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Uma mudança de paradigma na guerra de cem anos contra a Palestina?1

29 nov 2023

Seis semanas atrás, esta palestra teria um título diferente e, em certa medida, apresentaria um conteúdo também diverso. Eu teria apresentado um pano de fundo histórico para o momento presente, balizado no que expus em meu livro The Hundred Years’ War on Palestine: A History of Settler-Colonialism and Resistance [A guerra de Cem Anos contra a Palestina: uma história do colonialismo de ocupação e da resistência]. Esse livro explica os eventos na Palestina desde 1917 como o resultado de uma guerra efetuada contra a população palestina autóctone em diferentes etapas, tal como levada a cabo por uma série de grandes potências aliadas ao movimento sionista — um movimento que foi ao mesmo tempo de ocupação colonialista e de caráter nacionalista. Tais potências se aliaram posteriormente à nação-Estado israelense que se desenvolveu a partir daquele movimento.

Continuo considerando esse balizamento como a melhor maneira de explicar a história dos últimos cem anos e do que continua a ocorrer. Não se trata, assim, de um conflito imemorial entre árabes e judeus, e não vem se desenvolvendo desde a origem dos tempos. É um fenômeno recente, produto da irrupção do imperialismo no Oriente Médio e do advento dos modernos nacionalismos de Estados-nações, tanto entre árabes quanto entre judeus. Mais ainda, não se trata de uma guerra apenas entre o sionismo e Israel, de um lado, e os palestinos de outro, ocasionalmente apoiados por árabes e outros participantes. Sempre envolveu a intervenção maciça das grandes potências em favor do movimento sionista e de Israel: a Grã-Bretanha até a Segunda Guerra, e os Estados Unidos e outras potências desde então. Essas grandes potências nunca foram neutras, nunca agiram como mediadoras honestas, mas foram e são partes nessa guerra ao lado de Israel. Dados esses fatos, longe de existir uma equivalência entre esses dois lados, dá-se uma guerra entre colonizador e colonizado, entre opressor e oprimido, e sempre houve um vasto desequilíbrio a favor de Israel entre os dois lados em conflito na Palestina.

Entretanto, embora eu pense que esse quadro se reforçou ao longo das últimas seis semanas pelo vigoroso grau de participação dos Estados Unidos e pela natureza limitada da participação do Irã e de outros países árabes, é possível que estejamos assistindo a uma mudança de paradigma, dados os novos elementos surgidos com o 7 de outubro. O que apresento aqui tem caráter bastante especulativo. Enquanto historiador, hesito em adiantar como os eventos irão se desenvolver. Contudo, à luz do que se deu nessa guerra ao longo de mais de um século, fica nítido que novos elementos surgiram, indicando possivelmente que essa guerra entra em nova fase. Quero destacar cinco desses elementos.

1.

O primeiro é que o número de mortos israelenses, superior a 1.200, é o terceiro mais elevado da história desse país. Mais de 800 civis israelenses foram mortos, assim como mais de 350 membros do exército e da polícia, no espaço de pouco mais de um dia. Desde então, outros 64 soldados israelenses foram mortos. Este é provavelmente o maior número de mortes de civis israelenses já registrado (719 civis israelenses foram mortos durante os quatro anos da segunda intifada; eram em sua maioria soldados os 6 mil israelenses mortos em 1948, o maior número de vítimas em todas as guerras do país). O número de vítimas entre soldados e policiais israelenses, contando as mortes ocorridas desde que a invasão por terra começou várias semanas atrás, já supera amplamente a marca de 400. Logo esse cômputo irá superar o número dos soldados mortos quando Israel invadiu o Líbano em 1982 (mais de 450 morreram naquela ocasião).

Como o de israelenses, o presente número de palestinos mortos, acima de 11.500, não é definitivo, e será aumentado por altos índices de mortes evitáveis, advindas de doenças, da mortalidade infantil e de outras causas, ademais do provável acréscimo da maioria dos 2.700 desaparecidos. Isto já constitui o segundo maior número de mortes de palestinos desde 1948, quando cerca de 20 mil pessoas, na maioria civis, foram mortas, e é provavelmente maior do que o número dos que morreram na guerra de Israel contra o Líbano — quando, dos 20 mil mortos, mais da metade era composta de palestinos, e o restante de libaneses (na segunda intifada, cerca de 5 mil palestinos foram mortos).

Exponho essas dolorosas estatísticas como indício de um primeiro elemento do que pode ser uma mudança de paradigma. O número de mortos israelenses, em especial civis, ocasionou um choque traumático que reverberou em Israel, nas comunidades judaicas em todo o mundo, e por todo o Ocidente. É impossível prever os efeitos a longo prazo desse choque, mas este já afetou significativamente o processo de tomada de decisões tanto de Israel quanto dos Estados Unidos, tornando ambos países mais agressivos e intransigentes. Ao mesmo tempo, o impacto político a longo prazo de tamanho número de mortos palestinos num curto período é também incalculável, não apenas entre a população da Palestina, mas também no mundo árabe, e talvez para além dele, tendo prováveis efeitos sobre a política interna de diversos países árabes, assim como sobre o futuro de Israel na região.

2.

Esses números devem ser examinados no contexto de outras duas circunstâncias. A primeira é que o ataque-surpresa do Hamas, sobrepujando as defesas israelenses, no que se inclui a derrota de uma divisão inteira do exército de Israel (a divisão de Gaza), assim como o total fracasso dos serviços de inteligência israelense e sua tecnologia de vigilância, e o massacre de tantos civis israelenses, representam a primeira vez, desde 1948, em que uma guerra se deu com tal ferocidade em pleno território israelense. O país havia sofrido severos ataques contra sua população civil antes disso, com mísseis e atentados suicidas, mas desde 1948 todas as guerras de Israel — 1956, 1967, a guerra de atrito de 1968–70, 1973, 1982, a segunda intifada, e todas as guerras de Gaza — ocorreram essencialmente em solo árabe. Nada parecido ocorreu com Israel nos últimos 75 anos.

3.

Outra característica nova é que esta guerra representa o colapso temporário da doutrina de segurança israelense. Erroneamente chamada de “dissuasória”, deriva na verdade da doutrina de agressão inicialmente preconizada aos israelenses por especialistas britânicos em contrainsurgência, como Orde Wingate. Tal doutrina sustenta que ao realizar ataques, preventivos ou de retaliação, com força esmagadora, o inimigo pode ser derrotado em definitivo, e forçado a aceitar os termos impostos por Israel. No que diz respeito a Gaza, isso significava golpear periodicamente os seus habitantes, matando-os em grande número, de modo a forçar que aceitassem um cerco e um bloqueio que durou por 16 anos.

Descrevo como “temporário” o colapso dessa doutrina porque, se o ocorrido no 7 de outubro deveria ter mostrado sua total bancarrota, o establishment de segurança israelense claramente deixou de tirar qualquer lição disso e dobrou sua aposta. Parecem ter esquecido o dito clausewitziano de que a guerra é a continuação da política por outros meios. Fica evidente que a liderança israelense carece de objetivos políticos precisos ao levar adiante essa guerra, para além de se vingar da morte de civis e de reagir à humilhante derrota militar do 7 de outubro, apresentando suas ações como uma forma de restaurar a “dissuasão”. Em vez de ter um objetivo político preciso nesta guerra, o governo e os militares israelenses postularam o objetivo impossível de destruir o Hamas, uma entidade político-militar-ideológica que talvez possa ser derrotada militarmente mas que não pode ser destruída por tais meios. Se o Hamas terminará enfraquecido ou fortalecido, só saberemos quando esta guerra terminar; contudo, não será destruído como força política ou como ideologia enquanto continuar a ocupação e a opressão do povo palestino.

4.

Outro elemento novo que pode fazer parte de uma mudança de paradigma é que, depois de uma ampla simpatia inicial por Israel no ambiente global, têm ocorrido reações negativas intensas à guerra israelense contra Gaza. Este tem sido o caso no mundo árabe, na maior parte dos países islâmicos, e na maioria dos demais países do mundo, excluídos os Estados Unidos e alguns países ocidentais. Tem havido uma reação negativa, com intensidade semelhante, até mesmo entre amplos segmentos da população dos Estados Unidos e dos países europeus. É impossível saber se essa reação terá um efeito duradouro. Não teve praticamente nenhum efeito visível na administração Biden, com sua política de apoio incondicional a Israel, que chega a um nível de participação ativa na guerra de Israel contra Gaza, e que pode levar ao comprometimento das forças americanas no combate — se, que os céus não permitam, esse conflito redundar numa guerra mais ampla.

A reação nos países árabes prova, ao menos, a total ignorância das lideranças e comentaristas do Ocidente e de Israel, quando afirmam alegremente que “os árabes não se importam com a Palestina”. Afirmando isso confiantes, confundiram os autocratas e cleptocratas que governam esses países com a sua população, que claramente se importa bastante com a Palestina e aderiu às maiores manifestações já vistas nesses países nos últimos anos. Como qualquer historiador sério poderia ter-lhes contado, por mais de um século os povos árabes têm mostrado profunda preocupação com a Palestina. É impossível saber se essa forte reação contra Israel será duradoura, ou se e quando os regimes antidemocráticos que infestam essa região vão ter sucesso em reprimir a expressão desses sentimentos. O que fica claro é que, em suas políticas futuras em relação a Israel, terão de ser muito mais cautelosos do que antes, levando em conta o veemente apoio de suas populações à causa palestina.

5.

Há um quinto e último elemento nessa possível mudança de paradigma. Os pesos desiguais com que as elites e políticos ocidentais avaliam as vidas de árabes e pessoas não-brancas, de um lado, e as vidas de pessoas brancas ou de Israel, de outro, criou uma atmosfera tóxica nos ambientes dominados por tais elites, como é o caso da arena política, das empresas, da mídia e de universidades como a de Columbia. Essas elites, e muitas outras, encaram os massacres de civis israelenses como fundamentalmente diferentes dos massacres que vitimam um número mais do que doze vezes maior de civis palestinos. O sofrimento de civis israelenses, e apenas o deles, foi expressamente mencionado ainda uma vez pelo presidente Biden, na recente data de 15 de novembro, ao passo que ele simultaneamente usava de eufemismos ao tratar do bombardeio israelense sobre Gaza, e, em sua incoerência característica, repetia automaticamente as fórmulas usadas por Israel.

Essa abordagem flagrantemente desigual é uma faca de dois gumes: embora possa servir a Israel no curto prazo, o viés e o uso de dois pesos e duas medidas que lhe são inerentes ficam explícitos para o mundo todo, e para crescentes segmentos da opinião ocidental, em especial entre os mais jovens. Isso é geralmente o que ocorre junto a todos os que não estão intoxicados pelas manifestações altamente tendenciosas da mídia mainstream, que costuma divulgar todo tipo de notícias que Israel considere prontas para o consumo. O apoio de 68% dos americanos, incluindo uma larga maioria de democratas, a um cessar-fogo em Gaza, medida ferozmente combatida2 pelo governo de Israel e seu facilitador na Casa Branca, são sinal importante, se é que não um anúncio, de uma mudança de paradigma.

Apesar disso, a despeito da crua exploração política das mortes de civis israelenses e do sequestro de reféns civis, é vital reconhecer que tais pontos trazem graves problemas morais, assim como jurídicos e políticos, para os que apoiam os direitos dos palestinos. O elemento moral é óbvio: não há dúvida que mulheres, crianças, idosos e todos os não-combatentes desarmados deveriam ser protegidos em situações de guerra. O problema jurídico deveria ser igualmente óbvio. Pode-se optar pela não-aplicação dos critérios do Direito Internacional Humanitário (DIH). Contudo, se se decide aplicá-lo, é preciso aplicá-lo a todos os envolvidos. Israel afirma falsamente que adere ao DIH, ainda que em sua “doutrina Dahiya” (enunciada em 2007 por um ex-general, Gadi Eizenkot, hoje membro do gabinete de guerra israelense) admita explicitamente que não o segue. Líderes israelenses têm afirmado aberta e repetidamente que seu país não obedece a no mínimo dois elementos-chave do DIH: a proporcionalidade, que prevê que a perda de vidas humanas e propriedades não deve ser excessiva em relação à vantagem que se espera com a destruição de um objetivo militar, e a distinção, que requer uma diferenciação entre a população civil e os combatentes. Em seus ataques diários a Gaza, como em muitas ocasiões anteriores, Israel mostrou seu total desrespeito a esses princípios ao aniquilar as vidas de um incalculável número de civis no objetivo de declarado de matar um ou alguns militantes.

É verdade que, na ótica do direito internacional, povos sob ocupação têm o direito de resistir, e isso vale, é claro, para os palestinos. Todavia, se quisermos exigir a aplicação do DIH a Israel, o mesmo deve acontecer com protagonistas palestinos, e é necessário admitir que, a despeito das flagrantes violações dessa lei cometidas por Israel, as violações do Hamas e de outros devem se submeter à mesma régua.

O problema político é que, enquanto Israel viola o DIH com completa impunidade e com apoio incondicional dos Estados Unidos e de alguns governos ocidentais, as violações palestinas do DIH e da moral, presentes no assassinato e no sequestro de civis, os quais agridem esses princípios morais e legais, são explorados para denegrir e deslegitimizar a causa palestina em seu conjunto, e não apenas os que perpetraram esses atos. Como fica evidenciado na repercussão política, midiática e institucional que se deu nos Estados Unidos e na Europa depois do 7 de outubro –inteiramente baseada nessas violações, como se viu em Columbia e em outros campi universitários —, o que se atinge é a luta pelos direitos palestinos.

Tem enorme importância o que acontece no espaço político, midiático e institucional hostil dos Estados Unidos e do Ocidente, que muitos de nós ocupamos. Se aceitamos que Israel é um projeto de ocupação colonialista (e também nacional), então sua metrópole são os Estados Unidos e o Ocidente. Como entenderam os movimentos de liberação da Irlanda, da Argélia, do Vietnã e da África do Sul, não foi suficiente resistir ao colonialismo dentro do território colonizado. Era também necessário conquistar a opinião na metrópole, o que frequentemente envolveu limites ao uso da violência, assim como o recurso a meios não-violentos (por mais difícil que isto seja face à violência do colonizador). Foi assim que os irlandeses venceram sua guerra de independência nos anos que vão de 1916 a 1921, que os argelinos venceram em 1962, e os vietnamitas e os sul-africanos também. No ambiente político e midiático hostil dos Estados Unidos e da Europa em que atuam os defensores dos direitos palestinos, é essencial completa clareza nessas questões, não apenas por motivos morais e jurídicos, mas por motivos políticos também.

Embora a esta altura seja obviamente impossível prever as consequências da guerra, parecem ao menos desenhar-se as mudanças aqui expostas. Levarão a uma profunda mudança de paradigmas humanitários e políticos? Visualizo três grandes questões:

  1. Será que a expulsão de um milhão e meio de pessoas da parte norte da Faixa de Gaza, incluindo a cidade de Gaza, no que já é uma espécie de Nakba, levará à permanente limpeza étnica dessa região?
  2. Será que a comunidade internacional, ou os Estados Unidos (que com frequência age como se fosse toda essa comunidade), apresentará uma nova e original solução para o conflito, baseada em equidade e justiça?
  3. Ou, como parece mais provável, irá simplesmente reestabelecer de algum modo o mesmo status quo de opressão e cerco dos palestinos em espaços cada vez menores, enquanto injeta mais formol no cadáver decomposto da antiga solução dos “dois Estados”?

É impossível, hoje, responder a essas questões, mas me arrisco a dizer que as respostas, respectivamente, podem ser sim para a primeira, não para a segunda, e sim para a terceira.

Contudo, pode-se ter a esperança de que um resultado seja descartado: o da limpeza étnica de parte ou da totalidade da população da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, por meio de sua expulsão da Palestina histórica no rumo do Sinai egípcio e da Jordânia. Em suas visitas iniciais à região, depois da eclosão da guerra, o secretário de Estado americano Anthony Blinken — aparentemente atuando como menino de recados de Israel — fez pressão sobre os governantes do Egito, da Jordânia e da Arábia Saudita no sentido de aceitar esse resultado. Os três governantes rejeitaram-no com firmeza. Fazendo isso, agiram em função dos interesses de seus países e no interesse da preservação de seus regimes — mas também em função dos interesses dos palestinos, que sabem, com a amarga experiência dos últimos 75 anos, que Israel nunca permitiu o retorno de qualquer pessoa expulsa da Palestina.

A prova evidente das intenções malévolas da Casa Branca sob Biden pode ser vista no pedido que o departamento de administração e orçamento fez ao Congresso em 20 de outubro de 2023, requerendo bilhões de dólares para a ajuda militar à Ucrânia e a Israel. Isto inclui uma requisição, sob a rubrica de “assistência para a migração e para refugiados”, para custear “potenciais necessidades de palestinos fugindo para outros países, para “deslocamentos além de fronteiras” e para a “programação de requisições fora de Gaza”.

Ademais da miopia do governo Biden em alinhar-se servilmente a uma guerra israelense que provavelmente envolve múltiplos crimes de guerra, sem nenhum resultado político que se possa discernir ou considerar possível, deve-se acrescentar sua estupidez do ponto de vista da política interna. Ignorou-se deliberadamente a crescente oposição a um apoio ilimitado à guerra contra Gaza, que partiu de muitos dos próprios membros da administração, assim como de figuras-chave da base do partido Democrata. Esta se compõe em larga medida de eleitores jovens, de elementos progressistas nas comunidades judaica e cristã, de árabes, de muçulmanos, e de lideranças de comunidades negras e outras minorias. Enquanto a agressão israelense a Gaza continua com pleno apoio do governo, torna-se cada vez mais difícil ver de que maneira uma grande contingente desses grupos, em especial aqueles localizados nos Estados com maior divisão eleitoral, irá dispor-se a levar votos para Joseph Biden em 2024.

Para além do apoio americano a Israel, no seu objetivo de expulsar à força mais de 1 milhão de pessoas do norte da Faixa de Gaza, só a resoluta oposição (até agora) de alguns poucos governos árabes evitou uma infeliz participação dos Estados Unidos numa nova fase do processo de 75 anos que Israel efetua na limpeza étnica dos palestinos para fora de sua pátria. Não chegamos a tal ponto, e oxalá não cheguemos nunca. Entretanto, embora tenha sido impedido de ser cúmplice nessa particular atrocidade, o governo Biden já está metido até o pescoço num abismo de depravação moral ao apoiar materialmente Israel no massacre de milhares de palestinos e na transformação de Gaza num lugar inabitável, e ao consentir numa limpeza étnica naquele território.