Revista Rosa

Volume 7

7

Um acontecimento — e seu contrário

Carrinhos 1, Renata Pedrosa

Para quem gostou de O acontecimento, curta novela de Annie Ernaux já resenhada na revista Rosa, tenho uma recomendação. Trata-se de The Millstone (a mó, ou pedra de moinho), da inglesa Margaret Drabble, e seu tema é parecido.

A narradora de The Millstone, como a de O acontecimento, descobre-se grávida, sem estar casada, nem mesmo num relacionamento estável com o pai da criança. A época é a mesma: a primeira metade da década de 1960. O aborto passaria a ser permitido na Inglaterra em 1967; na França, a lei chegou em 1975.

Para as mulheres na situação de Rosamund, no romance de Drabble, ou de Annie Ernoux, o caminho era fazer um aborto clandestino (e O acontecimento narra a violência, física e emocional, a que a narradora é submetida) ou ter um bebê, sem nenhuma estrutura para criá-lo.

Rosamund se beneficia de ter nascido na classe alta, mas sua vida tem a mesma precariedade que a de Annie: ambas estão nos primeiros estágios de uma carreira acadêmica, meio estudantes, meio professoras, sem ninguém em quem se apoiar.

Não vou contar mais do que acontece, mas os livros se aproximam em muitos aspectos que, sem nem pensar na questão do aborto em si, dizem imensidades sobre a situação feminina.

Por exemplo: o momento em que a mulher diz ao namorado que está esperando um bebê. No livro de Annie Ernaux, trata-se de um estudante, morando em outra cidade. “Escrevi a P. dizendo que estava grávida e que não queria o filho. Tínhamos nos despedido sem certezas sobre a nossa relação, e eu senti certa satisfação em incomodar sua tranquilidade, mesmo não tendo nenhuma ilusão sobre o alívio que lhe causaria a minha decisão de abortar.”

A frase — que no característico estilo de Ernaux parece “sair” de sua memória sem muita preparação, como se expelida de dentro dela —, diz muito sobre a ambiguidade de sua própria gravidez. É um momento de grande poder e de máxima impotência. Ela “pode”, aos custos pesadíssimos que se conhecem, interromper ou não a gravidez. Ao mesmo tempo, não tem nenhum poder sobre o relacionamento; o “paizão”, naquela sociedade, não tem “nada a ver com o assunto”.

Algum tempo depois, ela se encontra com P. numa estação de esqui; não se lembra muito das conversas com ele. “Não consigo identificar o que P. era naquele momento para mim, o que eu queria dele. Talvez obrigá-lo a reconhecer como um sacrifício, até mesmo uma ‘prova de amor’, esse aborto, ainda que eu tivesse tomado a decisão em função do meu desejo e dos meus interesses.” Mas mencionar o assunto irrita o rapaz e, de volta a Paris, Annie escreve uma carta, dizendo que não quer mais vê-lo.

Carrinhos 2, Renata Pedrosa

Não se trata, penso, de raiva: ela está se apropriando de sua solidão, de sua gravidez, de seu aborto. Vendo outras mulheres de sua idade, Annie continua sua vida normal, frequentando aulas de literatura e o restaurante universitário. Mas, diz ela, “não estava no mesmo mundo. Havia as outras garotas, com seus ventres vazios, e eu”.

No livro de Margaret Drabble, as coisas não são tão amargas, mas há ainda mais estranhamento, mais solidão e posse. Rosamund “fica” com um jovem gay por uma noite, engravida dele, mas decide não lhe contar nada, nem procurá-lo. O irônico é que, sexualidades à parte, os dois de fato se amam. Uma vez, bem mais tarde, cruzam-se por acaso na rua; quase se atiram nos braços um do outro — mas alguma coisa os impede.

Há uma “vontade exterior” em curso, fazendo com que a personagem de Margaret Drabble, querendo ou não, pensando ou não (e ela pensa muito) simplesmente não saiba exatamente que soluções tomar.

Ela tinha dois relacionamentos, além do rapaz de quem engravidou. Por algum motivo que ela não sabe explicar, “namorava” ambos, mas abstinha-se de fazer sexo. A gravidez, paradoxalmente, parece-lhe uma punição pelo medo que tinha de ter relações sexuais. Entre abortar e não abortar, ela prefere não tomar decisão nenhuma; é a mesma impotência de Annie, com sinal contrário.

Depois daquela noite juntos, Rosamund espera que George lhe telefone. Prepara-se, entretanto, para o fato de que ele não vai telefonar. Havia se despedido dela achando que tudo tinha sido um mal-entendido, uma fraqueza, uma traição à sua própria sexualidade. Ocorre que Rosamund está tão “preparada” para não receber sua ligação, está tão blindada contra isso, que na mesma hora adquire a certeza… de que ele vai ligar! Como estava imaginariamente pronta para qualquer decepção, pode sonhar novamente com o que deseja: a frustração não irá feri-la. Mas ele não liga.

Carrinhos 3, Renata Pedrosa

O livro de Annie Ernaux é também o relato de como ela vai vencendo, página a página, suas dificuldades em lembrar do “acontecimento”. A narrativa do aborto é também a gestação de uma narrativa.

Margaret Drabble fala de uma personagem que, sem querer a gravidez, começa a fantasiar a ideia de um aborto; acalenta o projeto como quem acalenta um bebê. De certa forma, ela “espera” o aborto como quem “espera” um filho.

O direito a decidir sobre a própria gravidez é inquestionável, claro, e o livro de Annie Ernaux é um grito contra a ilegalidade do aborto. Mas, fora dessa questão política, objetiva, a literatura cuida de coisas mais ambíguas: o que é “decidir”? Como “decidimos”, quando temos o direito de decidir? O que é esse “eu”, com “alguma coisa dentro”, e como difere do “eu” das outras mulheres que não engravidaram?

E, afinal, são coisas completamente distintas fazer sexo e engravidar. São fatos independentes; Annie Ernaux compara o momento em que se viu grávida com o dia em que, anos mais tarde, recebeu um resultado negativo para Aids. O amor de Rosamund por George, a relação sexual que tiveram, nada tem a ver com a gravidez que se seguiu. Ela está sozinha — como talvez, em maior ou menor grau, está toda mulher.