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A tabula rasa da história — dos colonizados, é claro!

31 dez 2023

Bastou o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, observar que o massacre promovido pelo Hamas no dia 7 de outubro de 2023 não aconteceu no vácuo1 para que o governo de Israel o acusasse de apoiar o Hamas e o terrorismo.2 Reação muito semelhante à que teve Marcelo Coelho diante de minha proposta de “contextualizar” o massacre israelense contra a população de Gaza.

Bastou mencionar aquilo que qualquer estudante das ciências humanas é cobrado a fazer em suas análises de fatos sociais para fazer ilações de que eu estaria adotando eufemismos ou, pior ainda, simpatizando com o Hamas e justificando a barbárie.

Marcelo diz, com razão, que “Nenhum contexto […] justifica as violências cometidas pelo Hamas”. As justificativas para uso ou não de violência e em que dosagem deve ser empregada não têm relação alguma com contexto e não há nada no meu texto que se relacione com essa ilação de Marcelo Coelho, atitude que não se coaduna com o ambiente de debate democrático e respeitoso.

Coelho diz que o meu texto “oferece inúmeras e contundentes provas da opressão sofrida pelo povo palestino, mostrando a continuidade histórica das ações israelenses na ocupação do território”. Justamente, esse foi o meu objetivo e, por isso, não me detive nos massacres do Hamas no 7 de outubro. Portanto, não se trata de “ignorar tudo isso”.

Até poderia dizer o mesmo de Coelho que, ao olhar apenas ao dia 7 de outubro, ignora completamente os 75 anos de tragédia em que vive o povo palestino, em geral, e o de Gaza, em particular.

Acredito que um dos motivos pelos quais fui convidada a escrever neste dossiê da Revista Rosa seja porque defendi recentemente minha tese de doutorado sobre a vida dos palestinos na Faixa de Gaza de 2005 até a primeira metade de 2023, visto que minha tese foi finalizada em setembro. O foco da tese é analisar as políticas israelenses de controle remoto na região, de modo que o Hamas não era o meu tema, portanto não dei destaque às ações — armadas ou não — do grupo.

O objetivo da minha tese foi mostrar que mesmo quando há “paz” (o momento de cessar-fogo, por exemplo), trata-se de uma “paz violenta”, um cotidiano de opressão e privação de questões básicas: água, eletricidade, alimentos, medicamentos, entre outros recursos e infraestrutura necessária para a (re)produção da vida humana. Foram estes aspectos que trabalhei em minha tese de doutorado e articulei no breve artigo que publiquei neste dossiê. Foi justamente a operação cotidiana e sistemática do que Achille Mbembe chama de necropolítica que busquei trazer em minha análise sobre as violências israelenses contra a população de Gaza. Sobre isso, os jornais e a maioria dos analistas preferem ignorar.

Por fim, Coelho ficou incomodado com a palavra “incursão”. Trata-se de um termo utilizado com frequência nas análises de conflitos internacionais. Segundo o Dicionário de Cambridge,3 a incursão é definida como “um ataque repentino ou ato de entrar em um local, sobretudo cruzando uma fronteira", por exemplo, “incursões em território inimigo”. E foi o que aconteceu em termos militares. As consequências e forma como foi feita precisaria — desculpe — contextualizar, algo que o autor parece não gostar de fazer.

É digno de nota que Marcelo Coelho continue a falar dos massacres do dia 7 de outubro em que morreram 1.200 israelenses e de outras nacionalidades e, ao mesmo tempo, se silencia sobre os palestinos mortos após e antes do dia 7 de outubro.

No dia 24 de outubro, quando foi publicado o texto de Marcelo Coelho, haviam morrido por volta de 6 mil palestinos de Gaza, sendo 3.500 crianças, e o autor não gastou uma linha sequer de seu texto para falar disso. No ano de 2023, até o fatídico dia 7, haviam morrido 237 palestinos, 199 da Cisjordânia — onde não há Hamas — e 29 israelenses.4

Em 2022, de acordo com a Euro-Med Human Rights Monitor5, 204 palestinos foram mortos pelas forças israelenses, dos quais 146 (69,5%) eram da Cisjordânia… de novo, onde não há Hamas. Até então, o ano de 2022 havia sido o mais mortal para os palestinos desde 2002, quando ocorreu o auge da Segunda Intifada. Antes mesmo do 7 de outubro, 2023 já havia sido o ano com recorde de mortes palestinas em mais de 20 anos.

Por que ignorar tudo isso? Bem, o caso de Gaza e dos palestinos, em geral, não é exceção na história dos massacres de povos colonizados. Muitos aguerridos defensores dos direitos humanos só se lembram que existe o povo palestino, principalmente os da Faixa de Gaza, quando há algum conflito armado em que morrem israelenses.

Como insisti em meu texto anterior, o colonialismo israelense na Palestina é a pedra angular e a base na qual se sustenta a dominação de Israel sobre os palestinos. Mas o colonialismo também é epistemológico6 e atua na tentativa de supressão da história dos colonizados, transformando-a em uma tábula rasa que será talhada pelos colonizadores.

Não deixemos que isto aconteça. Os colonizados têm o direito de contar a sua própria história e de serem ouvidos. E isso nunca significou — e não deve significar — justificar ou apoiar qualquer tipo de massacre.