Revista Rosa

Volume 8

8

Esgrima e aposta

Sempre que eu desembarcava no Rio
para uma competição de esgrima
vinha o primeiro combate de praxe:
pegar a mala e conseguir um táxi.
Todos nós, esgrimistas, carregamos
grandes estojos condenados
ao extravio obrigatório
nos controles de segurança
aeroportuários. Os sacos d’armas,
como chamamos as malas compridas
onde levamos os equipamentos,
com frequência são verificados
para garantir que nelas não
transportamos corpos ou algo que o valha.
É um momento bastante esperado pelo atleta,
pois se a folga até a competição
é larga o bastante para uma angústia tranquila,
o atraso pode, depois de 4 anos
de trâmites legais (também de praxe),
render os trocos de um bom processinho.
Dentro do táxi, tendo encaixado a mala,
num Tetris sempre desafiador,
a pergunta inevitável do motorista
girava em torno da natureza do esporte
de seu bizarríssimo passageiro:
— Esgrima…
— Ah, pô, que doideira. Mas e aí?
Não é perigoso cair da montanha?
Ao que a resposta obrigatória era:
— Não, você está confundindo,
não é perigoso quando os cavalos
estão tranquilos.
E assim seguíamos nós
numa conversa descontraída como
só os que não se entendem podem ter
enquanto o motorista me mostrava
o que é rally em plena Av. Atlântica.

As competições no Rio aconteciam
em dois lugares em especial:
a Fortaleza de São João, na Urca,
e o Clube Militar, no Jardim Botânico.
Atenção total. Além da maresia que
com o tempo podia comprometer
todas as ligas metálicas que compunham
os jaquetas e máscaras de sinalização,
o principal perigo era sair mofado
daquele antro de milicos bizantinos.
Na primeira vez que entrei
na Fortaleza de São João,
o conselho mais precavido
que um interlocutor fardado
achou justo me dar de graça
foi o alerta machista de que, ali dentro,
mulher é que nem jabuti em árvore:
“se está ali, alguém colocou”.
Como se a atmosfera de Alphaville
versão militar não fosse, per se,
pouquíssimo convidativa para
aventuras eróticas.
Minha preocupação, naquele momento,
era achar um ventilador no ginásio de lata
e guardar lugar o mais perto possível dele.
A esgrima é um esporte que tem uma história
muito vinculada ao militarismo carioca.
Quando eu estava prestes a entrar
para a seleção brasileira de esgrima,
em 2007, o presidente da confederação
estava no poder desde 1975.
Era um coronel do Exército.
Aquele ano de 2007 foram especiais
para o esporte brasileiro:
o Rio, justamente, foi sede dos
Jogos Pan-Americanos, marco regional na vida
de qualquer atleta de alto rendimento.
O tal coronel, pouco antes, instituíra,
numa decisão completamente arbitrária,
que os atletas de esgrima só estariam
aptos a integrar a seleção se passassem
num teste de cooper de dificuldade alta.
Na época, vi vários colegas
perderem suas vagas para essa e outras competições
por não terem conseguido cumprir
o percurso no tempo estipulado.
Vi a campeã sul-americana perder sua vaga
por não ter feito dois km e meio em 12'.

O coronel era como um vestígio arqueológico
dos tempos escrotos da ditadura militar.
No poder desde 1975, tinha porém
um inconveniente de que as múmias
estão livres: ele operava e opinava.
Lembro uma vez que meu pai,
indignado com uma decisão autoritária que cortava
as verbas que me enviariam a uma competição,
escreveu a ele um e-mail reclamando.
Para esclarecer: meu pai, outro escombro
da ditadura, achou por bem
reclamar para um coronel.
A resposta foi digna da patente,
ou seja, de uma pessoa que acha que vale
o dobro de seu valor de uso —
botou meu pai no lugar numa réplica
que começava com “Sr. Genitor”.

Quando aconteceu isso, outro interlocutor fardado,
cuja falta de patentes e medalhas ainda
autorizava a ter um bom coração,
me ensinou uma expressão da caserna
que dificilmente esquecerei:
“Azar militar” é como eles chamam
uma decisão autoritária e injusta
cujo caráter é absolutamente inapelável.
A iniquidade que se engole seco.
Hoje, 2023, todos nós sabemos o que é isso.

Se trago à tona essas más memórias
é porque elas fazem um contraste
estranho com a beleza do esporte.
Nunca vi ganho em negar o clichê
que atribui à esgrima uma plasticidade
que a aproxima do balé.
A beleza tem um papel importante,
mas não é uma condição necessária.
É possível ter um jogo meramente
eficiente, sem atentar para a fluidez
fascinante de certos movimentos.
A esgrima pode ser um jogo de força
e agilidade, de rapidez e agressividade,
mas também de inteligência e estratégia.
A beleza, me parece, consiste na sprezzatura,
na capacidade de dissimular o físico e a arte
sob um véu fino de naturalidade.

Negável, sim, é o clichê aristocrático
que nunca correspondeu à história
que tive a sorte de ter nesse esporte.
Fui formado por um técnico russo vindo da URSS.
Lá, a esgrima não era a prerrogativa dos nobres
pois, algumas gerações antes,
eles tinham sido usados nos exercícios
de tiro ao alvo dos bolcheviques.
Meu técnico era um homem rústico do Caúcaso,
um russo de pele bem bronzeada vindo da Abecásia.
Ele tinha sido da seleção juvenil da URSS
e era parte dos batalhões de estudantes
que aprendiam um esporte que não o futebol
depois de fritar nos bancos escolares.
Sempre adorei o charme de chamar de mestre
um bonachão adorador de sol e caquis.
O mestre Alkhas chegou no Brasil depois da Queda.
Certo dia, voltando do trabalho em Moscou,
foi assaltado e espancado com um taco de beisebol.
Foi deixado desmaiado na rua.
O Brasil foi sua Terra Prometida,
novas esperanças e novos começos,
onde como todos nós sonharia
que a história não se repetisse.

A esgrima que ele me transmitiu
tem como pilar a técnica e o repertório.
A técnica consiste na execução de uma ação
sobre os trilhamentos bem condicionados
dos reflexos, uma herança pavloviana
que não é inútil quando, em alta velocidade,
você quer manter os membros no lugar.
Já o repertório consiste na capacidade de,
numa breve revista mental
num momento de grande pressão,
conseguir evocar ao menos cinco
possibilidades de ataques ou defesas:
atacar, contra-atacar, atirar em meio de pista,
defender, deixar no vazio, arrestar,
empurrar até o fim da pista,
puxar até o fim da pista etc. etc.

É com tudo isso que entramos em pista
para a experiência densa do combate.
Densa pois a estrutura do encontro
tem uma composição dialética.
Não é como se você atirasse bem,
nadasse rápido ou pulasse alto com a vara.
Era preciso que você soubesse afinar
essa trama extensa de saberes
no diapasão dos saberes do outro.
Com isso quero dizer o cálculo infinito
de possibilidades que se reabre a cada toque:

“Se eu fizer isso, ele vai fazer aquilo.
Mas se ele fez aquilo antes, agora ele vai achar
que eu vou fazer aquela outra ação,
então, como sou inteligente,
é melhor eu pegar a pressuposição dele
no contrapé e fazer aquela outra coisa
que ele não deve achar que vou fazer.
Mas se ele for inteligente e perceber
que eu saquei que ele sacou que eu saquei,
sabendo que ele sabe que eu sei que ele sabe
exatamente aquilo que estou pensando,
então eu preciso incluir no campo do possível
a única alternativa que me resta:
não agir como se eu fosse inteligente —
agir como um perfeito idiota.”

Viver essa experiência em pista é como entrar
naquelas salas cercadas de espelhos
em que você é lançado na vertigem
de ver sua própria imagem replicada
num desdobramento infinitizado.
Sempre entendi esse efeito desnorteador
como a causa primária da angústia
de muitos atletas, em especial os mais jovens.

Quando fiquei mais experiente, depois de anos,
percebi que a busca de uma garantia
que tornasse a ação certeira
tinha menos serventia do que a assunção
de que, afinal, o que vale é a aposta.
Treinar muito, malhar, combater,
competir em cenários distintos,
tudo isso torna a sorte solidária a você,
mas não a adestra.
“Azar militar”, só se o árbitro
tiver sido comprado.

No final, resta só a aposta na aposta —
lançar-se ao ato que, por fim,
tira a prova da dúvida que te consumia.
Findo o lance, decidida da vitória ou a derrota,
a sensação é de que você é sugado
para fora de um labirinto intransponível.

Esgrima é um esporte bonito:
um pouco como entrar num táxi no Rio.
Você não entende nada,
mas só compreende depois.