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Cultivando a continuidade: a pesquisa artística em lugares específicos e engajamento público

Flecha de pedra (2023), Renata Haar

No seu ensaio Ideias para adiar o fim do mundo, de 2020, o ativista Ailton Krenak evocou o impasse socioecológico atual como uma queda num abismo repleto de divisões. “Não tem fim do mundo mais iminente do que quando você tem um mundo do lado de lá do muro e um do lado de cá, ambos tentando adivinhar o que o outro está fazendo”, escreveu, antes de convocar seus leitores a abraçar a sensação de queda e “aproveitar toda nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos”, para retardar a queda e transformá-la em algo emocionante e edificante (2020, 64). Longe de negar a gravidade do Antropoceno, Krenak clamou por uma diversificação de epistemologias e práticas imaginativas capazes de colocar o mundo em outro registro, “que não é um mundo paralelo, mas que tem outra potência” (66). Essas ações, sugere Krenak, combateria a alienação enraizada do sistema mundial capitalista, criando oportunidades para a reanexação às formas multitudinárias de vida e para uma abertura a outras formas de viver e ser no mundo.

Nos últimos dez anos, as artes ecopolíticas se consolidaram como terreno fértil para a investigação crítica das causas estruturais e dos desafios urgentes do Antropoceno, tal como demonstrado nas grandes exposições Incerteza viva (Bienal de São Paulo, 2016), Corpos de Água (Bienal de Xangai, 2021) e Rīvus (Bienal de Sydney, 2022). Com o crescente reconhecimento formal da pesquisa prática dentro da academia, em virtude de seu valor acadêmico intrínseco e de sua capacidade de envolver imaginações públicas e atravessar divisões disciplinares (Smith e Dean, 2009), plataformas de pesquisa prática de grande visibilidade surgiram para lidar de forma inventiva com os desafios ambientais apontados por Krenak. Frequentemente, elas se movem dentro e fora de ambientes acadêmicos, para locais específicos de trabalho de campo e inventando diversos formatos para disseminação em ambientes públicos. Exemplos que confirmam o valor da pesquisa para a constelação de métodos criativos e diálogos disciplinares são as redes globais como World of Matter — uma plataforma multimídia de acesso irrestrito com informações sobre as ecologias globais de exploração e circulação de recursos — e as exposições interdisciplinares desenvolvidas pelo projeto Living in the Anthropocene, liderado por Anna Tsing e Niels Bohr na Universidade de Aarhus. Ambos criticam projetos antropocêntricos de desenvolvimento humano e especulam sobre formas de viver na temporalidade que Donna Haraway (2016) chama de “continuidade” [ongoingness].1

Essas mudanças na pesquisa prática ocorrem em paralelo com outras transformações, mais amplas e interligadas, nas formas como os desafios ambientais estão sendo mapeados nas disciplinas acadêmicas e além delas. Com a crescente conscientização sobre a emergência de assuntos ecológicos e climáticos nos debates públicos, há um impulso crescente na academia por projetos de pesquisa que sejam interdisciplinares e voltados para o público em suas estratégias de disseminação, além do reconhecimento do valor acadêmico do trabalho de engajamento público nas humanidades ambientais (Jørgensen, 2022). Simultaneamente, a criação de periódicos especializados, associações acadêmicas e programas de pós-graduação no campo das humanidades ambientais confirma o terreno conquistado por essa disciplina inovadora e oportuna, baseada na travessia de divisões convencionais entre as ciências naturais e sociais e as humanidades. Tudo isso serve de pano de fundo para o surgimento de projetos na América Latina que dão contribuições valiosas aos debates ambientais; projetos que, ao aprender “a pensar na presença de permanentes fatos de destruição” (Stengers, 2013, 186), estimulam debates cada vez mais prevalentes nos estudos culturais latino-americanos nos últimos anos, como postulamos neste dossiê. Esses projetos de pesquisa prática partem das artes para semear territórios criativos que reúnem artes, ciências, comunidades e instituições na luta contra as pressões socioambientais causadas pelos legados do colonialismo e do extrativismo, conflitos de posse de terra afetando comunidades camponesas, indígenas e afro-latino-americanas, territórios pós-conflito e os direitos da natureza, entre outras questões. Muitos são informados por debates críticos sobre descolonização e a necessidade de “ecologias do conhecimento” que substituam a monocultura do pensamento ocidental predominante por epistemologias diversas que possam inspirar éticas de pertencimento planetário adaptadas ao presente (de Sousa Santos, 2008, 186).

Uma profusão de artistas na América Latina está introduzindo pesquisa prática na estética ambiental, contribuindo para o desafio coletivo de imaginar formas alternativas de estar no mundo. Uma crescente lista de publicações que cruzam os Estudos Culturais Latino-Americanos e as Humanidades Ambientais está colocando holofotes no nexo entre arte e meio ambiente (por exemplo, Andermann 2018; Lozano 2016; Page 2021). Ao mesmo tempo, projetos acadêmicos recentes estão utilizando programas públicos e exposições para preencher lacunas entre trabalhos acadêmicos e debates públicos (Solano e Serrano 2021). Nesse contexto, reviso aqui três iniciativas colaborativas em pesquisa liderada por arte que contribuem significativamente para discussões acadêmicas, conversas públicas e ação comunitária sobre conflitos socioambientais e justiça. Ao focar em HAWAPI, Ensayos e EnlaceArq, três plataformas com uma década de existência ativas dentro e fora da América Latina, considero como seu envolvimento direto com o território, sua busca por métodos transdisciplinares ao trabalhar em diversos terrenos e mídias e seu compromisso com o engajamento público fomentam uma “ecologia de práticas” — termo que Isabelle Stengers usa para descrever modos maleáveis e inventivos de pesquisa, os quais, pensando através do meio ambiente (entendido como campos intermediários de conhecimento e como ambientes físicos), consideram vínculos emergentes a mundos de vida compartilhada que abandonam o apego nostálgico a verdades fixas (2013, 187). Embora seu escopo seja limitado, os projetos selecionados representam a consolidação da investigação baseada em arte na região, a diversidade de métodos baseados em processos que animam a busca desses projetos pela “response-ability” [habilidade de responder] (Haraway 2016) e as abordagens estratégicas para interagir com contextos acadêmicos e instituições culturais que apoiam a autonomia e flexibilidade nos métodos de trabalho.2 A seguir, a discussão gira em torno da seguinte questão: como a pesquisa liderada pela arte e específica ao local semeia e cultiva colaborações inter e transdisciplinares em torno de pautas socioambientais urgentes que afetam a América Latina? Como os projetos estabelecem relações críticas com a circulação de conhecimentos relacionados a essas questões e se envolvem com diversos tipos de públicos? E, na medida em que os projetos revisados aqui muitas vezes operam nas margens da academia, que forças e desafios isso gera para sua sustentabilidade no tempo e seu impacto na pesquisa acadêmica, nos debates públicos e na vida de comunidades específicas?

Acessando o terreno

O acesso à terra na América Latina é historicamente contencioso e violento. Os encontros e dinâmicas espaciais em suas “zonas extrativistas” são frequentemente enredados no “paradigma colonial, na cosmovisão e nas tecnologias que delimitam regiões de ‘alta biodiversidade' a fim de reduzir a vida à conversão de recursos capitalistas” (Gómez-Barris 2017, XVI). Desde as reducciones coloniais e latifundia, passando por enclaves de mineração e complexos industriais transnacionais, as formações de mercados de terra atestam diretamente os processos de usurpação, escravidão e exploração perpetrados pelo colonialismo e pelo capital. Como a terra é representada está imbricada com esses fenômenos. Nas histórias territoriais da região, o poder colonial, mapeamentos científicos e empreendimentos extrativistas convergem na produção de uma cultura visual complexa e problemática (Bleichmar 2012). A expedição tem sido um modus operandi fundamental nesse cenário, e um que envolveu diretamente artistas na produção de taxonomias que instrumentalizavam a natureza como recurso, e que lançavam as paisagens da América Latina em registros sublimes e românticos que eufemizavam os encontros violentos (Manthorne 2015). Essas tradições tornaram a arte cúmplice das dinâmicas coloniais e extrativistas, um exemplo notável é a Expedição Botânica da Nova Granada (1760–1808), cujo arquivo de ilustrações permanece no Jardim Botânico Real em Madrid, Espanha.

Enfrentar criticamente esses processos territoriais e evitar as dinâmicas contemporâneas tanto do extrativismo turístico quanto do acadêmico/cultural é um desafio comum para projetos específicos aos locais que visam engajar diretamente o território, reunindo (como fazem os projetos revisados aqui) grupos de artistas, curadores, pesquisadores e membros da comunidade para trabalhar juntos no campo. A complexidade do acesso como um processo de negociação — em vez de um direito pressuposto — é uma característica central do trabalho da HAWAPI, uma associação cultural independente sediada em Lima que leva artistas interdisciplinares para lugares específicos a fim de conduzir pesquisas e produzir intervenções no espaço público. Fundada em 2012 pelo produtor de cinema Maxim Holland, a HAWAPI funcionou nos seus dois primeiros anos sob o nome AFUERA. Desde 2017, Holland co-direciona o projeto com a curadora e acadêmica Susie Quillinan, que também lidera o trabalho editorial da plataforma. A HAWAPI se desenrola anualmente em uma estrutura de três fases, que começa com uma residência no local específico (chamada de encuentro), reunindo aproximadamente dez participantes por uma a duas semanas. A residência é seguida de um trabalho curatorial com os artistas que resulta na exposição numa galeria urbana realizada alguns meses depois, e um livro digital e impresso, geralmente publicado um ano após o encuentro inicial. Os artistas participantes são principalmente peruanos, mas também internacionais; curadores convidados também têm participado do projeto desde 2018. Os locais de residência incluíram, entre outros, as cidades de mineração a céu aberto e de garimpagem aurífera de Cerro del Pasco (2012) e Huepetuhe (2015), ambas no Peru, a área desértica da fronteira entre Peru, Chile e Bolívia (2017) e o Espacio Territorial de Capacitación y Reincorporación Amaury Rodríguez em Pondores, em La Guajira, Colômbia (2018). Durante o encuentro, participantes interagem com o local e com os moradores locais de várias maneiras, incluindo colaborações mais estreitas (como a residência que ocorreu nas terras de Máxima Acuña e sua família em Cajamarca, em 2019) ou experiências mais remotas (como na edição de 2014, quando os participantes estavam estacionados em um acampamento-base isolado criado no recuado glaciar Pariacaca, na Cordilheira Central do Peru).

HAWAPI gira em torno da experiência intensa, incorporada e relacional que os participantes ganham no campo. Essa experiência é projetada para instigar nos artistas respostas efêmeras ao lugar que são informadas pelas complexas configurações de território que encontram. Ao invés de ser um projeto exclusivamente ambiental, a abordagem curatorial da HAWAPI é selecionar locais de relevância social, econômica e política que demonstrem processos de abandono, ruptura e transformação contínua. Os participantes não interagem com o território seguindo a trajetória da expedição (que tende a colocar corpos humanos contra um ambiente a ser conquistado). Em vez disso, os participantes permanecem enraizados nas texturas socioeconômicas e materiais de cada local de encuentro. Essa estratégia busca gerar profundidade e intensidade nos encontros, em vez de imitar a retórica frequentemente triunfante de expedições históricas e excursões turísticas contemporâneas. Nesse sentido, o enquadramento conceitual da HAWAPI é mais semelhante ao apelo que Robert Smithson fez no meio do século XX para considerar os ricos “escombros de lógica” que podem ser desenterrados na interação direta com geologias, alteradas pelos seres humanos, de paisagens infraestruturais e extrativas (1996, 110).

De fato, em diálogo consistente com a tradição da Land Art, as respostas artísticas muitas vezes surgem como instalações temporárias vistas apenas pelo próprio artista e seus colaboradores imediatos, emergindo através do envolvimento direto e colaboração com a comunidade que hospeda os artistas. Isso ocorreu, por exemplo, na edição de 2019, quando a artista colombiana Linda Pongutá esculpiu um anel de terra ao redor de uma grande pedra nas terras pertencentes a Máxima Acuña e sua família, observando que “Esta pedra é um lugar que algo ou alguém pode habitar, é uma fonte de fertilidade e está relacionada ao remoto, é uma montanha” (Quillinan 2020, 21).3 Para o gesto da artista de criar um jogo microcósmico de vulnerabilidade, cercamento e proteção, o filho de Acuña, Daniel Chaupe, respondeu: “Esta pedra está protegida, o que nos leva a concluir que as pedras também estão vivas” (Quillinan 2020, 21). Esse processo lento de esculpir a terra a mão refletiu a dinâmica de outros participantes que ofereceram seu trabalho para as tarefas cotidianas das terras de Máxima Acuña, demonstrando a disposição ética do projeto na medida em que lembra a afirmação de Maria Puig de la Bellacasa de que: “Cuidar é mais do que um estado afetivo-ético: envolve engajamento material em trabalhos para sustentar mundos interdependentes, trabalhos frequentemente associados à exploração e dominação” (2012, 198). Um exemplo adicional de trabalho colaborativo ocorreu na edição de 2015 em Huepetuhue. As atividades se desenrolaram num centro cultural temporário na praça principal da cidade, que serviu como ponto de encontro ao ar livre e local para workshops, exibições de filmes e performances. Lá, o artista peruano Philippe Gruenberg trabalhou com um confeiteiro local para criar um vasto bolo retratando a paisagem extrativista. O bolo foi exibido e consumido pela comunidade. Considerado pelos curadores Holland e Quillinan um exemplo do ethos HAWAPI, a intervenção criou uma oportunidade literal para metabolizar coletivamente (e de forma lúdica) a incursão dos artistas no local e digerir como a mineração está transformando o ambiente local.4

Qual o impacto duradouro de tais experiências nas comunidades que hospedam residências artísticas é uma questão notoriamente difícil de avaliar na pesquisa artística, uma vez que (para a frustração dos financiadores) nem sempre produz resultados imediatos ou quantificáveis. No caso da HAWAPI, não há pretensão de colaboração duradoura com o local ou a comunidade; e os curadores têm consciência crítica e autocrítica sobre os perigos representados tanto pela arte contemporânea existente numa "bolha" quanto pelos “infernos artificiais” (Bishop 2013) que a arte participativa superficial pode criar (conversa com o autor, 4 de novembro de 2021). Em vez disso, a aposta curatorial é mais bem compreendida como aquela aspiração ao que Holland chama de “efeito dominó” (“Conversas Lima” 2016), gerado pela ativação temporária de comunidades envolvidas em debates e atividades intensas nos locais específicos, e pela subsequente cultivação — nas fases subsequentes, como exposição e livro — de espaços para reflexão, prática artística de estúdio e desenvolvimento e troca de ideias. O metabolismo prolongado de cada edição, à medida que passa do trabalho no local para o estúdio e da galeria para o livro, confronta o público nos centros urbanos com os terrenos problemáticos que a HAWAPI investiga. Em seguida, com suas publicações de acesso aberto, a HAWAPI oferece essas experiências a futuras investigações e reflexões sobre pesquisa prática, território, clima, extrativismo e comunidade.

Uma contribuição de pesquisa particularmente significativa a emergir da HAWAPI, já em prática há uma década, é sua cartografia cumulativa dos conflitos territoriais regionais e a produção de obras de arte e textos que refletem sobre eles. Em meio à comercialização da cena artística local do Peru (Borea 2021), a HAWAPI seguiu uma rota alternativa sem fins lucrativos que incentiva os artistas a se envolverem com as práticas específicas de cada local, longe da capital. Assim, ela promove metodologias incorporadas à pesquisa de arte contemporânea que cultivam "a arte de prestar atenção" (Ingold 2017) aos fatores dinâmicos e processos que moldam as paisagens contemporâneas do Capitoloceno. Em um sentido mais amplo, isso contribui para debates críticos sobre a concepção da paisagem não como objeto de representação, mas como “zona de contato” dinâmica (Pratt 1991): um local de “fricção” (Tsing 2004) abalado por uma miríade de forças econômicas, sociais, estéticas e materiais em estados de “transe” (Andermann 2018). Em última análise, à medida que a HAWAPI traz conflitos territoriais remotos — desde geleiras recuantes até resistência camponesa — para espaços culturais em diversas cidades (Lima, Bogotá, Santiago, Cusco, Tacna e Valparaíso, até o momento), ela contribui para aumentar a conscientização pública sobre uma variedade de problemas socioambientais e político-ecológicos, insistindo, para citar Timothy Morton, na natureza entrelaçada da ecologia, onde “[a]qui — está sempre lá também” (2007, 200). No Peru contemporâneo, com sua dependência da mineração e do turismo, e a divisão conflituosa entre centros urbanos e comunidades rurais, a insistência na interconectividade do território pode ser entendida como um gesto político que cria oportunidades para pensar com as fraturas da “comunidade imaginada” da nação (Anderson 1983).

Ensaio nômade

Ainda mais abaixo, na costa do Pacífico, a partir de Lima, outra plataforma colaborativa que recentemente marcou uma década de trabalho específico ao lugar é a Ensayos, fundada pela curadora chilena Camila Marambio em 2010 com sua primeira iteração, Ensayo #1, realizada na Terra do Fogo em 2011.5 Ensayos é uma prática de pesquisa coletiva cujas vertentes de investigação estão enraizadas na Patagônia chilena, mas se movem de forma nômade através dos continentes, convocando colaboradores de diversas nacionalidades que se manifestam em diversas formas, incluindo exposições, filmes, performances, publicações, trabalho teatral, uma websérie e até um perfume. O coletivo parte de uma abordagem crítica e sintonia sensorial com as condições físicas e geopolíticas do território, fundamentando seu trabalho em um ethos ecofeminista e transdisciplinar que busca contribuir para os esforços existentes de preservação biocultural e lidar com o enquadramento da Terra do Fogo como terra a ser conquistada, explorada e mercantilizada, seja por seu papel histórico como colônia de peles de castor ou por sua contemporaneidade status de destino turístico global. O grupo confronta dinâmicas de lugar e expressa o compromisso de homenagear os indígenas Selk'nam, Yaghan, Kaw eskar, e os povos Haush, os ocupantes ancestrais das terras e águas através das quais Ensayos se move. No site do projeto, Ensayos apresenta um reconhecimento das terras indígenas pelas quais suas pesquisas se deslocam e de suas perspectivas decoloniais e envolvimento com povos indígenas e conhecimentos que moldam suas pesquisas.

A premissa curatorial propõe que a colaboração interdisciplinar e métodos transdisciplinares disciplinares podem apoiar a preservação biocultural. Para tanto, instiga a participação de artistas como pesquisadores em iniciativas existentes de conservação ecológica e cultural. Ensayos reúne ensayistas que apresentam cientistas, curadores, artistas, membros de grupos indígenas vindos da Austrália, Chile, Noruega e Estados Unidos, que colaboram em projetos em andamento envolvendo reuniões periódicas e materializações de pesquisas em diferentes latitudes, incluindo festivais culturais de cultura patagônica, espaços de exposição europeus e conferências acadêmicas.6 Ensayo #1, a estrutura abrangente e a vertente temática que orienta todas as atividades do grupo, emergiu de conversas específicas no local da excursão inaugural de 10 dias coorganizado com a Sociedade de Conservação da Vida Selvagem do Parque Karukinka em 2011. Lá, artistas, cientistas e moradores locais se reuniram para considerar que trabalho ecopolítico um artista residente deve fazer, e que linhas de investigação contínua poderiam “transformar os modelos extrativistas de interação humana com a Terra do Fogo e outros arquipélagos” e inspirar formas emergentes de ética ecocultural (“Ensayo #1”sd). Assim, decidiu-se dar feedback ao território e à comunidade, em vez de tomar deles.

Este primeiro Ensayo produziu mais cinco linhas de pesquisa abordando temas de extinção, geografia humana, saúde costeira, repatriação e conservação de turfeira. Cada Ensayo apresenta um conjunto diferente de participantes, justificativas, objetivos e resultados publicados em sua página na plataforma digital. Isso conecta com um arquivo subsequente de postagens que documentam e comentam as atividades em andamento, permitindo que cada Ensayo se desdobre como um processo iterativo e aberto, em vez de seguir uma lógica orientada para resultados. As conexões globais que Ensayos estabelece através de sua rede de lugares de trabalho de campo, participantes e locais de disseminação realiza um trabalho crítico em duas frentes importantes. Primeiro, eles interrogam a dinâmica ultramarina e colonialista dos colonos do “capitalismo em natura”, abordando formações moldadas pelo longo projeto de modernidade (Moore 2015), como através da revisão histórica do projeto da década de 1940 para transformar a Terra do Fogo em um produtor colonial de peles. Em segundo lugar, através do diálogo e da colaboração contínuos entre pesquisadores e partes interessadas, internacionais e locais, as conexões globais de Ensayos evita noções essencialistas ou nostálgicas de lugar, identidade e natureza criticadas por estudiosos como politicamente reacionários e filosoficamente atrofiados (por exemplo, Morton 2007).

Enquadrado como uma série de “ensaios” contínuos, Ensayos sinaliza a importância do processo — em oposição à produção de objetos para o cenário de cubo branco da galeria — em sua aposta no “potencial regenerativo da pesquisa aberta, indisciplinada e criativa que reúne cuidadosamente pesquisadores independentes com comunidades indígenas, comunidades locais, instituições, órgãos governamentais e entidades mais que humanas” (“Introdução” sd). Os projetos dos grupos baseiam-se em debates filosóficos em torno da ecologia interespécies e do ecofeminismo, mas respondem às problemáticas sociolegais e bioculturais reais de terras contestadas. Esta estratégia demonstra o compromisso da curadoria com a interseção de esferas acadêmicas e sociais por meio de práticas artísticas moldadas pela teoria e que ignoram os modos convencionais de circulação de conhecimento (como trabalhos acadêmicos) que são tão frequentemente indisponíveis para públicos não especializados. Muitos dos projetos de Ensayos abraçam o espírito lúdico e inventivo de “fabulação especulativa” (Haraway 2016) para abrir espaços para pensar de outra forma. Um exemplo disso é um subprojeto no Ensayo #2, que se concentra na introdução de castores canadenses na Terra do Fogo. Este Ensayo, que começou em 2011 e está em andamento, traz a gravação da performance ao vivo Asunto Castor no Festival Cielos del Infinito no Museo Martın Gusinde em 2014 (Fig. 1). Lá, a artista Christy Gast e Marambio vestiram ternos de castor de tamanho humano para compartilhar com insights públicos sobre o trabalho interdisciplinar realizado pelos pesquisadores de Ensayos por meio de discussões, diagramas e movimentos, e para incentivar contribuições públicas. Eles convidaram o público (inicialmente estranho) a se tornarem castores, vestindo o terno e compartilhando reflexões sobre os impactos que os animais causam na ecologia local. Este modo lúdico de “fazer parentesco” com os castores — considerado por alguns como uma praga invasora — mobilizou debates contemporâneos sobre a colaboração interespécies em configurações afetivas pós-antropocêntricas da comunidade, que não se limitam a vidas humanas.

O projeto mais recente do coletivo, Pabell on Turba Tol Hol-Hol Tol (parte da pesquisa do Ensayo #6 sobre ecossistemas de turfeiras), aborda a urgência da conservação das turfeiras e está sendo preparado em colaboração direta com entidades ambientais e organizações indígenas, como a Wildlife Conservation Society e a Fundaci on Hach Saye, que defende a cultura Selk’nam na Terra do Fogo. O projeto irá representar o Chile na Bienal de Veneza na primavera de 2022, antes da qual os organizadores estão realizando um programa de eventos de divulgação sobre turfeiras com a comunidade local e instituições chilenas. O texto curatorial estabelece o foco em uma abordagem de justiça socioambiental que se demonstra a partir do emaranhado (mais do que a separação) de vidas humanas e não humanas:

Neste mundo cada vez mais quente e seco, estas zonas úmidas estão em perigo. A sua conservação está intrinsecamente ligada ao bem-estar futuro da humanidade e, na Patagônia, ao renascimento do povo Selk’nam. Pântanos das turfas clamam para serem representados como um corpo vivo, como o povo Selk'nam também clama para ser reconhecido como uma cultura viva. (“Sobre”)

Assim como as cosmovisões indígenas, o reconhecimento das turfeiras como corpos vivos ressoa com a nova teoria materialista (por exemplo, Bennett 2009) e teorias não-representativas da performatividade (Barad 2003) que questionam as binariedades o humano/natureza, sujeito/objeto e buscam canais para se sintonizar com a vibração e “coisidade” da matéria como “participante ativa no devir do mundo” (Barad 2003, 803). No entanto, o aspecto mais atraente e potencialmente criativo do projeto é sua ênfase na dependência mútua entre o reconhecimento legal das comunidades indígenas e a conservação de turfeiras ameaçadas como dois mundos da vida tornados vulneráveis pela dinâmica colonial-extrativista histórica e contínua.

Através do seu nome “coração das turfeiras” (das palavras Selk’nam Tol, “coração”, e Hol-Hol, turfeiras) sua afirmação central é o paralelo entre a vitalidade da turfa e a do povo Selk'nam, que habitou este território austral por 8.000 anos antes da colonização. A noção de coração, neste sentido, é mais do que uma metáfora: nomeia um território vivo e afetivo de resistência decolonial e capacidade de resposta às alterações climáticas. O site do projeto antecipa como esta interconexão molda o projeto na obra mostrada em Veneza através de sua seção “Rumores” (Rumores), canal sonoro que hospeda gravações de conversas humanas e não-humanas (conversa com o autor, 14 de janeiro de 2022) que é transmitido on-line e pode ser baixado na forma de disciplina experimental- cruzando textos que buscam uma atuação mais que humana em sua estética ambiental. Cada gravação mistura sons territoriais e vozes humanas, apresentando diferentes conversas e respostas dos colaboradores com as turfeiras, juntamente com a “voz” dos próprios pântanos, presente através de uma série de ruídos esmagadores7. Este aspecto indica a aspiração de que a prática de pesquisa e trabalho de engajamento público contribuam concretamente para a luta por formas interligadas de justiça socioambiental através do reconhecimento legal do povo Selk’nam e da turfa como um ecossistema vital para a captura e armazenamento de carbono. Este método de interseção de pesquisas artísticas e científicas, colaboração interinstitucional e comunitária, ação e imaginação e debates públicos, todos orientados para a justiça social, preservação da biocultura e ação de emergência climática sinalizam a consolidação de um esforço de dez anos inventando e ensaiando um método criativo que possibilita o trabalho transdisciplinar (conversa com o autor, 13 janeiro de 2022). A produção de artigos co-escritos com o representante da comunidade Selk’nam Herman’y Molina Vargas exemplifica o compromisso de estreitar a colaboração (Molina Vargas, Marambio e Lykke 2020) e a intenção de divulgar o projeto na área acadêmica. Ao mesmo tempo, a questão de saber se um pavilhão nacional em uma bienal de arte global pode contribuir efetivamente para resultados juridicamente tangíveis será um ponto futuro para análise e discussão.

Design relacional

Tal como em outros locais do Sul Global, ao longo do século XX, a ideologia desenvolvimentista de industrialização e urbanização em ritmo acelerado, radicalmente transformaram territórios latino-americanos. Paisagens urbanas e periurbanas contemporâneas atestam as assimetrias e desigualdades inerentes à imposição dessa visão de mundo, com o surgimento de assentamentos informais que são pontos cegos da paisagem moderna. Na falsa dicotomia da cidade formal/informal, as casas autoconstruídas e as comunidades ainda são regularmente deixadas de fora dos mapas oficiais e do controle centralizado de serviços de infraestrutura e saneamento, criando dinâmicas duradouras de precariedade e marginalização. Em Designs for the Pluriverse (2018), Arturo Escobar escreve com otimismo sobre o surgimento de um campo de prática crítica de design orientado apenas para a transição e revigoramento da vida comunitária, que mitigaria os problemas sociais e fraturas territoriais do desenvolvimentismo. Voltado contra uma crítica elitista da lógica do design ligada às economias extrativas e industriais e ao capital especulativo, ele postula a urgência de perguntar:

Pode a tradição modernista do design ser reorientada a partir da sua dependência da sufocante ontologia dualista da modernidade capitalista patriarcal em direção a modos relacionais de saber, ser e fazer? Ela pode ser criativamente reapropriada pelas comunidades subalternas em apoio às suas lutas para fortalecer sua autonomia e realizar seus projetos de vida? (2018, XI).

Rejeitando a lógica elitista da arquitetura modernista e formalista, a Enlace, iniciativa de design venezuelana, trabalha nas porosidades de espaços formais e informais e modos de vida, criando projetos que respondam a territórios e comunidades marginalizadas por meio de pesquisa interdisciplinar, prática de design e dinâmicas participativas, colaborando com outras organizações culturais para aumentar a conscientização sobre a desigualdade espacial no território moldado pela urbanização precária, pelas pressões ambientais e pelas condições socioeconómicas. Desde 2007, através da Enlace Arquitectura e Enlace Foundation — iniciativas parceiras fundadas em Caracas — a arquiteta e acadêmica americano-venezuelana Elisa Silva tem defendido uma noção de “cidade completa”, criticando discursos e práticas de marginalização e recentramento dos bairros como parte integrante das formações urbanas (Enlace Arquitetura 2015). Os projetos recentes da Enlace, apresentados nas bienais de arquitetura de Veneza e Chicago em 2021, estão enraizadas em locais específicos, moldados por tensas relações socioeconômicas, experiências conflitantes de infraestrutura e relações complexas com a “natureza”. A partir do nome da iniciativa (enlace significa link), Silva sinaliza o ethos de conectar comunidades através do design, citando como inspiração a dinâmica de trabalho de artistas no estúdio, onde emergem respostas a questões de pesquisa e desafios formais por meio do processo e da negociação (conversa com o autor, 12 de novembro de 2021). Movendo-se entre períodos de ensino na academia norte-americana, trabalho local na América Latina e projetos curatoriais nos Estados Unidos e na Europa, Silva pratica uma abordagem socialmente engajada e multidisciplinar da arquitetura e do design, evitando uma abordagem formalista e trabalhando em estreita colaboração com estudantes, pesquisadores de diferentes campos temáticos, ativistas locais e membros de organizações comunitárias. Esta abordagem pesquisa e elabora soluções de design tangíveis para desafios climáticos e condições urbanas, moldadas por estudos sobre as características econômicas, sociais e políticas dos terrenos onde os projetos são executados e a vida das comunidades locais.

Em 2018, Silva iniciou um projeto em Oaxaca, no México, que visa a conectar a indústria local de mescal com a saúde ecológica e a urbanização ecologicamente correta, tendo em conta as disparidades econômicas e a migração para norte que molda a região. Num ateliê sobre Arquitetura Paisagista (2022), Silva levou estudantes da Universidade de Harvard a Oaxaca, no México, para pesquisar os efeitos ambientais da crescente produção de mescal no Vale Central. Ela usou um segundo estúdio de design com estudantes da Universidade de Toronto como plataforma para projetar livretos de instruções sobre o material de construção sustentável pioneiro do arquiteto mexicano Alejandro Montes, que produz tijolos de adobe a partir de resíduos da indústria de mescal, sequestrando um subproduto ácido do mescal para evitar que ele caia no solo. Agora, trabalhando em colaboração com o Instituto de la Naturaleza y de la Sociedad Oaxaqueña (INSO), o programa governamental Sembrando Vida, e outros atores locais, o projeto entrou numa terceira fase liderada pela Rethink Foundation (cofundada por Silva, e em cujo conselho ela atua) com o apoio de uma bolsa do Centro David Rockefeller de Harvard. Agora, o projeto está trabalhando na reflorestação para melhorar a saúde do solo e criando dispositivos de captação de água para devolver a água aos aquíferos.

Fig. 1 — Fotografia do vídeo de Asunto Castor, performance de Camila Marambio e Christy Gast, apresentado em 22 de fevereiro de 2014, em Puerto Williams, Isla Navarino, Cabo de Hornos, como parte do Festival Cielos del Infinito no Museo Martın Gusinde. Cortesia de Ensayos.

Adota-se também esse método num projeto com o barrio La Palomera, em Caracas, iniciado em 2016. Essa parceria com a ong caraquenha Ciudad Laboratorio incluiu, entre outras atividades, quatro projetos artísticos celebrando as tradições e o cotidiano em La Palomera, uma ocupação espontânea iniciada em 1937, que não é reconhecida oficialmente como parte da cidade.8 Ao longo de 18 meses, o projeto “organizou vários eventos e ocasiões para que os cidadãos conhecessem La Palomera: caminhadas, jogos de bola, comemorações, bailes, concertos, exercícios de mapeamento e uma exposição, que procuravam tornar La Palomera (e seus arredores) reconhecidos pelo que são, uma parte ativa da cidade” (“La Palomera”). Incluiram-se aí uma procissão para cantar décimas escritas sobre o bairro, uma homenagem aos fundadores do bairro, e as celebrações tradicionais da Cruz de Mayo. Uma pesquisa botânica se desenvolve transversalmente por todos os projetos do Enlace, e neste caso o coletivo mapeou as áreas verdes de La Palomera (sob a direção de Gabriel Nass e Ambar Armas), identificando 24 jardins nas casas dos moradores, que então constituíram os pontos de um tour público, a que aderiram o botanista-chefe do Jardim Botânico de Caracas. A pesquisa sobre as 260 espécies identificadas nos jardins foi então compilada numa publicação com o título de Diccionario etnobotánico de las plantas de los jardines de La Palomera –uma tipologia sistemática dos espécimes, que se valia da epistemologia extrativa da botânica econômica para alimentar o enraizamento da comunidade de La Palomera.9

Fig. 2 — Sistema de coleta de lixo em La Palomera, antes e depois. Cortesia de Elisa Silva, EnlaceArq.

Os costumes e conhecimentos locais identificados durante o projeto foram divulgados numa exposição num espaço de arte privado em Caracas, onde membros do barrio viram-se refletidos num ambiente usualmente dedicado à arte contemporânea, e também nas bienais de arquitetura de Veneza e Chicago em 2021, onde foram apresentados os jardins, áreas públicas e escadarias interligando a comunidade (Silva 2021). Agora sustentada por uma associação civil constituída como parte do projeto, La Palomera obteve benefícios concretos, como por exemplo mudanças no modo com que se dá a coleta de lixo no barrio (Fig. 2). Enquanto os resíduos domésticos eram habitualmente levados pelos moradores até o fim da rua para serem coletados por um caminhão, agora se implementou uma coleta de porta em porta; a antiga área do depósito de lixo e a estrutura adjacente, antes abandonada, foram recuperados para uso da coletividade, graças a uma autorização da prefeitura válida por cinco anos, e com planos para transformá-las num centro de arte, cultura e intercâmbios sobre o meio ambiente. A Enlace e a Ciudad Laboratorio contribuem para esse processo, que é dirigido pela comunidade, enquanto projetam métodos para a coleta de água da chuva do telhado do edifício, para uso no espaço comunitário (Fig. 3).

O projeto mais recente da Enlace, iniciado em 2020 em nova colaboração com a Ciudad Laboratorio, reúne um grupo multidisciplinar sobre o rio Guaire, que corta Caracas10. O projeto busca inspirar os caraquenhos a uma redescoberta do rio, que foi o motivo original para a ocupação histórica do vale de Caracas, mas que hoje recolhe esgoto sem tratamento e resíduos sólidos, além do defluxo de águas pluviais. Sua plataforma digital toma como ponto de partida um manifesto que anuncia o propósito de recuperar esse curso d’água, e serve como um pólo de atração para os artigos que vão aparecendo sobre a história do rio, seu presente e seu futuro, além de documentar as oito caminhadas que o grupo empreendeu em 2021 para mapear o curso do rio. Novamente adotando o método das expedições, as caminhadas fizeram o reconhecimento do rio Guaire ao longo de seu curso rumo ao leste, a partir de sua entrada na cidade, ao longo de margens cada vez mais poluídas, até seu ponto de saída no vale de Caracas no bairro oriental de Petare. Os membros do projeto participaram das caminhadas, mas estas eram também abertas à participação de qualquer pessoa, servindo para integrar à iniciativa outros interessados e colaboradores potenciais.

Fig. 3 — Oficina participativa na coleta de águas pluviais em La Palomera, organizada em colaboração com Lata de Agua, A.C. Cauce, e com a Embaixada da França. Foto: Cortesia EnlaceArq.

O projeto continua em andamento, e não só encomenda artigos de pesquisa sobre o passado, o presente e o futuro do rio, como também inclui elementos educacionais e de extensão. De outubro a dezembro de 2021, Silva organizou um ciclo de conferências online intitulado Confluir con ríos, em parceria com a Universidade Simón Bolivar e a Universidade Central da Venezuela, que contou com apresentações de arte relacionada a rios e projetos de revitalização desenvolvidos por toda a América Latina (“Confluir con ríos”, 2021). A equipe também conduziu atividades em escolas locais, levando às salas de aula um jogo de tabuleiro produzido em colaboração com dois artistas (Malu Valerio e Gerardo Rojas), que cria um ambiente hipotético em que as crianças brincam de derrotar os males que se abateram sobre o Guaire, armando estratégias para desfazer o estado de poluição em que se encontra (entrevista com a autora, 2 de Novembro de 2021). Por meio de pesquisas de arquivo, traçando o impacto da urbanização sobre o rio, e através de atividades com o público, orientadas para viabilizar um futuro ribeirinho, o projeto se conecta com um movimento mais amplo, voltado a reacender as imaginações do público e sua ligação com os cursos fluviais.11 Neste sentido, o projeto do rio Guaire contribui para os debates críticos em torno da instrumentalização dos cursos d’água como infra-estrutura para a remoção de resíduos, sua invisibilização por meio da hidroengenharia, e a perda de um relacionamento simbiótico entre cursos de água humanos e não-humanos, que se provou nocivo às culturas da água através do mundo. Junta-se, assim, às discussões em desenvolvimento [ongoing] dos hydrocommons (“hidrocomuns”, ou “hidrocoletivos”) (p. ex. Neimanis 2009; Blackmore e Gómez 2020).

Para Arturo Escobar, uma redefinição do [design urbano/ design] em termos críticos deveria fazer um trabalho teórico e político, reimaginando a relacionalidade num planeta às voltas com uma longa história de conflitos socioambientais e de injustiça. Nesse sentido, vale notar que, mais do que simplesmente ser objeto de atenção internacional em instâncias culturais, o trabalho da Enlace está dando frutos concretos junto às comunidades locais e para elas, funcionando como catalizador de associações civis autônomas, responsáveis pela “ongoingness” das relações comunitárias de “design urbano” estimuladas por seu trabalho colaborativo. O trabalho da Enlace na Venezuela é apenas um dentro da série de iniciativas que, com cada vez maior frequência, se fundamentam, em sua sustentabilidade a longo prazo, pela criação de associações locais independentes que supervisionam o trabalho em curso [ongoing], de que Silva deu exemplo ao criar uma associação civil em La Palomera. É esta aspiração por um trabalho sustentado e sob direção da comunidade que alinha o modus operandi da Enlace com os valores da autonomia e da justiça social, que Escobar considera existirem no âmago do pluriverso.

Sustentabilidade na prática: pontos fortes e desafios

Em The Life of Plants (2019—tradução brasileira: A vida das plantas, ed. Cultura e Barbárie, 2018), o filósofo Emanuele Coccia nota que a existência botânica pode nos ajudar a repensar as epistemologias mais adequadas ao presente ecológico. Refletindo criticamente sobre a moderna compartimentalização das disciplinas acadêmicas e a subsequente canalização do conhecimento especializado, ele apresenta a imersão e a porosidade como alternativas férteis que podem ser aprendidas a partir da dinâmica da vida vegetal. Ao afirmar que “a estrutura da circulação universal é fluida, é o lugar onde tudo entra em contato com todas as outras coisas e vem a se misturar com elas sem perder sua própria forma e substância”, Coccia assinala as aberturas (e desafios) que surgem ao se gerarem métodos de pesquisa colaborativos e interdisciplinares que cultivam formas comuns de expressão –formas que são trans-versais a todas as partes envolvidas (humanas e não-humanas) e que permitem, criticamente, o aparecimento da diferença e da divergência (Coccia, 2019, p. 27).

Os três projetos aqui analisados geram dinâmicas de mistura que respondem às fraturas e conflitos que ocorrem em lugares específicos, ao semear encontros para diversos conhecimentos, ao inventar formas orgânicas e adaptáveis para o trabalho colaborativo, e ao nutrir as relações que as sustentam. O valor da pesquisa prática se evidencia nas contribuições oferecidas pelos projetos tanto para interlocuções sobre a justiça socioambiental quanto para as respostas imaginativas, transdisciplinares e publicamente engajadas que esta solicita. Trata-se, ademais, de um sucesso obtido graças à sua permanência ao longo do tempo e a sua crescente exposição internacional. Nos seus aspectos mais vigorosos, a pesquisa prática não coloca em prática ideias que atualmente contam com ampla circulação na bibliografia crítico-teórica na base de muitas pesquisas nas humanidades com foco ambiental. Sua própria transdisciplinaridade e seus modos de trabalhar dentro e junto de áreas específicas modelam e incorporam modos de “pensar-com-muitos” e de “pensar-no-cuidado” [thinking-with-care] (Puig de la Bellacasa 2012, p.200) em mundos relacionais. Esses projetos, portanto, estão sinalizando pontes entre a pesquisa acadêmica, a prática artística e os mundos ecossociais, cuja conjunção pode criar respostas palpáveis a conflitos socioambientais por meio de um engajamento proativo com o conhecimento em-situação, enquanto geram material de reflexão sobre processos globais mais amplos.

É importante notar que a força desses projetos também deriva do modo estratégico com que se mantêm conectados à academia sem se tornar subordinados à infraestrutura desta. Essa relação flexível e tangencial provém de uma escolha estratégica por parte de Marambio (entrevista com a autora, 14 de janeiro de 2022), o qual nota que associações com a academia (pela pesquisa e docência) podem constituir um trunfo que não deve ser subestimado quando se procura colaborar com outras instituições ou obter financiamento. Isto é uma salvaguarda contra a infraestrutura frequentemente fechada da academia e sua constante ênfase na economia do conhecimento, mais do que na ecologia do conhecimento. É assim que se continua a privilegiar a produção de “papers” e artigos para revistas, como corolários obrigatórios para a prática criativa, mesmo quando esta, em si, vai sendo cada vez mais reconhecida por seu valor enquanto pesquisa.

Contudo, no interior da capacidade de resistência e da inventividade de projetos independentes, continuam a surgir desafios. Iniciativas como as descritas aqui dependem, em última análise, de financiamento para suas operações no decorrer do tempo. Enquanto ministérios da cultura, instituições nacionais e internacionais e organizações filantrópicas são fontes de recursos, o apoio continuado [ongoing] pode ser um teste para a sustentabilidade de equipes pequenas. Ademais, a infraestrutura digital necessária para garantir o acesso às publicações e para dar visibilidade aos projetos também representa um custo, e expõe os projetos a vulnerabilidades no que concerne ao impacto duradouro que possam ter junto a audiências que se engajam em projetos presenciais ou online. Na última edição da revista Environmental Humanities, seus editores reconheceram a importância das intervenções artísticas e de atividades de engajamento do público para essa área de estudos, assim como a necessidade de se empregar tempo e energia para cultivar “laços com a comunidade e programações presenciais”, e a necessidade de “cultivar ativamente treino e conhecimento acadêmico [scholarship] desse tipo” (Jorgensen 2022). A pesquisa prática traz valiosas contribuições aos debates sobre meio-ambiente, ao produzir esclarecimento sobre diversas áreas, ao desenvolver uma estética ambiental que joga uma luz crítica sobre as abordagens extrativistas da “natureza” e contempla relações mais justas e sustentáveis com o território, e ao buscar meios de facilitar soluções positivas de longo prazo para desafios socioambientais locais. O reconhecimento do valor da pesquisa prática no âmbito dos Estudos Culturais Latino-Americanos abre caminho para relações recíprocas que, ao dar suporte e chamar atenção para a pesquisa interdisciplinar a partir da arte, pode também contribuir positivamente para a sustentabilidade de seus terrenos criativos e para o papel que podem desempenhar em cultivar a “ongoingness” em comunidades mais amplas da região.