Revista Rosa

Volume 9

9

Desejos de mulher

Resenha de Uma mulher, de Annie Ernaux

Chris Moraes

Uma das muitas características interessantes dos livros da escritora francesa Annie Ernaux está no modo como ela explicita a escolha da sua forma de escrita a cada texto. Antes da narrativa propriamente começar, há uma espécie de preâmbulo para anunciar tanto o acontecimento que move aquela narrativa quanto a forma escolhida para abordá-la. Leitores e leitoras de Ernaux são introduzidos ao livro antes que ele comece, embora já tenha começado. A estrutura é engenhosa porque nos permite participar das decisões de formulação do livro tal qual ele se apresenta; fazemos uma entrada já preparada. Esse estilo de escrita se repete em Uma mulher, em cuja introdução ela anuncia: “O que eu espero escrever de mais exato se situa, sem dúvida, na articulação entre o familiar e o social, o mito e a história”. Talvez seja correto dizer que todos seus livros também se situam nessa articulação, mas é importante prestar atenção nas razões da autora para destacá-la em Uma mulher, a mais nova tradução brasileira da obra de Ernaux, editada de maneira muito consistente nas traduções de Marília Garcia para a editora Fósforo.

Articulação é também um traço marcante de seus livros: Uma mulher, remete diretamente a O lugar e de modo indireto a O acontecimento, A outra filha, A vergonha e O amante. Todos carregam o recurso à fotografia1 como elementos de memória, memorandos do tempo vivido e agora narrado, e configuram uma constelação de textos em que a narradora fala de si para tomar a sua experiência particular como instrumento de abordagem da desigualdade socioeconômica e cultural, marca de sua trajetória. Vem daí a formulação de uma escrita autossociobiográfica, os dois prefixos articulados na forma de um texto impossível de ser reduzido à narrativa da experiência pessoal, mas também impossível de ser escrito sem o recurso ao singular.

Apesar de o ponto de partida de Uma mulher ser a morte da sua mãe, assim como O lugar começa com a morte do pai, e embora os dois livros sejam marcados por trabalhos de luto, há uma diferença incontornável entre os dois relatos. Ernaux perde o pai quando ela ainda era muito jovem e a escrita sobre sua morte é muito posterior. O livro foi publicado na França em 1987, apenas quatro anos depois de O lugar, mas o intervalo temporal que separa a morte do pai da morte da mãe é de aproximados 20 anos. Sua mãe morre idosa, após padecer alguns anos de demência senil, e Ernaux escreve sobre esta perda imediatamente depois, como resultado da decisão de inscrever a mãe na história das mulheres pobres da França do início do século XX. Desde o título, está anunciado que o livro será uma mulher. Há diferentes camadas nesta mulher do título: pode ser a própria Ernaux, se havendo com a sua trajetória feminina marcada pelo desejo da mãe, pode ser a singularidade da mulher que foi sua mãe, pode ser a escavação da mulher na mãe, de quem Ernaux então consegue se despedir.

Desde que comecei a ler as traduções brasileiras de Ernaux, tenho me dedicado também a estudar um conceito muito presente em seus livros: “trânsfuga de classe”, tradução literal de “transfuge de classe”, expressão cunhada pelo sociólogo Pierre Bourdieu para descrever a transposição de um meio social para outro durante a própria vida, podendo provocar conflitos de identidade, culpa e sentimento de infidelidade em relação ao seu meio original. A “trânsfuga de classe” de Bourdieu é mencionada por Ernaux em diversas entrevistas e mesmo no discurso de premiação do Nobel (publicado em A escrita como faca e outros textos, 2023) como um elemento marcante na sua escrita, muitas vezes denominada de autossociobiografia, justamente por interligar a experiência particular e a coletiva em uma mesma narrativa. É de Ernaux que se trata, mas nunca é apenas de Ernaux que sua escrita trata.

Em O lugar, sua condição de trânsfuga de classe está sendo descoberta diante dos leitores e leitoras e aparece como uma explicação possível para a distância aberta entre ela e seu pai recém-falecido:

Depois, ao longo do verão, enquanto esperava meu primeiro cargo de professora, pensei: “um dia terei que explicar todas essas coisas:. Ou seja, terei que escrever sobre meu pai, sobre a vida dele e sobre essa distância entre nós dois, que teve início em minha adolescência. Uma distância de classe, mas bastante singular, que não pode ser nomeada. Como um amor que se quebrou”

(O lugar, p. 14).

Já em Uma mulher a posição não se trata de distância, muito pelo contrário. Trata-se de um reconhecimento, ainda que ambíguo, de todo o empenho de sua mãe para que Ernaux tivesse oportunidades e trajetória de vida opostas às dela, limitadas pela pobreza, pela ausência de horizonte de expectativa na cidade pobre da Normadia onde nasceu e cresceu, pela falta de acesso ao ensino, à educação, à cultura, à formação.

Reconhecer-se como resultado do esforço e sacrifício dessa mulher aparece como um processo tão doloroso quanto o trabalho de luto pela perda da mãe. São duas dores unidas por uma escrita que se esforça por desvendá-las em suas duas dimensões. “Seu desejo mais profundo era me dar tudo que não tivera” ou “ela me matriculou no pensionato, e não na escola pública” são pequenos exemplos das passagens em que a autora está tentando enfim conhecer aquela mulher e sua singularidade, transbordando assim a figura materna para situar “sua história e sua condição social” (p. 30).

A autora se apresenta então como herdeira da ambição da mãe, mesmo quando a adolescência as separa e Ernaux passa a sentir vergonha daquela mulher “espalhafatosa demais” (p. 37) para os novos padrões burgueses que adotara, esse novo meio proporcionado pelos estudos — aqueles mesmos incentivados pela mãe. “Tinha certeza de seu amor e desta injustiça: ela passava o dia inteiro vendendo batata e leite para que eu estivesse sentada num anfiteatro ouvindo falarem de Platão”, escreve Ernaux (p. 38), em mais um exemplo de como a trânsfuga de classe opera a relação mãe e filha, produzindo duas mulheres muito diferentes entre si. Diferentes, mas unidas, no entanto, por um desejo.

Em uma confissão surpreendente, Ernaux afirma que entrou no mundo da escrita para cumprir o desejo da mãe — como se ela mesma, Ernaux, não tivesse tido escolha. Essa posição de ser uma mulher sem escolha remete ao mesmo lugar de impotência que ela percebe ao recontar a história da mãe. Nascida em uma cidade pobre do Norte da França, foi uma mulher que não tinha escolha há não ser se casar, tornar-se comerciante, manter a mercearia funcionando dia e noite. Fez, nessa circunstância, a escolha de ser diferente da própria mãe e, ao projetar sua ambição na filha, ofereceu a outra mulher, sua filha, um percurso pela educação que viesse a proporcionar uma escolha. Na narrativa de Ernaux, no entanto, sobressai justamente essa repetição, a de ser uma mulher sem escolha porque fadada a cumprir o objetivo que havia sido impossível para a mãe. Ao tornar-se um destino inevitável, escrever torna-se também um fardo com o qual Ernaux parece querer acertar as contas na escrita do luto.

Há numerosos trechos em que o (re)encontro com a mãe é penoso. Se com a figura da mulher há um tom de compaixão, compreensão e admiração, em relação à mãe a memória de Ernaux oscila entre a mãe “boa” e a “má”, sendo esta a que repreende a filha por não estar cumprindo da melhor forma possível o seu destino de estudante, professora ou escritora. Essa pressão permanece durante a vida adulta, quando Ernaux volta a morar com a mãe, agora recebendo-a em sua casa, onde vivia com o marido e os filhos. Nesse ponto, creio ser possível introduzir outro conceito com o qual tenho trabalhado na leitura da obra de Ernaux: infamiliar, uma hipótese de tradução brasileira do termo freudiano Unheimlich, designação para aquilo que é estranho e familiar ao mesmo tempo.

Ao contrário do conceito de “trânsfuga de classe”, referência explícita de Ernaux em entrevistas e artigos, o infamiliar é um aporte que tenho feito da leitura da sua obra e que decorre da compreensão de que ser trânsfuga é carregar essa ambiguidade de pertencer e já não pertencer mais ao seu mundo de origem. Ao enfatizar esse problema do pertencimento, Ernaux abre caminho, na França, para outros autores e autoras trazerem à público o tipo de sofrimento experimentado no percurso de “fuga” de uma condição socioeconômica e cultural que, descobre-se depois, jamais será totalmente superada pelo “fugitivo”.

Foi com o premiado O lugar que ela influenciou narrativas sobre o mesmo tema, cada um encontrado a sua forma mais ou menos literária de abordar a própria fuga: Retorno a Reims e A sociedade como veredicto (Âyiné Editora), de Didier Eribon, o primeiro sobre o pai, o segundo sobre a mãe. O autor, por sua vez, inspira Edouard Louis em diferentes títulos, como Mudar: método, do qual Eribon é personagem, além de Quem matou meu pai e Lutas e metamorfoses de uma mulher (Editora Todavia). No Brasil, segue a mesma linha o ótimo O que é meu, de José Henrique Bortoluci, também editado pela Fósforo. A história de um pai caminhoneiro que dirigiu para construir o sonho do “Brasil grande” é confrontada com a trajetória de sociólogo do autor. Na antropologia, Três famílias — identidades e trajetórias transgeracionais nas classes populares (FGV), de Luiz Fernando Dias Duarte e Edlaine Gomes, traz a investigação das circunstâncias em que as transições de classe foram possíveis.

Chris Moraes

Uma mulher é uma peça a mais nos diversos relatos autossociobiográficos de Ernaux. A narrativa sobre a mulher que foi sua mãe é permeada pelo sofrimento de perda, expresso na percepção de que, com a sua morte, estava rompido o último vínculo entre Ernaux e o mundo do qual ela saiu, por desejo e empenho da sua mãe. Essa ruptura causa mais dor do que orgulho: “[minha avó] Conhecia todas as práticas que amenizam a pobreza. Esse saber, passado de mãe para filha durante séculos, parou em mim, que sou apenas a arquivista de todos eles” (p. 15). Ao pensar a distinção entre o “mundo dominado” no qual sua mãe havia vivido e o “mundo dominador” do qual passou a fazer parte por desejo da mãe, a dor de Ernaux parece estar situada na constatação de que ainda não há espaço para o desejo de uma mulher, como não houve espaço para o seu próprio desejo. Como uma “boa filha”, perseguiu os objetivos da mãe, fazendo da diferenciação e do afastamento a única forma de manter seu amor por ela. Nesse sentido, é também um livro sobre os diferentes lugares: avó, mãe, filha ou neta. É uma narrativa de acerto de contas com o legado entre as mulheres, cuja existência familiar é também uma herança do estranho da feminilidade.