Revista Rosa

Volume 9

9

Rafah — a um passo do inferno

Rafah é a cidade mais ao sul da Faixa de Gaza, colada no Corredor Philadelphi (divisa entre a Faixa de Gaza e o Egito), situada a 30 km da Cidade de Gaza e a 5 km da divisa com o Estado de Israel. Sua população em 2017 era de cerca de 172 mil habitantes, segundo o Bureau de Estatísticas palestino, a quinta mais populosa cidade palestina e a terceira maior da Faixa de Gaza. Desde o mês de dezembro, a situação na cidade mudou drasticamente: cerca de 1,2 milhão de desabrigados de toda a Faixa de Gaza se alojaram em Rafah em casas de parentes e amigos, tendas, edifícios públicos e até na rua. Isso foi resultado de uma determinação das Forças de Defesa de Israel (FDI), que ordenaram a retirada da maior parte da população civil da região norte da Faixa de Gaza a fim de realizar suas operações sem a presença de um grande contingente de civis. Rafah passou a ser a região mais segura da Faixa de Gaza, ainda que a pobreza, a superlotação e as péssimas condições de vida imperassem. Tudo isso até abril. Desde então, o cenário local é de pavor, que se justifica por novas transferências populacionais e iminentes operações (algumas já realizadas), que despertam enorme preocupação aos olhos do mundo.

Neste artigo, analisaremos o desenvolvimento dos fatos durante a história de Rafah (com foco no pós-7 de outubro), sob a perspectiva crítica de um israelense, pois Israel e a sociedade israelense constituem o contexto político e sociocultural no qual o autor destas linhas está inserido.

Rafah antes do 7 de outubro

O território original de Rafah comporta a parte egípcia da cidade, de cerca de 80 mil habitantes. As cidades, embora pertencessem a autoridades distintas entre 1920 e 1982, sempre funcionaram como uma única entidade urbana. Não havia fronteiras de fato que as separassem e famílias dividam-se dos dois lados da divisa. Vale lembrar que a Faixa de Gaza, como toda a Palestina, foi governada pelo Mandato Britânico (1922–1948), e, em 1949, a região ficou sob o controle egípcio. Ainda que não tenham declarado soberania sobre a Faixa de Gaza, os egípcios permitiam o trânsito livre dos palestinos pelos dois lados da fronteira e, salvo o surgimento do Campo de Refugiados de Rafah, a estrutura urbana não sofreu grandes alterações. Em 1967, Israel conquistou tanto a Faixa de Gaza quanto a Península do Sina, mas a interação entre as duas partes seguiu existindo. Foi somente em 1982, quando Israel devolveu o último terço do território do Sinai ao Egito, em virtude dos acordos de paz (1979), que a cidade foi efetivamente dividida. Uma barreira foi levantada e famílias foram separadas, permanecendo ⅔ da população do lado palestino, e ⅓ do lado egípcio. A região que separa o sul da Faixa de Gaza do território egípcio foi denominada “Corredor Philadelphi”, e ficou sob controle israelense.

Também foi a partir dos anos 1980 que os assentamentos judaicos em Gaza iniciaram sua expansão. O bloco de Katif (Gush Katif), que comportava cerca de 65% dos colonos judeus de Gaza, foi inaugurado em 1973 e absorveu a partir de 1979 parte dos ex-colonos do Sinai. O bloco se localizava no litoral sul da Faixa de Gaza, muito próximo a Rafah. Ainda que não houvesse barreiras nem fronteiras até o fim dos anos 1980, eram cada vez mais comuns as hostilidades entre as partes, embora houvesse alguma convivência. Foi só com a Primeira Intifada (1987–91) que as fronteiras dos territórios ocupados foram fechadas para a entrada de palestinos em Israel, e, desde então, a situação jamais voltou a ser como antes.

Houve um momento de esperança, durante os Acordos de Oslo (1993 e 1995): a recém-criada Autoridade Palestina (AP), chefiada por Yasser Arafat, recebeu autonomia para o controle civil de toda a região da Faixa de Gaza, exceto as colônias judaicas. O Hamas, surgido em 1987, fez esforços para sabotar o processo, através de atentados terroristas nas ruas israelenses, a maioria deles saindo de Gaza. As fronteiras foram novamente fechadas para quem não tivesse autorização e o grupo desenvolveu os foguetes Qassam como uma alternativa aos atentados a bombas. A cidade de Sderot, a 5 km da fronteira, tem sido, desde então, o principal alvo dos foguetes do Hamas, algo que se acentuou durante a Segunda Intifada (2001–05), com forte repressão israelense.

A Desconexão de Gaza

Em 2005, o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, efetuou a retirada militar e civil israelense da Faixa de Gaza: cerca de 8 mil colonos e todos os membros das FDI foram evacuados da região de forma unilateral e, desde então, não há mais presença israelense no local. O Plano de Desconexão de Gaza não significava, entretanto, que a Autoridade Palestina teria soberania plena sobre a região: o espaço aéreo ainda seria controlado por Israel, tal qual as fronteiras marítimas e terrestres (salvo o Corredor Philadelphi, que ficou sob controle egípcio).

Propagandeando a retirada israelense como uma vitória da sua incansável luta armada, o Hamas venceu as eleições para o legislativo palestino em janeiro de 2006. Em meados de 2007, após um ano e meio de desentendimentos com o Fatah (partido de Mahmmoud Abbas, presidente da AP), houve uma guerra civil entre as facções, que resultou na expulsão e execução dos quadros do Fatah, em Gaza, e do Hamas, na Cisjordânia. Desde então, controla a Faixa de Gaza um grupo que não reconhece o Estado de Israel e prega a sua eliminação por meio da violência, enquanto, na Cisjordânia, há colaboração (inclusive militar) entre a força ocupadora e o governo do povo ocupado.

Em 2008, Israel decretou o bloqueio à Faixa de Gaza, condicionando a entrada de qualquer carga ou veículo a uma rígida fiscalização das FDI. E é neste momento que Rafah passa a ter um lugar de inequívoca importância para o Hamas, em Gaza: a cidade torna-se a porta de entrada para todo o tipo de contrabando para a Faixa de Gaza, fosse militar ou não. Desde armamentos ou material para a construção de foguetes, até lanches de redes de fast-food, tudo entrava pela passagem de Rafah. A situação se tornou ainda mais flexível após a vitória de Mohamed Morsi (2012), da Irmandade Muçulmana, à presidência do Egito, na esteira da Primavera Árabe. O Hamas é considerado o setor palestino da Irmandade Muçulmana, movimento com raízes no Egito e que, então, alcançava o poder pela primeira vez naquele país. Morsi não escondia sua identificação com o Hamas e o Corredor Philadelphi passou a contar com várias passagens clandestinas (algumas delas subterrâneas). Mesmo após o golpe de Estado que depôs Morsi (2013), o Hamas manteve uma estrutura de túneis impressionante: túneis para atentados terroristas e captura de soldados em Israel; túneis que cruzavam a fronteira com o Egito com largura para a passagem de caminhões e túneis internos, que passaram a compor uma verdadeira cidade subterrânea, protegida contra ataques de caças, espalhados e conectados por toda a região.

Ainda que o regime egípcio seja aliado de Israel e tenha o Hamas como inimigo comum, aparentemente não havia um rígido controle sobre o Corredor Philadelphi, seja pela parte terrestre, ou subterrânea. A partir da chegada dos desabrigados do norte da Faixa de Gaza para Rafah, o governo egípcio se apressou em construir uma muralha separatória para evitar a fuga de palestinos ao seu território, algo que nem Israel fez até hoje. Por outro lado, em 2015, Israel construiu uma muralha de aço subterrânea na fronteira com a Faixa de Gaza, justamente para evitar túneis do Hamas que possibilitassem ataques terroristas em seu território. Isto o Egito não fez.

Os túneis clandestinos que ligam a Faixa de Gaza ao Egito são do interesse de diversos atores: (1) o principal interessado é o Hamas, que os utiliza para contrabandear armamentos, equipamento, combustível e pessoal. De lá saem engenheiros para receber cursos de fabricação de armamentos no Irã, militantes para treinamento militar no Líbano, diplomatas para realizar acordos no Catar. Além disso, o Hamas cobra impostos sobre produtos e pessoas que entram e saem de Gaza pelos seus túneis; (2) a burguesia de Gaza: os habitantes de Gaza com maior poder aquisitivo adquiriam bens que chegavam às suas cidades graças às passagens clandestinas, que lhes possibilitaram conforto em uma região tão maltratada; (3) a burguesia da Rafah egípcia e outros setores egípcios, que comercializavam com a Faixa de Gaza, movimentavam a economia local e lucravam com isso. Familiares podiam encontrar-se com seus próximos, soldados recebiam propina e a situação em Gaza não colapsava, o que era do interesse do governo de al-Sisi, que não queria ser visto como um colaborador do bloqueio israelense.

O único lado que deveria estar descontente com a situação fazia vista grossa: os sucessivos governos Netanyahu tinham todas as informações sobre os túneis e sobre o armamento do Hamas, mas, aparentemente, estavam convencidos de que o grupo não tinha interesse em um confronto maior com Israel, mas sim em administrar o seu território. Netanyahu, durante seus 15 anos no poder, evitou ao máximo conflitos militares, ao mesmo tempo que se negava a negociar com a AP. A fim de debilitar os grupos palestinos moderados, desde 2015, Netanyahu permitiu ao Hamas receber maletas de dinheiro vivo vindas do Catar sem qualquer fiscalização. Portanto, além de não enfrentar as passagens clandestinas entre Gaza e o Egito, Netanyahu ainda possibilitou que o Hamas fosse abastecido financeiramente durante oito anos.

Após o 7 de outubro — o deslocamento

O ataque coordenado pelo Hamas e outras milícias palestinas contra Israel inaugurou o capítulo mais sangrento do conflito entre israelenses e palestinos. Até este momento, são quase 1500 mortos do lado de Israel (80% somente no dia 7 de outubro) e 36 mil palestinos, segundo os números divulgados pelo Hamas, além de centenas de milhares de desabrigados, da enorme destruição de toda a Faixa de Gaza, das regiões israelenses próximas à fronteira com Gaza e com o Líbano, 124 reféns israelense, mais de 2 mil novos presos palestinos e uma catástrofe humanitária em toda a Faixa de Gaza.

No início desta guerra, nomeada por Israel de “Espadas de ferro”, o primeiro-ministro Netanyahu havia estabelecido três objetivos: (1) aniquilar o Hamas; (2) resgatar os reféns; (3) possibilitar o retorno dos moradores próximos à fronteira com a Faixa de Gaza para as suas casas, em segurança.

Nos dias que sucederam o massacre de 7 de outubro, o recém-inaugurado gabinete de guerra israelense decidia os primeiros passos para a guerra, considerando aspectos táticos (militares) e estratégicos (militares e políticos). Durante os dez primeiros dias, Israel concentrou seus ataques em bombardeios aéreos e de artilharia, enquanto a infantaria era preparada para invadir a Faixa de Gaza via terrestre. Quando o gabinete se reuniu para tomar sua primeira decisão estratégica, eram dados os primeiros sinais de que a guerra seria travada sem um plano para que seus objetivos fossem alcançados. Enquanto as forças de segurança recomendavam o início do confronto pela parte sul da Faixa de Gaza (onde se localiza Rafah), o corpo político (leia-se: Netanyahu) decidiu pela operação na parte norte. O debate, convenhamos, incluía um dilema legítimo: era do norte da Faixa de Gaza (mais precisamente da cidade de Gaza e do campo de refugiados de Jabalyia) de onde eram disparados a maioria dos foguetes, que durante os primeiros meses faziam soar os alarmes em toda a região central de Israel, habitada por 4,5 milhões de pessoas. Por outro lado, as forças de segurança alegavam que o controle do sul da Faixa de Gaza afetaria drasticamente o abastecimento do Hamas, justamente por isolá-los dos túneis clandestinos que ligam a Faixa de Gaza ao Egito, e isso o sufocaria financeira e militarmente. Voto vencido: Netanyahu priorizou devolver a tranquilidade aos habitantes da região metropolitana de Tel-Aviv, colocando os objetivos traçados por si mesmo em cheque.

A situação na Faixa de Gaza atual foi construída com base nessa decisão: as FDI promoveram um deslocamento da população do norte da Faixa de Gaza em direção ao sul, deixando o terreno livre para os confrontos. Israel alega que tal decisão é uma evidência concreta de que o alvo do exército não eram os civis palestinos, mas os terroristas do Hamas e de outros grupos. Acrescente-se que, militarmente, é muito mais vantajoso para o exército lutar em regiões menos povoadas, por diversos motivos. Além da grande redução do risco e da preocupação pela morte de civis, a região desabitada oferece facilidade para a movimentação de tropas e blindados, dificulta ações hostis de civis (como os combatentes do Hamas não usam uniforme militar, a própria distinção entre combatentes e não combatentes nem sempre é fácil de ser feita nestas áreas urbanas em que se dão os combates em Gaza) e, por fim, dificulta muito para que os combatentes do Hamas se escondam atrás de civis. Enquanto o exército israelense, de fato, avançava conquistando a metade norte do território da Faixa de Gaza, a população local buscava refúgio no sul — especialmente em Rafah.

Última parada antes de Rafah — Khan Yunis

Em fevereiro, cessaram as sirenes em Tel-Aviv. Foguetes eram lançados somente contra as comunidades próximas à fronteira com a Faixa de Gaza, àquela altura quase todas desabitadas. O Hamas já não oferecia resistência no Norte, seus batalhões foram dizimados, milhares de seus membros foram mortos, feridos ou presos. No entanto, o grupo ainda permanecia com mais de 100 reféns e exercia o controle total sobre o centro-sul da Faixa de Gaza. Os desabrigados israelenses estavam distantes de se sentirem seguros para voltar às suas casas. Em suma: nenhum dos objetivos traçados por Netanyahu havia sido alcançado, e agora havia um problema extra: após quase 30 mil palestinos mortos, um processo por crime de genocídio foi aberto contra Israel na Corte Internacional de Justiça (CIJ), justamente quando o próximo passo da guerra seria atacar a região onde se concentravam ¾ da população da Faixa de Gaza.

Havia, naquele momento, diversos agravantes. O norte da Faixa de Gaza estava absolutamente destruído. Sem qualquer infraestrutura para que haja água potável, o fornecimento de eletricidade danificado. Edifícios que não foram destruídos caíam aos pedaços. Ruas e estradas com tráfego intermitente, quando não se transformaram em ruínas e destroços, o que dificulta, inclusive, a chegada de ajuda humanitária nessas regiões. Esgoto a céu aberto, proliferação de doenças. Um cenário que impossibilita o retorno dos habitantes às suas casas, à região de forma geral. Israel não poderia repetir a mesma tática que pôs em prática anteriormente, pois, ao contrário do contexto de novembro/dezembro, em março não havia nenhum local para onde enviar a população civil. Isso gerou uma forte pressão da comunidade internacional para que Israel não avançasse em direção ao sul, temendo as mortes de outros milhares de pessoas. Mas o governo israelense autorizou uma operação na cidade de Khan Yunis, a segunda maior da Faixa de Gaza antes da guerra, cuja população havia dobrado desde novembro.

A tática estabelecida pelo exército em Khan Yunis foi a de realizar operações por bairros, ordenando que a população migrasse durante curtos espaços de tempo e que retornasse posteriormente. Isso exigiu do exército mais tempo do que no norte da Faixa de Gaza e impôs mais dificuldades do ponto de vista operacional. No entanto, segundo as FDI, os objetivos táticos foram cumpridos, e o Hamas foi deposto também daquela região. A derrubada do Hamas em Khan Yunis representava uma conquista tática, ao mesmo tempo que não significava absolutamente nada do ponto de vista estratégico: os líderes do Hamas permaneciam vivos, os reféns seguiam sob seu controle e não havia nenhuma alternativa ao Hamas para o poder em Gaza — o qual segue sendo, de longe, o grupo mais poderoso e operacional na Faixa de Gaza, ainda controlando Rafah.

O dilema de Rafah

Quando o exército israelense se retirou de Khan Yunis, sua força presente dentro da Faixa de Gaza foi reduzida de sete brigadas (cada brigada tem entre 3 e 7 mil soldados) para menos de duas brigadas. Basicamente, o exército controlava as vias de acesso que ligam o norte ao sul da Faixa de Gaza e as fronteiras com Israel, nada mais. A guerra havia passado de um estágio de intensidade máxima para a manutenção do status quo, que permitisse incursões pontuais. Moradores locais disseram que o exército fazia vista grossa para o trânsito de mulheres e crianças para o norte da Faixa de Gaza, e houve um aumento substancial na entrada de ajuda humanitária. Isso pode ser lido como uma cessão à pressão internacional, para que Israel reduzisse a guerra, provocasse menos mortes e permitisse que a fome extrema que assolava determinadas regiões da Faixa de Gaza fosse controlada. O próprio governo Biden, em ano eleitoral, passou a condicionar seu apoio a Israel a esforços para um cessar-fogo e operações menos mortais, chegando até a atrasar o envio de armas e não poupando críticas públicas.

Mas deve-se levar em conta que a diminuição do ritmo da guerra se deu, também, pelo fato de o governo israelense não ter estabelecido um plano estratégico para a Faixa de Gaza após a pretendida derrubada do Hamas. Obviamente, há diversos fatores que influenciaram decisões neste intervalo de tempo, como a pressão das famílias pelo retorno dos reféns, o embate direto com o Irã, entre outros. No entanto, nada é mais relevante do que a total ausência de um projeto para o dia depois da guerra. Netanyahu se nega a sequer debater qualquer projeto de poder para a Faixa de Gaza, pois sabe que isso implicaria na provável queda de seu governo. Governando sob constante ameaça dos partidos de orientação religiosa ultranacionalista, o primeiro-ministro tenta se equilibrar entre as demandas da comunidade internacional (leia-se: do governo estadunidense) e da sua coalizão. O cessar-fogo definitivo já foi estabelecido por parte relevante da sua base como linha vermelha, que, caso seja cruzada, resultará na queda do governo. O mesmo vale para qualquer projeto que tenha a Autoridade Palestina como alternativa para o poder na Faixa de Gaza, em substituição ao Hamas, pois isto fortaleceria a demanda pela recolocação sobre a mesa das negociações de paz, as quais, por sua vez, poderiam levar à criação de um Estado Palestino, perspectiva abominada pela coalizão governamental de Netanyahu. Para o grupo de extremistas que são parte fundamental da coalizão, a recolonização judaica da Faixa de Gaza é uma aspiração antiga, para a qual não desejam fechar as portas de forma alguma. Por outro lado, Netanyahu sabe que a maioria da sociedade israelense não compactua com estas ideias, até porque isso envolveria a extensão do serviço militar obrigatório para quatro anos, segundo o próprio ministro da Defesa Yoav Gallant. Junto a isso, a comunidade internacional jamais admitiria um retrocesso colonial como este, restando, portanto, a Netanyahu usar a sua maior especialidade: cozinhar em banho maria a situação, sem dar nenhum passo a nenhuma direção. Em contrapartida, a cada região onde o exército atuou e de onde depôs o controle do Hamas, o vácuo criado não dura muito tempo. O Hamas retorna a cada uma dessas localidades, obrigando as FDI a retornarem e a realizarem novas operações. Tal situação gerou uma crise militar que fez com que o ministro da Defesa, Yoav Gallant, pressionasse Netanyahu diretamente e exigisse que ele declarasse publicamente que a recolonização de Gaza não era uma opção. Netanyahu segue em silêncio.

Em meio a essa conjuntura, Rafah retornou ao cerne do debate. Pressionado por todos os lados para um acordo de cessar-fogo, Netanyahu retirou da manga a carta de Rafah. O gabinete debateu novamente o desabastecimento ao Hamas, atentando novamente para o controle do Corredor Philadelphi. Do ponto de vista tático, esta seria a melhor opção militar para debilitar o grupo, e Netanyahu não teve dificuldades de convencer o gabinete de guerra de que uma operação naquela região deveria ser feita. Afinal, mesmo os membros mais moderados do gabinete de guerra são generais da reserva, ainda contaminados por uma mentalidade militar, sem grandes insights estratégicos (políticos). Havia, no entanto, alguns problemas: como realizar uma operação em uma região de 64 km², habitada por cerca de 1,3 milhão de pessoas? Para onde evacuar este contingente populacional sem que eles fiquem desguarnecidos de mantimentos básicos? Como conquistar o Corredor Philadelphi sem que isso desencadeie uma crise diplomática com o Egito, um aliado fundamental de Israel, sobretudo neste momento? Quem controlará a Passagem de Rafah, a principal passagem de entrada de ajuda humanitária durante a guerra?

Rafah hoje

Parte das respostas foram dadas, outras, não. Inicialmente, foram evacuados 100 mil habitantes, da zona rural próxima à passagem de Rafah, para a região de Khan Yunis. Imediatamente, as FDI realizaram uma operação e assumiram o controle de 5 dos 12 km do Corredor Philadelphi. Foi uma das operações menos mortíferas e é vista como um sucesso, do ponto de vista tático. Tampouco era uma tarefa tão difícil, uma vez que a região era a menos povoada da região. Uma vez tendo o controle de parte da fronteira, o exército começou a destruir parte dos túneis do Hamas. Mas o governo ganhou um problema extra, previsível: a crise diplomática com o Egito, de fato, aconteceu. O governo egípcio mostrou grande descontentamento ao ver a bandeira de Israel hasteada do lado palestino da Passagem de Rafah, reduziu ao mínimo as relações entre os dois países e fechou o seu lado da passagem, em protesto. O governo israelense teve de lidar com um problema ainda maior, pois a estrutura para levar mantimentos para a população civil palestina a partir das passagens fronteiriças entre Gaza e Israel está totalmente danificada. Israel abriu novas passagens, mas todas juntas não correspondem nem à metade do que a Passagem de Rafah representava. O exército, inclusive, não desejava realizar a tarefa de controlar a passagem, e solicitou a uma empresa estadunidense que o fizesse. Isso, até o momento, ainda está em negociações, e são as FDI quem administra a passagem, por ora.

Havia outro problema: os 5 km conquistados não eram suficientes para desabastecer o Hamas. Uma passagem clandestina e os principais túneis subterrâneos que ligam Gaza ao Egito se encontram no fim da rota de Saladino. Não à toa, essa é uma região densamente povoada, não só por desabrigados em tendas, mas também por civis que viviam em Rafah desde antes da guerra. A fim de conquistar os últimos 7 km, Israel precisava evacuar cerca de 1 milhão de habitantes, e para isso era necessário um plano. As FDI apresentaram o plano a Washington, que deu autorização com a condição de que isso realmente evitasse mortes de civis inocentes. Em duas semanas, as FDI evacuaram outros 800 mil pessoas em direção a um território agrícola próximo ao litoral. Foi necessário reconstruir o sistema de bombeamento de água e promover o fornecimento de eletricidade e esgoto para os refugiados, a fim de que Biden aprovasse o plano. Ainda não foi evacuada toda a população necessária, mas Israel não deixou de realizar ataques em Rafah.

A África do Sul fez uma petição especial à CIJ, exigindo a interrupção imediata da guerra, alegando que um novo ataque israelense a Rafah dizimaria a população local. A corte atendeu parcialmente a demanda sul-africana, proibindo Israel de realizar ofensivas em regiões densamente povoadas. Se por um lado a decisão da corte praticamente proíbe Israel de agir, pois as zonas onde Israel pretende agir são, no momento, densamente povoadas, por outro deu legitimidade para que Israel seguisse a guerra de acordo com o plano apresentado aos EUA. O governo israelense se queixou da determinação da corte e afirmou que ninguém vai impedir o país de defender seus cidadãos. Em outras palavras, fizeram pouco caso da determinação da CIJ, uma vez que esta não tem o poder de impor contrapartidas.

Apenas dois dias após a determinação da CIJ, imagens estarrecedoras de Rafah se espalhavam pelas mídias. A força aérea israelense havia realizado um ataque pontual, com o objetivo de executar dois membros do alto escalão do Hamas, e o bombardeio teria gerado um incêndio, que vitimou pelo menos 45 pessoas, além de ter deixado outras dezenas de feridos. Isso, cabe recordar, em uma região com hospitais precarizados e superlotados, e com carência dos insumos mais básicos. Toda a comunidade internacional protestou de imediato. Pela primeira vez desde o 7 de outubro, vimos a procuradora geral das FDI vir à público, dizer que o caso estava sendo investigado junto a outras 70 suspeitas de violações das leis de guerra. A Conselheira Jurídica do Governo (espécie de mistura entre o que seriam a PGR e a AGU brasileiras) afirmou que ninguém estava acima da lei, nem membros do alto escalão político. O próprio Netanyahu disse, em um discurso no parlamento, que se tratava de uma tragédia, resultado de um problema técnico. Versões sobre o caso se espalharam rapidamente. Primeiramente, uma das bombas do avião havia atingido um jeep do Hamas com explosivos, provocando o incêndio. Posteriormente, segundo fontes estadunidenses, um destroço de uma das bombas havia atingido um tanque de gasolina e provocado uma forte explosão. As FDI divulgaram um áudio, supostamente gravado no local, no qual dois habitantes de Gaza comentam que uma das bombas acidentalmente atingiu um depósito de armas do Hamas. As FDI disseram que o ataque foi pontual, usou o mínimo possível de explosivos e foi realizado em uma área que não era classificada como “zona segura”.

Ainda que as FDI tentem justificar sua ação, o próprio pronunciamento de Netanyahu sugere uma confissão de culpa. Ao decidir realizar uma operação, por menor que seja, assume-se riscos. Mesmo provando que o alvo não se encontrava em uma zona segura, as distâncias em Rafah são curtas e destroços podem causar danos imensuráveis. Quando o gabinete de guerra israelense toma determinadas decisões, deve levar em conta uma série de fatores. Claramente, a segurança de civis palestinos em Rafah não está na lista de prioridades, mesmo após uma determinação da CIJ e de forte pressão da comunidade internacional. Os dois membros do alto escalão do Hamas que foram executados (Yasin Rabia e Khaled Najar) eram nomes desconhecidos pelos israelenses; não eram figuras cuja execução alterasse o horizonte do confronto. Nós testemunhamos dia a dia uma guerra cuja tônica são decisões táticas, e não estratégicas, pois não há um plano em cima do qual se trabalhe. Além da óbvia desumanização dos civis palestinos, cujas vidas são tratadas quase como descartáveis, “danos colaterais por responsabilidade do Hamas”, cada vez é mais nítido que não há como concretizar nenhum dos objetivos traçados, pois não se resolve apenas militarmente uma questão complexa, que exige uma nova realidade política na região, a qual, necessariamente, deverá incluir um Estado Palestino.

Rafah é o provável último capítulo desta guerra, cuja derrota de Israel já está estabelecida desde o princípio. Há cada vez mais especialistas afirmando que os objetivos traçados para Rafah poderiam ser alcançados caso a decisão fosse por atacá-la anteriormente, mas no momento atual já não é mais possível. O próprio governo israelense traçou um cenário no qual não pode realizar seus objetivos. Cabe à comunidade internacional decidir se este último episódio será curto ou se será estendido para uma nova temporada de horror, mortes e sofrimento, a troco de nada. O chefe do Malal (Conselho de Segurança Israelense), Tzachi Hanegbi, estimou nesta quarta-feira (29/05) mais sete meses de guerra pela frente. Nesse cenário, os 45 mortos desta semana podem tornar-se, facilmente, 45 mil. Ou mais.