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As correspondentas

12 dez 2023

Anywhere at all, cross the street, open your eyes.

—Lauren Elkins

War is a man's game … the killing machine has a gender and it is male.

— Virgínia Woolf

Gellhorn, a pioneira

Hoje, saber o que acontece no front através de vozes feministas é relativamente comum. Há 80 anos, contudo, não era. A jornalista norte-americana Martha Gellhorn foi uma correspondente de guerra pioneira e desde a década de 1920 cobriu conflitos pelo mundo para diversos veículos. Ou melhor, foi uma correspondenta. Nas palavras de Lauren Elkin, Gellhorn era campeã quando se tratava de registrar a justaposição entre a vida cotidiana e a carnificina em territórios onde havia conflito deflagrado.

Gellhorn nasceu em 1908. Era de Missouri e, sua mãe, Edna Gellhorn, foi uma importante sufragista, uma defensora apaixonada pela defesa dos direitos de meninas e mulheres. Edna Gellhorn levou a filha Martha consigo a inúmeras marchas e protestos, inclusive ao evento épico que ficou conhecido como “The Golden Lane rally”, que reuniu sufragistas durante a convenção nacional do Partido Democrata em 1916 — um marco na história do movimento feminista. Martha Gellhorn herdou da mãe o desejo ardente por igualdade e essa militância sempre marcou seu trabalho.

O primeiro trabalho da jornalista como correspondenta foi cobrir desde Paris a Primeira Guerra Mundial pela United Press. Nos anos 1930, foi assistente da então primeira-dama Eleanor Roosevelt. Ganhou notoriedade ao rodar os Estados Unidos e documentar os impactos devastadores da crise de 1929 nas entranhas de seu país. Viajou pela América decidida à contar histórias de pessoas comuns que viviam privações extremas e se sentiam desiludidas e desamparadas. Narrou para os norte-americanos a Guerra Civil Espanhola. Cobriu a guerra entre Rússia e Finlândia em 1939. Durante a Segunda Guerra Mundial, viveu em Paris e passou pela Inglaterra, Itália e Alemanha. Esteve na China nos anos 1940. Foi a única jornalista mulher que cobriu o Dia D in loco, em Omaha. Esteve em Israel no fatídico ano de 1948; foi diversas vezes ao turbulento Vietnã na década de 1960 comissionada pelo The Guardian e passou pela Nicarágua nos anos 1970 para entrevistar membros do Contra.

Martha Gellhorn viajou o mundo buscando histórias sobre como o infraordinário e o extraordinário convivem em territórios em conflito. Gerava-lhe grande entusiasmo registrar o trajeto e semblante do homem comum que compra pão enquanto mísseis cruzavam o céu, a mulher que vai ao mercado ainda que ouvisse as bombas ao longe. Animava-se ao contar que, em Madri, na década de 1930, era possível pegar um metrô até o front e depois voltar pra casa também de metrô para trabalhar em seus manuscritos. Gellhorn costumava dizer que sempre achou estranho sair de casa e dar de cara com uma guerra “just down the road”. “It is always surprising just to wake up, walk to war and then come back”, escreveu em 1938.

Talvez a cena registrada por Gellhorn que melhor define seu projeto e estilo seja seu relato sobre uma loja de sapatos que funcionava normalmente durante a Guerra Civil Espanhola. O episódio é descrito por em uma matéria assinada por Gellhorn para a revista Colliers publicada em 1937. Bombas explodiram do lado de fora, ouviam-se tiros. Diante de tamanho caos, o vendedor limitou-se a dizer para as clientes que experimentavam sandálias que era mais seguro que o fizessem nos fundos da loja, onde não havia risco que as vidraças das vitrines estourassem e as machucassem. Deparar-se com cenas assim causavam frisson em Gellhorn e seus relatos sobre tais situações despertava a curiosidade de seus leitores. Dentre as muitas reportagens que Gellhorn assinou, a que falava da loja de sapatos em Madri costuma ser citada como um divisor de águas na sua carreira. É também vista como o resultado mais bem-acabado de um modo autêntico, único e revolucionário de cobrir conflitos internacionais. Um modo feminino e feminista de olhar para campos de guerra e narrar o que há neles de típico e o atípico.

Os senhores da guerra planejavam guerras e negociavam tréguas. Os correspondentes homens cobriam o front. Gellhorn, por sua vez, olhava para as cidades, os açougues, os cafés, os mercados, para o quotidiano que se impunha. Gellhorn sempre procurava capturar em suas reportagens o convívio, em meio aos conflitos armados, entre o prosaico e o épico.

O compromisso de Gellhorn com seu projeto a levou para todos os continentes. Lauren Elkin, ao falar do fim da vida da jornalista, disse em seu livro Flâneuse que Gellhorn escolheu como queria sair de cena e que, no fim das contas, a morte é só mais um lugar para ir. A morte de Gellhorn não era seu destino, era o destino que escolheu para sua última viagem.

A correspondenta viveu uma vida pessoal igualmente dinâmica e empolgante. Foi casada com o genial Ernest Hemingway. Um dos deuses da literatura; daqueles que tudo via, tudo sabia e sobre tudo escrevia. Gellhorn e Hemingway viveram um amor ruidoso, eventualmente violento, indubitavelmente tóxico. Em dado momento, a jornalista compreendeu que o casamento tinha chegado ao fim. As tentativas, de parte a parte, de salvar esse amor deram n'água. A jornalista se jogou no trabalho com ímpeto, seguiu cobrindo guerras com o mesmo olhar arguto e amou outros homens. Arrependia-se do pouco convívio com o filho, mas se sentia mais viva na estrada do que em casa e gostava de viver.

A escritora Susan Sontag — feminista das mais brilhantes — formulou, em uma entrevista concedida em 1973, recomendações para que feministas vivessem uma vida mais feminista. Sontag disse que a primeira responsabilidade de uma feminista, ou o que à época eram chamadas de “liberadas”, deveria ser viver uma vida plena, feliz, livre, saudável, recheada de afetos, autêntica. A segunda responsabilidade nomeada pela escritora norte-americana deveria ser um comprometimento definitivo e inegociável com o bem-viver de outras mulheres. Martha Gellhorn seguiu à risca o roteiro de Sontag, sem sombra de dúvida. Colheu louros, mas também pagou alto por tudo isso.

Martha Gellhorn se considerava uma novelista, uma escritora de ficção. Contudo, sabia que todos preferem ler “inspirado em fatos reais” ao invés de “qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência” no início de um livro. Por isso, falava sobre sua carreira de correspondenta de guerra como estudo de campo. Oportunidades para descobrir tramas e personagens que pudessem inspirar seus ensaios e livros. Escreveu cinco romances e assinou roteiros de alguns curtas-metragens. Não obteve, como ficcionista o mesmo êxito que experimentou como correspondenta, mas seguiu escrevendo ficção — e reportagens — até seu suicídio em 1998. Gellhorn, no fim da vida, sofria com um câncer incurável que a deixou cega. Como a personagem Naomi de Estranhos a nós mesmos, concluiu que tinha pouco tempo e ou morreria de forma misericordiosa ou de uma morte torturante. Escolheu a primeira opção. Aos 89, tirou a própria vida. Até ao fazer planos sobre a sua morte, Gellhorn manteve-se fiel à sua verve singular e sua teimosia apaixonante.

Sua última incursão à campo foi ao Brasil. Esteve no país em 1995 para uma reportagem sobre crianças em situação de rua na cidade de Salvador — publicada na revista literária Granta. Gellhorn completou a missão com o zelo de sempre, mas com demasiada dificuldade. Sua visão deteriorava-se rapidamente e ela mal conseguia ler seus próprios manuscritos.

O obituário comovente publicado pelo New York Times publicado após seu suicídio dizia:

Martha Ellis Gellhorn, que foi uma das primeiras mulheres correspondentes de guerra e cobriu uma dúzia de conflitos importantes em sua carreira de mais de seis décadas, morreu neste domingo em sua casa em Londres. Ela tinha 89 anos. Gellhorn era uma insubordinada altiva e de voz rouca, que se via como uma defensora das pessoas comuns capturadas em conflitos criados pelos ricos e poderosos. (…) Ela sempre focou nos peões e nos civis, ignorando os generais.1

O obituário chama atenção para o compromisso de Gellhorn com o corriqueiro que inesperadamente se revela em meio ao espantoso. Esse compromisso é definido com maestria pela professora e pesquisadora Bianca Tavolari, que diz que Gellhorn sempre buscou falar do que era, ao mesmo tempo, próximo e distante. Frequentemente, essa vocação de Gellhorn (que deu a tônica de todo o seu trabalho e é seu grande legado) é atribuída ao fato de se tratar de uma mulher. O olhar feminino e feminista da jornalista costuma ser citado quando a obra de Gellhorn é debatida. De fato, é uma hipótese interessante. A obra de outras correspondentas de guerra que hoje estão na Ucrânia e em Israel parecem corroborar a hipótese de que mulheres olham para o front e veem ao seu redor dinâmicas que escapam aos olhos dos correspondentes homens.

As correspondentas

Martha Gellhorn dizia a jovens jornalistas que havia dois únicos pré-requisitos para protagonizar uma cobertura interessante, relevante e justa de uma guerra. Caminhar com cautela e escutar com atenção a todas as pessoas e a todos os barulhos. Ambos são atitudes que o mundo demanda da mulher em todas as circunstâncias. Por isso, considerava mulheres mais aptas que os homens para registrar e notificar conflitos armados.

Gellhorn costumava dizer, também, que frequentemente ouvia dos correspondentes homens “vamos, o dia acabou, nada está acontecendo”. Todos regressaram, então, para a zona verde. A jornalista, contudo, olhava ao redor e via infinitas coisas acontecendo. Um homem sentado na calçada comendo e esperando o próximo bombardeio era, para Gellhorn, um acontecimento. Uma pauta. Uma história. Insumos para seus romances. Argumentos para seus filmes. Para Gellhorn, sempre havia algo acontecendo. E as mulheres teriam mais competência para descobrir histórias onde os correspondentes homens não enxergavam nada.

Afinal, Gellhorn rejeitava com virulência as noções de neutralidade e objetividade. Tinha profunda aversão à ideia de que o jornalismo investigativo responsável exigia neutralidade. Repetia: a neutralidade é inalcançável e a tentativa de alcançá-la é tediosa. E acrescentava, quando falava em público sobre seu trabalho, que era uma ficcionista, que seu objetivo maior na vida era domar o otimismo e a ingenuidade de seus compatriotas norte-americanos e que a última coisa que desejava ser na vida era uma jornalista neutra. Pior que isso, brincava, só ser um jornalista neutro.

Apesar do caminho pavimentado por Gellhorn e outras pioneiras e dessa aptidão formidável das mulheres para identificar histórias pertinentes e cativantes, ainda há poucas mulheres cobrindo conflitos armados. É a velha cantilena… Ascender na carreira é mais difícil para mulheres, em especial para as que são feministas vocais e bem-humoradas. A igualdade salarial é a regra e a dedicação é desmedida. Os riscos são muitos, de muitas ordens. O jornalismo investigativo é uma profissão que rapidamente se torna inviável para muitas mulheres.

Há quem diga que trocar as vogais que designam o gênero das palavras no plural é desferir um golpe duro contra nossa língua. Há quem ache que é perda de tempo e que há maneiras mais efetivas de lutar por liberdade e igualdade. Estão todos equivocados. Trocar as vogais é um gesto de reconhecimento e celebração. É uma estratégia cujo objetivo é denunciar a ausência de determinados corpos e vozes em espaços de poder. É o reconhecimento de que poucas, mas muito boas, chegaram longe e que suas lidas foram e são duras. As correspondentas fazem diferença, em particular quando as notícias são sobre conflitos que vitimizam desproporcionalmente determinadas demografias. Em especial, quando quem mais sofre se parece com a profissional que registra e relata a história que presencia. Mulheres e crianças são imensamente afetadas pelas guerras. Basta olhar para Israel e Gaza nesse momento, é isso que se passa. Esse é um dos poucos consensos partilhados pelos olhares divergentes sobre o que se passa lá. Mulheres são excepcionalmente habilidosas ao estabelecer vínculos de confiança com outras mulheres e ao relatar as vulnerabilidades específicas dessas vítimas.

Falemos brevemente do termo correspondenta. A troca de vogais que força flexões de gênero inéditas pode soar, por vezes, deselegante. Estranha. Mas é um gesto propício que nos move na direção certa. Nossa língua é um farol. Ilumina certas dimensões da nossa vida em sociedade e deixa outras no escuro. Iluminemos os direitos de meninas e mulheres e a paz, deixemos a misoginia e a reificação da guerra na penumbra.

Noticiando o infraordinário

A jovem jornalista investigativa britânica Isobel Yeung cobre o conflito entre Ucrânia e Rússia há muitos meses pela Vice News. Tem crescente espaço no veículo para o qual trabalha por levar ao seu público pautas infraordinárias e suas conexões com os eventos extraordinários que se desenrolam no território. Uma matéria publicada recentemente pela revista Vogue intitulada “How Female Correspondents Are Defining War Coverage in Ukraine” ressalta:

Yeung é uma entre várias mulheres correspondentes na Ucrânia cuja ênfase profunda, empática e quase impressionista na vida civil — nos transtornos, na perda súbita da normalidade e na sobrevivência quotidiana diante das circunstâncias mais sombrias — tem dado o tom da cobertura. Estas reportagens dão uma consistência visceral à guerra a partir de novas cenas: funerais e casamentos marcados por um otimismo recalcitrante, encontros com crianças que lamentam os hamsters de estimação que foram obrigadas a deixar para trás.2

O mesmo artigo traz a seguinte afirmação feita pela correspondenta internacional da CNN, Clarissa Ward: “As mulheres têm feito os melhores trabalhos porque, além de serem incrivelmente corajosas e intrépidas, têm humanidade e compaixão. (…) As histórias que mais reverberam hoje são baseadas em experiências”.3

Clarissa cobre, atualmente, o conflito entre Hamas e Israel. Um vídeo da jornalista buscando abrigo durante um bombardeio virou viral há cerca de um mês.

Leila Fadel, repórter da National Public Radio (NPR), tem origem libanesa e cresceu na Arábia Saudita. Viveu, ainda criança, a Guerra do Golfo. Atualmente, vive entre Washington e Kiev. À Vogue, ela disse:

Sei por experiência própria que as pessoas continuam tentando ser normais. (…) As pessoas querem se casar. Querem fazer festas. Tudo isso continua acontecendo. Um homem passeia com seu cachorro, alguém anda de bicicleta, as pessoas saem para comprar alimentos — e então tem um prédio que foi claramente atingido por um míssil, os estilhaços das janelas espalhados por mais de um quarteirão (…) Não me considero uma repórter de guerra, apenas cubro pessoas…às vezes, elas estão vivendo os piores traumas que você pode imaginar, e isso pode acontecer em qualquer lugar.4

A experiente repórter Martha Raddaz, da rede norte-americana ABC, se orgulha do trabalho que fez e faz. Tem orgulho das pautas que emplaca. E, acima de tudo, tem orgulho do orgulho que as meninas mulheres de sua família sentem dela. Em entrevista para a revista Variety, disse que fica feliz ao olhar ao redor e ver a presença crescente de mulheres fazendo jornalismo investigativo de alta qualidade ao seu redor na Ucrânia. E arrematou:

Estou orgulhosa de mim mesma. Sou avó e minha filha explicou às minhas netas o que eu fazia. Quando elas estavam na casa de uma amiga, alguém lhes perguntou: “onde está sua avó?” Minha neta, que tem 6 anos de idade, respondeu: “Ah, a vovó está na guerra. Ela está em uma guerra porque começaram essa guerra, então ela está lá”.5

À Variety, Raddaz falou aos múltiplos desafios que se apresentam diariamente às mulheres que encaram o desafio de ser correspondenta de guerra. Mulheres no front precisam garantir sua segurança (sabemos que mulheres jornalistas investigativas correm grande risco em territórios em conflito). Precisam lidar com os desafios de ser mulher — no front e em todo lugar. Precisam driblar a violência de gênero. Precisam conviver da maneira mais saudável possível com a solidão, o esgotamento, cobranças, a culpa de estar longe de casa… Sabem da relevância de noticiar o infraordinário escondido sob o extraordinário e precisam defender suas pautas com unhas e dentes. E precisam trabalhar incansavelmente para normalizar a presença feminina no seleto e majoritariamente masculino clube dos correspondentes que cobrem conflitos armados.

Isobel Yeung, Clarissa Ward, Leila Fadel, Martha Raddatz, Debora Patta e Lyse Doucet são algumas das correspondentas de guerra fazendo, neste momento, um trabalho brilhante e perigoso em territórios onde há conflito armado. Todas, de certa maneira, pupilas da pioneira Martha Gellhorn. Outro nome digno de nota é o de Sabrina Tavernise, repórter do New York Times e apresentadora do prestigiado podcast The Daily. Tavernise cobriu o sinistro do 6 de janeiro em Washington e fala russo fluentemente. Sua pegada intimista e a maneira ousada e certeira são suas marcas registradas. Desde Kiev, a jornalista narrou em seu podcast o dia a dia de crianças em abrigos, vivendo tempos de incerteza e, ainda assim, realizando tarefas quotidianas. Tavernise escolheu apresentar aos ouvintes do The Daily sons das crianças escovando os dentes em abrigos e a escolha comoveu sua grande audiência. Fez escolhas felizes ao eleger sons infelizes capazes de nos fazer entender a ambiência da guerra.

Cabe aqui uma menção importante: temos correspondentas brasileiras que fizeram e fazem trabalhos formidáveis. A incrível Adriana Carranca, por exemplo, esteve no Haiti, na Síria, no Paquistão, no Afeganistão, no Iraque, no Irã, em Gaza e em outros incontáveis teatros de guerra. Fez chegar aos brasileiros relatos comoventes de mulheres vítimas de conflitos internacionais que jamais teriam nos alcançado se tivéssemos apenas correspondentes homens em campo. Primeiro porque, em muitos desses territórios, correspondentes homens não seriam autorizados a falar com as mulheres vitimadas sem anuência de pais ou maridos. Esses tutores costumam interditar o diálogo quando avalia que o papo não caminha bem. A qualquer momento, passam de tutores a censores. Em segundo lugar, porque o olhar de correspondentas como Carranca é curado por sua experiência feminina e feminista. Seu interesse cola em dimensões do conflito que escapam aos correspondentes e seus textos decolam por conta disso. O mesmo pode ser dito de outras grandes correspondentas brasileiras como Patrícia Campos Melo e Flávia Marreiro.

As correspondentes de guerra que, neste momento, estão cobrindo o conflito entre Hamas e Israel têm, assim como aquelas que cobre o conflito na Ucrânia, desempenhado um papel heroico e correndo grande risco. De acordo com a importantíssima publicação feminista norte-americana Ms. Magazine, desde o dia 7 de outubro, aproximadamente quarenta jornalistas morreram cobrindo a guerra em curso. Ao menos cinco delas eram mulheres. Organizações como a Coalition For Women In Journalism (CFWIJ) têm acompanhado com grande preocupação o aumento dessas cifras.

A guerra entre Hamas e Israel tem sido marcada pela desinformação. E o Brasil sabe bem o drama que sucede a proliferação de informações falsas. Boa parte de nós aprendeu nos últimos anos que a garantia de paz e do respeito ao Estado Democrático de Direito passa pelo consumo de informações verdadeiras transmitidas por interlocutores confiáveis. Tanto melhor se encontrarmos interlocutoras confiáveis dispostas a combater o fascismo sob qualquer forma e a misoginia sob qualquer disfarce.

Precisamos conhecer as profissionais na linha de frente que cortam um dobrado para nos manter informados. Temos que consumir o conteúdo que elas produzem. Elas são nossos olhos e nossos ouvidos. E nossa audiência afiança suas carreiras e, no limite, suas vidas. Precisamos delas e elas precisam de nós.