Revista Rosa

Volume 9

9

Notas de outras eróticas

Em notas de outras eróticas, escrevi poemas a partir de minhas an/danças encarnadas pela Ilha de Santa Catarina, por Chaltén e pelo pico do Anhangava ao habitar Curitiba. Nessa série de 22 poemas, inscrevo mapeamentos eróticos em uma narrativa alquímica de transmutações, com 3 ciclos de 7 processos básicos (calcinatio, sublimatio, solutio, putrefactio, separatio, coagulatio e coniunctio) aos quais se soma o poema em êxtase. Esse número, também o de arcanes maiores do Tarô, me lembrava dos Vinte e um poemas de amor, de Adrienne Rich, traduzido por Sarah Valle, que de fato são 22 (o não numerado se chama poema flutuante). Aqui, apresento o ciclo do meio, de Chaltén, an/dança vivida com alguns ecos das leituras de Tudo sobre o amor, de bell hooks, traduzido por Stephanie Borges, e Butô: pensamento em evolução, de Christine Greiner.

II

(el chaltén)

colapso na andança pelos cerros, calcin.

tu te curva de quatro te apoia
nos pedregulhos da encosta os arroios
glaciais derretidos

 

tanta raiva cresce pelos teus ombros,
dense, se enroscando

 

nas palavras engolidas por tantos anos
tu te interrompe, te ajoelha
mergulhando os dedos na água de geleira

 

os lábios entreabertos, tremendo
de tesão e re/des/conhecimento

 

o gelo mordido pelo sol estala fino
e nesse fluxo tu lava teus olhos
queimando no frio

 

os nomes não fazem mais sentido
se descolam de tudo que foi visto

 

sonho que tuas pálpebras ardem
e eu também


os pedriscos caem nos trajetos, sublim.

tateando aprendo a diferença
entre as folhas de ñire e lenga
dentadas ou duplas, eu as desfio

 

o desenho do corte das lâminas
me ensina outra língua

 

subo as trilhas com seu toque
seus galhos me seguram
de longe, bem devagar

 

e lá do alto percebo o contorno da laguna

 

respiro, suando tudo que achava
e sua voz entra pelo meu rosto

 

mais outra máscara ritual se despega ao vento

 

abstrações sempre provisórias se viram
tua saliva, meu sal

 

mística incorporada


turquesa leche glaciar, solut.

te roça gelado o vento toma tuas pernas
atravessando a ponte sobre o turquesa río de las vueltas
sem resistir tu oscila avança inclinade
às rochas que te acolhem no encaixe das coxas

 

sonha que as plêiades te tocam azuis pela coluna serpente
setenária enquanto te alonga na ponte do teu corpo
que se abre
doçura melada do licor de calafate tão parecido e tão diferente

 

erodindo a textura esburacada da memória, a cachoeira é afloramento
o prazer de não lembrar mais o refrão da noite em que te magoaram

 

tu bebe o licor e molhade te inicia em outras cores
firmes e suaves
e só assim

 

te ofereço arranjos de amor que ainda não receberam nome


clivagens de degradação, putref.

tu me sussurra que há prazer em desintegrar

 

o som áspero da bola de neve que se desfaz na queda

 

a explosão troveja com o bloco de gelo que se desprende
orações tuas

 

a enlouquecer exauste na extensa volta dos trajetos
o que morre dentro para manter o movimento
vendo o mundo pelas costas

 

tu goza de alívio quando escava tua carne e arranca fora
os espinhos dos arbustos em que te apoiou no sendero

 

quando tua pele ferve sulfurosa
vejo nítido o que te é verdadeiro
tu o mastiga com calma
e gargalha

 

rio contigo


disposição às rupturas, separat.

já não somos mais valetes

 

andamos descalces pela água de geleira que nos lavou os olhos
e a bebemos quando escorre pelo río
quais verbos escolhermos

 

te sobe pela coluna a eletricidade fluida
de abocanhar rochas com os pés
e/u saboreio escolhas por sua temperatura

 

carregamos pedaços escorregadios de gelo
afiando nossos rituais à medida do indivisível
sentido de mais outro espaço-tempo

 

ajustamos nossos anéis à lunação


as rotas convergem, coagul.

na descida sinto como o símbolo que traçaste
no começo da trilha riscou em nossos músculos
um caminho cristalizado na carne

 

comemos todas as frutas da mochila
plantas e flores voltam conosco
nossas sombras transluzem
estranhas

 

nossas perguntas nos transfixam empilhando rochas
onde nada estava indicado
respondemos no cuspe gotejando nossa sintaxe
altares temporários

 

tu te derrama em mim
rezando melado

 

afluentes, amálgamas
criando provérbios


tintureires, coniun

quando tu e e/u nos lembramos
caminhando pelo leito raso da cachoeira glacial
reencontramos deleite e radiância
realizades, cada ume em seus termos
no degelo que nos libera

 

nossas triplicidades se abrem
es outres percebem que também podem andar por essas
águas