Revista Rosa

Volume 9

9

Cornelius Castoriadis: imaginação instituinte como práxis democrática

Apresentação

Isabella C. Reiche

Depois de um período de mais de trinta anos de produção, começando em 1948 no grupo Socialisme ou Barbarie e chegando até a segunda metade dos anos 1970, com A Instituição Imaginária da Sociedade e o começo da série As Encruzilhadas do Labirinto, foi na década de 1980 que a obra de Castoriadis começa a ser vertida para o português e publicada no Brasil.

Pelas editoras Brasiliense, COPEC e LP&M saem livros políticos, como Da ecologia à autonomia (1981), a coletânea Revolução e autonomia (1981), também uma coletânea denominada Socialismo ou barbárie: o conteúdo do socialismo (1983), Os destinos do totalitarismo e outros escritos (1985), A experiência do movimento operário (1985) e também livros que haviam sido recentemente publicados pelo autor, é o caso de Diante da guerra (1982). Pela editora Paz e Terra, são publicados os livros de caráter mais filosófico, como A instituição imaginária da sociedade (1982) e os primeiros dois volumes da série As encruzilhadas do labirinto (1987).

Mesmo com a publicação destas últimas obras, Castoriadis é recebido mais como autor político do que como teórico. Durante o período de reabertura, o debate no interior da esquerda, que se passa especialmente dentro do Partido dos Trabalhadores, envolve uma corrente de adeptos do autonomismo francês que tinham como referência Socialisme ou Barbarie e também a obra mais recente de Castoriadis. É o caso de Éder Sader, Marilena Chauí, Vera Telles, Maria Cela Paoli e Marco Aurélio Garcia, personagens que formaram e publicaram a revista Desvios (1982–1984).

Nessa tendência, havia tanto a crítica ao populismo latino-americano, no caso brasileiro associado a Vargas, quanto ao burocratismo soviético. É em ambas as críticas que se insere a teorização de Castoriadis sobre a democracia como prática de um povo autônomo. Não por acaso, temos a revalorização das lutas criativas e populares, por exemplo nos livros Seminários: o nacional e o popular na cultura brasileira (1984), de Marilena Chauí, e Quando novos atores entram em cena (1988), de Éder Sader.

Em meio a essa valorização, Castoriadis visitou o Brasil pela primeira vez em 1982, quando participou de debates na USP e foi entrevistado pela Folha de S.Paulo. Mais tarde, em 1991, ele ainda teria outra passagem, dessa vez por Porto Alegre, onde proferiu duas conferências, uma sobre sua filosofia e outra a respeito da reformulação do socialismo e da ideia de autonomia. Nesse segundo momento, continuaram as traduções de suas obras, dessa vez com a série As encruzilhadas do labirinto. Depois desse breve reconhecimento nos anos 1980, quando da redemocratização e da primeira década do PT, a obra de Castoriadis tem passado por um longo período de esquecimento no Brasil. Ainda no final da primeira metade dos anos 1990, a recepção de suas ideias já começa a rarear. Hoje, mesmo entre aqueles que conhecem bem os meandros da filosofia francesa da segunda metade do século XX, o nome de Castoriadis continua sendo o de um ilustre desconhecido.

No entanto, o lado crítico do totalitarismo e a defesa do autonomismo são apenas duas facetas de sua política e de sua teoria. Com esse dossiê, procuramos relançar o nome e as ideias de Castoriadis no debate das esquerdas. Para isso, além dessa apresentação, escrevemos um texto de introdução que retoma um dos conceitos centrais de sua obra: a imaginação. Em seguida, quatro traduções de textos que, apesar de sua importância, não foram sequer recolhidos nas últimas edições francesas e, portanto, continuavam inéditos em português. Todos eles são entrevistas feitas com Castoriadis, mas nem por isso devem ser vistos como publicações menores. Isso porque o gênero foi amplamente praticado pelo autor. Constando em muitos de seus livros, as entrevistas não eram usadas apenas para replicar ideias já formuladas, mas realmente para pensar algo novo.

Com essas entrevistas, procuramos apresentar os muitos lados de seu projeto prático-teórico: em uma delas discorre-se sobre política, focando os conceitos de autonomia e democracia; em outra, parte-se das teorizações psicanalíticas e como elas podem auxiliar a pensar a emancipação; na terceira, feita pela revista Radical Philosophy, Castoriadis refaz seu o percurso político-filosófico, e, em uma última, feita pelo cineasta e documentarista francês Chris Marker para uma série de TV sobre o mundo grego antigo, Castoriadis explica não apenas a democracia ateniense, mas toda a cultura política e filosófica que lhe é subjacente.