Revista Rosa

Volume 7

7

O ódio às mães

Pequenos arranjos para depois da queda, Laura Andreato

No Brasil o ódio às mães talvez seja superado apenas pelo ódio às crianças e aos velhos. Se a mãe for racializada então… Para além do traço misógino desse ódio, me interesso em pensar sua relação com a forma da nossa própria sociabilidade: seu desdobramento histórico e a reprodução econômico-social envolvidos. Uma primeira pista foi dada pelas marxistas italianas: ela repousa no fato de que, sendo a mãe responsável pelo trabalho doméstico, supostamente alheio às considerações da produção capitalista, não faria parte do assim chamado “trabalho produtivo”. Com seu trabalho desconsiderado, a mãe seria uma espécie “parasitária” que, ao requerer tratamento melhor e cuidados especiais, buscaria, na verdade, privilégios. A extrema-direita brasileira é um augusto exemplo dessa posição.1 Para várias lideranças bolsonaristas, a licença maternidade, de apenas 6 meses, é uma bonificação ultrajante e a mulher inerentemente menos produtiva que os homens.

Às implicações concretas decorrem construções imaginárias que consolidam o papel social da maternidade ligado à forma de reprodução capitalista: a mulher que se torna mãe, e deixa de ser um sujeito produtivo, tem sua liberdade reduzida ao cuidado da criança. Coisificada pelo lugar esperado de uma mãe, ela se torna comprimida num papel idealizado correspondente à manutenção do status quo. Evidentemente essa idealização tem um corte de classe fundamental: trata-se de uma mistificação relacionada às formas de vida das classes altas. Hoje o número de mães solos no Brasil é de 11 milhões e, nesse ano, “somente de janeiro a abril, mais de 56.931 crianças foram registradas sem o nome do pai”.2 Isso significa, entre outras coisas, que essa mãe não só não deixou de ser um “sujeito produtivo” senão que sua “produção” se tornou maior, respondendo até por uma tripla jornada de trabalho.

A resposta ao quadro de exclusão imposto às mulheres, foi a tentativa legítima de chamar atenção para o papel doméstico em geral, e de mãe, em particular, como algo produtivo. Talvez o problema dessa posição, e aqui concordo com Roswitha Scholz, seja o de reduzir o papel idealizado da maternidade à ideia de “produção da vida”, atrelando-o à reprodução de mercadorias. O que pode “abrir caminho a uma reificação ainda maior das relações sociais no plano teórico, uma vez que a “produção da vida”, assim chamada erroneamente, passa também ela a ser apreendida com categorias que se orientam pela produção de mercadorias”.3 Ou seja, a ideia romântica da maternidade permanece intocada e se relaciona com o quadro de reprodução capitalista deixando de levar em consideração à crítica ao trabalho e a forma como ele reproduz o mesmo. A conclusão dessa crítica é a de que a mãe seja reconhecida no quadro do capitalismo como um sujeito produtivo. Como me disse Carolina Freitas ao ler este artigo: “é isso que Federici e a Fortunati, mas também Negri, não entendem: o caráter produtivo do trabalho não tem nada a ver com a importância política que ele pode assumir na luta de classes”.

No entanto, se essa posição está limitada a reivindicar a visibilidade do trabalho produtivo por parte das mães; ela também não deixa de desnudar o caráter coisificado que a categoria “mãe” assume na sociedade direcionada pela reprodução da mercadoria como sentido e finalidade. O fim do trabalho em si mesmo, na moral capitalista, teve como resultado repressão e confinamento da mulher que, tornada mãe, passa a ter a vigilância de um olhar fantasmagórico que lhe cobra o seu lugar. Não à toa, para qualquer um é possível observar o mal-estar que as mães provocam no dito espaço “produtivo” das relações sociais. A amamentação, que muitas vezes se tornou caso de polícia,4 despe esse ódio de sua desfaçatez. Minha amiga Marília Moscowitch não poucas vezes causou furor ao tentar demonstrar como a própria ideia de mãe se correlaciona a uma forma normativa — portanto, atrelada à gestão capitalista — que condiciona as relações e o tolhimento da mulher enquanto possuidora de sua própria vida. E, a meu ver, de fato a crítica à teologia do trabalho, sua ética protestante, nos possibilita desmistificar uma outra faceta: o tratamento da mulher racializada quando se torna mãe.

Para compreender como esse ódio é desdobrado, e dobrado, contra as mulheres racializadas talvez se faça necessário levar em consideração que o imaginário acerca dos racializados se efetivou à sombra de sua exclusão concreta dos processos produtivos de modernização. O racializado é de saída posto na categoria de “vagabundo”, de sujeito incompleto ou a completar-se, e, portanto, de um sujeito improdutivo. Assim, a mulher racializada — seja a indígena, seja a negra — como improdutiva é vista também como provedora de improdutivos. O célebre conservador, ao pensar o processo de modernização brasileira, não deixava de concluir que a “colonização europeia vem surpreender nesta parte da América quase que bandos de crianças grandes: uma cultura verde e incipiente”5 que, para ele, evidentemente, só amadureceria com a cultura do colonizador. O resultado histórico desse processo se traduz num dado revelador: 66% das mulheres que sofreram violência obstetrícia são negras e a mortalidade delas em trabalho de parto é duas vezes maior em relação a mulheres brancas.6

A concretude do ódio, ocultada pela ideologia da maternidade, se associa às relações que a mulher, ao ter filhos, terá no seu dia a dia. Há um imaginário consolidado das mulheres grávidas como entes supra-humanos — os famosos vasos sagrados, como dizia Simone de Beauvoir — que já não podem partilhar da mundanidade social. Na relação com a mulher grávida, os dentes de raposa, que tratam-na como especial, não conseguem negar sua objetificação e o tolhimento que se espera de sua liberdade por se tornar mãe. O trabalho improdutivo — necessário, porém, para a reprodução ampliada do capital — só se sustenta por uma ideologia que impõe o trabalho doméstico como próprio às mulheres. O ter filhos e o trabalho exercido na criação também é visto na imediata correlação com a mulher tornada mãe. Ao semblante mãe imediatamente ata-se a obliteração da mulher enquanto sujeito.

O romantismo da maternidade se atrela, portanto, a uma economia que definirá o lugar da mulher como mãe no espaço social. Acaso essa mulher saia do seu lugar terá fortes censuras e invariavelmente condenações. Sendo assim, a romântica noção de maternidade ideal não oculta a prática de exclusão às mulheres que, ao se tornarem mães, são reduzidas a um trabalho improdutivo, aderindo ou não ao seu lugar esperado na ordem social. Isso se traduz na própria forma como os espaços de convivência social, sobretudo no Brasil, são feitos sem levar em consideração mães ou crianças, enquanto o pai permanece como sujeito ativo da relação. O lar, o ambiente controlado do shopping e, quem sabe, uma reunião com outras mães, são os componentes do mórbido receituário da maternidade ideal. Se acaso uma mãe é vista fora de seu papel esperado prontamente o ódio latirá.