Revista Rosa

Volume 8

8

Sem trabalho, sem esperanças e sem futuro

Pequenos arranjos para depois da queda, Laura Andreato

I

A flexibilização eliminou qualquer esperança em relação às aspirações que o trabalho, enquanto categoria moderna, tinha. A formação necessária à modernidade clássica (1820–1970) foi substituída pela especialização (1970–). Não há mais trabalho, mas trabalhos que no geral servem tão só para a reprodução do trabalhador como mão de obra precarizada e flexível. Por dois anos consecutivos, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) demonstrou que o padrão de vida caiu no mundo inteiro desnudando a corrosão do mundo do trabalho. A flexibilidade significa, entre outras coisas, que ele se tornou uma variável econômica importante aos investimentos. Enquanto tal, o trabalho não pode oferecer resistência às demandas do mercado: os empregos são criados e desaparecem, as especializações são ensinadas para na sequência serem esquecidas e, principalmente, todas as regras do “velho mundo do trabalho” devem desaparecer. Os trabalhadores não têm mais rosto. Portanto, dez, vinte ou trinta anos no mesmo emprego é algo de outra era.

II

Com isso, rompeu-se não apenas os vínculos empregatícios, mas também os solidários com conhecidos que partilhavam de um espaço de trabalho comum. A aceleração dos fluxos de mercadoria, o domínio radical do tempo do indivíduo e a transformação na produção, com espaços transnacionalizados, levaram ao isolamento individual: uma separação espacial com relação aos outros que, embora às vezes vaguem pelo mesmo ambiente, estão dominados por um tempo particular administrado pelo smartphone. Com o radical desenvolvimento da tecnologia, a hierarquização das probabilidades faz com que os smartphones objetifiquem seus usuários ao reduzi-los a um sistema organizado por um fator de incerteza calculado pelos cliques. A necessidade do engajamento de cada um é fundamental para o sucesso das opções e operações organizadas pelo algoritmo.1 Nesse engajamento não há mais lugar para a camaradagem, somos apenas visitantes do lugar de trabalho e podemos ser dispensados ou nos dispensar a qualquer momento. O espaço se tornou em muitos casos desnecessário e a verdade desse fato adveio com a Covid-19. A nossa relação passou a ser inscrita numa temporalidade singular de difusão instantânea de nossas práticas via internet, para lembrar Paul Virilio. E, agora, com a interconexão virtual, paradoxalmente não há mais obstáculos físicos que nos separem nem relações espaciais que nos unam: a mediação social é feita pela virtualidade que impede o encontro. Não há mais conversas senão uma constante comunicação.

III

Também a especialização faz com que saibamos muitas coisas que não têm sentido algum. O único fim de obtê-las reside na busca por encontrar um espaço de trabalho para manter um certo padrão. Este, para ser alcançado, nos faz trabalhar ainda mais. A flexibilização impôs a quebra do regime trabalhista organizado pelas leis conquistadas às duras penas durante o século XX, que davam previsibilidade ao nosso tempo comum. Muitas regras foram desfeitas para tornar os investidores confiantes. O saldo foi a depreciação salarial que levou à escalada das horas trabalhadas através de empregos fragmentados com horários flexíveis e a especialização como forma de manutenção de si. Assim, a precariedade da vida particular é respondida com o subterfúgio da especialização na tentativa de superá-la. Daí a explosão de cursos que prometem resolver tudo e que garante a hiperconexão do indivíduo.

IV

A falta de estabilidade nos impede o usufruto de nossa própria experiência existencial já que estamos sempre gastando hoje, preocupados com o amanhã e fazendo os cálculos possíveis para o próximo semestre. Um paradoxo ocorre na relação do indivíduo com o meio: o adiamento da realização de uma satisfação qualquer é imposto pela precariedade do trabalho flexível enquanto se eleva o consumo imediato como realização pessoal. O trabalho, que em si mesmo não tem sentido, passa a ser subordinado à demanda consumista do indivíduo singular que, para realizá-la, precisa se endividar. Consome-se hoje para pagar pelo resto do ano. A gestão e a logística se tornam algo interno à vida individual. Saber a entrada e a saída dos dividendos, organizar as projeções para o ano e ficar à mercê da insegurança no trabalho são as causas motoras para as novas patologias. Dentre elas, a ansiedade e o burnout vividos no Brasil em escala pandêmica.2

V

Diante do esgotamento das relações estáveis, mediante o fluxo de incontáveis “experiências” que não deixam senão um reduzido aprendizado, ante a necessidade do consumo como sinônimo de felicidade, sacrifica-se o desejo à demanda por satisfação e, portanto, ele é capturado pelas redes do consumo. Na regra não escrita da sociedade contemporânea, o querer instantâneo também deve ser instantaneamente curto. Ter pouca duração para satisfação deve reconduzir a busca por outra. O circuito das infinitas possibilidades, dentro de um quadro posto, precisa ser completo com a anuência do consumidor que reinicia o ciclo ad infinitum. Aqui o pharmakon de Derrida ganha uma realidade vertiginosa: a droga curativa do consumismo, quando mal administrada, se torna um veneno.3 No circuito ininterrupto da sociedade do consumo, o desejo é preso na rede da satisfação e logo mostra o seu vazio. Ao confundir desejo com demanda por consumo é o desejo que perde seu sentido e logo deixa-se de desejá-lo. Então se organiza a depressão como um fenômeno social.

VI

Com a precarização da imensa maioria do trabalho na era da flexibilização, o trabalho cumpre para o indivíduo a finalidade única de reprodução de si como mão de obra barata e descartável. Não há mais a fé moderna de que o trabalho vá providenciar um futuro melhor. A austeridade — desmantelamento do mundo do trabalho, derrubada do sistema social de proteção e redução dos impostos — tornou o horizonte de expectativas rebaixado e perigoso. Empreender se tornou um eufemismo necessário ante relações corroídas pelo desemprego estrutural. Aos poucos, porém, também se perde a fé nesse dogma contemporâneo abrindo espaços para a guerra de todos contra todos.

VII

Forma-se, assim, um novo e curioso fenômeno: o jovem que almeja apenas ser um desocupado. As telas e toda parafernália conectada, que instantaneamente oferece um gozo escópico, se contrapõem à realidade material corroída por anos de austeridade como meta social. Viver na realidade virtual se tornou muito melhor do que na realidade efetiva.