é um ato humano por excelência, o que possibilitou andar só com os dois pés sobre a terra, deixando as mãos livres, até chegar ao Antropoceno, ou a cena da supremacia branca, que a partir do Iluminismo cria a história universal e a noção de raça.45

Parece que quanto mais a humanidade “soube”, no sentido do saber moderno, mais se firmou a impossibilidade de conexão entre os dois assoalhos do esqueleto: o do crânio e o da pélvis, este formado por músculos voluntários e involuntários que sustentam órgãos sexuais, bexiga e períneo. Muitas sensações que parecem opostas estão concentradas na região do assoalho craniano: raiva, tensão, tesão e o rangir dos dentes de forma involuntária — conhecido como bruxismo. A pélvis também carrega uma série de tensões ancestrais vinculadas à restrição do prazer. Tanto que, para a maioria das pessoas, é difícil movê-la sem antes fazer algumas aulas práticas de descolonização da região pélvica. Mas, por mais que a ciência moderna colonial branca tenha insistido em anular as ambivalências da serpente — que faz seu caminho espiralar pelo coluna vertebral entre pélvis e esfenóide —, separando em campos opostos pathos e logos, o eu e cosmos, a matéria e espírito, o masculino e o feminino, a memória fóssil sobrevive em cada @, que é única, assim como seu endereço de perfil.

Além das dobras da esfenóide, existem outras mais recentes que envolvem o pensamento sentado sobre glúteos. Se a posição ereta é humana por excelência, sentar em cadeiras também o é. Diferente da sentada oriental — a da meditação e do despertar da @ —, ou a do sentar de cócoras nos calcanhares, a posição do parto, do defecar e da mediação do mundo dos espíritos com o humano em culturas indígenas nas quais bancos baixos que mimetizam animais tem uma função ritual, a sentada ocidental surge como a posição do corpo nobre que ocupava o trono. Quando as cadeiras se popularizam e se associam com as máquinas de imagens, há uma sedação dupla: elas acalmam o corpo, enquanto as imagens distraem e hipnotizam a mente.46 As dobras da era da televisão são a o joelho e a do quadril, dobras do sedentarismo que encurtaram nossos músculos e tendões. A dobra da era do celular é a da cervical. A @ se encolhe enquanto é engolida pelo fluxo de imagens luminosas do aparelho, inclinando o pescoço para baixo, em direção a tela, onde quer que ela esteja.


Minha ficção acadêmica termina com a insurreição de Novs, que se tornaram criaturas aquáticas, capazes de nadar no fundo de um mundo que virou um grande mar, não necessariamente constituído por água. Warburg termina seu texto sobre o ritual da serpente Hopi dizendo que o telegrama e o telefone aniquilaram o cosmos. Os elos espirituais entre a humanidade, interligados pelos símbolos mitológicos ao mundo que a rodeia, foram desfeitos pela conexão elétrica instantânea. Prefiro terminar essa arqueologia da sobrevivência da @ seguindo com o problema, como diz Donna Haraway. Persistir com ele num mundo que é cada vez mais ruína. Contar outras histórias, não as que se repetem à exaustão, até chegar onde chegamos, para que as narrativas universalizantes do Capitaloceno, tão sinuoso quanto uma serpente, não nos engula. Isso requer aprender a estar verdadeiramente presente, num presente a ser criado, como bichos mortais que carregam a sua memória fóssil, sabendo que o futuro é ancestral, como conta Ailton Krenak. Assim como céu e terra, esfenóide e pélvis, ambos com sua forma de borboleta, seguem tão conectados que, se mexermos a mandíbula para um lado, é muito difícil mover a pélvis no sentido oposto, o que mostra que essa conexão ancestral segue presente no corpo de cada @.