Revista Rosa

Volume 9

9

Os nomes (im)possíveis

Ensaio/montagem a partir da trilogia dantesca de Pedro Eiras

“Deus” é o nome desse
desmoronamento sem fundo,
dessa desertificação sem fim
da linguagem.

(Derrida, 1995: 37)

(…)
esta alegria feroz de abrir
as portas do céu,
soberanamente,
a quem quero,
ou não tivesse eu
o nome que tenho.

(Eiras, 2022: 70)

Rodeia-te de citações
como de assassinos:
ninguém escreveu livros
para te facilitar a vida.

(Eiras, 2020: 91)

Quando falo trem mosaico, Haroldo Saboia

Li mais de uma vez coisas assim, e todos aqueles que adotam o tom inominável, vieram me dizer alguma coisa. O quê? Não estou certa do quê. Me fizeram estarrecer com o propósito de me dizerem, talvez, que o que tinham a dizer não tem o sentido de uma resposta, mas das muitas questões que o dizer convoca: Há maneiras, pequenos truques:/ repetir um nome/ tantas vezes/ que ele perca o sentido,/ dizer, por exemplo,/ nome nome nome nome/ até o nome ser areia, fumo, entulho/ na boca (Eiras, 2022: 61), traz diz a voz que se escreve, mesmo numa salva de falsa prata,/ um nome de empréstimo,/ uma máscara, uma chave mestra/ ou simples/ passe/ de magia (2022: 42). Uma provocação. Uma voz que vem de longe, uma voz furtada a um livro antiquíssimo. Talvez não venha de tão longe assim. Uma voz suave. Precisa ou imprecisa? Uma voz que se endereça a mim (seria mesmo a mim? a incerteza do nome (Eiras, 2020: 44)… o nome corrompido// por silvas, sonos, palavras/ sonâmbulas de linhagens cruzadas (2020: 58)), uma voz que insiste em dizer: Nada do que tens/ te pertence;/ nem tu pertences/ a ti próprio, quando/ te atribuem nome, número/ território,/ e céu se rasga em trovões/ cobrindo as vozes (Eiras, 2021: 62), e é então que sabemos, ou fingimos/ que a porta se abre/ e alguém diz nosso nome (2021: 8). Mas há um borrão que turva a caminhada, algo que do nome guarda apenas o vestígio, a sombra ou o assombro… Já nada presta atenção ao próprio nome,/ já tudo vive de nomes emprestados,/ já ninguém sabe que nome tem (2020: 9). Uma voz que pergunta incessante (é a minha própria voz?): Sabes/ quem eu sou? lembras-te/ de mim? (2021: 32). E morrer, em suma, sem saber o nome que nos pertence (2021: 15). Em seguida tudo silencia: em ti rebentaram/ as letras do teu nome (2021: 36). Morrer é natural, sim, mas/ não sem primeiro esgotar/ esta escadaria de sol,/ a nudez vitoriosa nas/ águas, e a vertigem em que/ se perde o nome (2022: 46). Em seguida tudo silencia novamente. Mas não por muito tempo. Ou ainda não: não terás (…) outro nome de baptismo/ senão a conferência das gotas (2020: 41), e o que se segue é inexorável… Chego mesmo a pensar que escrevi isto algures. Foi assim, não foi? Num caderno antigo, talvez… ( são horas de fazer as contas ao nome,/ averiguar a tabuada, testar a memória/ das capitais (2021: 96)), mas devo estar enganada: estes nomes dados às coisas como um/ herético/ baptismo, descolando pelas bordas,/ enrolando,/ estes nomes levados pelo vento que passa por baixo/ das portas (…)// assim como ignoras que nomes têm as coisas/ quando não estás a olhar para elas,// (…) sabes que papel encarnaste (…)/ sob o apurado holofote,/ respeitando/ marcações, a estética assinada/ por outro nome,/ mas ignoras/ o nome verdadeiro que te cabe nesta comédia de enganos:/ assinas com um/ nome falso,/ em lado nenhum há um nome verdadeiro/ à tua espera (2021: 72). Mas, não… devo estar enganada… Sim, estou mesmo enganada, como dizer, como lembrar agora/ todos os nomes,/ em que livro,/ maior/ que o próprio mundo, pelo menos do mesmo/ tamanho? (2022: 19)… Sim, estou mesmo equivocada. Mas se todos estão assim equivocados,/ a que inferno afinal se chama/ inferno, se já nada tem/ nome, e os mapas todos só dão/ para o dia de ontem? (2020: 19). Há uma trapaça que me persegue nos descaminhos dos meus passos… Desenredos? Revoltas? Presídios? É esse o ofício diabólico da errância, o mistério caótico da sorte/ que troca caras, confunde nomes (2022: 25) (A profecia estava certa: já tudo/ escorre pelo ar, misturando/ nomes e preços (2021: 46)), e ninguém sabe ao que concorre, nem se os gestos lhe pertencem, se/ batem certo com o texto (2021: 35). Diante dos enganos, dos equívocos, das trapaças, a voz está ali, precisa ou imprecisa (pouco importa) e o nome do diabo é legião/ da paciência (2021: 52). Nada temas, eu te asseguro, ninguém fará/ as contas a/ tão extensa nomenclatura.// – Vade retro, é só esta/ a minha profissão: dizer os nomes, escrevê-los (2022: 111): mas tu, voz, não esmoreças ainda/ se já te habituaste ao escuro/ e vês a película dos nomes/ a colar bocas nas coisas (2020: 13). Talvez seja o caso de recuar. Recuar? Sim, diante do engano. Recuar diante do engano? Sim, tu, que tinhas um nome e também/ outro nome,/ e quando assinavas não sabias/ se aquele era/ o nome verdadeiro, dado/ pelos deuses ou/ somente máscara, falso grego, truão fingindo/ versos (2022: 87). A voz então se desdobra em vozes e, por dentro, os graves e agudos retalham/ jugulares, retinas, o nome próprio/ num derrame de sonos (2020: 24), caras brancas,// apáticas, que ao menos não sofrem,/ não parecem sofrer com a falta de um nome (2021: 27). Mas é preciso recuar, diz a primeira voz, a voz singular, pois nem sempre as coisas/ foram assim,// com estes rótulos, estes/ nomes (2022: 29), agora é tudo diverso, diz a mesma voz, o que resta é (…) um sumário/ das culpas; eu disse/ culpas?, queria dizer/ algemas,/ um nome, um número tatuado,/ o pó de outras terras nas solas gretadas,/ voz interior a soprar línguas estrangeiras:/ eu não sou daqui (2021: 86). Eu quero saber, entendi que é necessário que eu saiba, que eu tome conhecimento: como se chamam estes homens, estas mulheres?/ mas que importa como se chamam?/ os nomes já não importam nada (2022: 101). É certo que não adianta escrever os nomes num muro:/ nunca se viu um nome ganhar carne,/ um corpo de letras regressar/ dos mortos (…)/ Nunca se viu um nome/ respirar (2021: 104), pois os nomes estão mal colados (2020: 77), e tudo o que vou entendendo (será que estou mesmo próxima de algum entendimento…?) é que no fim os anjos descolam os nomes das coisas,/ e atiram-nos para uma tulha funda e cava,/ onde ficam a apodrecer, durante anos e anos,/ roídos/ pelos ratos e pela esperança (2021: 110). Os nomes que se vão colando a mim, a você, a aqueles, a estes, a todos os outros também: as caras,/ as bocas moldadas em sal,/ os olhos como taças cheias,/ os nomes autocolantes (2022: 57). A voz retorna, parece por vezes desfazer todo enigma: dizemos os nomes mas não dizemos as coisas (2020: 112), mas Com tão pouca, pouca coisa/ se desprende desta imagem/ o nome que a segurava (2020: 78) e já tudo se cansa de existir, já os nomes/ caem das coisas como rótulos sem cola (2021: 47). O que me resta desta caminhada, afinal? Se certos fogos/ queimam até os nomes das coisas:/ o que não vejo, dizemos,/ não existe (2021: 60). Apenas uma imagem levantada contra o nada,/ tantas vezes o nada sem a ressalva duma imagem,/ tantas vezes a cinza sem um nome (2020: 105), o nome centrifugado/ num espelho de feira popular (2021: 22). É ainda a mesma voz desdobrada em vozes que vai me dizer, é a mesma voz-vozes e nenhuma outra: Aqui estão/ os nomes desperdiçados,/ ao longo do caminho, entre arbustos/ exuberantes (2021: 102): nos habituámos/ a ter mãos, peso,/ e um corpo simétrico,/ como decorámos/ o nosso nome, esse ardil pavloviano (2020: 92). Importa agora voltar ao princípio de tudo, à origem, percorrer o caminho que me trouxe até aqui, olhar atentamente para o modo como a coisa se fez: (…) o teu nome estranho/ num cartão de cidadão, esta data// de nascimento a escoar pelo ramal/ para os entulhos, para este currículo de pó// que é o nome da tua vida, do teu horário/ em dinheiro feito (2021: 49), quando na verdade, a perspectiva de todos nós vem de outro ângulo… Visto do céu, o teu nome/ escrito em sangue,/ no pó caindo/ dos prédios inacabados (2022: 51), já que é esta, e nada mais do que esta, a nossa ambição: em primeiro lugar na corrida dos nomes,/ das datas, deste aplauso da plateia/ a comemorar os séculos dos séculos (2021: 52), desejamos o infinito (…) o nosso nome repetido, nos ecrãs; (2021: 99). Não estou certa disso… não creio que eu possa encarnar isso tudo, e a seguir — e sobretudo — me lembrar de tudo (de tudo?), os nomes na caixa de correio/ há muito tempo apagados, ilegíveis (2021: 106)… a velhice rápida dos nomes/ postos na mesa (2020: 59), de onde vem/ esta luz branca, este silêncio, e como me chamo,// eu, perdidas as palavras, os nomes (2021: 27) Mas como posso assim viver (viver?), viver,// se isto é viver, sem nome, sem forma, sem/ a memória dos corpos e do verão terminado (2021: 27), (…) o que é feito/ dos vivos – e de mim, se é que vivo eu — lentamente desaparecidos,/ como quem faz a contagem dos nomes// nas fotografias, despedidos/ um a um (2021: 109). E a contra face é igualmente perturbadora: não importa o quão quente esteja, uma mão de gelo desce pela tua/ garganta, revolvendo/ antigas agendas, cantos de envelopes,/ o eco de um nome, uma data trocada (2021: 88), pois nenhum escoamento das veias/ desenraiza a memória mortal/ aquela que quando/ esqueceres todos os nomes,/ ainda virá num refluxo à tua boca/ e te sobreviverá (2020: 95 … parece que estamos sempre a meio,/ nessa sala dos passos perdidos onde alguém procura/ uma fotografia, um nome, alguém que saiba de alguém/ que tenha conhecido alguém… (2022: 106). Bem no fim, talvez seja isto: Números, nomes, tudo/ se apaga no alcatrão, nas/ ervas secas, dobradas (2021: 94). Mas não ainda, ao menos não agora, quando vejo dois olhos de quartzo,/ num canto do quarto,/ velando os meus brônquios, perguntando// (…) se me lembro// dos nomes (2020: 58–59), e a voz-vozes que repete a repetição da falha: (…) a tua memória/ de retalhos, esquecimentos, um mapa/ em branco, a casa desmantelada,/ as veias ecoando nomes (2021: 45). Há que se lembrar, entretanto, daqueles outros, dos que merecem o nosso alto chamamento: venham, homens e mulheres infames,/ nomes nos registros dos hospitais, hospícios,/ catacumbas, calabouços, gabinetes,/ um número, um apelido, o rótulo de um crime (2022: 91), também dele, ele, o nome dele não estava/ na lista/ dos outros nomes; não era suposto ser fechado/ naquele vagão; não era dele aquele destino (2022: 45), e de tu, louco, perdido nu por montes e ravinas/ chamando o nome da amada inexistente,/ pois assim mandam os livros, a tradição, o/ que é maior que nós,/ lei da cavalaria,/ cru desejo obedecido (2022: 84), pois lá fora moravam// os que não têm nome (2022: 33–34). E em caso de dúvida basta não alterar nada;/ e não falar alto,/ e não descer o morro,/ e não dizer o nome.// Ela, porém, disse os nomes (2022: 64). Ou então isto: todos os nomes são feitos com as mesmas letras,/ mas nem todos têm/ o mesmo valor./ Alguns não cabem em listas. Alguns não cabem/ em números, contas/ de corpos e nomes. Estranha aritmética, feita/ de extremas anomalias: sobras quocientes,/ estados/ de exceção (2022: 47). A ambulância com o teu nome, legião, o prazo vencido (2021: 54). Mas se precisar,/ chame,/ grite pelo bocal da escuridão (2021: 33), pois há um nome inscrito no colete salva-vidas:/ já cada grão de pó foi parte da pedra/ angular, e o sol era uma seta/ ancorada no alto céu (2021: 44). E o que fica deste longo descaminho é tão simples, de uma complexidade atroz: Não precisas de trocar uma letra em cada nome,// (…)// se disseres que nome tinhas antes de nascer,// irás então aonde já estás,/ e tudo será aquilo que é (2020: 16). É o que diz a voz: no fim/ um silêncio inteiro,/ feito/ de todos os sons derramados/ na janela da manhã/ (mas não o nome janela,/ mas não o nome manhã) (2022: 61).