Revista Rosa

Volume 9

9

Um convite de Kathy Acker

Resenha de A vida adulta de Toulouse Lautrec por Henri Toulouse Lautrec, de Kathy Acker

Mauro Palavecino

Não estamos diante de uma biografia do pintor francês. Tampouco de histórias extraoficiais e desautorizadas de suas aventuras adultas, como o título pode sugerir. Nesse livro, Toulouse Lautrec se torna mulher, continua a ser artista e a praticamente morar em um bordel. Ao lado de Paul Gauguin, a faxineira do puteiro, e de Vincent Van Gogh, o único a figurar de modo mais semelhante ao conhecido personagem da História da Arte, como artista de gênio turbulento que escandaliza a sociedade e estilhaça a unidade familiar. Embora aqui Vincent seja pai de uma garota, fruto da relação amorosa com uma prostituta, que nas páginas seguintes se metamorfoseia em uma “borbulhante e selvagem” (p. 71) cantora de rock. No texto de Acker, essa cantora se relaciona com um icônico ator que abalou Hollywood nos anos 1950 e que era um pouco mais velho do que ela: tinha 24 anos, enquanto ela ainda não completara 10.

Em uma entrevista a Barry Alpert, em 1976, pouco após a publicação de A vida adulta de Toulouse, Acker revelou que parte da colagem que deu forma a essa última história veio de matérias aleatórias na revista de fofocas National Enquirer. Eu digo colagem, mas este termo não foi usado pela escritora. Ela costumava chamar de plagiarismo seu modo de composição narrativa, como um método explícito de apropriação, em muito associado ao cut-up de William Burroughs, escritor referência para Acker que, mais tarde, tornou-se seu amigo. Esta técnica foi desenvolvida por Burroughs na companhia de Brio Gysin e, conquanto não tenha sido apresentada com muita clareza por eles, pode ser evidenciada em uma passagem da troca de correspondências entre Burroughs e Allen Ginsberg, posteriormente publicada como Cartas do Yage (onde se lê yage, pode-se ler: ayahuasca). É o que mostra o antropólogo Wander Wilson na dissertação O comissário do esgoto: coragem da verdade e artes da existência na escritura-vida de William Burroughs. Ele pontua com precisão essa passagem (Wilson, 2013, p. 73): “Tire uma cópia desta carta. Corte ao longo das linhas. Rearrange colocando a seção um no lugar da seção três e a seção dois no lugar da quatro. Agora leia alto e você ouvirá Minha Voz. A voz de quem? […] Não pense sobre isso. Não teorize. Experimente.” (Burroughs; Ginsberg, 2008, p. 90.)

Kathy Acker experimentava. Não apenas realocou e rearranjou os trechos que redigiu, demolindo qualquer linearidade, evolução, clímax e lógica compreendida como racional pelo pensamento ocidental; mas remontou histórias já escritas, inventando outros personagens, eventos e desfechos, desconstruindo-as e destruindo copyrights e autoria. Na Vida infantil da Tarântula Negra (2022), segundo livro da escritora, publicado pouco antes de A vida adulta de Toulouse Lautrec, e também editado em português pela Crocodilo — editora que introduz Kathy Acker no Brasil —, ela ainda indicava as referências apropriadas, recortadas e transformadas. Agora, em Toulouse, não há menções abertamente declaradas. O que serviu para alavancar uma midiática acusação de plágio, quando essa obra foi lançada na Inglaterra. À qual Acker respondeu, dirigindo-se à editora que hesitou frente à ordem judicial de retirada dos livros do mercado, “vocês podem fazer o que quiserem com a edição do livro, mas eu certamente não assinarei uma desculpa pública por uma culpa que não tenho” (Acker; Lotringer, 2018, p. 96).

Ela era incisiva ao dizer que não se tratava de copiar, pois copiar é tedioso e anula o pensamento próprio, a possibilidade de inventar algo novo, diferente do que ela fazia ao se apropriar e subverter produções de outrem. “A propriedade é o roubo”, concordaram Lotringer e Acker, lembrando a instauradora afirmação do ácrata Pierre-Joseph Proudhon. O plagiarismo não fazia referência à lei, mas procurava certa aproximação com a pirataria. Kathy Acker era fascinada por piratas, figuras presentes na escrita da Tarântula Negra, e que aparecem nas entrelinhas em Toulouse: a acusação de plágio procurou salvaguardar os direitos do bestseller The Pirate, um romance soft porn que virou hardcore com Acker, contando com o protagonismo de uma célebre ex-primeira-dama estadunidense. O protagonismo das personagens é passageiro, nem mesmo Toulouse Lautrec é a personagem principal. A escrita de Kathy Acker é anárquica.

Não há protagonista-coadjuvante, não há linearidade dos fatos, não há verdades construídas como a verdade. Assim como inexiste um gênero literário que amarre a escrita, nem mesmo o gênero como demarcação estática e identitária das personagens, decisão que atravessou a produção de Acker desde a Vida infantil da Tarântula Negra. Aliás, estes dois livros, juntos a Sonhei que era uma ninfomaníaca… — também recém-publicado em português pela Crocodilo — compuseram uma série, ou trilogia, que ao ser finalizada com A vida adulta de Toulouse Lautrec marcou a abertura a outro interesse narrativo de Acker, menos voltado às apropriações e à desconstrução. Ela terminou a escrita de Toulouse quando se mudou para Nova York. Os ares da enorme cidade cosmopolita permeiam as páginas como se fossem os ares parisienses e, poderíamos substituir, como se fossem os ares de São Paulo: “chiqueiro putrefato fedorento (…) Pergunto a quem quer que esteja comigo: ‘Por que continua aqui?’. A resposta invariável, ‘Porque a excitação da pressão me mantém trabalhando duro’, prova que a pessoa está se afundando na sujeira’” (p. 31).

Drump Goo, responsável pela tradução que chega às nossas mãos na edição da Crocodilo, faz apenas uma nota: para situar os gêneros deliberadamente fluídos e a dificuldade de transpor as quase ausentes marcações de gênero no inglês ao português. Vincent diz a Toulouse, logo na abertura do livro, que ela precisa de um homem e que essa conquista será difícil para ela, uma mulher feia e coxa, que paga para os homens, michês ou não, treparem com ela. Ao mesmo tempo que ressoa a dúvida sobre Toulouse ser uma puta ou uma artista ou ambas as coisas, junto de Vincent e Gauguin são retratados como “artistas que frequentam o bordel, porque trabalham muito duro e precisam se acalmar e se divertir para conseguir voltar ao trabalho” (p. 30). Um retrato fidedigno, ao menos das narrativas mais usuais sobre esses artistas, e que os nivela aos homens comuns que também iam ao — e hoje vão em variadas versões do — puteiro para se aliviarem e darem continuidade ao trabalho capitalista e à família monogâmica.

O escracho produzido por Acker em nenhum momento se confunde com as atuais investidas punitivistas em cancelamento, censura de exposições e obras, autoritárias denúncias sob o slogan “me too” que recentemente levaram à destruição de Aktionshose: Genitalpanik, obra feminista elaborada no calor de 1968 e cuja autora, Valie Export, foi cobrada para se posicionar no movimento “me too”. Kathy Acker inventava narrativas, bagunçava a verdade histórica, confrontava com humor ácido e demolia os alvos de suas batalhas, o que não se confunde com o apagamento das lutas e histórias múltiplas, muitas vezes varridas para debaixo dos tapetes da História e da binária história dos vencidos. Também não se confunde com o relativismo propalado pelas redes sociais, IA, fake news.

Mais ao final do livro, ressoa a pergunta: “o que significa ser homem?” (p. 112), cuja resposta talvez se encontre dezenas de páginas antes: “eles são masculinos, o que significa que conhecem esta sociedade, essa respeitosa sociedade morta que é a sociedade deles, com a qual sabem lidar” (p. 20). E uma cena corrosiva para as décadas de 1940, 1950 e 1970 nos Estados Unidos, e para hoje, seja em sociedades religiosas e autoritárias, seja nas democráticas pluralistas e identitárias: “‘Não gosto de mulheres (…)’ ‘Eu não sou mulher’ (…) ‘Para mim, parece uma mulher’. ‘Isso é problema seu’” (p. 113).

Como na Tarântula Negra, sexo e sonho provêm os fios narrativos. Não enquanto formas de expressar fantasias, mas como técnicas de escrita em si. Da masturbação vem a “descrição das arquiteturas, de deslocamentos espaciais, de arquiteturas em mudança, de espaços que se abrem, de espaços que se fecham” (Acker; Rickels, 2018, p. 169). Algo que se apresenta com certa similitude nos sonhos. Mas, neste caso, como aquilo que ocorre com todas as pessoas, que está fora do controle de quem quer que seja, e que está aquém do desejo. Uma escrita que se faz ao estar “em um mundo composto apenas de sensações” (p. 23). Mundo onde estão, em distintos momentos de êxtase, as personagens do livro, onde está a escrita de Acker, onde pode estar quem a lê. Mundo do instante do tesão, do prazer, do gozo, da paixão. Mundo onde duas personagens são uma; onde acham ser outra pessoa, a outra ou uma outra; onde se abrem a um estado cru, dentro uma da outra; onde o dinheiro e qualquer coisa de valor capitalista já não atormenta ao produzir desejo, pela conquista ou manutenção e acumulação. Mundo que, paradoxalmente, torna-se mais livre quando uma figura se solta de um amor não mais apaixonado e voa, chapada, com o vento.

Aí, podemos puxar dois fios: um que talvez costure, também com pontos falsos e soltos, as diferentes habitantes de A vida adulta de Toulouse Lautrec, e outro que nos leva a uma questão de interesse de Acker na continuidade de sua existência e obra. O primeiro diz respeito a “desejar tanto um sentimento que ele se torna uma coisa, uma posse” (p. 109). Nessa história, variadas vozes declaram o desejo por uma paixão, nova ou antiga e já morta, por um amor verdadeiro, por um homem que preencha uma completude e as faça mulher de verdade. Esse desejo tão fixo que produz morte. E tão comum, tão repetido, tão reproduzido. O segundo fio nos leva a esta questão cara a Kathy Acker e que já despontou nas páginas desta revista: “aquilo que não pode ser por fim controlado e conhecido: o corpo” (Acker, 2023, s/p). Por meio do fisiculturismo, prática a qual Acker se dedicou intensamente nos anos 1990 no intuito de moldar seu corpo, concentrando-se para fechar as janelas para o exterior durante os exercícios através de uma conexão mais forte com a própria respiração, a colocou cara a cara com o caos, o fracasso, a morte. Fazendo voltar ao próprio corpo, sem linguagem. Efeitos de uma forma de meditação, como destacou a própria escritora. Enquanto prática meditativa que não se volta ao individual, como as místicas cristãs, mas que produz novas relações entre o corpo e o mundo exterior ao produzir novas relações entre corpo e espírito — por falta de outro termo e seguindo os apontamentos de Michel Foucault sobre o zen quando esteve no templo Sejonju, em Uenohara, no final dos anos 1970.

Em uma conversa com monges e o mestre Omori Sogen, Foucault também passou pelo problema da escrita e da autoria. Ele disse: “a partir do momento em que se escreve, já não se é o proprietário do que disse, exceto no plano jurídico. (…) O discurso é uma realidade que pode ser transformada ao infinito. Portanto, aquele que escreve não tem nenhum direito de dar ordens a respeito da utilização de seus escritos” (Foucault, 1978, pp. 1–2). Na ultrapassagem dos anos 1980, em conversa com Sylvère Lotringer, Acker o agradeceu por ter lhe apresentado os filósofos franceses, geralmente classificados como pós-modernistas. Foi nesse momento que ela passou a poder situar melhor o que fazia, porque se recusava à linearidade narrativa, porque mantinha os gêneros e a sexualidade em constante mutação, porque era “a romancista mais desorientada” (Acker; Lotringer, 2018, p. 88). Então ela se questionou: “porque eles [Foucault, Deleuze e Guattari] não me conhecem! Eu sei exatamente do que eles estão falando!” (Idem).

Seria interessante vê-la retomar as críticas ao capitalismo trazidas em Toulouse em conversação com O nascimento da biopolítica (2008), curso ministrado por Michel Foucault em 1979. Em suas breves análises do capitalismo, ela anunciou a transformação em andamento e marcante em meados dos anos 1970, e que viria a consolidar não apenas mudanças econômicas, como ela sinalizou, mas uma racionalidade neoliberal. Essas passagens contra o capitalismo, o militarismo, o fascismo, nas quais Acker repete: “a corda tem que arrebentar” — e que, sabemos, arrebentou inúmeras vezes e segue, cada vez mais, por um fio de arrebentar com quase tudo em nome da manutenção da continuidade do mesmo — remetem a histórias apresentadas no início do livro. São as histórias de lutas anarquistas recuperadas por Acker, de existências libertárias como o insurrecional Charles Gallo; os ácratas que se insurgiram em um 1º de maio em Haymarket, dando início às manifestações do que ficou conhecido como o Dia dos Trabalhadores; a jovem anarquista niilista regicida Sophia Perovskaya1 e as personagens Clement e Berthe que afirmam juntas: “quando a sociedade lhe nega o direito de existir, é preciso tomá-lo” (p. 21). Esta é a minha leitura, meu rearranjo ao ler Toulouse aceitando o convite de Acker para romper com as linearidades, mas atentando para uma questão ética: as forças anarquistas são as únicas a combaterem, decisivamente, o militarismo e o autoritarismo, ao se voltarem contra o Estado agora, sem esperar um alegado futuro ideal ou clamar por reformas.

Kathy Acker gostava de dar entrevistas, de publicizar conversas com pessoas interessadas em sua obra. As via como uma forma ficcional de narrativa, por mais isentas e jornalísticas que se propusessem. Os trechos recortados aqui neste texto remetem ao livro Kathy Acker: the last interview and Other conversations (2018), organizado por Amy Scholder e Douglas A. Martin. Na abertura, o escritor Martin enfatiza que “as estratégias [de Acker] ainda estão à frente dos tempos nos quais estamos atolados. Ela não pode ser facilmente consumida. Brigas de gatos. Avançando para a maratona, em um dia que começou bastante sombrio” (Scholder; Martin, 2018, p. XV).

Em sua última entrevista, no hospital e já diante do câncer avassalador, Acker finalizou afirmando: “Acho que meu trabalho é extremamente difícil devido a esta marca dos nossos tempos, porque eu não caibo em nenhuma identidade. Não posso ser comercializada como gay, nem mesmo caiu bem às seções feministas, e tampouco sou uma romancista hetero antiga. Não há como categorizar a escrita” (Acker; Boddy, 2018, p. 226). O convite está feito.