Revista Rosa

Volume 9

9

Os ângulos de Strobeck: skate visto de um outro modo

— Eu queria conseguir andar de skate. Juro!

— É?

— Tipo, acho os skatistas tão sexy — diz ela, abrindo e fechando as mãos com intensidade.

— É?

— Vocês conseguirem fazer tudo aquilo — move-se como se ajeitasse os pés sobre um skate, ainda gesticulando bastante. — Atravessar qualquer lugar…

— Te excita?

Dylan Rieder fazendo a manobra kickflip.

Este diálogo entre uma transeunte anônima e o skatista Dylan Rieder (1988–2016) acontece em preto e branco, à exceção do canto esquerdo superior, onde há um quadro de vídeo sobreposto, a cores, em que aparece a modelo Camille Rowe flertando diretamente com a câmera. Ou conosco, espectadores. William Strobeck, o diretor de Cherry (2014), vídeo que contém a cena (mais precisamente no minutagem 24’14” do vídeo no YouTube), corta-a antes que a mulher responda. Ele aproveita e finaliza também o som de fundo, metálico e abafado, que vinha criando tensão nas imagens. A tomada seguinte é a de um kickflip sobre uma escada de oito degraus, no pátio de uma escola na Califórnia. Começa a tocar, junto ao barulho das rodinhas do skate no asfalto, a canção “Never Tear Us Apart”, da banda INXS.

O primeiro kickflip que dei na vida, assim como a maioria dos que dou até hoje, não foi um kickflip. No Brasil, algumas manobras recebem nomes diferentes do que os estabelecidos nos Estados Unidos e ao redor do mundo. Kickflip, aqui, é flip. Boardslide é rockslide. Lipslide é boardslide. Não sei ao certo por que acontece esse fenômeno linguístico de traduzir um termo estrangeiro por outro também estrangeiro, mas mesmo os brasileiros em geral, e não só os skatistas, estão acostumados a ele, haja vista a tradução que nosso idioma faz de, por exemplo, billboard: outdoor.

Portanto, meu primeiro kickflip foi apenas um flip. Apesar da nomenclatura, girou mais ou menos como giram os kickflips de Los Angeles, de Barcelona, do Cantão. Flexionei os joelhos para o impulso de subir; iniciei a subida desflexionando-os. Pisei forte com o pé de trás na extremidade traseira do skate, chamada de tail, até senti-la prestes a tocar o chão. Dobrei para dentro, então, o tornozelo da perna dianteira, raspando o tênis na lixa colada sobre a madeira, chutando-a na diagonal quase como no futebol se chuta de trivela. O skate iniciou seu giro sob mim, que já tinha as pernas posicionadas em algo parecido com as voadoras das artes marciais; nessa posição, esperei que a lixa se voltasse para o chão, primeiro, e logo retornasse à sola dos meus calçados. Tudo não levou mais que uma fração de segundo.

A descrição pode não oferecer clara visualização do que são os movimentos de um flip, não tanto porque falha em detalhar melhor ou ser mais precisa. Os detalhes e preceitos estão todos ali, inclusive talvez até bastem para alguém que queira subir num skate pela primeira vez e aprender a manobra — incentivo. Não é suficiente, porém, a descrição, mais porque prescinde de um elemento muito importante: o estilo.

É melhor dizer que meus flips, afinal, não são iguais aos kickflips mundo afora. Nem o são os dos outros skatistas brasileiros. Nem o de ninguém é igual ao de ninguém. Pois estilo está em âmbito individual, como as impressões digitais. Parece óbvio, e é, mas ajuda a entender por que Dylan Rieder escolheu, em seu auge, somente um kickflip, manobra básica, para transpor uma escada de oito degraus, obstáculo de dificuldade média-baixa para profissionais como ele.

Dylan Rieder fazendo a manobra kickfkip.

Acontece que ele sabia que ficaria bonito na imagem, que poderia encolher e esticar braços e pernas quanto e como quisesse; que preservaria seu skate o mais junto possível de si mesmo, o que sempre embeleza qualquer manobra, segundo a convenção. Quando aterrisou, pôde conceder elegância às cócoras, que objetivamente não passam de consequência natural do corpo para redução de impacto. Apontou os joelhos, principalmente o esquerdo, para baixo; rodou um pouco o quadril, o suficiente para que a coluna não precisasse aguentar sozinha todo o peso da cabeça e dos braços, pensos, que se entregavam à gravidade, numa mistura de tranquilidade, indiferença e charme. Além disso, com certeza calculou que depois ainda aplicaria no tampo de uma mesa de piquenique um backside smith saindo de frontside 180, já esta uma manobra de nível mais avançado. Seu corpo se portou dessa maneira não só por necessidade e obrigação, como se leis físicas ou morais o impelissem à curvatura. Conscientemente, Dylan Rieder decidiu que seu corpo se movimentaria através do espaço assim e assado, porque sim, e por que não?

Ficar bonito na imagem, aliás, incluindo não só a execução das manobras, mas também as roupas, os acessórios, o corte de cabelo, toda a sorte de superficialidades e até mesmo o plano de fundo, o ambiente em que se escolhe andar de skate, pode parecer fútil e frívolo. A comunidade do skate como um todo, no entanto, preza muito mais essa questão estética do que, por exemplo, campeonatos, embora estes apresentem um histórico notável na evolução do esporte e tenham ganhado bastante relevância nos últimos anos. Tanto se preza a questão estética, que um dos temas de discussão pública quando o skate finalmente estava por estrear nas Olimpíadas, em Tóquio, 2021, foi o uniforme dos atletas. Levantavam-se dúvidas como: vai poder usar calça jeans? boné? vai ter que vestir shortinho, meião, capacete, colante, como em outros esportes? o skate vai ser o particular de cada um ou haverá skates genéricos para cada delegação? São questões ingênuas, de pessoas que de alguma forma acreditavam que o skate entrava nesse novo foro para mostrar-se ao mundo como é em essência, ao invés de estar aceitando adaptar-se ao que exigem eventos desse porte. A ingenuidade de acreditar numa essência, entretanto, e, de mais, acreditar que o espetáculo se interessa mais por ela do que pelo lucro, mostra que é a crença que lhe confere importância, a transforrna numa prioridade.

Dylan Rieder conversando com uma mulher.

Em Cherry, os ângulos que Strobeck utilizou para gravar manobras de inúmeros skatistas foram uma novidade nos vídeos de skate. Já havia, desde sempre, algo para além das manobras, como a interação dos skatistas com motoristas e pedestres, os confrontos com seguranças e policiais, o segmento de um dia na vida de um skatista, as festas, as turnês via van etc., que mostrava o lado humano dos skatistas. O que Strobeck fez de diferente foi, basicamente, filmar prioritariamente parado, em vez de acompanhar, também em cima de um skate, o skatista em foco; e parado poder não só apontar sua câmera para o skatista de corpo inteiro e seu entorno, mas principalmente, no zoom, captar dois detalhes específicos e significativos: os olhos (ou a expressão facial) e os pés do skatista.

Se à distância o skatista rema — que é como dizemos quando pega embalo usando a perna de trás para empurrar o solo — para ganhar velocidade até o obstáculo em que dará a manobra que teve em mente, digamos que um fifty-fifty — encaixar os dois eixos de metal sobre uma quina ou um corrimão —, Strobeck filma seu rosto, principalmente seus olhos, sem margem para que apareça na filmagem qualquer outro elemento, e o que vemos pode ser concentração, descontração, frustração, cansaço, raiva, indiferença, ou seja, o estado de espírito que o ser humano em cima do skate carrega em seu interior. Temos, então, em seus vídeos, não só atletas que impressionam pela técnica, mas seres humanos que, antes mesmo de mostrarem do que são capazes na coabitação com os obstáculos das ruas, são flagrados em seus sentimentos mais mundanos, com os quais todas as pessoas podem afinal se identificar. Aprofunda-se, assim, o esporte que, por alguns períodos na história super-recente, foi tachado de mera atividade marginal, subversiva e até criminosa.

O skatista do nosso exemplo, que ainda se dirige ao obstáculo para o fifity-fifty, na imagem de Strobeck, agora já se aproximou e aparece na tomada sem o zoom no rosto. Com seu sentimento captado — digamos que ele vem confiante —, vemos em volta dele e vemos seu corpo inteiro. Assim que o skatista está prestes a subir no obstáculo, a iniciar o movimento para encaixar a manobra, o zoom torna a ser acionado. Agora, entretanto, não foca no rosto; direciona-se mais para baixo, para os pés do skatista, não permitindo, nesse caso também, que se vislumbre muito além do que o foco: os calçados e pedaços do skate. Assistimos a um pequeno e rápido balé, mais gracioso do que o da transeunte anônima apaixonada por skatistas no topo deste texto, e podemos notar qual o posicionamento correto dos pés para a manobra em questão. Inevitável, nesse movimento de câmera de Strobeck, que, depois de nos identificarmos com o ser humano skatista; observarmos a locação em que filmam; aprendermos como se executa com propriedade uma manobra, somos obrigados a encarar as logomarcas dos tênis: Nike, Adidas, Converse, Vans, New Balance etc. A essa altura, pouco importa se o skatista acertará a manobra, e é comum que Strobeck mantenha na edição final tombos que jamais se convertem posteriormente em acertos; parece que os objetivos de sua cinematografia já foram atingidos: capturar o sentimento (pelo semblante) do ser humano e logo em seguida, de quebra, divulgar a propaganda dos patrocinadores, as grandes empresas que bancam boa parte da indústria do skate.

Os ângulos de Strobeck fizeram do movimento rosto-corpo-pés uma tendência, ou mais que uma tendência: um modo de filmar skate praticamente obrigatório. Depois de Cherry, ele mesmo publicou vários outros vídeos, e todos seguem e acentuam esse modus operandi, muitas vezes de maneira repetitiva e, portanto, previsível. E não só ele o faz, pois é comum que vídeos no YouTube, através de canais de grandes mídias, como o da Thrasher, e pessoais, como os de skatistas amadores, vá lá, do Brasil, se valham do ser humano para chegar até a exposição do produto a ser consumido, de propósito ou não.

Garotos assistem às manobras de Dylan Rieder.

Igual a outros skatistas, Dylan Rieder foi ele mesmo um produto, em termos de desejo: além da transeunte anônima que, se não tivesse sido cortada pela edição, provavelmente admitiria que estava excitada em falar de skate com ele, skatistas de todo o mundo o imitam até hoje nos trejeitos, no corte das calças, na seleção de manobras. A um adolescente no Brasil, seja no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, na Praça XV de Novembro, no Rio de Janeiro, ou na Ilha do Marajó, no Pará, está em oferta a oportunidade de se parecer com uma das estrelas de Cherry. O adolescente compra os Vans Era Pro pretos, faz a bainha das calças, penteia o cabelo e, mais importante, confia que um de seus colegas skatistas o filmará da cabeça aos pés. Quem sabe assim terá em suas redes sociais vídeos que o ponham em igualdade com o que aparece nos ângulos de Strobeck.

Admito que peso a mão para criticar a reprodução de um estilo americano por parte dos skatistas brasileiros, e não é justo com meus compatriotas, porque a imitação acontece em todo o lugar: eu mesmo já conheci japoneses, filipinos, europeus que seguiam o mesmo roteiro. Tampouco é justo com o que se adquire em compensação: ao vestir as mesmas roupas e carapuças, chamar as próprias edições de “vídeo parte” em tradução literal de video parts, posar do mesmo jeito que Dylan Rieder ou qualquer outro skatista de lá, além de mimicar, o skatista brasileiro também sente, não obstante, a satisfação imensa que é acertar seus flips, por exemplo.

Neste texto, já descrevi em que consiste o movimento visível do flip. Agora, se eu precisasse descrever a sensação do que é flipar um skate, porque não há nenhuma câmera filmando meu olhar, eu a colocaria na seguinte metáfora: o pé é o mistério que chuta o universo e o põe em movimento. Esse big bang faz os incontáveis grãos brilhantes da lixa, estrelas por assim dizer, já que estão sobre o fundo preto, expandirem suas distâncias. Vão tão longe, ainda que estejam sempre abaixo de nós, que somem da nossa vista; vão em direção ao chão. Mas o chute, apesar de ser para frente, exige que a expansão atinja um limite e se converta em contração, ou seja, a lixa, ou seja, o universo estrelado retorna para seu início: o mistério, o pé do skatista.

Que, no caso brasileiro, calça um tênis na tentativa de reproduzir em exatidão o estilo americano, sim, é verdade, porém a realidade local acaba por se impor: muitas vezes, o tênis está envolto em fita adesiva, ou emporcalhado com cola quente, todo esfolado pelo atrito. Assim não há tomada com zoom que faça boa propaganda para a Nike; não pega bem. Pode ser também que o sentimento que vai no semblante do skatista brasileiro tenha algo a ver com uma esperança de mudança de vida por meio do esporte. Mas isso é assunto para outro texto, e extrapola o skate, como sabemos pelo caso do futebol em nosso país.

Dylan Rieder se concentrando para uma manobra.

A metáfora universal para uma manobra de skate precisaria ainda de uns quantos ajustes para que faça mais sentido, para que exprima melhor o prazer que é acertar um flip, o toque do skate de volta nas solas. Um dia a ajusto, como quem aperfeiçoa suas próprias manobras aprendidas a duras penas. Por enquanto fica desta maneira, indicando que a fração de segundo de um flip vale pela vida inteira de um universo. Acho que a proporção não está exagerada.