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Hay gringos? Soy contra

Cumpleaños IX, Renata Pedrosa

A invasão da Ucrânia completa um ano, e continuo encontrando pessoas no Brasil que não compartilham meu horror diante dos atos de Vladimir Putin, nem meu desejo de que ele seja esmagado.

O sujeito prende jornalistas, condena homossexuais, persegue roqueiras, manda assassinar opositores asilados em outro país, alia-se à direita ultranacionalista e religiosa… mas não adianta. Meus interlocutores acham ingênuo esse tipo de críticas — pois eu estou desconsiderando os malfeitos do “outro lado”, a saber, os Estados Unidos, a Otan, os adeptos da globalização neoliberal.

Minha antipatia pelo modo de vida americano é completa. Não se estende, entretanto, ao modo de vida finlandês, sueco ou dinamarquês, onde um sistema de welfare state com democracia está no campo oposto ao do capitalismo de comparsas posto em prática por Putin.

A questão é que nós, na América Latina, vemos tudo de uma ótica antiamericana. Com boa razão, aliás — nenhum país foi tão nocivo à democracia em nosso continente quanto os Estados Unidos. Parece irreal, assim, que em vez do critério antiamericano seja possível ter, pelo menos, uma simpatia pró-europeia.

O antiamericanismo, por si só, coloca qualquer princípio em segundo plano. Cuba não tem nada de democracia, o regime de Ortega na Nicarágua faz barbaridades, Hugo Chávez e seus seguidores são um desastre, mas… “é o nosso lado”.

Não vejo como identificar esses países com o lado do socialismo democrático, da luta contra as desigualdades sociais, da luta pelos direitos humanos, pelo meio-ambiente e pelo progresso científico e tecnológico da humanidade. É a Europa democrática, e não Putin ou a China, quem se alia aos brasileiros, por exemplo, na defesa da Amazônia.

Acho que quando a esquerda coloca seus princípios em segundo plano, para manter o critério antiamericanista, compra confusão gratuitamente, e perde muito de sua razão de ser. Abre o flanco para críticas injustas — “quem são vocês para falar de democracia?” — e sucumbe a uma lógica que privilegia a Razão de Estado: ser acrítico face a ditaduras é “mais conveniente” para nossos “interesses estratégicos”.

Quando eu estava no colegial, lá pelos meados de 1970, ou seja, em plena ditadura, Getúlio Vargas já era amplamente elogiado como o criador do Estado brasileiro moderno, como criador dos direitos trabalhistas, como líder nacionalista na luta pelo petróleo e pela indústria de base. Tudo certíssimo. Claro, era “populista”, instaurara uma ditadura em 1937, flertara com o fascismo, mas de modo geral fizera muito pelo progresso do país.

OH NO, Renata Pedrosa

Sim. Mas a coisa ia um pouco além. “Habilmente”, diziam meus professores, ele se mantivera neutro nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial; beneficiou-se com essa atitude quando os Estados Unidos finalmente o ajudaram na construção de uma indústria siderúrgica brasileira.

O problema é que, quando se narram os acontecimentos históricos, o resultado pesa mais do que as escolhas éticas envolvidas em cada momento. Ainda que o jogo duplo de Vargas tenha “funcionado”, penso no que estaríamos nós, da esquerda, falando e escrevendo naquele momento. Mais exatamente, quando Vargas prendia Luiz Carlos Prestes e enviava Olga Benário, grávida, para morrer num campo de extermínio nazista.

Isso, sem contar no detalhe histórico daquele raciocínio dos meus professores. Imagino, só por hipótese, se o Brasil desde o início tivesse se posicionado contra Hitler. Poderíamos, em tese, ter a nossa base industrial reforçada até mais cedo… por que os americanos haveriam de apoiar um projeto industrial brasileiro se havia risco de Vargas ficar do lado de Hitler e produzir aço para os alemães?

Peço desculpas pela especulação. É apenas para ilustrar meu ponto: quando as coisas já aconteceram, e tiveram um desfecho satisfatório do ponto de vista prático, os diferentes polos de um dilema ético-político desaparecem; ações erradas se justificam, e serão mencionadas só porque a narrativa histórica está aspirando a um certo grau de objetividade. “Sim, houve erros aqui e ali, mas o sentido do regime X era tal e tal.”

Cumpleaños XI, Renata Pedrosa

Nas atitudes de Lula e de parte da esquerda brasileira com relação à Ucrânia, juntam-se dois fatores parecidos: o anti-americanismo automático e o pragmatismo tradicional do Brasil nas relações internacionais.

Fala-se, por exemplo, “que quando um não quer dois não brigam”. O truísmo lulista esquece um detalhe. Esse um que não quer brigar às vezes apanha até morrer.

Num plano de agressão imperialista, Putin acha que pode dominar a população de um país que não se considera russa, nem quer ser anexada ao território russo. Destrói cidades, mata a população civil e manda milhares de jovens de seu país para a morte e a mutilação.

Sim, me respondem. Mas não pense que os Estados Unidos estejam apoiando a Ucrânia por razões humanitárias ou de justiça; eles têm os seus interesses também. Concordo. Os Estados Unidos fizeram coisas tremendas. No Vietnã, por exemplo. Sou contra Putin, mas não sou cego. A intervenção no Vietnã foi criminosa. Aliás, se bem lembro, fui contra também.