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Um novo coveiro para a Argentina

A peste, Renata Pedrosa

Já não sou otimista a respeito de nada; esperando sempre o pior, tinha certeza de que Javier Milei seria eleito na Argentina, dissessem o que dissessem as pesquisas eleitorais. Poderia ser diferente, com seu rival respondendo pelo cargo de ministro da Economia? Num país com 140% de inflação ao ano?

A vantagem dos extremistas é que suas propostas são simples, de fácil disseminação e, normalmente, nunca foram tentadas antes. Quem quiser contestá-las vai perder muito tempo e, com isso, a atenção cada vez mais reduzida de eleitores que vivem no Whatsapp e sobrevivem no desespero.

A torcida agora é para que, embora eleito com forte diferença, Javier Milei tenha um governo curto.

Eu achava que isso iria acontecer com Bolsonaro. Aí por setembro ou outubro de 2018, meu raciocínio era de que, apesar de sua votação se anunciar alta, ele não teria apoio no Congresso; suas medidas mais malucas e as propostas de Paulo Guedes seriam derrotadas, e, de duas uma, ou ele renunciava ou tentaria dar um golpe.

Golpe ele tentou dar, é claro, mas depois. Para minha surpresa, os partidos de fancaria reunidos em torno do bolsonarismo deram ao ex-capitão uma boa base parlamentar. Com tudo e mais um pouco, Bolsonaro chegou ao final do mandato.

O mesmo pode acontecer com Milei — que acabou obtendo a adesão, no segundo turno, de seus rivais à direita. Talvez o controlem um pouco, evitando que cumpra os pontos mais radicais de seu programa, como dolarização, fim do Banco Central, aceno à livre venda de órgãos para transplantes, cortes e privatizações à larga. O discurso vai se moderando, sem dúvida, com a proximidade do poder.

Na Argentina, o ultraliberalismo econômico teve duas experiências de que me lembro com certa nitidez. O ministro Martinez de Hoz reinou durante a ditadura militar de 1976; liberou as importações, acabou com o imposto sobre heranças e desindustrializou o país. Ortodoxo ou não, a coisa não varia muito em alguns aspectos. Martinez de Hoz conheceu altos e baixos, como sempre, no controle da inflação, viu, como toda a América do Sul, a crise da dívida externa e terminou preso por envolvimento em alguns dos sequestros e assassinatos promovidos pelas Forças Armadas.

A peste, Renata Pedrosa

Em outra crise monumental, em 2001, surgiu um cidadão chamado López Murphy. Ele assumiu o ministério, apresentou um plano que cortava todos os gastos públicos: suspendia aposentadorias, bolsas para estudantes, redução dos programas de saúde, aumento de impostos indiretos, corte em auxílio-desemprego, privatizações, diminuição drástica do funcionalismo; tudo era (para a época, talvez) de um radicalismo jamais visto.

López Murphy durou quinze dias. Verdade que não era populista — no sentido do populismo de direita hoje em dia, que promete acabar com a inflação e, junto, acabar com o máximo de impostos.

Populismo assim foi tentado há pouco mais de um ano no Reino Unido, com as maluquices de Liz Truss garantindo maioria de votos junto aos filiados do Partido Conservador. Nomeada para substituir Boris Johnson na liderança do partido majoritário, ela se viu à frente do governo britânico e pôs mãos à obra.

Quis acabar com impostos num momento em que a inflação atingia recordes históricos no país. Foi o próprio “mercado” quem reagiu de imediato a tamanho fundamentalismo de direita. Ela durou 49 dias.

Acusam a esquerda de ser com frequência “irrealista” em seus planos econômicos. A direita, cada vez mais, se expõe à mesma acusação. Quando mais de um candidato conservador tem chances eleitorais, como foi o caso na Argentina, a competição se dá em torno do máximo populismo em termos de impostos, e pelo mais impossível projeto de destruição do Estado.

Cumprir tudo isso, e permanecer no poder? Sendo, além de tudo, um louco, capaz de ouvir vozes, como Milei? É difícil. Mas, como já disse, o pior já não me surpreende. Há implosões em câmera lenta; a América do Sul está inteira nesse processo. Talvez a Argentina acabe antes que nós outros; mas no médio prazo não fará muita diferença.