Revista Rosa

Volume 8

8

A comunidade do evangelho comunitário

Pequenos arranjos para depois da queda, Laura Andreato

É preciso levar em consideração que dois casamentos da modernidade clássica, para usar um termo de Hartmurt, chegaram ao fim: primeiro, a união matrimonial do capital/trabalho, e segundo, o da união afetiva de Estado-nação. Enquanto o capital, graças à produtividade, relativamente se autonomizou do dispêndio de trabalho humano — evidentemente essa autonomia não é total; o Estado cada vez mais se transformou num operador financeiro ao criar regras claras para a (des)regulamentação buscando garantias para os investimentos do capital transnacional. Tudo operacionalizado por uma revolução interna da comunicação que, ao permitir a interconexão de mercados globais, organizou uma nova temporalidade na qual o espaço é reduzido à logística.

A radicalidade dessa transformação, que apresentou o novo espírito do capitalismo — uma modernização sem critérios teleológicos de progresso (mantra que serviu ao capitalismo pesado da era fordista) —, também causou uma ruptura na estrutura simbólica (a ideia de futuro, de segurança no trabalho, de formação, de estabilidade, etc.) danou-se e, em seu lugar, novos mandamentos foram assumidos: especialização, flexibilidade, eficácia, satisfação, et caterva.

Com a nova modernização — ou “modernização tardia”, para lembrar Ulrich Beck — consolidada por uma rede global de comunicação estruturada pelo sonho cibernético, com a possibilidade de uma engenharia organizada pela reestruturação produtiva, que teria fracassado não fosse a revolução das intercomunicações, e com a aceleração social causada pelos fluxos de mercadorias, organizou-se uma nova cosmovisão delimitada sobretudo pela ideia de uma individualidade sem alteridade.

Na mega-aceleração do fluxo das mercadorias, o tempo do indivíduo é colonizado na sua integralidade. Desde Debord isso parecia restar claro. Seja com a conexão do trabalho, seja com o lazer conectado, o engajamento na dominação de si promove uma (de)formação ligada aos pressupostos da ampla privatização do espaço público e publicização da vida privada. O advento da era da informação, por meio da consolidação de um espaço virtualmente real para manutenção de fluxos acelerados, organizou uma relação com o outro mediada pela vida virtual.

A base desse processo está na alta produtividade; na dispersão de células de produção ao redor do globo; na logística interconectada do processo que organiza a demanda just in time, e; nos mercados interligados que possibilitam a rede de fluxos de mercadoria. Não esquecemos então da importante lição de Mackenzie Wark que nos ensinou que um novo tipo de propriedade surgiu: a valiosa propriedade da informação. Todo esse processo eliminou os antigos laços de solidariedade organizados pela relação imediata com o outro e mediada pelo lugar do trabalho exercido de maneira coletiva. Não temos mais um único lugar de trabalho e sabemos que aqueles lugares que nos restaram não durarão muito. No momento em que a crise do mundo do trabalho se torna radical, paradoxalmente trabalhamos muito mais para manter o mesmo padrão de vida.

Ao individualismo exacerbado pela concorrência e ao isolamento de um trabalho nômade junta-se o Estado manager que precisa rezar conforme a cartilha do capital globalizado criando ferramentas eficazes à garantia de investimentos — leia-se austeridade. Assim, as instituições são reduzidas cada vez mais rompendo a coesão social que garantia a união conjugal entre o Estado e a nação. Efetivamente, tudo que foi sólido vai se dissolvendo no ar da ficcionalização do valor do capital.

É quando o casamento entre capital/trabalho e entre Estado-nação se torna uma união instável que se dilui a estrutura simbólica da modernidade clássica: desenvolvimento, progresso e tudo aquilo que compunha o quadro imaginário operado pela modernização. Ficou evidente, tanto para a direita quanto para a esquerda política, que as promessas da modernidade estavam com a data de validade vencida. Foram-se os anéis e os dedos… a água e o bebê!

Bauman, no final do célebre Modernidade líquida, abre um caminho instigante para pensar aquilo que ele chama de “comunidade do evangelho comunitário”: mais ou menos uma construção coletiva imaginada delimitada por critérios étnicos cuja ação é orientada pela exclusão do diferente. Nascida dos escombros do Estado-nação, ela funcionaria como um laço coletivo frágil marcado por identificações imaginadas ante a dissolução das instituições e das conquistas sociais. O laço que une seus agentes, além de efêmero e farsesco, é principalmente o medo diante de uma vida social cada vez mais precarizada. Medo que, instrumentalizado politicamente através do imaginário corporativo e megacompetitivo, cai como uma luva na gestão neoliberal.

A unidade dessa comunidade se dá pela fobia ante à alteridade necessitando consolidar um inimigo comum que inspire ameaça constante. Marcada por um vínculo de identificação, consolida-se um “nós” que se privatiza criando um identitarismo de grupo performado por pequenos ritos de autodeclaração. Passa-se do anseio do Estado-nação a um nacionalismo étnico cujo Estado torna-se o provedor da violência dirigida ao outro. Cria-se um reconhecimento cuja fragilidade do laço impõe sempre a lembrança que a união se dá pelo inimigo que constantemente está à espreita. O potencial explosivo desse imaginário se traduz no potencial genocídio como horizonte de expectativa.

A comunidade do evangelho comunitário expressa o forte identitarismo que acompanha a extrema-direita global, mas ela é só a máxima expressão de algo arraigado no tecido da modernização tardia. Por mais que honestos amigos queiram negar a tendência identitária como um sintoma, organizado pela necessidade neoliberal de gerir identidades não absorvidas pela modernidade clássica, é visível que sua expressão não é monopólio da extrema-direita. É uma tendência, radicada nas novas formas de gestão do capitalismo tardio, que muitas vezes é mimetizada de maneira acrítica pela esquerda. Qualquer pressuposto crítico deverá passar por esse paradigma.

Como se diz: escrevi e corri!