Revista Rosa

Volume 9

9

Neoliberalismo e gentrificação no sionismo de Israel

Original in English

Pedro França

A guerra de Israel em Gaza em 2024 marca mais um episódio trágico na contínua luta pela terra, pela identidade e pela soberania na Palestina. Israel adotou uma política de terra arrasada na condução de sua guerra até o momento. Diante desse cenário, os cidadãos israelenses precisam urgentemente confrontar sua relação com questões como terra, moradia e desapropriação.

A terra em Israel possui um significado profundo além de mero território; é uma ferramenta fundamental no processo de construção do Estado nacional. Após a Guerra Árabe-Israelense de 1948, o Estado de Israel e o Fundo Nacional Judaico (JNF, em inglês) consolidaram o controle sobre a maioria das terras dentro das fronteiras desenhadas antes de 1967. Na visão dos primeiros sionistas, essa consolidação era fundamental para cumprir os direitos ancestrais dos cidadãos judeus e estabelecer ali uma pátria. Yael Allweil, israelense especialista em história da arquitetura, descreve o projeto material do sionismo como uma “política habitacional” [housing regime].1 Alguns contestam essa representação do projeto sionista como um projeto de construção de moradias, argumentando que, na verdade, se trata de um projeto para destruí-las. Essa destruição “criativa” faz parte da identidade nacional israelense — o “novo judeu”. O “novo judeu” é uma forma de judaísmo robusto representado, geralmente, na figura de um homem ashkenazi (um judeu do leste e centro da Europa). Max Nordau, cofundador da Organização Sionista, afirmou no Congresso Sionista de 1898 que o sionismo deveria centrar-se na destruição do judeu que segue a Halacá (os 613 mandamentos ou mitzvot, mais tarde a lei talmúdica e rabínica, e a tradição judaica como um rígido guia para todos os aspectos da vida). Esse antigo judeu, que passava todo o seu tempo estudando o judaísmo e era vítima de perseguição por seus vizinhos não judeus, deveria ser substituído pelo Novo Judeu, um tipo fisicamente poderoso e atlético.2 O lar judaico israelense reflete esse processo, o qual destrói vidas palestinas e o bem-estar dos judeus de cor.

Hagar Kotef, professora de teoria política na SOAS (Faculdade de Estudos Orientais e Africanos da Universidade de Londres), descreve o conceito de “lar” como transcendendo suas dimensões físicas; é um local de governança e diferenciação.3 Ela explica que o lar serve como um ponto de interseção para gerenciar as diferenças sociais, seja ocultando-as, seja governando indivíduos percebidos como diferentes — esposas, serviçais, crianças e comunidades marginalizadas definidas por raça, classe, status legal, idade ou deficiência. Mais importante ainda, o conceito de lar representa um domínio diferenciado da esfera política e significa propriedade privada que perpetua distinções de classe.

Aspirações sionistas iniciais, nascidas do desejo de escapar da perseguição europeia, inadvertidamente perpetuaram práticas discriminatórias dentro de Israel. Em vez de desafiar atitudes excludentes, os sionistas marginalizaram judeus mizrahim (do Oriente Médio e do Norte da África) e sefarditas (ibéricos), enquanto os palestinos enfrentaram tanto práticas de exclusão sistemática de direitos de propriedade como limitação aos direitos individuais de cidadania. Por exemplo, 93% da terra de Israel é de propriedade do Estado e é arrendada; cidadãos palestinos de Israel não têm permissão para arrendar 80% dessa terra estatal. Organizações judaicas que administram a terra não a arrendam a não judeus nem permitem que eles vivam em projetos habitacionais ou comunidades destinadas a novos imigrantes judeus que buscam terras estatais. Além disso, os cidadãos palestinos de Israel estão sujeitos às leis civis israelenses. Essas normas, em geral, lhes conferem maiores liberdades e proteções de direitos humanos do que aos palestinos que vivem nos Territórios Palestinos Ocupados, mas negam a eles direitos iguais aos dos israelenses judeus (incluindo participação política) e institucionalizam diversas formas de discriminação contra eles.

As políticas habitacionais de Israel têm exacerbado as divisões sociais e reforçado as desigualdades existentes. Após 1948, houve uma escassez de moradias tão grande que surgiram acampamentos de imigrantes (ma’abarot), geralmente próximos aos principais centros urbanos de Israel.4 Quando a construção de habitações públicas aumentou, a Agência Judaica favoreceu os judeus ashkenazim, garantindo a eles, em geral, residências em áreas centrais com melhor acesso a recursos, infraestrutura, redes de serviços e oportunidades. Em contraste, judeus mizrahim e alguns judeus sefarditas frequentemente foram relegados a regiões periféricas, normalmente em terras expropriadas de palestinos. Enquanto muitos judeus mizrahim foram retirados de acampamentos de imigrantes e levados para a periferia, outros vieram voluntariamente, devido à proximidade com familiares, amigos e emprego, ou atraídos simplesmente pelos baixos preços das moradias naquelas áreas. Os desafios econômicos dos anos 1970 intensificaram a pobreza nos arredores, criando uma subclasse de comunidades marginalizadas.

Em resposta às pressões econômicas que acometiam o Oriente Médio e o mundo todo nas décadas de 1970 e 1980, Israel adotou políticas neoliberais apostando na privatização de serviços públicos e no subsídio público a assentamentos privados nos territórios palestinos ocupados. Essa abordagem aprofundou ainda mais as disparidades dentro da sociedade israelense, pois os assentamentos foram empregados como um mecanismo compensatório para a classe trabalhadora israelense. As políticas neoliberais de Israel nos anos 1980 levaram a um aumento de 50% nos preços das habitações e aluguéis até o final dos anos 2000. Os cidadãos israelenses se mobilizaram em protestos em massa contra as prioridades orçamentárias do Estado, sendo a maior mobilização o Protesto Habitacional de 2011 (Mechaat HaDiyur). Os participantes levantaram a voz não apenas contra o aumento do custo de vida senão também contra o que foi considerado por alguns como a provisão de um suposto Estado de bem-estar para os colonos israelenses às custas dos israelenses que viviam na Israel “propriamente dita”.

A gentrificação dentro de Israel está se tornando mais intimamente ligada à colonização da Cisjordânia ocupada. Quando os israelenses não podem mais se dar ao luxo de viver na Israel “propriamente dita”, o Estado israelense oferece habitação subsidiada e serviços públicos nos Territórios Palestinos Ocupados. A gentrificação em todos os estados coloniais envolve valorações diferenciais dos corpos, o que reflete as dinâmicas de poder macroinstitucionais mais amplas, bem como benefícios que incluem alguns e excluem outros. No contexto israelo-palestino, os corpos “brancos” (ou seja, dos judeus ashkenazim) — imaginário e literal — são percebidos como capital que tem um efeito real sobre o valor da terra. Espaços públicos em bairros mizrahim e sefarditas muitas vezes não são mantidos pelos municípios porque são frequentemente bairros de baixa renda.

Figura 1. Assentamentos na Cisjordânia — Este mapa mostra a situação aproximada do controle civil e dos assentamentos em junho de 2020. Mapa feito pela BBC com base em dados extraídos do projeto de mapa interativo da organização não-governamental B’Tselem.5

O Ministério das Finanças de Israel reclama que, desde o início da guerra em 7 de outubro de 2023, as compras de imóveis diminuíram 30%, enquanto o Ministério da Habitação de Israel também aprovou mais de 3 mil casas para colonos na Cisjordânia ocupada. Além disso, o governo iniciou um programa de propriedade subsidiada com recursos públicos (Mechir Lemishtaken), no qual jovens israelenses que não possuem moradia própria podem solicitar uma casa com desconto em assentamentos antigos na Cisjordânia. Em 2019, o Haaretz informou que cerca de 11.600 pessoas postularam pelas 282 unidades de apartamentos subsidiados que o Estado vendeu no assentamento de Alfei Menashe, no noroeste da Cisjordânia. Com um número crescente de israelenses da classe trabalhadora se mudando para a Cisjordânia a cada ano, começamos a ver como o Estado de Israel capitaliza as divisões de classe e raça para expandir ainda mais a colonização. Se Israel formalmente anexar o território de Gaza, poderemos esperar que o mesmo padrão surja ali também.