Revista Rosa

Volume 9

9

A “posição entre”

Resenha de Escritos reunidos, de Ruth Mack Brunswick

Às vezes, a nova formulação difere da antiga apenas por uma nuance; mas, com frequência, é exatamente essa nuance que é significativa.

Brunswick, A fase pré-edipiana do desenvolvimento da libido, p. 169

Seeding, Camile Sproesser

Para interessados em psicanálise, os Escritos reunidos de Ruth Mack Brunswick são um verdadeiro presente organizado por Alexandre Socha e a editora Quina. Este é “o primeiro livro em qualquer língua que reúne sua obra completa. Pareceu a Socha imprescindível (…) que o conjunto de seu trabalho fosse publicado pela primeira vez no mundo, em português” (pp. 27–8), como ressalta Renata Cromberg no prefácio do livro.1

Contudo, ouso dizer que a obra é ainda mais importante para quem se debruça sobre as tensões entre psicanálises e gêneros. Não só para fins de amplificação feminina do cânone psicanalítico — o que auxilia no necessário desmantelamento d’“A Psicanálise” denominada de forma artificialmente unívoca, academicamente centrada nas escolas de Sigmund Freud e Jacques Lacan, e, porventura, Carl Gustav Jung —, mas também na recuperação de visões menos masculinistas e heteronormativas no interior do campo.

Inicialmente, Cromberg enfatiza o desconhecimento generalizado da autora: seu nome quase não é mencionado em biografias canônicas de Freud, ausência que salta aos olhos, visto que Brunswick era conhecida por ser a “preferida” do pai da psicanálise nos seus últimos 15 anos de vida. No posfácio do livro, Socha tenta desvendar os motivos para o apagamento de Brunswick no debate psicanalítico: sua hipótese maior é centrada na relativamente pouca produção da autora:

do ponto de vista científico, [Brunswick] jamais chegou a cumprir totalmente as expectativas que lhe depositaram Freud e outros. Sua obra consiste, ao todo, em 6 artigos e em um debate, cobrindo um período de 24 anos de prática psicanalítica: os dezessete primeiros em Viena, e os sete finais em Nova York, para onde retornou após a morte de Freud. O número reduzido de publicações, quando comparado ao de seus contemporâneos, pode ter contribuído para o esquecimento de sua obra. Mas, há também outros fatores que possivelmente influenciaram seu destino (p. 231)

Tais fatores suplementares incluem sobretudo a toxicomania adquirida por Brunswick, que procurava por alívios de dores crônicas em opiáceos, o que a levou a um final de vida precoce e trágico.

Mas, a cena se complexifica quando Cromberg e Socha ressaltam fatos inusuais envolvendo a relação de Freud com Brunswick, o que denomina uma primeira tensão que envolve uma reflexão sobre limites borrados entre teoria e prática, e entre relações pessoais e clínicas. Em um momento em que o psicanalista acompanhava apenas cinco pacientes no total, Freud atendia Ruth Brunswick cinco vezes na semana, e também a via em ocasiões sociais, sendo ela “quase parte da família”. Se as análises guiadas por Freud costumavam durar apenas alguns meses, a de Ruth Brunswick se alongou por dezesseis intermitentes anos. Além disso, Freud teria sido não somente testemunha do casamento de Ruth com Mark Brunswick, como atendia clinicamente seu esposo, desrespeitando as regras da Associação Internacional de Psicanálise (IPA) em que um psicanalista não poderia acompanhar membros de uma mesma família. E o que era problemático se mostra ainda pior quando se sabe que Freud discutiu o caso de Mark com Ruth, lamentando-se disso posteriormente.2 Ela era, por fim, médica pessoal de Freud, dividindo tal função com Max Schur, analisando de Brunswick.

Diante de tal vínculo no mínimo controverso, Socha conclui consistentemente que “o edifício psicanalítico é construído sobre um terreno de relações interpessoais e políticas institucionais, estas, por sua vez, inseridas em contextos sociais e históricos específicos” (p. 233). Em total acordo, proponho uma continuidade dessa ideia, baseando-me, entretanto, em uma perspectiva crítica que salta aos olhos (novamente) por sua ausência nos textos do prefácio e posfácio: a saber, a de que o apagamento da autora se deve também a uma problemática de gênero que, mesmo que vivida de modos ligeiramente diferentes na Viena da época e na contemporaneidade psicanalítica em geral, é uma das marcas distintivas da recepção da psicanálise por pessoas interessadas e debatedoras nos últimos 120 anos.

Não se pode negar a importância do gênero da autora, que compunha o círculo de psicanalistas mulheres de onde chegaram as primeiras críticas feministas à teoria freudiana. No entanto, o que chama a atenção, ao contrário do que encontramos em Marie Bonaparte, Karen Horney, Helene Deutsch e Jeanne Lampl-de Groot, por exemplo, é a ausência de uma crítica direta de Brunswick à teoria freudiana. Mais de uma vez, Cromberg e Socha ressaltam como, em toda ocasião em que Brunswick propôs uma ideia original, ela, ao mesmo tempo, esforçou-se por (ou teve a capacidade de) adequá-la ao quadro metapsicológico freudiano (p. 23, p. 237).

Socha nos diz que esta seria uma precaução da autora diante da suscetibilidade de Freud a discordâncias com seus seguidores — tendo rompido com Wilhelm Fliess, Josef Breuer, Jung, Alfred Adler e Otto Rank (para ficar apenas entre alguns dos mais famosos). Especulo aqui se não haveria, no caso de Brunswick, uma questão de gênero que teria guiado o tratamento não oposicionista e não ameaçador da autora enquanto discípula de Freud. Embora não se possa provar a intenção por trás da resolução de compromisso da autora entre a sua própria originalidade e a adequação teórica a Freud, é patente que o cuidado em se mostrar inovadora, mas se precavendo de ferir o ego da autoridade masculina, é uma prática corrente entre intelectuais e profissionais mulheres. Por mais que tal associação corra o risco de ser projetiva e anacrônica — uma vez que, pode-se dizer, alguns homens ao redor de Freud também assumiam tal posição “feminina” diante do “patriarca” a fim de evitar desentendimentos —, creio que não pode deixar de ser mencionada.

Além disso, o investimento da autora em problemáticas não centradas em conceitos vinculados ao ambiente masculino também pode ter contribuído para o seu apagamento na história da psicanálise, visto que temas que fogem ao edípico, paterno e fálico só muito recentemente ganharam holofotes entre os especialistas.

É bastante enfatizada no prefácio e no posfácio a inauguração do conceito de “fase pré-edipiana” por Brunswick, que o emprega em 1929 na descrição do caso de uma analisanda intitulado “Análise de um caso de paranoia (delírio de ciúme)”. Esse caso parece diferir bastante de seu outro texto, bem mais famoso, “Um suplemento à História de uma neurose infantil, de Freud” escrito apenas um ano antes, em 1928, onde é narrada a sequência do caso do Homem dos Lobos empreendida por Brunswick sob indicação de Freud.

Entretanto, além de desfazer a imagem de Brunswick como sendo apenas a psicanalista que analisou o caso do Homem dos Lobos após Freud (ou seja, uma mulher em referência a dois ilustres homens), Socha é hábil em apontar que o distanciamento entre os textos é apenas aparente, alertando-nos para os pontos de encontro entre ambos. Para tanto, Socha se baseia principalmente em excertos não publicados pela autora sobre o caso do Homem dos Lobos relativos a sessões esporádicas com Brunswick que aconteceram principalmente ao longo da década de 1930,3 isto é, após a publicação do seu texto em 1928, onde é citada uma nova lembrança4 infantil do Homem dos Lobos — algo ao que irei retomar em momento oportuno.

Por mais que seja bastante interessante a recuperação, mesmo que indireta, do texto inédito de Brunswick, ressalto que há elementos contidos nos dois casos clínicos narrados pela autora que já ilustram o vínculo pré-edipiano existente entre ambos. Procurarei demonstrar como os dois casos encontram seu núcleo em fortes vínculos com figuras femininas pré-edípicas, o que favoreceu a “posição entre” de ambos os pacientes, levando a uma psicose paranoica hipocondríaca e psicose paranoica de ciúme.5 Contudo, minha hipótese é que tais pontos de encontro, enquanto possível originalidade teórico-clínica da autora, foram nuançados nos textos. Ao se ler os escritos de Brunswick, suas inovações não aparecem bem demarcadas, uma vez que a autora evita apresentá-las por retomadas e contraposições, o que faz com que a humilde descrição sem qualquer destaque estilístico nos conduza a passar inadvertidos por ideias bastante originais.

Distribuindo diferentemente suas ênfases interpretativas, no Homem dos Lobos, Brunswick segue a tônica freudiana ao apresentar a hipótese de uma regressão à identificação feminina anterior à fase edipiana, mas o faz realçando o que se deriva dela, a saber, a posição passiva de Pankejeff em relação ao pai; ao passo que, no caso de delírio de ciúme (caso clínico este “completamente seu”, por assim dizer), Brunswick assume plenamente a centralidade diagnóstica e etiológica de uma fixação identificatória e de objeto na fase pré-edipiana, de forma que os elementos edípicos praticamente não são percebidos, mas só aparecem a partir do encaminhamento final da paciente para uma relação heterossexual com seu esposo.

Antes de adentrar em tais textos, apresento um breve histórico dos escritos da autora: entre 1926 e 1927, Brunswick analisa o Homem dos Lobos por cinco meses, por indicação de Freud, escrevendo seu “Suplemento” em 1928. Em 1929, Brunswick inicia o caso clínico do delírio de ciúme, que irá durar dois meses e meio, culminando no texto “Análise de um caso de paranoia: um caso de delírio de ciúme”, também publicado em 1929. Ela leva esse caso clínico ao conhecimento de Freud e com ele começa a redigir em conjunto, a partir de 1930, o artigo “A fase pré-edipiana do desenvolvimento da libido” que só será publicado dez anos depois, em 1940, em um volume da Psychoanalytic Quarterly em homenagem a Freud, falecido no ano anterior. O motivo da demora na publicação desse texto é mais uma situação de tensão entre Freud e Brunswick, como atesta Socha: “Não é de todo improvável, nesse caso, que a autora tenha aguardado a ausência de Freud para expor algumas ideias, ainda que tenha anunciado que se tratava de um trabalho colaborativo” (p. 240).

Começarei minha análise genealógica dos últimos para os primeiros escritos, quer dizer, dos textos de 1940/1929 para chegar ao de 1928. Afinal, uma visão em retrospectiva pode fornecer mais clareza aos aspectos pré-edipianos apresentados apenas de modo difuso no caso do Homem dos Lobos.6


Passemos ao caso clínico do delírio de ciúme, que narrarei de forma resumida, elencando apenas os detalhes mais relevantes.

Trata-se de uma paciente7 de 30 anos, branca, pobre, casada com um homem há dezesseis meses, que chegou a Brunswick encaminhada de um centro psiquiátrico por tentativa de suicídio. A paciente foi cuidada por sua irmã dez anos mais velha, Louise, desde seu primeiro ano de vida, dado o adoecimento da mãe. A mãe morre quando a paciente completa 3 anos e ela é enviada para o campo, na casa de uma tia, ficando lá entre os 4 e 11 anos. Quando tinha 14 anos, a irmã Louise, que havia se tornado uma prostituta, é internada por paralisia. Aos 19 anos da paciente, sua irmã morre com 29 anos. Por fim, ao completar 29 anos, irrompe o delírio de ciúme da analisanda.

O ciúme, inicialmente narrado como sendo do marido em relação à madrasta, é desvelado ao longo da análise como sendo, na verdade, um ciúme das atenções que a madrasta dispensa ao homem recém-chegado ao núcleo familiar. Trata-se de um “ciúme duplo, onde a raiz homossexual é o determinante” (p. 122). Nas sessões, descobre-se que a madrasta era a substituta da irmã, por quem a paciente foi seduzida desde por volta dos 2 anos de idade: Louise masturbava sua irmã mais nova a fim de ensinar como esta deveria masturbá-la de volta.

No entanto, com o passar do tempo, Louise se volta para interesses heterossexuais externos, tornando-se sexualmente rigorosa com a irmã mais nova, ou seja, proibindo aquilo que ela mesma havia anteriormente estimulado. A paciente torna-se muito ciumenta em relação à irmã (uma “odiadora de homens”), sentindo raiva de Louise. “É evidente que a paciente odiava os amigos homens de sua irmã porque os considerava responsáveis ​​pelo fim das relações onanísticas entre ela e sua irmã” (p. 122). Há uma intensa culpa tanto pelo desejo homossexual por Louise, que passa a ser proibido, quanto por traí-la com masturbações mútuas realizadas com uma amiga do campo e com animais fêmeas — elementos de vingança pela rejeição da irmã. Uma vez adulta, a paciente é praticamente frígida justamente por ter associado o marido à irmã, havendo a expectativa de satisfação sexual masturbatória no casamento, frustrada pela penetração para a qual a paciente nunca fora preparada. “É óbvio, no presente caso, que a homossexualidade inconsciente da paciente foi a causa da doença precipitada pelo casamento: nada no desenvolvimento da paciente a preparou para o coito.” (pp. 160–1)

Brunswick esclarece como o delírio de ciúme encobria delírios de perseguição, cuja raiz libidinosa se encontrava na “fixação patogênica na menina mais velha” (p. 134), em específico na culpa inconsciente pela raiva reprimida que sentia da irmã, bem como pelo desejo de vingança contra ela, sentimentos que passaram a ser projetados como vindos de fora.

Tal caso, quando aproximado do texto publicado em 1940, demonstra ser muito prolífico para a compreensão da fase pré-edipiana, em especial na menina cisgênero. Em 1940, Brunswick segue Freud dos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905) ao reorganizar as fases de desenvolvimento a partir de três momentos: fases passiva-ativa, fálica-castrada e feminina-masculina. De certa forma, essas fases já se encontram na descrição do caso clínico de 1929, mesmo que de forma menos clara.

Iniciemos a partir da fase passiva-ativa: se a Louise figura tanto como sedutora quanto substituta da mãe, podemos dizer que a paciente aparece necessariamente, em sua primeira infância, como passiva diante dos cuidados ativos da mãe/irmã. Se no caso das cuidadoras não abusadoras, a base sedutora da masturbação infantil viria do toque e higiene da mãe sobre o corpo da criança, podemos dizer que, no caso clínico, tal sedução foi exponenciada. Tanto em condições “normais” quanto patológicas, a atividade da criança viria justamente da identificação com a mãe: a criança passa a se masturbar justamente para imitar ativamente o que a mãe a incitou a fazer. Contudo, iniciada a masturbação, a mãe passa a reprimir a atividade conquistada por identificação, o que gera agressividade defensiva por parte da criança (que visa garantir a diferenciação intersubjetiva e atividade alcançadas), hostilidade reprimida diante da ambivalência pelo amor sentido pela cuidadora. Assim, “um indivíduo impedido em seu desenvolvimento geralmente regride; quando mais atividade exigida pelo desenvolvimento é bloqueada, ocorre uma regressão mais profunda a um nível ainda anterior, mais passivo” (p. 178). No caso da paciente, não houve regressão, mas fixação à fase pré-edipiana, tornando-a sexualmente frígida, já que homossexualmente reprimida e sem condições para atingir a fase edípica que poderia abrir caminho para uma heterossexualidade satisfatória.

Algo bastante inovador a se notar é como, para Brunswick, a segunda fase (castrada-fálica) ocorre ainda em um ambiente pré-edípico, não havendo envolvimento direto do pai. Por diversas vezes, a autora cita como Louise era fálica, em associação direta ao clitóris enquanto órgão de atividade executora. Como comenta Socha: “Enquanto Freud concebe o clitóris como ‘análogo ao membro masculino’, Brunswick o denomina ‘órgão executor da sexualidade’, resguardando implicitamente uma especificidade que não está alinhada ao órgão masculino, mas sim às dinâmicas ativo-passivas na relação com o objeto” (p. 241). A enurese de ambas, Louise e paciente (esta última em clara identificação com a irmã) significa potência: a mãe/irmã apresenta-se “ativa, fálica, onipotente” (p. 178).

Uma diferença importante entre os textos de 1929 e 1940 é justamente a sedução violenta sofrida pela paciente, o que a induz a centralizar suas atenções na fase fálica, passando despercebida para ela a potência do seio materno. Como diz Brunswick, em casos “normais”, a potência da mãe ativa se centraliza no seio, fonte de alimentação, acolhimento e vida. Impressiona a formulação de Brunswick para quem, no geral, a passagem da fase ativa à fálica se dá por associação entre seio e falo maternos, e não a partir da percepção visual engrandecida do órgão do pai em comparação com o da mãe, como em Freud. Além disso, a castração infantil não estaria primordialmente vinculada à inveja do pênis do pai, mas à punição à masturbação estimulada homossexualmente, bem como ao sentimento de insuficiência para se conseguir o amor da mãe.

O amor homossexual, uma vez reprimido, acaba por impedir a atividade masturbatória, induzindo à castração. A atenção ao pênis não ocorre por insuficiência da mãe, que segue sendo potente, mas na tentativa de alcançar o amor de uma mãe heterossexual — como fica claro no ciúme da paciente por Louise e o subsequente ódio aos homens, bem como no delírio de ciúme posterior: “A paciente odeia o marido por possuir o pênis que ela não possui e com o qual ele pode conquistar a mulher que ela ama” (p. 129). A superioridade do falo masculino é uma decorrência que só aparece a posteriori, por associação regressiva diante da impotência em se obter o amor da mãe.

Duas observações importantes decorrem dessa singular formulação pré-edipiana de Brunswick: se em Freud o desejo de se ter um bebê seria um substituto do desejo de se ter um falo como o do pai, para Brunswick a mãe ainda permanece no papel principal da cena e a ordem dos desejos é invertida: “a criança quer tudo o que a mãe onipotente e possuidora tem, a fim de fazer tudo o que a mãe faz; e uma mãe é, acima de tudo, a possuidora de um bebê” (p. 187). Em rara alusão, mesmo que escamoteada, à teoria freudiana, a autora escreve:

ao contrário de nossas ideias anteriores, o desejo do pênis não é trocado pelo desejo do bebê que, como vimos, de fato o precede há muito tempo. (…) Originalmente narcísicos, ambos os desejos, em seguida, encontram raízes transitórias na relação com a mãe antes de, finalmente, ligarem-se permanentemente ao pai (pp. 188–9).

O desejo de se ter um bebê seria um veículo para a transferência da importância da mãe para o pai, motivo para que a criança, só agora, inveje ter um pênis para engravidar a mãe. A fase feminina-masculina, primordialmente edípica, só se inicia quando a criança aceita a castração e a própria incapacidade de engravidar a mãe.

No caso clínico de delírio de ciúme, tal desejo de se ter um filho da mãe/irmã não foi alcançado: seja porque o desenvolvimento da sexualidade foi fixado em um momento anterior, seja ainda porque Louise, com quem a paciente se identificava, não se tornou mãe. Assim, não houve passagem para a fase edípica na paciente, de forma que seu pai e as demais figuras masculinas (com exceção do esposo, associado a Louise) não são retratados como significando papel algum na constelação identificatória e de desejo da paciente.

Em segundo lugar, não haveria diferenciação sexual na fase castrada-fálica, uma vez que o falo é vinculado à mãe e não ao pai, a criança permanecendo em um ambiente hegemonicamente feminino. Embora a explicação metapsicológica a tal diferenciação não apareça em parte alguma do texto, há certas passagens em que ela denuncia a força repressora que incide sobre a sexualidade feminina de forma bem mais acentuada do que na masculina:

Uma das maiores diferenças entre os sexos é a enorme extensão em que a sexualidade infantil é reprimida na menina. Exceto em estados neuróticos profundos, nenhum homem recorre a qualquer repressão semelhante de sua sexualidade infantil. A repressão da menina frequentemente resulta em grave limitação de toda a sua sexualidade, com lesão psíquica permanente (p. 189).

Uma vez que a repressão que aparece na fase fálica-castrada é aquela que incide sobre a masturbação associada ao amor da mãe, no caso das meninas o que é repreendido é a homossexualidade.8 Se o impedimento da homossexualidade feminina frequentemente torna as mulheres frígidas, o que se combate culturalmente, então, é a sexualidade feminina originariamente lésbica.

Longe de associar completamente a homossexualidade feminina ao trauma da sedução, como no caso da paciente com delírio de ciúme, no texto de 1940 Brunswick demonstra a frequência das fixações homossexuais nas mulheres em geral:

nenhum trauma particular, como a sedução, é essencial para a produção desse quadro clínico que, em vez de ser excepcional, provou ser extraordinariamente comum. A mulher subdesenvolvida e primitiva, com escassa heterossexualidade e um apego infantil e inquestionável à mãe, apresenta-se quase regularmente a uma mulher analista (p. 195).

Por mais que Brunswick siga Freud ao associar a normalidade à heterossexualidade,9 a citação demonstra que o que causa anormalidade não seria exatamente a homossexualidade ou a bissexualidade, mas a não assunção dos direcionamentos pulsionais e libidinais diversos impossibilitados por obra da repressão social. É assim, por exemplo, que Brunswick demonstra como a sua paciente permaneceu libidinalmente confinada em um limbo sem gênero não por posicionamento desconstrutivo, como se vê na contemporaneidade, mas por fixação patológica: “Ambos os desenvolvimentos feminino e masculino estão bloqueados” (p. 165).

Os cruzamentos de elementos hétero e homossexuais são plenamente assumidos pela autora, havendo momentos interessantes de escolha de vocabulário: chamo atenção particularmente ao uso do verbo “to pique” que é empregado de forma ambivalente, significando tanto “aborrecer” e “irritar”, geralmente vinculando-se ao menosprezo, quanto “instigar”, “estimular” e “interessar”, ilustrando a relação cruzada de contraposição e vinculação entre os objetos e relações heterossexuais e homossexuais em uma formação psicossexual tomada de forma extremamente complexa. Na análise do caso clínico, o termo aparece em dois momentos: “Certas motivações homossexuais para a promiscuidade heterossexual são evidentes: as relações heterossexuais são usadas para atingir [to pique] o objeto homossexual; no entanto, elas também são um meio de separar a irmã de seus amantes. A paciente toma os amantes de sua irmã para impedir sua irmã de os desfrutar.” (p. 144) E a segunda menção:

Ela [a paciente] compreende tão bem a natureza análoga da presente situação que eu lhe pergunto quem poderia ter sido a mulher a quem ela recorreu quando criança na ocasião em que quis vingar-se de sua irmã (…). Ela responde que só pode ter sido sua madrasta e acrescenta que sempre achou estranho gostar de uma mulher tão consistentemente cruel com ela. Assim, vemos que a madrasta foi originalmente escolhida para importunar [pique] a irmã negligente; foi só mais tarde que ela se tornou uma substituta daquela irmã e, como tal, objeto do ciúme homossexual da paciente (p. 149).

Antes de nos voltarmos ao caso clínico do Homem dos Lobos analisado por Brunswick, gostaria de desdobrar outras duas nuances do debate da autora com Freud elaboradas nos textos de 1929 e 1940, a saber, a questão da possibilidade de clínica com psicóticos e a inauguração do conceito “fase pré-edipiana”.

Como um dos principais exemplos de adequação da autora à teoria freudiana, ou de desvio original de Freud sem confrontação direta, Brunswick elabora, em diversos momentos, explicações para justificar o andamento bem-sucedido de seus dois casos clínicos de paranoia, algo previsto por Freud como impossível, dada a “estrutura narcísica [psicótica que] inviabilizaria o estabelecimento de uma relação transferencial entre paciente e analista” (p. 238). No caso do delírio de ciúme, a autora elenca o “nível primitivo da paciente” que aparece em “desacordo com a paranoia” tomada como um sistema robusto de explicações lógicas em indivíduos com alto grau de desenvolvimento racional e argumentativo. Tal percepção em geral, contudo, destoa de alguns casos em que os sintomas de delírio são apenas locais, não afetando toda a estrutura cognitiva dos pacientes.

Além da “doença inapropriada” de sua analisanda, sua patologia também é explicitada como atípica em relação à base formadora: em vez de uma regressão, mais difícil de ser revertida, porém mais comum em casos de paranoia, a paciente sofreu uma fixação de desenvolvimento, o que teria possibilitado a sua cura. A explicação fornecida para a estranha facilidade clínica do caso é a fixação da paciente em caráter e simplicidade infantis,

responsáveis pela rapidez da análise. De fato, a comparação com a análise de uma criança é mais do que uma mera analogia. Essa paciente tinha, de fato, permanecido uma criança. O trabalho analítico consistiu, puramente, em eliminar uma fixação. Até a repressão da homossexualidade era de uma natureza primitiva, sem a habitual elaboração [elaboration] neurótica e consequente regressão. Assim, a tarefa analítica foi enormemente simplificada; não havia um longo caminho a ser rastreado antes de se chegar à fonte real da doença. Sem dúvida, a estrutura primitiva da psicose explica sua acessibilidade ao tratamento (p. 162–3).

Há, ainda, questões de gênero envolvidas, uma vez que o delírio de ciúme se encontra diretamente vinculado às mulheres — por motivos que podemos especular como sendo, inclusive, não patológicos, mas reais em sociedades masculinistas e machistas.10 Assim, “em contraste com a paranoia persecutória filosófica e sistematizante, o ciúme delirante é, ao mesmo tempo, feminino e rudimentar e, por assim dizer, mais próximo do normal e do neurótico” (p. 154).

A insistência no caráter local de delírios em pessoas, de resto, “normais” é uma das justificativas para Brunswick questionar, inclusive, se a paranoia seria, de fato, rara:

Alega-se que a paranoia é uma psicose rara. Se basearmos nossa estimativa em estatísticas institucionais, a afirmação está correta. Mas a própria natureza da paranoia, seu caráter circunscrito e primordialmente local (…) ajuda a mantê-la fora das instituições. Muito da personalidade do paranoico permanece, se não intacto, pelo menos capaz de autossustentação (p. 154).

Quanto à inauguração do termo “pré-edipiano”, Cromberg menciona a disfarçada reclamação de autoria do conceito por parte da autora:

Brunswick afirma com muita delicadeza sua antecedência na elaboração do conceito, provavelmente para não ferir a suscetibilidade de Freud: “Até onde sei, o termo ‘pré-edipiano’ foi empregado pela primeira vez por Freud em 1931 na obra citada [Sobre a sexualidade feminina] e por esta autora em ‘The Analysis of a case of Paranoia’, publicado em The journal of nervous and mental disease”. Apenas as datas da publicação apontam a antecedência (p. 14).

Nota-se que a única data explicitamente citada na passagem é a do texto freudiano, sendo omitida pela autora a data anterior de seu próprio texto. De fato, no texto de 1929, o termo aparece em duas ocasiões, sendo fortemente defendido pela autora a partir de sua fidelidade ao material clínico, posicionamento ético que demonstra como a teoria psicanalítica é empregada por ela de forma secundária:

Não pode haver dúvida quanto à profundidade do material aqui analisado; dizer, portanto, que uma situação edipiana deve ter estado presente, apesar de seu não aparecimento, é aplicar uma regra independentemente da observação. Na realidade, as fixações em um nível pré-edipiano estão teoricamente bastante estruturadas; de modo que não há necessidade de falsificar a observação clínica a fim de explicá-la com base na teoria preexistente. (…) De fato, não há avanço além da situação original e nem uma reação contra ela (pp. 164–5).

Tal posicionamento a levou a embates no interior do campo psicanalítico, que reagiu na defensiva da fase edipiana recém-formulada, já que ainda lutava para estabelecer a veracidade de ideias “extravagantes” (como as da sexualidade infantil, complexo de édipo e complexo de castração) na cultura em geral.

Embora concorde politicamente com Cromberg sobre a importância de ressaltar a autoria de ideias formuladas por mulheres que, no geral, sofrem apagamento e não recebem o devido crédito por seus trabalhos, questiono se talvez o que esteja em jogo aqui seja algo diferente do que se denomina certa “perspectiva colonizadora” que procura por uma origem única de novidades, descobertas, inaugurações e invenções “do nada”. Se, de um lado, muitas das ideias retomadas por Brunswick sobre a fase pré-edipiana se encontram dispersas em produções freudianas, principalmente nas situadas na primeira tópica; de outro, é de grande valia a formulação conceitual, por parte de Brunswick, da “fase pré-edipiana”, o que promove uma organização consistente e criativa de noções freudianas que são adicionadas a suas próprias ideias inovadoras. Por isso, tanto nas relações pessoais quanto nas citações mútuas11 entre Freud e Brunswick, pode estar em operação um outro modo de funcionamento bastante interessante quanto aos limites indeterminados entre eu e outro: seria possível dizer que ambos permitiram se permear à alteridade em suas especulações criativas. Algo bastante fidedigno à prática de pesquisa em geral, que não é realizada em isolamento completo, sendo bem mais frutífera quando é produzida em parcerias e cooperações — mesmo que nesse “lugar entre” haja tensões e conflitos nem sempre conscientes, além de limites anuviados e nuances excessivas.


No texto de 1929 sobre o delírio de ciúme, Brunswick menciona ter aceitado “essa paciente para análise porque, acompanhando a análise de um paranoico masculino, eu queria observar os mecanismos na mulher” (p. 158). Uma vez que a autora tratou o caso do Homem dos Lobos menos de um ano antes de aceitar o caso da paranoia feminina, creio que, de certa forma, Brunswick já estava à procura de reflexões mais profundas não somente em relação à psicose paranoica, como também, ouso novamente dizer, relativamente a identificações femininas anteriores ao complexo de Édipo. Assim, a associação entre ambos os casos é realizada primeiramente pela própria autora.

Vejamos, então, os dados mais importantes que aparecem no caso do Homem dos Lobos.12 Relembro como Pankejeff teria iniciado sua primeira análise com Freud entre 1910–1914, de forma que o famoso texto freudiano História de uma neurose infantil foi publicado em 1914. Houve momentos de pós-análise, com visitas esporádicas do paciente a Freud, entre 1919 e 1920. Após um período de alguma tranquilidade psíquica, o paciente procura novamente por análise, mas Freud o encaminha a Brunswick, que o mantém em sessões por cinco meses, entre 1926 e 1927, publicando o “Suplemento” em 1928, com períodos de pós-análise com Brunswick de forma intermitente entre 1929 e 1940.

Inicialmente, a psicanalista notou como o Homem dos Lobos não se assemelhava mais ao paciente descrito por Freud, havendo sinais de mudança de caráter: em vez de ser dominador com as mulheres, o paciente “estava completamente sob o controle de sua esposa (…). A passividade anteriormente dirigida inteiramente para o pai, e mesmo aqui mascarada como atividade, havia agora rompido seus limites e incluído em seu domínio tanto as relações homossexuais quanto as heterossexuais” (p. 56).

Além disso, no momento em que o paciente a procurou, o seu principal sintoma era uma ideia fixa hipocondríaca localizada no nariz: por mais que houvesse, de fato, uma pequena e quase imperceptível cicatriz clara em seu nariz, o paciente reclamava que este órgão estava irreparavelmente mutilado e que “não poderia mais viver assim”, frase repetida de sua mãe. Por mais que certa reflexão sobre seu nariz viesse acompanhando toda a vida do paciente, essa era uma clara identificação com a mãe, que havia chegado em visita da Rússia para Viena com uma verruga preta no nariz, além de um tanto hipocondríaca. Por infortúnio do destino, sua esposa também tinha uma verruga no nariz.

Sua identificação materna se desdobra a partir de uma série de idas e vindas a vários dermatologistas por causa de espinhas, cravos e glândulas sebáceas, momentos em que “ele se olhava no espelho, esperando continuamente que, dentro de alguns meses, tudo ficasse bem novamente. Por enquanto, ele não conseguia encontrar prazer em nada e começou a sentir que todos estavam olhando para o buraco em seu nariz” (p. 41). Até que, após submeter-se a uma eletrólise no órgão, Pankejeff ouve a sentença (proveniente do médico professor X, cuja morte foi anunciada por Brunswick durante uma sessão) de que “as cicatrizes nunca desaparecem”:

E agora um enorme desespero tomou conta do paciente. Ele perguntou como era possível que não houvesse tratamento para tal doença, e se ele estava condenado a passar a vida toda com uma coisa dessas no nariz. O médico o fitou com indiferença e novamente respondeu que nada poderia ser feito. E agora, como afirma o paciente, o mundo inteiro girou ao contrário. A estrutura de sua vida desmoronou (pp. 44–5).

Os sintomas de identificação feminina se estendiam ainda para suas relações com dinheiro: se o paciente acusava anteriormente a sua mãe de se apropriar de sua herança, uma vez empobrecido, Pankejeff começou a escamotear o único capital que ainda tinha, que se resumia a algumas joias. Ele o fez por conselho de sua mulher, agindo com “dissimulação tipicamente feminina”. Tal cenário se complexifica quando esse segredo era guardado de Freud, que arrecadava anualmente uma quantia de dinheiro e a doava ao seu ex-paciente. Não lhe ocorreu que Freud, se soubesse, o aconselharia a manter suas joias para alguma emergência e continuaria a lhe dar o dinheiro da mesma forma.

A hipocondria do nariz e a dissimulação financeira assumiam, então, um véu que encobria a sua mania de perseguição:

[Professor] X. o havia desfigurado intencionalmente; e, agora que ele estava morto, não restava nenhum meio de retaliação. Todos os dentistas o trataram mal e, como ele estava mentalmente doente de novo, Freud também o tratou miseravelmente. Na verdade, todos os profissionais médicos estavam contra ele: desde a sua mais tenra juventude, ele havia sofrido abusos e maus-tratos nas mãos de seus doutores (p. 68).

Nesse sentido, o paciente se via como um filho maltratado pela figura paterna associada a autoridades masculinas, como Cristo, que teve de passar por sofrimentos para salvar o reino do pai, ou ainda o filho mais velho do czar, sacrificado pelas ações do pai.

A fim de compensar a sua passividade e sofrimento diante da figura paterna, o paciente desenvolve uma megalomania — a crença de ser o favorito de Freud:

Dois fatores são evidentes aqui: primeiro, o desprezo por mim e, segundo, o desejo de voltar a fazer análise com Freud ([associado ao] Professor X.). (…) Ele negou isso. Acrescentou que, através de mim, estava realmente obtendo todos os benefícios do conhecimento e da experiência de Freud, sem estar diretamente sob sua influência. Quando perguntei como isso era possível, ele disse que tinha certeza de que eu discutia todos os detalhes de seu caso com Freud, para ser aconselhada por ele! Observei que não era esse o caso, que, no início de sua análise, eu havia pedido ao professor Freud um relato de sua doença anterior e que, desde então, mal o havia mencionado, e nem Freud não havia perguntado por ele. Essa afirmação enfureceu e chocou o paciente. Ele não podia acreditar que Freud pudesse demonstrar tão pouco interesse em seu (famoso) caso (p. 61).

O primeiro ataque clínico visa o desmantelamento da megalomania compensatória, uma vez que Brunswick pensava que a estrutura organizativa do caso clínica se centrava apenas em um resto transferencial do paciente com Freud. A tese seria que, quando este viu Freud já com a saúde fragilizada, o desejo inconsciente de morte do pai forçou os limites da consciência. Para se defender disso, Pankejeff projetou tal agressividade como vinda de fora, criando o delírio persecutório típico da paranoia. Nesse nível, o diagnóstico aparenta seguir aquele descrito por Freud, a de um papel passivo atrelado fortemente à figura edípica paterna.

No entanto, a autora demonstra haver um núcleo a ser ainda explorado por trás da cena edípica. Afinal, o famoso sonho com os lobos, revisitado várias vezes durante a análise com Brunswick, teve sua origem quando o paciente tinha apenas um ano e meio (ou seja, antes de adentrar o complexo de Édipo) e em seu núcleo figurava uma atitude passiva em relação ao pai por identificação com a mãe. Penso, então, se poderíamos aplicar no caso do Homem dos Lobos parte das formulações similares de 1940 relativas ao Édipo passivo: “nesses casos, o menino se apega obstinadamente à sua relação edipiana ativa, que alcançou com tanta dificuldade. O quadro clínico é o de uma profunda fixação materna no nível edipiano, mas um estudo mais detalhado revela que grande parte da fixação é passiva em vez de ativa, e pré-edipiana em vez de edipiana” (p. 192).

Minha hipótese ao aproximar os textos de 1940, 1929 e 1928 é a seguinte: no caso do Homem dos Lobos, Brunswick ainda não havia formulado a hipótese da fase pré-edipiana, algo que só veio a ocorrer no ano seguinte, a partir do caso do delírio de ciúme. No entanto, já se apresentam no “Suplemento” algumas ideias de apego à figura materna anterior ao complexo de Édipo, sendo este o verdadeiro núcleo promovedor de uma ligação passiva edípica compensatória, secundária e derivada ao pai. É assim que entendo como, abordando o caso do Homem dos Lobos, a

bissexualidade primária desse paciente [seria] obviamente a causa de sua doença. Sua masculinidade sempre encontrou sua saída normal; sua feminilidade, por outro lado, foi necessariamente reprimida. Mas essa feminilidade parece ter sido constitucionalmente forte, tão forte, de fato, que, em seu desenvolvimento, o complexo de édipo normal foi sacrificado pelo complexo de édipo negativo. (…) Um complexo de édipo positivo exagerado muitas vezes mascara o seu oposto (p. 90).

Esse oposto poderia abarcar um Édipo negativo/passivo enquanto consequência de um apego excessivo à mãe na fase anterior, pré-edipiana.

No limite, uma vez que Freud apenas lidou com os efeitos secundários edípicos do paciente, este pôde se entregar de forma mais completa à identificação materna pré-edipiana, o que explicaria a profunda mudança de caráter do paciente:

É interessante notar a diferença entre a presente identificação psicótica com a mãe e a identificação histérica passada. Anteriormente, o papel feminino do paciente parecia estar em desacordo com sua personalidade (…). Mas agora não havia dissociação: o papel feminino havia inundado sua personalidade, e ele estava inteiramente unificado a ele. (…) “Ele não interpreta mais a mãe, ele é a mãe, até nos mínimos detalhes” (pp. 82–3).

Tal hipótese de leitura é corroborada pela nova lembrança que aparece em momentos de análise intermitente que ocorreram após a produção do texto de 1928 e que permanece inédita em fragmentos de textos não publicados de Brunswick. Se em 1928, Brunswick defende explicitamente que a análise de Pankejeff realizada por ela não acrescentou materiais novos em relação ao explicitado por Freud, centrando-se em desenvolver a lembrança da observação do coito vinculada ao sonho dos lobos, em cartas trocadas com Jenö Hárnik anos depois, Brunswick admite que

as causas da doença paranoica do homem dos lobos, bem como da neurose anterior, não podem ser explicadas exclusivamente pela cena originária. Para que a cena originária tenha um efeito tão violento, é claro que deve ter havido distúrbios em fases anteriores de desenvolvimento da libido (p. 225).

Os fragmentos não publicados descrevem uma lembrança da Nânia de Pankejeff que, ao cuidar da primeira das muitas constipações intestinais do paciente, o estimulou no ânus com o dedo, seduzindo-o explicitamente, o que desloca a centralidade da interpretação clínica do pai no complexo de Édipo para a substituta da mãe na fase pré-edipiana. Uma vez que esta cena ocorre na primeira infância do paciente, antes do complexo de Édipo, ela reposiciona o caso do Homem dos Lobos na questão da fantasia/realidade na cena do coitus a tergo e vincula o caso em torno de uma sedução pré-edipiana. 

Talvez não seja por acaso que o paciente em quem a relação passiva do homem neurótico com o pai foi apresentada classicamente pela primeira vez esteja agora disponível para a demonstração da mais antiga e, em suas origens, a mais passiva de todas as relações, a da criança com a mãe ou com a substituta da mãe. Tiramos a conclusão, o paciente e eu, de que a sedução evidente por parte de sua irmã era também uma recordação que encobria uma sedução anterior, muito mais prolongada e mais generalizada por parte de sua babá. (pp. 246–7)

Instaura-se, então, no caso do Homem dos Lobos a mesma “posição entre” de uma bissexualidade não aceita e não reconhecida por defesa contra o apego materno pré-edipiano enquanto fonte libidinosa primária da psicose paranoica. Contudo, se no caso do delírio de ciúme o abuso sedutor da irmã fixou a paciente na fase pré-edipiana, no caso de Pankejeff não houve uma fixação, mas o prosseguimento a um complexo de Édipo passivo e não assumido, o que produziu adoecimento. Nesse nível, as relações paternas são afetadas pelo apego não reconhecido à ligação materna anterior, havendo regressões pré-edipianas contínuas atravessadas por elementos edipianos, o que complexifica a cena analítica. Vê-se uma “oscilação pendular do paciente da atitude sádica para a masoquista [que] está (…) refletida na ambivalência presente em todas as suas relações. Assim, ambos são resultados de sua forte bissexualidade” (pp. 84–5).

Brunswick está alerta para a indefinição libidinal por não aceitação dos apegos simultâneos homossexuais e heterossexuais no paciente. Em vez de assumir seu desejo e relações bissexuais, Pankejeff “caiu entre dois lugares” (p. 76). É interessante ainda como, por vezes, aparece em sonho do paciente a imagem de um pajem, figura que é comentada pela autora em 1940 como sendo característica de uma pessoa “sexualmente indiferenciada”, “nem homem nem mulher, mas uma criatura de gênero neutro” (p. 75). Em uma segunda ilustração, Brunswick ressalta a fantasia de útero do paciente, rodeado em um ninho torno dos pais: “é interessante a ideia do paciente de que ele ocupava uma espécie de posição intermediária entre mim e o professor Freud; (…) e um de seus sonhos o revelou deitado ao meu lado, com Freud sentado atrás dele (…). Na linguagem da fantasia do útero, ele está, de fato, participando da relação sexual dos pais” (p. 82), como no caso do coitus a tergo relembrado pelo sonho dos lobos.

O meio de cura passa, portanto, pelo

atual refazer de seus passos infantis em direção à cena que era patogênica pela sua atitude feminina em relação ao pai. (…) O que parecia ser uma escolha entre aceitar ou recusar o papel feminino não era, na verdade, escolha alguma: se o paciente tivesse sido capaz de assumir o papel feminino e assumir plenamente sua passividade, ele poderia ter se poupado dessa doença, que era baseada nos mecanismos de defesa contra tal papel (p. 71).

Nesse sentido, ouso mais uma vez especular como a análise realizada com uma mulher não só “evitou a transferência homossexual” com Freud, como o próprio Pankejeff chegou a formular, mas pode ter sido um fator determinante para a elaboração de sua identificação feminina pré-edipiana que havia sido reprimida, o que possibilitou acessar o verdadeiro núcleo de sua patologia.

Formulo ainda uma última palavra sobre a mudança diagnóstica de neurose, feita por Freud, para a psicose pensada por Brunswick — sendo esse mais um ponto que demonstra uma “posição entre” a originalidade e a adequação à letra freudiana por parte de Brunswick. Apesar de Socha pontuar a “notável liberdade teórica e clínica” (p. 237) da autora em relação ao trabalho de Freud por ela contrariar o diagnóstico de um dos casos mais conhecidos do pai da psicanálise, há passagens em que Brunswick tenta, novamente, encobrir o que pode ser interpretado como um erro diagnóstico13 de Freud ao assumir que houve “duas doenças na mesma pessoa, ambas tratadas com aparente sucesso pela análise. O sucesso do tratamento implica que todo o material inconsciente tenha se tornado consciente e que a motivação da doença tenha se tornado clara.” (p. 86)

Essa formulação me parece bastante problemática por algumas razões: as duas doenças não são apartadas uma da outra, mas pode-se dizer que a psicose seria uma nova formulação do mesmo problema que apareceu, inicialmente, sob a forma de sintomas neuróticos (não havia delírio algum na época da análise freudiana). Isso é reconhecido pela própria autora, que questiona “se o paciente talvez sempre tenha sido um paranoico latente. Um certo suporte para essa crença é encontrado na tendência hipocondríaca manifestada ao longo de sua infância, e em sua timidez e reclusão na adolescência, bem como em sua preocupação com o nariz nessa época” (p. 87–8). Seria ainda difícil sustentar que houve sucesso na primeira análise, pois o principal do material não se tornou consciente: “a parte mais profunda, que permanecera intocada, passou a formar a sua paranoia” (pp. 88–9), a saber, o núcleo pré-edipiano primordial que ocasionou a violência da cena do coitus a tergo. Por isso, juntamente com Hárnik (mas, por motivos diferentes), discordo que “a segunda análise corrobora a primeira em todos os detalhes e, além disso, não traz à luz nenhuma partícula de material novo” (p. 86–7). Também não acho que a preocupação clínica tenha se concentrado apenas em lidar com o resquício de transferência com Freud, que faltava apenas ser melhor elaborado. Afinal, a própria autora admite que Pankejeff reteve o núcleo primordial da sua patologia. Diversamente, parece-me que a primeira análise não foi a fundo o suficiente ao não atingir a identificação materna por si mesma, visto que a vinculação passiva ao pai parece ter sido secundária diante da ligação com a babá na primeira infância.

Embora haja diversas evidências da importância da identificação com as figuras femininas anteriores ao complexo de Édipo (o que eu entendo como sendo a verdadeira novidade da construção analítica do caso por Brunswick), ao final do texto, a autora ainda insiste em não criticar diretamente a elaboração do caso clínico realizada por Freud, enfatizando como as manifestações passivas femininas do paciente estavam vinculadas sobretudo à submissão à figura paterna, e não a uma relação forte e primordial com a mãe:

a forma paranoica da doença do paciente só pode ser explicada pela profundidade e consequente grau de expressão de seu apego ao pai. Na maior parte, essa fixação foi representada pelas muitas e variadas doenças neuróticas da infância e da vida adulta. Essas manifestações de sua feminilidade mostraram-se curáveis (pp. 88–9).


O comentário de Hárnik ao caso do Homem dos Lobos começa com um importante elogio: “nenhum psicanalista deixará de reconhecer Brunswick pela coragem terapêutica com que ela abordou sua delicada e difícil tarefa, nem pela extraordinária habilidade que desenvolveu para executá-la” (p. 212). De fato, é difícil não concordarmos com o grau de perspicácia nas conduções clínicas da autora e na sua produção teórica. Cromberg chega a ressaltar que “Ruth Mack Brunswick foi pioneira no tratamento analítico das psicoses e no estudo do desenvolvimento emocional de crianças pequenas e suas mães, em que se destaca a importância dessa relação na origem da doença mental” (p. 17). Brunswick atua, então, nas fronteiras da teoria freudiana, enfrentando teórica e clinicamente as problemáticas da psicose e da feminilidade, terrenos que Freud tanto hesitou em percorrer.

Demonstrando em que pontos a autora foi mais original e criativa do que ela mesma pareceu admitir, minha exposição refletiu sobre as tensões em zonas de indiferenciação promovidas pela ausência de nitidez dos limites entre ambos os psicanalistas, que assumiu por vezes uma reconciliação mútua saudável, como no caso da autoria do conceito “fase pré-edipiana”, mas que é carregado de excessos de nuances que podem trazer problemas de ordem reflexiva e conceitual de grande monta tanto para a teoria e a clínica, quanto para a relação entre psicanálises e gêneros. De certa forma, a “posição entre” tão enfatizada pela autora nos casos de psicose aqui trazidos pode corresponder, de certa forma, a sua própria posição relativa a seu pensamento e ao de Freud.

Na minha visita ao caso do delírio de ciúme, expus diversas passagens conceituais que derivam da centralidade materna pré-edipiana da autora. Creio que elas ultrapassam em muito o que pode ser denominado de “conservadorismo do falo masculino” de Freud quando este descreve sua versão da fase pré-edipiana, o que permitiu a ele focar apenas até um certo nível na feminilidade por si mesma.

Demonstrei ainda como a importância da fase pré-edipiana já estava, de certa forma, presente em sua formulação no caso do Homem dos Lobos descrito por Brunswick, havendo, no entanto, uma falta de clarividência conceitual só posteriormente alcançada, bem como um excesso de zelo ao evitar discordar frontalmente da construção clínica e diagnóstica do caso anteriormente analisado por Freud.

De forma bastante feminina, contudo, admito que nenhuma das interpretações (certamente ousadas) desta resenha crítica está resolvida: tais problemáticas permanecem em aberto, como deve acontecer com toda pesquisadora dotada de uma curiosidade empática a novas ideias.