Revista Rosa

Volume 9

9

Dos eventos climáticos extremos à violência da extrema direita

Pedro França

Neste momento, em que cerca de 5 milhões de pessoas enfrentam os efeitos dos eventos climáticos extremos no estado do Rio Grande do Sul — fruto de grandes quantidades de chuva concentradas em curto período de tempo em regiões fragilizadas por excesso de destruição do solo —, as chuvas intensas se espalham por diversos lugares do mundo, resultado mais evidente do aumento recorde da temperatura global no ano passado. Afeganistão, Quênia, Indonésia, Congo, Dubai, sudeste da China, norte da Itália são alguns pontos do planeta afetados pelo aquecimento dos oceanos, resultado da combinação entre o aumento constante do efeito estufa e o El Niño de 2023, que produziu uma grande transferência de calor para a atmosfera.

Entrelaçados ao contexto de aquecimento global em níveis inéditos estão os problemas específicos do Rio Grande Sul, onde as leis de proteção ambiental foram cedendo espaço, nos últimos anos, à flexibilização em prol das grandes plantações de arroz e soja que, agora arrasadas, farão grande estrago na economia nacional. Some-se a isso a incompetência na gestão municipal em Porto Alegre, onde os sistemas de bomba e drenagem das águas do Guaíba foram abandonados sem manutenção, e temos um cenário distópico em que um estado inteiro da federação levará anos para ser reconstruído, a um custo altíssimo para todo o país, e diversos municípios terão que ser remanejados para longe das margens dos rios e das áreas de várzea.

Até aqui, temos uma situação em parte previsível, resultado da ignorância e leniência quanto à necessidade de mudança na gestão dos recursos ambientais diante da crise climática, e parte imprevisível, já que estamos diante de eventos climáticos extremos e ao mesmo tempo inéditos. Tudo isso já é difícil o suficiente, envolve a vida de milhares de pessoas e ameaça ainda mais concretamente as condições de sobrevivência nos territórios afetados, cuja extensão tende a crescer. Mas o Brasil tem um modo peculiar de enfrentar suas crises — e é importante que se diga que os eventos climáticos extremos que destruíram o Rio Grande do Sul não podem ser encarados como um problema apenas daquele estado. Ao lado do constante elogio à solidariedade entre os gaúchos e com os gaúchos, vindas de todas as partes do país, estamos diante de um segundo grande colapso, que resulta da atuação das forças políticas de extrema direita ao disseminar toda forma de negacionismo e mentira.

O que já havíamos visto na pandemia da covid-19 tem sido aprimorado em relação ao Rio Grande do Sul, tanto e a tal ponto que os órgãos de defesa civil perderam tempo e recursos com falsos chamados. Circula nas redes todo tipo de perversão sobre o funcionamento dos abrigos de emergência, em especial os dedicados às crianças e mulheres. Não basta o desprezo da extrema direita pelos alertas dos cientistas, não basta a deliberada destruição ambiental em prol do lucro (de uns poucos, porque os prejuízos serão repartidos por todos), não basta ignorar as condições precárias em que estão os sobreviventes. É preciso fazer de uma tragédia uma “oportunidade” para provar o instinto de destruição que anima a extrema direita.

A tragédia brasileira tem sempre muitas camadas. No caso do Rio Grande do Sul, esses dois registros extremos — o do clima e o da mentira política — servem como alertas: as mudanças climáticas são irreversíveis e o futuro das cidades depende também das eleições municipais de 2024, estas em que o PL do ex-presidente Jair Bolsonaro pretende eleger mil prefeitos, de preferência nas cidades menores, onde é mais fácil ganhar — abaixo de 200 mil habitantes o pleito é decidido apenas no primeiro turno — e ainda mais fácil destruir. Do total de 497 municípios do Rio Grande do Sul, 452 foram atingidos pelas chuvas. Nas eleições de outubro, apenas dez cidades com mais de 200 mil habitantes decidirão o pleito em dois turnos, o que faz da tragédia climática um momento decisivo para a sobrevivência do estado e de seus políticos.