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Diagnóstico psiquiátrico como identidade

Pequenos arranjos para depois da queda, Laura Andreato

Restaram poucos laços capazes de sustentar a atenção subjetiva de alguém naquilo que Hartmut Rosa chamará de “tardo-modernidade”.1 A contínua aceleração do tempo social tornou o espaço um local muitas vezes indiferente ao indivíduo. Tornou-o um mero detalhe, um pano de fundo que sustenta a virtualidade das relações garantidas pelos dispositivos eletrônicos. Quem não visualizou a imagem do adolescente cheio de vida e, no entanto, apático diante de um iphone não entendeu o que quero dizer.

Ante à monstruosa aceleração da vida, passamos a entender o espaço como um empecilho para aquilo que realmente queríamos fazer. “Ter que ir” e “ter que visitar” se tornaram tarefas “torturantes” uma vez que basta ligar a câmera do notebook. O isolamento é algo comum. Mesmo os locais, que na modernidade clássica sustentavam o sentido de ação da experiência subjetiva e orientavam as expectativas de milhares de pessoas, como universidades e escolas, indústrias e lojas, hospitais e hotéis, (e igrejas… neopentecostais, sobretudo) aparecem agora como lugares sem histórias restando cada vez mais homogeneizados.

Paul Virilio, que foi de fato uma Cassandra, sabia, como nenhum outro antes dele, que o excesso de informação seria fundamental para desestimular nossa observação. A captura do olhar, o automatismo que dirige esse olhar, mudou de maneira dramática nossa vivência temporal.2 O tempo conectado é um tempo sem experiência, um tempo morto abrigado num arsenal de dispositivos online que canalizam a atenção através de imagens e engajam o indivíduo de maneira inconsciente a rolar com o dedo para a próxima cena. Vídeos de 30 a 60 segundos no Tiktok e os cortes no reels do Instagram tornaram antiquados os exercícios do olhar contemplativo e da vida imaginativa.

Se já não temos uma vida profissional, mas especializações, se já não temos espaço para uma contemplação dos locais que cruzamos, mas uma observação dirigida por algoritmos de afinidades eletivas, já deveríamos saber também que a aceleração tecnológica não levou à abundância de tempo livre, mas aos grilhões da hiperconectividade que sempre demandam nosso engajamento. O paradoxo curioso é que, nessa distopia realizada, permanece a velha busca por uma comunidade de identificações comuns. Diante da liquidez da realidade contemporânea, para não esquecer do velho Zygmunt Bauman, há uma tendência crescente à busca por um grupo coeso.

E é esse um dos motivos pelos quais a identidade de grupo se coloca como uma forma preponderante da tardo-modernidade: o laço de solidariedade, organizado pela experiência da partilha do ambiente social e do espaço de trabalho, foi substituído, na dinâmica da reprodução capitalista tardia, pela narrativa visualmente constituída das redes sociais. Tudo uma grande performance em sentido rebaixado. Eis o casamento perfeito de uma tendência: a cultura jurídico-democrática nascida da racionalidade neoliberal, que precisou reduzir a potencialidade das identidades aos critérios identificáveis pelos aparatos de controle, teve como resultado a redução da experiência comunitária à identificação identitária.

A eficiência ao atendimento das demandas de identidade, visando impedir possíveis problemas políticos que afetem o mercado, acabou por consolidar uma dinâmica na qual as identidades foram commodificadas. A partir disso elas serão vistas pelo indivíduo como forma de autoinvestimento afetivo-financeiro, e, na interrelação social, um produto validado como reserva de mercado. Como dirá Jodi Dean: “A visão por trás disso é a de indivíduos autocentrados, da noção política como posse, da transformação reduzida a uma mudança de atitude e de uma esfera fixa e naturalizada de privilégio e opressão.”3

Que a identidade se tornou um paradigma de gestão parece ser evidente para qualquer pessoa que pense minimamente sobre nossa política contemporânea. Aparece expresso em todas as bancas de jornais. A novidade talvez resida na falta de substancialidade das novas “comunidades imaginadas”, para lembrar Benedict Anderson, que se criam e se desfazem na mesma velocidade das propagandas. Como o espaço é visto como um empecilho para o melhor uso do tempo, os encontros se tornaram cada vez mais raros organizando diversas fobias dentre as mais famosas: a crise de pânico. Uma vida adoecida, em que sempre se está atrasado, leva como resultado os três candentes sintomas do século XXI: a) depressão; b) ansiedade, e; c) burnout. Faça uma leve pesquisa no olho que tudo vê — Google — e saiba que o Brasil, pelo menos nessa corrida, é campeão.

É por essa estranha porta que adentra a validação universal do discurso psiquiátrico como o do mestre que indica os limites do Eu. A regulamentação normativa da saúde mental, no seu encontro com a medicalização abusiva, se transfigura em segurança e certeza. A partir de então não se precisa atravessar o trauma, basta remediá-lo. Katherine Runswick-Cole num brilhante artigo chamado “The Commodification of Autism: What's at Stake?” (A commodificação do autismo: o que está em jogo?)4 vai demonstrando o poder do diagnóstico como conformação à situação e psseudossegurança ante uma comunidade de sofrimento em comum.

Nesse pé, transtornos psíquicos se tornam formas de identificação reduzindo-se a uma demanda por reconhecimento na esfera estatal, gerando por sua vez grupos de pertencimento balizados pela estereotipia dos sintomas como algo inscrito no cérebro de maneira irreversível. A regulamentação normativa do discurso psiquiátrico — aliado à indústria farmacêutica — se traduz em segurança individual para lidar com os transtornos psíquicos. Diante de uma sociedade radicalmente acelerada — na qual não se pode ficar para trás —, o diagnóstico rápido e (im)preciso serve como possibilidade de seguir na corrida.

A busca compulsiva da certeza e o desespero por soluções capazes de “eliminar” o desconforto, ambas mediadas por um discurso clínico autorizado, conferem, à tipologia patológica, o lugar de uma identificação que precisa ser gerida. É aqui que a identidade de um sofrimento psíquico se elabora. Os remédios se tornam companheiros de jornada, o diagnóstico se torna um horizonte de expectativa, e a troca de receitas entre pacientes, que se tornam exímios especialistas em tarja-preta, constrói um lugar de identificação.

A comunidade, dos assim chamados neurodivergentes, encontra-se sob o enfoque de uma identificação em comum marcada pelo fato de todos estarem de alguma maneira fodidos. Talvez, nenhuma outra comunidade imaginada consiga pôr a nu o quanto a relação com a demanda de pertencimento de grupo se tornou central na vida social contemporânea, cada vez mais esvaziada de uma efetiva experiência de encontro com o outro. Citalopram, o Venvanse usado por faria-limers e estudantes de cursinhos hipercompetitivos, Agomelatina, Amitriptilina, Escitalopram, Mirtazapina e Paroxetina deixaram o Soma de Huxley para trás.