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Mente, mergulho, macaco1

Não sei quantas vezes eu já ouvi a música “Where Is My Mind?”, a 7ª faixa do álbum Surfer Rosa, da banda americana de rock alternativo Pixies. O álbum foi lançado no final dos anos 1980, em março de 1988, um pouco antes da Constituição brasileira ser aprovada, em setembro desse mesmo ano, e promulgada logo em seguida, em outubro. Mas essa música não tem nada a ver com a Constituição do nosso país ou com qualquer outro tema brasílico, eu só lembrei desse fato porque, de fato, ele é muito impactante, um verdadeiro divisor de águas na História política do Brasil. Pelo que eu entendo da letra dessa música, ela também não fala nada sobre o que estava acontecendo nos Estados Unidos, naquela época, em termos políticos. Eu nunca estive lá, nos Estados Unidos, mas já escutei essa música inúmeras vezes na minha vida. Talvez eu pudesse até dizer que ela tem algo de tropical, por causa do imaginário aquático, caribenho, mas depois que eu comecei a estudar o Surangama Sutra, ela voltou na memória e eu voltei a escutá-la de novo, com mais frequência, e eu acho mesmo que ela está falando é de questões budistas, porque o refrão dessa música, “where is my mind?”, que já está anunciado desde o seu título, está nos fazendo a mesma pergunta que o Buda fez, nesse Sutra, para seu próprio primo Ananda, um discípulo da sua sangha, sobre onde está localizada a mente. Onde está localizada a mente? Onde está a sua mente?

Esse Sutra, de acordo com Lama Padma Samten, o primeiro brasileiro a ser ordenado Lama dentro da linhagem Nyingma do budismo tibetano no Brasil, é um dos “mais relevantes do budismo Mahayana, especialmente para as escolas chinesas, o Surangama Sutra consiste no ensinamento do Buda sobre a verdadeira natureza da mente, transmitido ao seu discípulo Ananda”, ao fazer uma investigação profunda sobre essa ideia de localização da mente. E Lama Padma Samten também diz que, “segundo o venerável mestre Hsuan Hua, trata-se de um dos mais importantes discursos do Buda, e seu desaparecimento, quando acontecer, será um sinal do declínio do Darma em nosso mundo”.

Assim, ao longo de uma conversa com Ananda, num processo de lógica refinadíssimo, Buda vai desconstruindo vários lugares comuns que seu primo tem sobre isso, ao lhe mostrar que ele estava equivocado sobre o lugar que a mente parecia ocupar. Neste link2 da revista Bodisatva, de onde eu retirei essa citação do Lama, é possível acessar um trechinho do Sutra que Lama Padma Samten traduziu livremente. No trecho referido, Buda está conversando com Ananda sobre a percepção dos sons e seus sentidos, para falar que sua mente ainda está em estado de confusão. E Buda vai, então, compassivamente guiando Ananda, para que perceba suas próprias contradições. Mas o interesse de Lama Padma Samten por esse Sutra é muito anterior à sua ordenação como Lama, que se deu em 1996, através de Chagdud Tulku Rinpoche, que já vinha ao Brasil desde 1991, para dar ensinamentos, e em 1993 fixou residência aqui, construindo o primeiro templo de budismo tibetano da América Latina, em Três Coroas, no Rio Grande do Sul. Pelo menos é o que nos mostra um texto em tom ensaístico, batido à máquina e em inglês, “The surangama sutra and quantum theory”,3 que encontrei na internet, na página da USP, pertencente ao acervo de Mario Schenberg, de quando o Lama ainda era professor de física da UFRGS e se chamava Alfredo Aveline. Infelizmente, esse seu texto não está datado, mas já podemos encontrar nele o Lama que existia em potência, porque já existia ali um interesse muito legítimo no legado do darma, ao procurar entender as relações existentes entre a física quântica e o budismo, por meio de comparações, que buscavam ver afinidades.

Realmente, essa música do Pixies não fala de coisas que estavam acontecendo no final dos anos 1980 nos Estados Unidos ou mesmo na América Latina, que dirá no Brasil, coisas que normalmente aparecem nas notícias dos jornais, nem fala explicitamente sobre questões budistas; ela fala de coisas mais singulares e aparentemente banais. Ela conta a historinha de uma pessoa que estava nadando e, de repente, um peixinho esbarrou nela, meio que tentando conversar com ela, isso na cabeça dessa pessoa que estava nadando. Mas parece que essa pessoa que estava nadando, na verdade, estava era conversando consigo mesma, numa espécie de diálogo interno com sua própria mente, tentando entender o que estava acontecendo e se dando algumas indicações de movimento de corpo, perguntando a si mesma: onde está a minha mente?

Eu não escutei essa música assim que ela foi lançada, porque, naquela época, eu ainda era uma criança. E apesar de já existir internet no mundo, ela ainda não era uma ferramenta de comunicação tão socialmente difundida, como é hoje. As coisas circulavam em outra velocidade. Eu não sei quando exatamente eu escutei essa música pela primeira vez. Mas quando saiu o filme Fight club, dirigido por David Fincher, em 1999, baseado na novela homônima de Chuck Palahniuk, de 1996, com certeza eu já escutava essa banda, então, para mim, o filme só estava repetindo uma música que eu já conhecia, me mostrando a música numa outra perspectiva, numa outra paisagem. A cena final desse filme usa justamente essa música como trilha sonora, para ilustrar quando tudo estava colapsando, e a música também fala sobre isso, sobre a cabeça colapsar! Então, quando a música começou a tocar, os prédios da cidade começaram a explodir e a desmoronar, na hora em que o personagem principal, interpretado pelo Edward Norton, como The Narrator, estava dizendo para a sua parceira de cena, a atriz Helena Bonham, representando Marla Singer, num tom romântico, mas completamente sombrio, noturno e apocalíptico: “Você me conheceu num momento muito estranho da minha vida.”4 Como se fosse alguma coisa pessoal, mas, talvez porque também fosse o último ano do século XX, e a imaginação humana, no seu viés mais distópico, estava projetando realmente um cenário bastante catastrófico para a humanidade. Naquela época, a democracia no Brasil já tinha atingido a sua maioridade legal, só que Lula ainda não tinha sido eleito presidente da República. Mas a internet já tinha começado a existir na casa das pessoas de classe média. E as coisas já estavam começando a andar num outro tempo, num outro ritmo. Num outro mundo. Muito mais rapidamente. Eu ainda não conhecia o Surangama Sutra, e, sobre o Buda, eu só tinha lido Sidarta, um livro que contava a sua história, e que fazia parte de uma trilogia do escritor alemão Herman Hesse.

Que eu me lembre, o filme Fight Club não tem nada a ver com mergulho, mas a música do Pixies tem. O vocalista dessa banda, Charles Michael Kittridge Thompson IV, mais conhecido como Black Francis, criou essa música enquanto estava na Universidade, e se inspirou nas suas experiências de mergulho no Caribe com scubaSelf Contained Underwater Breathing Apparatus [Aparelho Respiratório Subaquático Autônomo], que é o termo internacional usado tanto para a prática de mergulho quanto para o equipamento de ar comprimido, que mergulhadores profissionais e recreativos utilizam para mergulhar. Eu nunca mergulhei, então não conheço a sensação de mergulhar com scuba e de me deparar com esse tipo de paisagem de fundo do mar que essa música descreve. Com essa sensação de corpo girando e percebendo as coisas por outros ângulos, de dentro d’água. Mas eu costumo meditar e, às vezes, penso que mergulhar pode ser bem parecido com meditar.

No entanto, por mais que não seja muito comum, é possível escutar música enquanto se medita, mas acho que seria completamente impossível mergulhar e escutar música no fundo do mar, ao mesmo tempo. É um pouco como aquele ditado popular, que fala da impossibilidade de assobiar e chupar cana. São atividades incompatíveis. O máximo que eu consigo fazer é imaginar essa cena acontecendo dentro na minha cabeça. E para torná-la um pouco mais real, eu posso até assistir uns vídeos de mergulho no YouTube e colocar essa música do Pixies para tocar, como pano de fundo musical, numa outra janela do meu computador. O videoclipe dessa música5 não tem nada de aquático e eu acho isso bem curioso, mas também realista. Eles quiseram projetar outras imagens sobre essa música, ao introduzi-la na linguagem do audiovisual. Nesse sentido, o videoclipe da música “Come as you are”,6 do Nirvana, lançado em 1992, é bem mais artificial. Quer dizer, vou explicar melhor isso que estou chamando de “artificial”, porque não é necessariamente algo contrário ao natural, mas que pressupõe a criação de artifícios: as imagens do videoclipe do Nirvana, que se passam debaixo d’água, e quem tem a música rolando por cima, como o revólver dentro da piscina, por exemplo, logo na primeira cena do videoclipe, por mais que essas imagens sejam ultrapoéticas e a água nesse videoclipe consiga ativar um efeito onírico, ligado à memória, essas imagens são totalmente impossíveis de acontecer na realidade, por isso eu disse que elas eram artificiais. Elas foram fabricadas e forjam uma suposta noção de realidade onírica, porque, na verdade, não se escuta música debaixo d’água, quando se está totalmente debaixo d’água. No máximo, existem pessoas que gostam de cantar debaixo do chuveiro e conseguem fazê-lo. Mas aí, tudo bem, porque é uma outra forma de estar debaixo d’água. Cantando, e não ouvindo música com fones de ouvido. Na minha época, até onde eu saiba, o Walkman nunca foi à prova d’água. Então, simplesmente não existe isso de mergulhar com trilha sonora. Mas talvez a tecnologia hoje já chegou a inventar fones aquáticos para a prática esportiva, e essa realidade sem som já mudou.

Por mais que eu nunca tenha mergulhado, eu acredito que o mergulho seja um pouco como a natação, uma prática esportiva sem música. Mas isso não quer dizer que esses esportes sejam desprovidos de uma paisagem sonora. A música que existe na natação, enquanto se está nadando, é riquíssima, porque está na nossa própria cabeça. É a música dos nossos pensamentos. Misturada com o som do nosso corpo se mexendo na água, junto com nossa respiração. E o barulho do motor na piscina, se estiver ligado, também ajuda na criação de algum outro ritmo. A piscina se transforma, então, numa espécie de câmara acústica muito especial, porque ela nos faz perceber os nossos próprios sons, que normalmente nunca paramos para escutar, amplificando-os de tal maneira que eles ganham uma reverberação imensa, além de mudar a nossa noção de gravidade. Nossa percepção da realidade. A natação é, portanto, muito diferente da corrida, do ciclismo, da malhação, enfim, de todos esses e outros esportes terrestres que podem ser feitos com trilha sonora. A natação é um esporte mais silencioso, digamos assim. É um esporte muito privilegiado, porque vai tirando umas camadas do mundo, e nos colocando em acesso com os sons internos. Os sons da nossa cabeça. Os sons dos nossos pensamentos. Onde os sons, que normalmente não escutamos, porque estamos envolvidos demais com os sons do mundo, começam a surgir em primeiro plano. Começam a ser percebidos.

Nos textos que a Marcela Vieira está organizando para este dossiê de esportes e estilo, não sei se alguém escreveu ou irá escrever sobre isso. Sobre a relação entre música e esportes. Sobre essa ideia de pano de fundo musical e práticas esportivas. Como música de academia, por exemplo. Um verdadeiro horror. Talvez, se fosse escrever sobre natação, eu escreveria sobre isso, falando também das músicas chicletes, que grudam na nossa cabeça. Porque a Marcela me convidou para escrever sobre natação. E eu imagino que ela imagina que eu ainda esteja nadando, porque realmente, eu nadei muitas vezes na vida. Mas nos últimos anos eu acabei trocando a natação pela meditação. E a meditação, apesar de ser uma prática, eu não diria que ela é necessariamente esportiva. Ela, na verdade, é uma prática espiritual. Mas, como ainda é algo muito recente na minha vida, eu não me sinto à vontade para escrever sobre meditação. Preciso ter mais experiência nessa prática para me aventurar a escrever sobre ela.


Por uma licença poética, eu aceitei o convite para participar desse dossiê, como se se tratasse de um convite para mergulhar. Só que, como eu nunca mergulhei na vida, quer dizer, como eu nunca pratiquei o esporte mergulho, usando aquelas roupas que se tem que usar, com os equipamentos apropriados e toda a parafernália necessária para se mergulhar no mar, eu não vou conseguir fazer o que eu também imagino que a Marcela espere que eu faça, que é falar de uma relação que eu tenha com um determinado tipo de esporte. Uma relação de vida, cotidiana, com alguma prática esportiva. Uma relação de tempo. De hábito. De dedicação. De amor. De entrega e de cultivo diário. De disciplina também. Assim, como eu não estou fazendo nada que tenha essas características, além da meditação, eu resolvi falar de uma forma mais metafórica sobre o mergulho, mergulhando no sentido figurado mesmo, que é o que normalmente se faz quando se vai escrever sobre alguma coisa, se mergulha fundo, de cabeça, e se entrega totalmente a um determinado tema. Mas eu só resolvi fazer isso, porque, de fato, quando eu acabar o doutorado, eu quero fazer um curso de mergulho, para mergulhar no mar. Mergulhar mesmo, de verdade. Ter a experiência do mergulho. Afundar e respirar com a scuba e os cilindros de ar. Vestir aquelas roupas pretas de borracha. E me sentir um ser de outro planeta. O planeta água. Nadar com longos pés de pato. Ver peixinhos debaixo d’água. E escutar meus pensamentos lá embaixo. Observar a minha própria mente mergulhando, em outro mundo. Outro ecossistema.

Com certeza, este poema da poeta americana Adrienne Rich, que li num livro publicado em 2018, pela editora Jabuticaba, Que tempos são estes, traduzido por Marcelo Lotufo, aumentou esse meu desejo de mergulhar:

Mergulhar no naufrágio (1972)

Tendo antes lido o livro dos mitos,
e carregado a câmera,
e conferido o fio da faca,
eu visto
a armadura de borracha preta
os absurdos pés de pato
a grave e estranha máscara.
Preciso fazer isto
não como Cousteau com o seu
time assíduo
a bordo de uma escuna inundada pelo sol
mas aqui, sozinha.

Há uma escada.
A escada está sempre ali
inocentemente dependurada
encostada na lateral da escuna.
Nós sabemos para o que ela serve,
nós que já a utilizamos.
Do contrário
ela é uma peça de borra marítima
um equipamento qualquer.

Eu desço.
Degrau por degrau e ainda
assim o oxigênio me submerge
a luz azul
os átomos límpidos
do nosso ar humano.
Eu desço.
Os pés de patos me deixam aleijada;
rastejando como um inseto, eu desço a escada
e não há ninguém
para me dizer quando o oceano
começará.

Primeiro o ar é azul e então
ainda mais azul e então verde e então
preto está tudo ficando preto e ainda assim
a minha máscara é poderosa
bombeia o meu sangue com força
o oceano é outra história
o oceano não é uma questão de poder
preciso aprender sozinha
a girar sem força o meu corpo
no elemento profundo.

E agora: é fácil esquecer
em busca do que eu vim
entre tantos que sempre
viveram aqui
balançando os seus leques crenulados
entre corais
e além disso
respira-se diferente aqui embaixo.

Eu vim explorar o naufrágio.
Palavras são fins.
Palavras são mapas.
Eu vim para ver o estrago que foi feito
e os tesouros que prevalecem.
Eu varro com o feixe da minha lanterna
vagarosamente o flanco
de algo mais permanente
do que peixes ou algas

aquilo pelo que eu vim:
o naufrágio e não há história do naufrágio
a coisa em si e não o mito
o rosto afogado sempre olhando
em direção ao sol
a evidência do estrago
gasto pelo sal e pela maré nesta beleza surrada
as costelas do desastre
curvando suas manifestações
entre assombrações incertas.

Este é o lugar.
E eu estou aqui, a sereia cujos cabelos escuros
escorrem pretos, o tritão em seu corpo encouraçado
Nós orbitamos em silêncio
no entorno do naufrágio
mergulhamos no porão.
Eu sou ela: eu sou ele

cujo rosto afogado dorme de olhos abertos
cujos peitos ainda carregam o cansaço
cuja prata, cujo cobre, cuja carga de metais carmesins jaz
obscura dentro de barris
meio encaixados, deixados para apodrecer
somos os instrumentos bastante destruídos
que um dia mantiveram uma rota
o diário de bordo corroído pela água
a bússola descompassada

Nós somos, eu sou, você é
por covardia ou coragem
aquela que encontra o nosso caminho
de volta a essa cena
carregando a faca, a câmera
o livro dos mitos
no qual
os nossos nomes não constam.

Porque eu acho que mergulhar deve ser muito bom para a escrita, para imaginar histórias. E não é à toa que Rich narra todo o passo a passo, e volta de lá com um poema. Quantos poemas aguardam ser escritos no fundo do mar? Mas, independente dessa ideia de poema porvir, eu acredito que meu desejo de mergulhar tornou-se uma realidade completamente concreta para mim depois que eu vi este quadro, datado de 1979, do artista visual cearense Francisco Sérgio Sales Pinheiro, mais conhecido como Sérgio Pinheiro, numa loja de móveis usados, no centro de Fortaleza, a Mab Móveis Antigos, do comerciante João Adson, em 2021:

Img. 1: pintura de Sérgio Pinheiro, de 1979, quando estava à venda na loja Mab Móveis Antigos.

Quando eu vi esse quadro à venda, no meio de vários móveis usados, junto com outros quadros, eu me apaixonei por ele. Tanto é que eu fiz uma foto. Eu queria saber mais detalhes sobre ele. Eu gostava daquele abraço improvável. Daquele chão meio verde azulado que parecia mar, e que se confundia com o azul mais escuro, ao fundo, que parecia um céu carregado de noite. Eu gostava dos jogos de cores, e das figuras magricelas, dos três elementos, representados na pintura. Tinha algo de bem humorado naquele abraço, cheio de sorriso, que encontrava a boca da garota sorrindo, encostando na boca do macaco. O macaco muito sabido, com a mão no bolso, e a outra mão na boca, segurando o riso. Que riso de malícia era aquele? Quem eram aquelas figuras?

Em 2021, junto com o grupo de Teatro Barracons — No Barraco da Constância Tem!,7 estávamos fazendo uma colaboração e criando o vídeo Iracema terceirizada,8 para o projeto Parlavratório — Conversas sobre Escrita na Arte, concebido pelos artistas Fábio Morais e Daniela Avelar, que seria apresentado na quadro “O Corpo dá Palavra”, no YouTube do Sesc 24 de Maio, ao fim de uma conversa do Fábio Morais com a artista Marilá Dardot, mediada por Patrícia Galelli.9 O vídeo era o registro de uma performance que se passava na Praia de Iracema, no espigão da João Cordeiro, em Fortaleza, e contou com a colaboração de um monte de gente amiga, e foi editado em conjunto com o artista Guilherme Peters. E todo o material gráfico da performance, como banners, panfletos, a estrutura do display e a logomarca do projeto nos figurinos foi criado pelo designer gráfico Yule Bernardo, junto com a gente também.

Img. 2: Sarah Nastroyanne e Damas, atores do grupo No Barraco da Constância Tem!, na filmagem do vídeo-performance Iracema terceirizada

O vídeo procurava trabalhar com questões contemporâneas que atravessavam o território da cidade de Fortaleza e o imaginário cultural brasileiro, pensando sobre políticas públicas e políticas das artes, além de se propor a repensar lugares canônicos, instituídos através da icônica figura de Iracema, que extrapolava o próprio livro de José de Alencar, publicado em 1865, impregnando o território da cidade de Fortaleza e do Brasil com material simbólico. Num tempo em que estávamos nos perguntando sobre o sentido da memória, a invenção dos mitos nacionais e o real valor das representações simbólicas através dos monumentos, Iracema terceirizada, junto com a “COBPI-65”, Comemoração Oficial do Bicentenário de Publicação de Iracema em 2065, incorporaram uma forma debochada de discutir essas questões de um passado nacionalista e colonial, num reposicionamento estratégico sobre o real valor das coisas na contemporaneidade. E como tínhamos explorado muito essa ideia de pensar um parque temático no fundo do mar e de colocar uma “nova” estátua da Iracema em formato display lá nesse parque, porque o nível do mar já estava subindo com as mudanças climáticas, eu acabei descobrindo uma estátua de um macaco, na costa de Fortaleza. Ela, na verdade, foi descoberta no Pemprim — Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio, em 2019, na época da expedição que estava realizando mergulhos para elaborar o plano de manejo do parque, e a estátua acabou virando notícia de jornal, “Pesquisadores encontram estátua de macaco em Parque Marinho de Fortaleza”, tamanho o seu absurdo:10

Img. 3: print da fotografia da estátua do macaco, publicado no site G1.

Quando eu vi essa estátua de macaco no fundo mar, eu vi uma conexão muito forte entre ela e aquela pintura do Sérgio Pinheiro (1949–2021), que tinha acabado de falecer.11 Eu achava que seria uma linda homenagem ao trabalho dele poder ir visitar essa estátua in loco, e depois poder fazer alguma performance artística sobre isso, para apresentar no Salão de Abril, já que fazia muitos anos que eu não participava do Salão, como artista. Eu imaginava a performance como uma palestra sobre arte cearense, e um outro olhar para a pintura do Sérgio, a partir do fundo do mar. Eu, obviamente, estaria vestida de mergulhadora e iria estar molhada, eu já entraria molhada, e ficaria contando as aventuras do mergulho para ver a estátua. Já seria uma performance com motivos climate change, e seria uma forma divertida de falar sobre arte e fim do mundo. Esse era só o esboço inicial que eu tinha na minha cabeça, como uma cena, para começar a trabalhar em cima dela.

Eu também tinha acabado de ler o livro estranhíssimo do Affonso de E. Taunay, Zoologia fantástica do Brasil, publicado em 1934, que está disponível no site da USP, da Biblioteca da Brasiliana,12 e eu estava muito convencida de que essa estátua do macaco também tinha alguma coisa a ver com toda aquela mirabilia, descrita nesse livro, até porque, em diferentes momentos do livro, fala-se muito em macacos, como nos “monos grandes”, descritos por Herrera (p. 53); nos que eram um misto de macaco e raposa, que apareceram nas ilustrações dos relatos de Theodore De Bry (p. 64); nos descritos por Léry (p. 68); nos micos leões de Fernão de Magalhães (p. 73); no furor dos macacos de Alvares Nunes Cabeza de Vacca (p. 73–74); e nos que Anchieta preferiu não comentar os casos admiráveis (p. 86), além dos macacos músicos, aquiquig, de Fernão Cardim (p. 114).

Sérgio Pinheiro nasceu em Jaguaribe, no interior do Ceará, e começou sua carreira artística em 1960, passando por várias fases. Em 1976, fez uma exposição intitulada “O Céu do Ceará”,13 no MAUC — Museu de Arte da UFC:

Imgs. 4 e 5: prints da capa e da contra-capa do catálogo da exposição “O Céu do Ceará”, de Sérgio Pinheiro, no MAUC-CE

O catálogo dessa exposição pode ser visto online,14 e tanto nas obras que apresentou na exposição quanto no texto que escreveu para o catálogo, pode-se perceber um interesse por elementos surreais, da ordem do mágico e do maravilhoso, trabalhando numa perspectiva mítica, e misturando histórias regionais do Ceará com o imaginário medieval europeu, através do encontro amoroso de Melusina e de Raimondin:

O céu do Ceará

Pelo caminho do gesto imagino a casa cheia de ouro. Por dentro, por fora. O ouro nos dentes dos peitos dos serrotes, ouro nas árvores e no burro alegria.

A quantidade faminta de famílias feias. Química mágica dos peixes dourados brandos dentro do mar-guarida.

O mar é verde ou azul dependendo da quantidade de teus olhos:

Uriam, Odon, Guion, Antônio, Renauet, Godofredo e Monge (não se sabe o nome, sabe-se que virou monge e que possuia três olhos), filhos de Melusina e Raimondin. Nasceram fortes e belos mas portadores de anomalias (nas faces) num apelo vivo à expressividade das fisionomias e dos sentidos. Resolvi pintar os oito filhos da Fada Amorosa da casa dos Lusignan, parafraseando o farto número de filhos das famílias nordestinas. A fada, pintei em figura de lavadeira (personagem dos rios, riachos e cacimbas) e o filho do conde, o Raimondin, em figuras de malandro, óculos escuros, bigodinho, armado para aventuras. A serpente um monstro das lendas e mitos.

A exposição não fica só numa família cheia de ouro e sonhos. Caminha no vácuo do medo, até o Céu do Ceará lavar meu cérebro, enxaguar minhas mechas de cabelos pretos em chuva de nuvens também pretas, num dia de inverno, no ano do também e pronto:

A liberdade seja o meu progredir criando.

S. P.

É interessante pensar nessa inversão do tema colonial do encontro amoroso, que normalmente se dá com o europeu colonizador branco, encontrando mulheres autóctones, como Iracema, que é anagrama de América, Rebecca, que é Pocahontas, e Malinche, que era tradutora, porque, no trabalho de Sérgio, é a figura masculina quem vai representar o nativo, mas já assimilando o estereótipo do malandro, que tem algo de picareta. O estereótipo do malandro é bastante difundido no imaginário nacional no século XX, por conta do samba, o famoso malandro carioca. Mas esse tipo nacional, digamos assim, já estava presente, no mínimo, desde o século XIX, como assinala Antonio Candido, em seu conhecido texto dos anos 1970, Dialética da malandragem, quando escreve sobre o romance de Manuel Antônio de Almeida, Memórias do Sargento de Milícias, reconhecendo nele elementos picarescos, que tinham a ver com a sátira, a paródia e a bufonaria, e que se difundiu em várias obras espanholas, durante o século de ouro espanhol, criando esse gênero romanesco.

No final dos anos 1970, Sérgio também escrevia canções, como “Buenos Aires”,15 por exemplo, que tinha muito humor e uma grande irreverência, além de trabalhar com a questão do encontro amoroso. E, mais uma vez, ele também se propunha a perspectivar essa relação entre elementos regionais e estrangeiros, com misturas interculturais e bastante surreais, ao fazer comparações entre a beleza de uma determinada mulher com a de um automóvel importado:

E você que era linda igual ao Citroën
Soltando uma fumaça desgraçada pelo ar

Em lugar de papas fritas, eu comi um ovo frito
Com churrasco bem passado, com você de meu lado

E você que era linda igual ao Citroën
Soltando uma fumaça desgraçada pelo ar

Um pouco paletó, escuro, um pouco de pó
Um pouco de pó claro em sua testa

E você que era linda igual ao Citroën
Soltando uma fumaça desgraçada pelo ar

Essa canção faz parte do Massafeira, um movimento musical cearense, que aconteceu entre os anos de 1978 e 1980, com uma feira cultural, realizada no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, em 1979, abrangendo também manifestações artísticas como artes plásticas, cinema e literatura. O movimento ficou bastante conhecido, lançando um LP-duplo do Massafeira,16 e, entre seus participantes, estiveram presentes artistas como Belchior, Ednardo, Amelinha, Patativa do Assaré, Fagner, Fausto Nilo, além do próprio Sérgio, dentre outros. Ao completar 30 anos, integrantes do movimento fizeram uma enorme celebração no TJA, relançando o LP-duplo, no formato CD, e um livro, com um grande show, relembrando o movimento histórico.

Ao encontrar a esposa do Sérgio, Luciene Simões, que também é artista, além de ela me mostrar parte do acervo de obras visuais dele, ela também me mostrou algumas letras de composições musicais do Sérgio:

Eu também acho que ela me mostrou a letra de uma canção sobre o Lobo Mau e a Chapeuzinho Vermelho, mas infelizmente eu esqueci de fotografar. Eram tantas informações novas e vários estímulos visuais, que acabei não fotografando essa letra. Para Luciene, essa pintura do Sérgio de 1979 tem a ver com essa canção, porque, onde eu vejo um macaco abraçando uma jovem garota de vestido vermelho, ela vê um Lobo Mau abraçando a Chapeuzinho Vermelho! Eu acho maravilhosa essa possibilidade de ver várias coisas diferentes numa mesma imagem, e independente de qual animal se trata, se um macaco ou um lobo mau, ou quem sabe até um cachorro, essa pintura simplesmente nos mostra que o olhar, de fato, é muito particular e subjetivo, porque a gente acaba vendo aquilo que a gente projeta por sobre a imagem, e não necessariamente aquilo que, de fato, a imagem está tentando nos mostrar. De qualquer maneira, é interessante perceber que, nessa pintura, Sérgio pintou um animal sem rabo, atribuindo-lhe características mais humanas, numa espécie de antropomorfização do animal. Esse animal seria um homem-bicho ou um bicho-homem?

Além disso, os elementos que mencionei anteriormente e que estão presentes em várias obras do Sérgio desse período dos anos 1970, como o humor, o encontro amoroso e a mistura de diferentes mundos, através da mistura de culturas diferentes, também foram trabalhados por ele nessa pintura em específico, na mistura de diferentes espécies, ao se encontrarem. Depois dessa fase mais picaresca de sua obra, digamos assim, Sérgio se mudou para a França para estudar, e mergulhou numa fase abstrata, pintando caixas, em diálogo com o pintor holandês Piet Mondrian. E quando ele voltou, Solon Ribeiro organizou uma grande exposição no Museu do Ceará, em 1998, justamente com obras dessa fase das caixas.

Img. 8: Capa do catálogo da exposição “Mondrian, a caixa, e eu — em direção à arte abstrata”, com curadoria de Solon Ribeiro.

Conversei bastante com Solon sobre Sérgio Pinheiro e sua obra, e a relação deles. Eles eram amigos muito próximos e moraram juntos. Também organizaram uma revista de arte, chamada Lata D’Art — Arte Xerox, que teve alguns números e fazia a arte cearense circular através de xeroxs, em envelopes tamanho A4 no final dos anos 1990. Ele disse que Sérgio era cheio de histórias engraçadas e não à toa seu senso de humor está presente em seu trabalho. E também contou uma história que contavam sobre ele, mas que não sabe se é uma lenda pessoal ou se ela tem algum fundo de verdade: quando Sérgio morou em São Paulo, ele andava com liquidificador na mochila, e, então, chegava nas lanchonetes e comprava um copo de leite, pedindo depois para ligar seu liquidificador, para fazer sua vitamina, usando a energia do lugar!

Só depois de algum tempo, trabalhando nessa fase abstrata, é que Sérgio voltou novamente a se dedicar ao figurativo, pintando trabalhadores ambulantes, que usavam o espaço da rua como local de trabalho, num colorido deslumbrante. Um trabalho que, em larga medida, se comunica com as suas obras dos anos 1970, por estar interessada nas questões da paisagem local, sem perder de vista algo de maravilhoso e absurdo, que a realidade sempre mostra, para aqueles que têm olhos de ver, essas camadas mais sutis do real.


O Pemprim — Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio, na costa de Fortaleza, no Ceará, onde aquela estátua do macaco foi encontrada, tem esse nome em homenagem aos jangadeiros da região, que batizaram os pontos de pesca da área como Risca do Mar, Risca do Meio, também conhecida como Pedra do Urubu, e Risca de Terra. Eles foram chamados assim em função das formações rochosas submersas, conhecidas como “riscas”, justamente por vários microrganismos, que estão na base da cadeia alimentar desse ecossistema, sempre se fixarem nesses locais. O parque está localizado a mais ou menos 10 milhas náuticas do Porto do Mucuripe, indo na direção 60° NE, o que equivale a 18,5 km, aproximadamente 50 minutos a 1h30 de distância, dependendo da velocidade e da intensidade das correntes de vento, que, ao que parece, são bastante fortes, porque o mar é muito mexido e puxa bastante, influenciando na visibilidade, que varia, em média, de 15 a 30 metros, sendo que a profundidade da área do parque também varia de 17 a 30 metros. Mas, normalmente, a sua temperatura é estável, sempre em torno dos 27º.

Em 1997, por meio da Lei Estadual nº 12.717/1997, depois que várias entidades se uniram para tentar proteger a área de produção e alimentação de várias espécies que vivem ali, e assim, resgatar a pesca artesanal, estudar e desenvolver programas de pesca sustentável, e realizar pesquisas nos campos das Ciências Biológicas, Ciências Marinhas Tropicais e Engenharia de Pesca, além de divulgar e promover o turismo subaquático, o parque foi reconhecido como parque, se tornando uma Unidade de Conservação, a única UC marinha do estado do Ceará até então. Em 2021, uma outra Lei Estadual, a de nº 17.674/2021, alterou a área do parque, ampliando-o: antes, sua área compreendia mais de 33 km², mas passou a ter 4.790,16 hectares, aumentando quase a metade dos 3.320 hectares que tinha, expandindo, assim, o seu escopo de preservação.

Quando uma Unidade de Conservação é criada, a Lei Federal nº 9.985/2000 determina que o seu plano de manejo seja elaborado em um prazo de cinco anos após a sua criação. Um plano de manejo é um documento técnico-científico, com o qual se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade, baseado nos objetivos gerais da UC. Mas, no caso do Pemprim, é quase inacreditável, somente depois de 22 anos que ele foi reconhecido como parque é que o seu plano de manejo foi elaborado. Durante todo esse tempo, ele ficou no papel, contando apenas com algumas ações isoladas. Quem esteve à frente desse projeto de elaboração do seu plano de manejo, como coordenador, foi o prof. dr. Marcelo Soares, do Labomar — Instituto de Ciências do Mar, da UFC, que eu tive o prazer de entrevistar para escrever este texto, e ele me disse que, infelizmente, essa demora na criação dos planos de manejo era a realidade de muitas UCs do Brasil.

Em 2019, o professor Marcelo junto com uma equipe de oito a dez mergulhadores passaram dez dias embarcados, fazendo atividades diárias de pesquisa e praticamente mergulhando em todos os recifes do Parque da Risca do Meio. Segundo ele, apesar de o plano de manejo ser um documento administrativo, de gestão, ele é fundamental e muito importante para indicar como uma UC deve ser cuidada, porque funciona como um guia, apresentando quais são os usos que devem ser feitos no Parque, além de também pensar nos recursos humanos e financeiros. Todos os documentos que foram entregues como resultado do projeto podem ser consultados online e estão disponíveis para download no site da Sema — Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Estado do Ceará.17 Eu observei com muita curiosidade esses documentos, até porque não sou dessa área, e é possível entender, logo nas suas páginas iniciais, por exemplo, como o Relatório do Plano de Manejo, identificado como produto 8, foi feito: “segundo as diretrizes do modelo norte-americano Foundation Document e do novo roteiro metodológico para elaboração e revisão dos planos de manejo desenvolvido pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) entre os anos de 2015 e 2018”.

No entanto, nesse relatório, ou em qualquer outro documento do projeto plano de manejo do Prempim, eu não encontrei nenhuma referência ao monstro marinho que, nos livros sobre o Brasil, ficou conhecido como ipupiara ou Ipupiara, ou mesmo ípú-piara. Por achar que seria um mero preciosismo da minha parte, não cheguei a procurar por outras variantes desse nome, também grafado de forma muito diferente, Igpupiára, Igputiara, hipupiara, Hipupiara, upupiara, ypupiaprae, Ypypiaprae, y-pypiára, upypeara ou tampouco Urupiara, como cheguei a encontrar nos muitos textos que li sobre esse que é “um dos mais antigos mitos brasileiros”, segundo Luís da Câmara Cascudo, no seu Dicionário do folclore brasileiro. Esta aqui é a ilustração desse monstro marinho, possivelmente criada pelo gravador Jerónimo Luis, que foi quem, com as iniciais “j l”, assinou a folha de rosto da primeira edição da História da Província de Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gandavo, publicada em 1576, em Lisboa, “na officina de Antonio Gonsaluez”, na mesma tipografia onde foi impressa a epopeia de Luís de Camões (1524–1579 ou 80), Os Lusíadas, quatro anos antes, onde essa imagem circulou pela primeira vez:18

Imgs. 9 e 10: páginas da edição de Historia da prouincia sãcta Cruz a que vulgarmête chamamos Brasil, do site da Biblioteca Nacional de Portugal.

Eu pensei em Ipupiara, mas a verdade é que os pesquisadores que redigiram tais documentos do Plano de Manejo do Pemprim, quando estavam fazendo os mergulhos das expedições oceanográficas para elaborar o plano, não se depararam com tal monstro marinho. Ou, se chegaram a vê-lo, simplesmente não relataram nos documentos oficiais. Ficou apenas entre eles mesmos, como um segredo. Eu também não cheguei a perguntar ao prof. Marcelo sobre esse monstro, mas eu fui pesquisar por ele nos documentos, motivada pela aparição daquela estátua do macaco, que foi encontrada pelos mergulhadores durante a elaboração do plano de manejo do parque. Eu pensei que, talvez, eles estivessem conectados de alguma forma, que pudessem ter alguma relação.

Pode até parecer piada, mas eu também procurei nos documentos do plano de manejo por “macaco” e “estátua”, e depois, por ambos os termos juntos, “estátua + macaco”, só que não havia nada que fizesse alguma menção à tal descoberta. Quer dizer, apenas no documento 4, “Produto 4 — Diagnóstico socioambiental”, havia uma rápida alusão a um macaco,“macaco de rabo vermelho”, numa tabela que apresentava uma “Lista das espécies amostradas em julho e agosto de 2019 no Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio, em ordem evolutiva (Nelson, 2006), com suas respectivas famílias, nomes vulgares e categorias de abundância e frequência” (p. 80–82, do PDF), mas que não tinha nada a ver com a estátua do macaco encontrada, porque se tratava do nome vulgar dado ao Ophioblennius trinitatis, um peixinho muito simpático que comumente é referido como “peixe-macaco” e que foi descoberto durante os mergulhos para mapear as diferentes espécies que vivem no parque.

Na época da descoberta da estátua, em 2019, o prof. dr. Marcelo Soares disse ao jornal: “Foi semana passada. Fomos para um recife que nunca tínhamos mergulhado, descemos e vimos o que parecia ser uma figura humana, mas chegamos perto e vimos que era uma estátua de macaco”. A estátua foi achada submersa, com uma corda presa na cintura, mas “ninguém sabe quem fez, e ninguém sabe quem colocou lá e nem por qual motivo. Foi super curioso”. Eu fiquei tão intrigada com a descoberta dessa estátua de macaco que, em julho de 2023, eu escrevi para o professor Marcelo, perguntando se eu poderia entrevistá-lo, porque eu queria saber mais detalhes sobre esse achado da estátua, já que pretendia escrever este texto. Ele foi extremamente solícito comigo, respondendo minhas questões com tanta naturalidade e desenvoltura, que eu simplesmente procurei transcrever as suas falas aqui, de forma quase literal, procurando preservar o que ele disse, ao responder minhas perguntas.

Marcelo conseguiu me revelar mais informações sobre a estátua do macaco: “parece um chimpanzé, mas pode ser de uma outra espécie. E a estatura dela é de aproximadamente 1 metro. Talvez, ela tenha sido usada como âncora ou algum tipo de sinalização. Ou por brincadeira mesmo”. Quando a equipe de mergulho viu a estátua pela primeira vez, na hora, ele disse que foi muito estranho, porque eles a viram de longe, e foram se aproximando. “Existe visibilidade embaixo d’água”, e eles pensaram que era uma pessoa morta, que tinha morrido e que o corpo dela estava ali. Só que, à medida que eles foram chegando mais próximo, viram que se tratava de uma estátua de um macaco. Ele também acredita que foi estranho, porque, no Ceará, não se tem notícias de estátuas assim, “são incomuns”. E acha que a estátua foi colocada lá, porque, se tivesse sido jogada, teria se quebrado toda. E que muito provavelmente a colocaram lá há pouco tempo, já que mergulhadores experientes, que integravam a sua equipe e que conheciam bem o local, não haviam localizado a estátua antes. Também porque não tinha muita vida em cima dela, “os corais e outros organismos vão colonizando esse tipo de estrutura com o tempo”.

“No MUSA”, um Museu Subaquático de Cancún, no México, “os objetos que foram colocados lá, no Parque Nacional Marinho de Cancún, para fins turísticos, há uns 10, 20 anos, eles estão todos cobertos de vida”. E ele também disse que, “na verdade, no litoral cearense, tem uma questão cultural, que passa de geração para geração, os pescadores criam atratores artificiais, que são como recifes falsos, chamados de marambaias, e que funcionam como locais de pesca artesanal, mas só os pescadores locais conseguem localizar. Há uma estimativa de que existam mais de 5.000 dessas estruturas espalhadas pela costa do Ceará. Eles afundam estruturas como pneus, geladeiras e até carros”. Recentemente, em Jericoacoara, Marcelo viu uma Kombi afundada no mar.

Quando conversamos especificamente sobre a atividade do mergulho, ele disse que considerava mergulhar extremamente poético e que se sentia como um astronauta, quando estava mergulhando, porque se fica em três dimensões e o corpo fica mais leve. “Há um grande silêncio no fundo do mar, só se escuta a respiração, exceto quando passa uma embarcação maior, provocando um grande ruído.” Marcelo começou a mergulhar com 20 anos e seu primeiro local foi no Parque Estadual da Pedra da Risca do Meio, em Fortaleza, mas já mergulhou em vários lugares pelo mundo, como África, Caribe, Mediterrâneo, que ele considera um lugar belíssimo para praticar o mergulho. Mas antes de começar a mergulhar, ele tinha muitos medos. Ele lembra que, na noite anterior da primeira experiência, pensava que ia morrer.

“É um pouco estranho mergulhar 20, 30 metros de profundidade, com algo que puxa você para baixo, porque se usa uma coisa chamada cinto de lastro, que são quilos de chumbo, colocados ao redor da cintura, que te afunda. Mas o que faz o contrapeso, para você subir, é o colete, que pode ser inflado com ar, com o tanque que é levado atrás, com ar comprimido, criado pelos franceses. Quando se mergulha, fica só aquele azul e o silêncio. Dá um pouco de medo, mas tem que procurar ficar tranquilo. O mergulho é muito psicológico, tem que tentar manter a calma, porque você está entrando num ambiente diferente e, embora todos nós tenhamos nascido assim, imersos num líquido, mergulhando nas barrigas das nossas mães, depois nos desconectamos desse lugar.”

Marcelo fez diferentes cursos de mergulho, começando pelo básico e depois o avançado. Em seguida, foi seguindo a carreira, tirando as carteirinhas e se aperfeiçoando em técnicas: mergulho noturno, mergulho com correnteza, busca e recuperação, que é para se encontrar coisas no fundo do mar, navegação usando bússola. Também fez um curso de primeiros socorros subaquático e o de mergulhador de resgate, para ajudar mergulhadores iniciantes. Ainda pretende fazer o “dive master”, que é um curso completo para se tornar mestre do mergulho, e, segundo ele, é bem interessante, porque se passa dois meses mergulhando e aprendendo várias técnicas, além do curso de instrutor, que é para trabalhar numa escola de mergulho, ensinando mergulhadores iniciantes. Ele também disse que “mergulhar é uma alegria, depois de tantos anos, é uma atividade que ele sempre gostou”. Ele gosta muito do fundo mar. “É como nadar.” Ele gosta muito de nadar, gosta do ambiente aquático, se sente leve debaixo d’água. “É tipo uma terapia, um lugar muito silencioso, muito calmo. Muito bom.”

Para descrever a sensação do mergulho, ele procurou falar do processo: “Primeiro tem a preparação, que é colocar o equipamento, onde existe um pouco de tensão e de ansiedade. E é necessário checar todo o equipamento, verificar se está tudo ok, acoplado no seu corpo, se o cilindro está com ar, se o cilindro está aberto. E você também deve olhar o equipamento do seu companheiro, porque nunca se mergulha sozinho. O mergulho é sempre em dupla. Então sua dupla é seu irmão, você está entregando sua vida a essa pessoa, e essa pessoa está entregando a vida dela a você. E isso é muito legal, confiar nas pessoas que estão ao seu lado, que vão mergulhar com você”.

“Aí, você cai na água, e existe aquela alegria. E você começa a afundar. Mas afundar provoca um pouco de tensão, e se começa a respirar bem rápido, só que tem que controlar um pouco a respiração para não usar muito oxigênio do seu cilindro. E então, você vai afundando paulatinamente. Um mergulhador experiente pode colocar uma corda que te leva para o fundo do mar. E segurando a corda, você vai descendo metro a metro, para o seu local de mergulho. Aqui no Ceará, se costuma mergulhar com corda, porque a correnteza é muito forte, mas em locais mais parados, como no Caribe ou no Mediterrâneo, por exemplo, não tem essa corda. Com a corda, você vai descendo pouco a pouco, olhando para o seu companheiro, confiando nele e, ao chegar no fundo do mar, é uma alegria. Ver toda uma série de seres, estrelas do mar, corais, peixes, você se sente parte daquele ecossistema. É maravilhoso.”

“Fora da água, o equipamento é pesado, aliás, o cilindro é pesadíssimo, mas tudo se conecta bem ao corpo, então, não é difícil. E quando se cai na água, fica tudo muito leve. Você não sente nada. Você sente o equipamento como parte do seu corpo. Porque esse equipamento, que se chama scuba, ele foi desenvolvido pelos três mosqueteiros franceses, sendo o mais conhecido deles o Jacques Cousteau.” Ele também reforçou que “é uma atividade muito segura, o mergulho, e o curso teórico antes é muito bom. O equipamento tem várias redundâncias. Você tem muito ar no cilindro. O seu companheiro tem muito ar no cilindro. Você tem como ajudar seu companheiro se ele ficar sem oxigênio. E ele tem como ajudar você. E você normalmente mergulha em equipe, com 5, 6 pessoas, incluindo mergulhadores muito experientes. E mesmo que tudo falhe no sistema, você tem como subir de volta. Existem técnicas para voltar à superfície. Então, o risco de mortalidade mergulhando é muito baixo. É muito mais perigoso você dirigir um carro ou uma moto no Brasil, do que mergulhar no fundo do mar”.

E ele também disse que “o Parque da Pedra da Risca do Meio é riquíssimo. Existem mais de 150 espécies de peixes, e é uma área que, cada vez mais, temos que proteger, porque na terra nós já temos muitas Unidades de Conservação, mas, no fundo mar, nós temos poucas. Essa é a verdade. Tanto é que o parque da Risca do Meio é nosso único parque totalmente subaquático do Ceará. Aqui no nosso estado, nós temos uma série de outros parques terrestres: o Parque do Cocó, o Parque de Jericoacoara, o Parque de Ubajara, a Flona do Araripe, e outras UCs. E nós temos que ter cada vez mais parques. E no fundo do mar, também. O fundo do mar é magnífico, traz muitas surpresas”.

Uma coisa que ele acha interessante pensar é que “já se tem todo o planeta Marte e a Lua mapeados, mas o fundo do mar, só se tem 10%. Se conhece muito pouco do fundo do mar. Então, é quase um absurdo, que se conheça mais a Lua e o planeta Marte, do que o fundo do mar”. Marcelo acha que talvez isso se dê, porque nós, seres humanos, somos primatas. E assim como os macacos, nós temos mais costume de olhar para o céu e para a terra do que olhar para o fundo do mar. “O que é um paradoxo, já que, na verdade, é de onde nós viemos”. “A vida, e nós somos parte da vida”, ele procurou pontuar, “a vida nasceu no mar, há milhões e milhões de anos, e foi ela quem passou a colonizar o ambiente terrestre. A maior parte do nosso DNA, ele é subaquático, ele foi gestado no fundo do mar. No processo evolutivo, que deu origem a todas as espécies, dentro de um processo natural, e que designamos como não-teleológico, porque a natureza, ela não tinha uma finalidade, ela não queria criar a vida, ela simplesmente se sucedeu, dentro de um processo evolutivo, que gerou todas essas formas de vida magníficas. Milhões de espécies no planeta Terra e todas elas intimamente ligadas. E o nosso DNA, por exemplo, nosso e dos nossos irmãos primatas, chimpanzés, gorilas, orangotangos, nós compartilhamos com eles 99% do nosso DNA!”

Na época em que estavam embarcados, fazendo o plano de manejo do parque, ainda não havia acontecido o derramamento de óleo, que atingiu a costa brasileira no final de agosto de 2019, e que alcançou a faixa litorânea de onze estados do Nordeste e do Sudeste do Brasil, indo do Maranhão ao Rio de Janeiro. O professor Marcelo junto com seus colegas pesquisadores publicaram mais de vinte artigos científicos, falando sobre os impactos, mas muitos deles são papers acadêmicos, e estão em inglês. Só que ele acabou de fazer uma reportagem de divulgação científica, para a Revista Pesquisa Fapesp,19 com uma linguagem mais jornalística, que traz um resumão do que aconteceu, e que é bastante didática. Eles ainda não chegaram a investigar especificamente os impactos do derramamento no parque, mas Marcelo não lembra de ter encontrado óleo por lá. “Em outras praias, sim, como a Sabiaguaba, até hoje ainda se encontra óleo lá, porque ficou impregnado na rocha.”

E para quem, como eu, nunca mergulhou no Parque Estadual Marinho da Pedra da Risca do Meio e ficou com muita vontade de conhecer, encontrei esse vídeo online,20 que é bem interessante, porque mostra muito bem a área da pedra que dá nome ao parque, além de ir identificando as espécies que aparecem no vídeo, durante o mergulho. Esse vídeo é do canal do Humberto — e eu mando um grande SALVE! para todas as pessoas que divulgam seus vídeos na internet, como Humberto, nos apresentando fragmentos do mundo: “Olá amigos, me chamo Humberto, sou mergulhador de resgate do Corpo de Bombeiros, admirador do mar e louco por atividades de lazer, mergulho, pesca, nado, travessias, que envolvem contato com o mar, rios, lagos e natureza. No canal, ‘MAR AZUL MERGULHO’, vou trazer lindas imagens do fundo do mar, dos animais marinhos, viagens, aventuras e atividades aquáticas”.

Infelizmente, nesse vídeo do canal do Humberto, não aparece a estátua do macaco. Aliás, não achei nenhum vídeo em que ela aparece. E depois de todo esse tempo, eu me pergunto se ela ainda está lá. Deve estar. Por que ela não estaria? O que poderá ter acontecido com ela?

O fundo do mar parece funcionar em muitas velocidade, e os cabos de internet sabem disso melhor do que nós. Ou os pescadores locais, que, se quiserem, conseguem localizar a estátua de olhos fechados. Mas só se eles quiserem.