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Tudo foi só uma incursão terrestre

14 dez 2023

Faço um comentário ao texto de Isabela Agostinelli sobre os ataques israelenses na Faixa de Gaza, publicado neste dossiê.

O texto oferece inúmeras e contundentes provas da opressão sofrida pelo povo palestino, mostrando a continuidade histórica das ações israelenses na ocupação do território.

Em termos mais gerais, a autora afirma que

Não é possível analisar uma guerra — ou melhor, um confronto colonial — sem contextualizá-la. Os eventos não ocorrem no vácuo, não estão desconectados de experiências marcadas por diversas espaço-temporalidades. Não há neutralidade, abstração ou descontextualização capaz de ignorar que o que o Estado de Israel faz na Palestina e contra os palestinos é a produção deliberada e sistemática da morte.

Leio esse parágrafo e penso: “claro. Quem seria o cretino que ignora a necessidade de entender o contexto histórico quando se analisa uma guerra?”

Faço um esforço mental para descobrir o nome do cretino. Penso e penso. Continuo pensando e, de repente, luzindo fraca como uma lamparina, a resposta me acude ao cérebro — que, devo admitir, já se contorce pelos caminhos da senilidade próxima.

O cretino — pisca a luzinha — é você mesmo, Coelho! Foi você quem escreveu, nesta mesma revista Rosa, um artigo intitulado “A ilusão contextualista”, condenando os atos do Hamas no 7 de outubro e dizendo que, “com uma milícia que degola bebês, é de guerra que se trata.”

A notícia de que bebês foram degolados foi mais tarde desmentida. Houve um caso, é verdade, de israelense com o pescoço cortado a golpes de enxada. Opressor do povo palestino, sem dúvida.

Nenhum contexto, eu escrevi, justifica as violências cometidas pelo Hamas quando massacrou israelenses — e pessoas de outras nacionalidades, como tailandeses, filipinos, cambojanos e nepaleses — que assistiam a um festival de rock, ou trabalhavam no evento. Nenhum contexto justifica sequestrar crianças, velhos e velhas. Nenhum contexto justifica assassinar pessoas a esmo, na presença de seus familiares. Ou estuprar mulheres.

Foi isso o que escrevi em 24 de outubro, dezessete dias depois dos atos do Hamas. Apesar de minha memória já não ser o que era, não esqueci as imagens dos corpos dos israelenses fuzilados quando tentavam fugir dos ataques. Não quis ver os vídeos do que aconteceu, divulgados amplamente.

Mas o texto de Isabela Agostinelli está tão preocupado com o contexto da guerra que preferiu ignorar tudo isso. A autora se refere ao que aconteceu em 7 de outubro como uma “incursão terrestre” do Hamas.

Incursão terrestre! Nunca imaginei que uma mera “incursão terrestre” incluísse decapitar pessoas e fuzilar pessoas fugindo em pânico numa estrada. Essas mortes e sequestros arbitrários — quantos israelenses de esquerda estavam na rave? — certamente não interessam a quem nos dá lições sobre o “contexto” da “incursão”.

Bela terminologia para um artigo que pretende condenar o uso de eufemismos. Meu colega de Rosa, Daniel Golovaty, considera que o morticínio promovido por Israel em Gaza é crime de guerra. Critica, entretanto, o uso do termo “genocídio”. Isabela Agostinelli chama o morticínio promovido pelo Hamas em Israel de… “incursão terrestre”. É fácil perceber quem gosta mais de eufemismos nesse debate.

Defender os palestinos não deveria significar simpatia pelo Hamas. O Hamas joga com a população palestina, e decreta que há disposição para o sacrifício e para a morte em todos aqueles que sofrem com a violência israelense.

Volto a citar as declarações de seu líder Abu Marzuk, para a revista (sionista-judaica?) New Yorker. Diante dos ataques de Israel, ele disse: “os palestinos estão prontos a pagar um preço ainda mais alto por sua liberdade”.

Que palestinos? As crianças, os bebês que nem sabem do conflito? Suas mães, seus pais? Em matéria de necropolítica, não é pouco.

Chamar os atos do Hamas de “incursão terrestre” é como chamar os bombardeios israelenses de “incursões aéreas”.

Contextualizar a guerra, para analisá-la, é uma coisa. Invocar o “contexto” quando alucinados matam bebês e estupram mulheres é outra coisa. É justificar a barbárie. Ninguém precisa disso para defender a Palestina e condenar Israel.