Revista Rosa

Volume 9

9

A sinfonia bollasiana

Resenha de O momento freudiano, de Christopher Bollas

palavralma, Haroldo Saboia

Encontramos, em O momento freudiano (Bollas, 2007/2013), um conjunto de textos nos quais Christopher Bollas nos aproxima de um campo de pensamento que podemos aqui denominar de “revisitação autoral de Freud e do desenvolvimento da psicanálise”. No livro, dois capítulos trazem uma entrevista de Vincenzo Bonamínio com o autor; os três capítulos que seguem, intitulados “Identificação perceptiva”, “O que é teoria?” e “Sobre a interpretação da transferência como resistência à associação livre”, trazem conceitos que contribuem para o debate apresentado na entrevista, bem como abarcam de maneira mais aprofundada alguns elementos trazidos à tona.

O que seria o “momento” freudiano? Que recorte de tempo seria este? Bollas (2007/2023)1 o identifica como o momento em que a psicanálise surgiu, em que Freud descobre o “método básico do analisando em associação livre” (p. 23). O autor, por um lado, revisita o criador da psicanálise e, por outro, cria seu próprio pensamento a partir da revisitação da descoberta freudiana. O leitor estará diante de um trabalho sobre Freud e a história da psicanálise, mas também aqui podemos depreender o “momento bollasiano”, a articulação de seus próprios pensamentos, seus insights autorais. Notando este trabalho duplo, sugerimos ao leitor que leia o livro a partir de duas perspectivas.

De um primeiro vértice, podemos ver Bollas (2007/2013) estabelecendo uma leitura crítica e elogiosa a respeito dos desdobramentos do pensamento freudiano. Bollas decupa a obra de Freud em partes, e elege o início do método psicanalítico como um estado de abertura que deve ser resgatado. Estamos diante da fotografia de um momento histórico, em que a descoberta do método estava feita, mas os debates entre Freud e outros autores não haviam parcializado, cindido, fetichizado e se projetado sobre a maior descoberta da psicanálise: de que o inconsciente, através da lógica sequencial, expõe sua forma de pensar e criar.

Inúmeros motivos levaram a teoria psicanalítica a encobrir, progressivamente, o valor do par freudiano originário, constituído pela livre associação do analisando e pela busca da receptividade inconsciente do analista através de sua atenção uniformemente flutuante (Freud, 1912/2010). Dentre os motivos, podemos destacar a postura exigente de Freud acerca de seu próprio pensamento teórico; as disputas pelo conhecimento “verdadeiramente” psicanalítico com Adler, Jung e com tantos outros autores; a irrupção da questão da destrutividade decorrentes da observação da psicose e dos sonhos traumáticos do pós-guerra.

Fato é — e Bollas ressalta os diversos vieses deste movimento — que o momento originário freudiano foi, aos poucos, sendo eclipsado pelo surgimento de novas teorias, dentro e fora de sua obra. A análise das resistências, os manejos da transferência, as relações de objeto, os fenômenos projetivos, todas são teorias que passaram a ser mais prestigiadas, deixando paulatinamente a lógica sequencial de expressão do inconsciente como um mero detalhe teórico de menor significância.

Uma síntese da crítica de Bollas está na ideia de que as teorias psicanalíticas deveriam sobredeterminar-se, conservando as origens e complexificando-se progressivamente com novos elementos. No entanto – e Bollas nos leva a ver isso —, a sobredeterminação é expungida por um movimento de substituição ou sobrevalorização: as teorias mais novas, enganosamente, parecem mais importantes, hierarquicamente, do que as mais antigas. Os analistas parecem se interessar pelas novidades teóricas, fazendo destas memórias encobridoras,2 apagando a origem, o momento em que a vida psicanalítica teve seu primeiro pulso, o ato da descoberta, o nascimento. Esse processo de preferência de determinadas teorias em detrimento de outras levou, inclusive, a movimentos de rivalidade e ruptura na história da psicanálise, criando escolas que propõem modos de escutar, intervir e pensar o funcionamento mental de formas muito distintas.

A intenção de Bollas é resgatar uma totalidade complexa que tende a se dissipar em escansões e simplificações. O autor parece apontar algo que é praticamente inevitável na vida humana: logo após vermos o todo, logo após termos nossos maiores insights, estaremos fadados a transformar as experiências em palavras, e as palavras nos afastarão, tragicamente, de nossas percepções mais legítimas e originais. Este movimento se repete em nossas histórias individuais, se repete nos movimentos criativos e científicos, se repete no movimento psicanalítico: a palavra vem para expressar e mutilar a experiência, simultaneamente. Neste paradoxo entre condição de comunicação e impossibilidade de comunicar, buscamos palavras, sequências que descrevem, parte por parte, uma totalidade intangível para a linguagem. A tragédia da apreensão primeva do inconsciente assim se realizou, e a teoria, de diversas formas, deturpou a possibilidade aberta e polifônica da escuta psicanalítica.

O outro vértice digno de observação nos textos de Bollas foi sua capacidade de deitar Freud no divã. Eis o trabalho duplo: ao mesmo tempo que Bollas apresenta ao leitor suas críticas acerca da teoria, ele também observa como Freud acabou por ser vítima de seu próprio inconsciente, recalcando e parcializando uma primeira concepção ampla do funcionamento inconsciente.

Trocando em miúdos, Freud teve um rápido vislumbre do inconsciente em sua totalidade, e optou, no curso de sua obra, por descrevê-lo como algo predominantemente defensivo, deixando em segundo plano seu caráter receptivo e intuitivo, capaz de estabelecer lógicas criativas e expressar-se de maneira diversa. O recalque, obstáculo a ser vencido por Freud, bem como a força interditora do inconsciente recalcante paterno, pareceu ganhar mais força do que o inconsciente receptivo criativo da ordem materna, mais próximo da origem do pensar. A capacidade receptiva do inconsciente, característica do estado em atenção flutuante, deriva das primeiras experiências de vida, nas quais a mãe se oferece como um outro capaz de assegurar o sentimento de continuidade e de criar as primeiras e mais rudimentares associações entre elementos mentais.

O funcionamento interditório que compete ao inconsciente, típico do recalque e das dinâmicas repressoras do aparelho psíquico, seria apenas um aspecto da vida psíquica. Sabemos que Freud buscava não apenas uma metodologia de trabalho, mas também uma teoria capaz de explicar a razão pela qual o psiquismo poderia encontrar formas tão diversas de expressão e de adoecimento: sua teoria edípica se desenvolve para dar uma forma narrativa a suas explicações, mas infelizmente a própria teoria edípica rouba, do par freudiano, sua maior potência: um estado de abertura criativa e insaturada. No lugar da receptividade do analista acumularam-se, ao longo do último século, diversas teorias que, aos olhos críticos de Bollas, podem inibir a escuta clínica.

Assim, passamos a ler, em seu texto e nas entrevistas que deu, uma demonstração do que é recorrer à lógica sequencial na análise da obra de um autor. Passamos a enxergar, nas entrelinhas freudianas, as notícias de um inconsciente amplo que ele reconhecia, mas não podia escrevê-lo com todas as letras.

Vejamos alguns breves detalhes da captura bollasiana da inconsciência do pensamento freudiano. Temos, em primeiro lugar, a referida citação de Freud descrevendo a possibilidade de comunicação entre inconscientes, indício de receptividade e comunicação fora do campo de percepção, fora do escopo da consciência, longe de qualquer indício interditório. Para além de um inconsciente defensivo, deve haver um anterior e mais primordial: o inconsciente receptivo.

Para além disso, podemos ver com nitidez o quanto as identificações projetivas refletem no formato parcial das teorias, em uma rejeição de buscar o analisando em sua totalidade. Enquanto a lógica sequencial oferece uma forma de comunicação, há outras teorias que se antecipam à expressão mais completa e complexa do analisando, favorecendo o fenômeno de identificação projetiva. Em busca da totalidade do insight do momento freudiano, Bollas propõe um conceito que, em contrapartida à identificação projetiva, aponte para uma percepção de totalidade que subverte as teorias de fragmentação do self: a identificação perceptiva. Por fim, nessa reivindicação por um Freud que antecede sua versão recalcante e projetiva, temos notícias do pensamento crítico de Bollas a respeito do uso das teorias como uma única lente possível, ao invés de se tornarem lentes mentais diversas e dinâmicas para a multiplicidade de fenômenos que se expressam clinicamente.

Bollas valoriza o diálogo entre diversos pensadores da psicanálise, dentre eles — além de Freud — Klein, Bion, Winnicott, Lacan, Kohut e outros. Para entender o pensamento autoral de Bollas, abrimos espaço para sua conversa com outro autor: Bollas traz uma série de elementos do pensamento de Bion e, ao mesmo tempo, isso o torna mais bollasiano.

A ideia pode parecer contraditória, mas não é: aqueles que conhecem o pensamento de Bion sabem de seu esforço por criar uma psicanálise que estimula autorias. Cada autor deveria poder criar sua própria forma de notação das sessões de psicanálise, incrementar os elementos de psicanálise3 pensados por Bion. Um analista, em sua clínica, faz transformações mentais daquilo que capta de seu analisando, algo que inclui a singularidade e o modo de pensar próprio de cada clínico.

Há uma longa passagem em O momento freudiano na qual Bollas apresenta uma metáfora rica e complexa ao esboçar os movimentos de uma sessão de análise a partir de uma partitura musical. Ao elevar, democraticamente, todas as teorias ao mesmo nível de atenção, de modo que o analista não tenha que obrigar sua escuta a obedecer a uma determinada linha teórica, Bollas se vale da metáfora de uma partitura sinfônica para imaginarmos a complexidade de um encontro clínico. É crível que a própria ideia de tabular os movimentos de uma sessão a partir da metáfora sinfônica derive do pensamento de Bion, cujo interesse consistia em pensar em um modelo capaz de descrever os diversos movimentos de uma sessão da maneira mais abstrata possível.

Bion considera que há exercícios a se fazer fora das sessões de análise, para desenvolver a intuição, e que exercícios e escalas praticados por músicos seriam um bom análogo aos estudos psicanalíticos extra-sessão.4 Para além disso, entende a escrita musical como uma transformação de uma experiência em notação abstrata, um movimento que pode se dar igualmente no campo da matemática ou da psicanálise.5 Por fim, o autor entende descreve metaforicamente uma sessão pela via da metáfora sinfônica, de forma muito próxima à de Bollas, incluindo os silêncios, material não verbal: o músico pode registrar aquilo que não é audível.6

Notamos que Bion não apenas se valia da música, mas a usava para nos aproximarmos do árduo trabalho de registrar o que se dá em uma experiência, seja ela musical, matemática ou psicanalítica. Mais do que isso, nos trabalhos de Bion referidos acima, o autor atravessa questões como a difícil empreitada de registrar experiências emocionai7 — por vezes de natureza demasiado primitivas — na partilha com a comunidade psicanalítica, bem como a busca por um pensamento que abarque a complexidade do funcionamento mental.

Bion pensava que a psicanálise deveria ter uma forma de expressar seu trabalho a fim de promover uma comunicação sobre o que se dá em uma sessão, não pela via de conceitos, mas pelos usos do pensar feitos por analista e analisando (um pensamento pode, por exemplo, ser utilizado como forma de registro, ou como ação) e da genética dos pensamentos (a forma como eles se apresentam na mente do analista). O resultado dessa empreitada foi a Grade de Bion, conhecida por seus leitores, a qual consiste inclusive em um eixo vertical e outro horizontal, elementos também apresentados por Bollas no decorrer de sua metáfora sinfônica: a partitura também apresenta um eixo vertical (as harmonias, análogas às múltiplas camadas de percepção do analista em alguns momentos de uma sessão) e um eixo horizontal (as sequências de notas, análogas à lógica sequencial manifesta pela associação livre).

Bollas declara poucas vezes, mas parece ser muitas vezes inspirado pelo trabalho de Bion. Se Bion propõe que cada analista pode criar sua própria Grade, seu próprio modo de pensar sua clínica, há em Bollas uma resposta a esta proposição. Contudo, a metáfora sinfônica de Bollas é densa em narratividade e compila teorias, vértices da clínica, fenômenos diversos, em múltiplas camadas, presumindo consonâncias e dissonâncias, aproximando-se de um encontro clínico com o máximo de fidedignidade. Nesse sentido, está longe de se parecer com a Grade de Bion, demasiado abstrata, fruto de seu extenso trabalho epistemológico.

Há, no entanto, outras facetas de Bollas que são tipicamente bionianas. Na página 105 de O momento freudiano, Bollas, ao pensar no termo “projeção”, e antes de adentrar a teoria lacaniana sobre o imaginário, aponta o risco de saturação do termo. Temos aqui um cuidado com os conceitos, típico do pensamento bioniano, considerando-se que estes podem se apresentar demasiadamente saturados de significados dentro da história da psicanálise, e assim acabam por perder sua força de comunicação sobre a experiência clínica. O trabalho de Bollas carrega essa premissa em todo seu curso: de que as teorias podem eclipsar a capacidade de apreensão da realidade psíquica, aparentando tratar de fenômenos enquanto eles nos escapam.

Ao revisitar e sublinhar a importância do par freudiano, Bollas nos aproxima de um conceito importante utilizado por Bion: a lógica da simetria. Vejamos um dos usos do conceito nos questionamentos de Bion (1977/2017):

Se observarmos e escutarmos o que está na sala, a que olharemos? O paciente? Às nossas associações livres? Às nossas próprias ideias sobre o que é isso? Ou a um relacionamento entre duas pessoas? São pelo menos duas pessoas. Será o que Dr. Matte Blanco chama de “relacionamento simétrico”? Ou é algo diferente? Isto me parece ser assunto que pode apenas ser decidido por nós que praticamos a psicanálise.

(p. 65, grifos do autor)

A ideia de par freudiano, defendida por Bollas, aponta justamente para essa junção inconsciente entre o que é dito pelo analisando e o que é escutado pelo analista, neste terreno de indiferenciação em que não podemos definir onde um começa e o outro termina. É nessa área que as comunicações inconscientes podem se estabelecer. A noção de simetria, retirada de Matte Blanco (1975/1998), consiste em um princípio de organização de dados tipicamente inconsciente, próximo da noção de processos primários de Freud (1900/2019), na qual o registro se dá pelo o que há de comum entre os fenômenos, sem discriminação das diferenças. É dentro desse princípio que podemos pensar em um terreno em que as ideias transitam livremente, em que opostos se conectam, diferentemente dos terrenos assimétricos das contradições e tensões entre ideias. Em um mundo de indiferenciações, sem uma lógica que separa e organiza grupos de pensamento, as ideias tendem ao infinito. Seria essa a concepção que nutre a ideia fundamental da obra seguinte de Bollas (2009/2012), a questão infinita?

Uma última possível conexão: Bollas defende, em O momento freudiano, que as teorias psicanalíticas sejam inconscientizadas. Para ele, só quando esquecidas — e, portanto, submergidas à simetria com outros pensamentos inconscientes — que elas poderão agir sobre a escuta do analista. Trata-se de incorporar as teorias inconscientemente, ao invés de aplicá-las conscientemente. Bollas denomina esse movimento de “inversão do paradigma freudiano”, no qual se esperaria que as ideias viessem cada vez mais à consciência. A ideia de inconscientizar uma ideia aprendida como algo favorecedor de novas experiências emocionais consiste no modelo fundamental de Bion (1962/2021) em aprender da experiência. No trabalho referido, Bion defende a ideia de que uma experiência emocional é necessariamente perpassada pelo pensamento inconsciente e, graças a isso, pode ser sonhada. Para Bion, é graças ao sonho que podemos continuar acordados ininterruptamente e, ao mesmo tempo, podemos nos manter adormecidos para outros estímulos que hão de surgir apenas nos sonhos. O pensamento onírico de vigília é uma atividade constante e é graças a ele que temos um espaço mental para viver novas experiências.

Seria possível seguir nesse rastreamento de Bion no pensamento de Bollas. Fato é que, diante da riqueza apresentada nas páginas de O momento freudiano, cada leitor, com seu repertório, escutará um conjunto de vozes da história da psicanálise, interpretadas pelas revisitações inéditas de Bollas. É assim que escutamos uma orquestra sinfônica: se nossos ouvidos estão mais habituados com violinos e violoncelos, estes hão de saltar à nossa percepção; se tocamos trompete, estes ganharão destaque, e assim por diante. Por meio da batuta de Bollas, sua sinfonia teórico-clínica nos apresenta múltiplas vozes da psicanálise. Cabe a cada leitor imergir nas notas de Bollas e encontrar a sua própria.