Revista Rosa

Volume 8

8

Do que falo quando falo de defesa pessoal ou autodefesa

Quando conto que ensino defesa pessoal é comum que a pessoa interlocutora questione a possibilidade de alguém se defender de uma violência. É como se, frente ao ataque de uma violência injusta, a única saída possível fosse sofrê-la passivamente; caso um macho bata em alguém, cabe a esse alguém apenas apanhar dele. Muitas vezes, percebo que meu interlocutor — quase sempre, um homem cis — tem uma imagem muito definida de quem é a vítima e de quem é o agressor: este é um homem, branco, cisgênero; a vítima, qualquer pessoa que não seja identificada como pertencente àquele grupo. É como se qualquer marcador social de diferença fosse suficiente para prever o resultado da interação violenta: opressor ganha, oprimido perde. Frente a esse sectarismo, minha tarefa é afirmar o contrário: uma mulher consegue sim se defender de um agressor masculino; uma criança, de um adulto, uma pessoa negra, de um agressor branco e por aí vai. É curioso que, nessas conversas, meus interlocutores são muito insistentes na impossibilidade de alguém se defender de um macho violento — ainda que não tenhamos dado nenhuma informação adicional sobre a situação real de violência: tudo que ele sabe sobre o agressor é a condição cis-masculina, tudo que ele sabe sobre a pessoa alvo da agressão é que se trata de uma mulher ou uma pessoa LGBTQIAPN+.

Mais do que discutir probabilidades de quem “ganha a luta”, o que acho incrível é que eu nunca digo que a mulher vai espancar o cara, ou que a bicha vai demolir o macho e nocauteá-lo à moda UFC. Primeiro, porque a maior parte das brigas no mundo real não terminam nem parecem como torneios de artes marciais (independente da modalidade). Segundo, porque o que me importa é o conceito de defesa pessoal ou autodefesa em si. O imaginário comum, que emerge dos meus interlocutores, é que defesa pessoal é sobre “quem vai vencer”, quando eu estou pensando a autodefesa em termos de “como sair viva”.

Defesa pessoal, na proposta que trago, significa agir ativamente para (a) prevenir uma situação de violência, ou ao menos nossa participação nela; (b) responder ativamente a uma situação na qual já estamos envolvidos para então; (c) interromper aquele evento, seja nos evadindo da situação, seja paralisando o agressor; (d) ou, na impossibilidade de fuga ou interrupção, minimizar danos de uma violência que já está em curso. O cenário mais desejado é impedir que violência aconteça conosco, impedir nossa participação em uma situação de potencial risco. De outra forma, essa estratégia significa usar de meios múltiplos, inclusive da força, para cuidar da vida. Esses meios não são apenas contra-ataques ou defesas, marcialmente falando, mas estratégias que incluem elementos de alerta, mensuração objetiva de perigo, consciência corporal, postura e comunicação não verbal, ferramentas de fala e negociação, em uma lista que se estende por habilidades que extrapolam o conceito de luta e nos leva aos múltiplos caminhos de cuidar da vida.

Se você é alvo de uma agressão, a situação é sempre crítica — independente de quem você seja, e seja quem for seu agressor. É sempre perigoso, e sempre arriscado tentar reagir. Entretanto, quando a agressão é iminente, defender-se é o único jeito de não ser passivamente violado , e talvez a única forma de minimizar danos e garantir o cuidado com a nossa vida. Aprender defesa pessoal, portanto, é despertar uma corporalidade ativa para o cuidado da própria vida. Se tens um corpo, e não importa as condições deste, você tem potência para agir.

Mas isso não significa que nos tornamos invencíveis. Nem perto disso. É preciso ser responsável nesse ensino, pois muitos acreditam na ilusão de que o treinamento marcial os transformará em “máquinas de luta”. Por isso, aprender arte marcial, lutas e esporte de contato não necessariamente implica defesa pessoal. Muitos dos treinamentos oferecidos nas artes marciais não envolvem a aprendizagem de reações livres, a partir do próprio corpo, diante de situações de agressão: ao contrário, envolvem a capacidade de imitar e apresentar técnicas padronizadas que se referem ao ambiente controlado: a demonstração em um exame de faixa, um campeonato com regras específicas, um treinamento com uso de força moderado. Não estou dizendo que lutar boxe ou judô é inútil para defesa pessoal, só que muitas vezes tal treinamento não é específico o suficiente para que de fato façamos algo útil com um problema real.

Além disso, os espaços de ensino de artes marciais, em geral, são ambientes onde não falamos de violência como um todo. Falamos de soco, chute, faca, mas não dos aspectos mais profundos do fenômeno da violência — seus aspectos emocionais, psicológicos, sociais, que, muitas vezes, são tão importantes para praticarmos defesa pessoal quanto a habilidade de luta e capacidade de confronto corporal.

Em 2018, uma das artistas que mais admiro, minha conterrânea MC Carol, de Niterói, sofreu uma tentativa de feminicídio. Em suas redes sociais, ela descreveu como seu ex-companheiro entrou na casa dela, pulando muro e burlando uma cerca elétrica, com um facão na mão e ameaçando-a. Eles se engajaram em em luta corporal e ela conseguiu desarmá-lo. Interrompida a luta, a Polícia Militar foi acionada e ele preso em flagrante. Nos comentários da postagem da artista, um comentário chamou minha atenção: um sujeito veio dizer que é perigoso falar de defesa pessoal para mulheres porque, “elas não têm condição física para lutar” com um homem que as está ameaçando. Ora, o cara justamente está comentando em um post que conta a história de como uma mulher, leiga em treinamento de defesa pessoal ou artes marciais, não atleta, desarmou um homem que tentava feri-la com um facão; o sujeito tem a audácia de afirmar que mulheres, mesmo se treinadas em defesa pessoal, não têm como lutar com um homem.

O episódio ilustra como o machismo e a misoginia fazem parte de uma “lente suja” de olhar a realidade. Falar de defesa pessoal para mulheres, trans, bichas, lésbicas, travestis, é falar de estratégias pra situações críticas de uso da força para o cuidado da vida. Da vida de pessoas que não estão estruturalmente protegidas pela norma do “patriarcado imperialista capitalista supremacista-branco”, para usar a expressão de bell hooks. Pessoas que, frente à norma colonial, precisam ativamente se defender de agressões que chegam injusta e constantemente.

Aprender defesa pessoal, para essas pessoas, é aprender a habitar o corpo que elas possuem, revelar que elas têm capacidades de ação e reação. Se vivemos, é por meio de um corpo, e esse corpo é sempre capaz de lutar por si. Mas a “lente suja” diz que não, que, ao reforçar a inocência passiva, devemos aceitar a violência sem reação.

Para desmistificar tais sujeiras epistemológicas, este texto é composto de intervenções curtas, produzida nos anos de prática e ensino de defesa pessoal. Ao fim, espero convencer no argumento de que não apenas é possível nos defendermos, como é também uma urgência.


Façamos uma análise de uma luta corporal seguida de morte, ou, nos termos mais específicos, de um feminicídio. Uma ressalva: o que vou escrever é um comentário técnico do que se refere à luta corporal, e não uma análise social ou jurídica do acontecimento. Quero falar dos corpos em conflito, da violência em ato, e o que podemos pensar em termos de defesa pessoal a partir disso.

O vídeo a ser comentado se encontra aqui: “Mulher é esfaqueada em shopping na Tijuca”. Utilizo a palavra “acesso” para descrever o momento em que um corpo encontra outro corpo: seja como toque, seja como uso da força, agarrão, golpe. Repare que desde o momento em que o agressor acessa o corpo da pessoa atacada até o momento em que ele puxa a faca se vão cinco segundos de engajamento físico.

Conte até cinco. Para o tempo de uma situação de violência, cinco segundos são suficientes para percebermos a ameaça e agir ativamente com defesa pessoal, tentando interromper, responder, minimizar o dano da situação de violência. Se contarmos bem, vemos no vídeo que o agressor espreita por uns dois segundos antes de abordar a mulher: temos, assim, uma janela de sete segundos. É tudo muito rápido em situações reais de agressão. Esqueça as lutas em filmes, competições, rounds de três minutos. Na vida real, é tudo muito mais rápido.

No vídeo, notamos que o agressor se aproveita do controle (usando o braço esquerdo para segurá-la) e adota uma posição em que seria muito difícil para ela usar as mãos para aparar e se defender dos golpes. Se a pessoa não está de frente para o agressor, é mais difícil colocar os braços como escudo para evitar golpes no tronco e nos pontos vitais.

Encerrando a análise, um comentário quase espinosano: um corpo em movimento só para se outro corpo o afeta, isto é, se outro corpo se encontra com ele para colidir, desacelerar, desviar, parar. Notamos no vídeo que o corpo do agressor segue seu rumo sem que ninguém tente de fato impedi-lo: as pessoas que vão ajudar não se aproximam de imediato, apenas jogam coisas, gritam e etc. O que, por óbvio, não impede o ataque. Se dependermos apenas da vontade do agressor, não conseguiremos interrompê-lo: é preciso barrá-lo, independente do que ele tenta fazer.

Além disso, foi preciso que o agressor começasse os golpes de faca para que pessoas ao redor percebessem que se tratava de um ataque. Mas veja: um homem puxando à força uma mulher até o outro lado do corredor só passa batido num contexto cultural que naturaliza homens usando força e coagindo mulheres. A reportagem diz que as pessoas “tentaram defender” a mulher, mas não. Ninguém executou um empurrão, um encontro, alguma ação efetiva para interromper o agressor em seu movimento. Então, para pensarmos em como “nos defender”, é necessário um juízo de eficácia: só nos defendemos se usamos os meios que de fato interrompem ou minimizam a violência. Isso é fazer do nosso movimento ativo a resposta para o movimento violento que se apresenta.

Defesa pessoal, portanto, é aquilo que ocorre naqueles sete primeiros segundos, do acesso ao golpe e, depois, se houver capacidade de movimento para, apesar de ferida, tentar evitar mais ferimentos. São coisas simples, porém difíceis, que exigem mais intenção e reação do que técnica: virar de frente, colocar as mãos à frente do corpo e buscar com ela interceptar os golpes. Proteger o tronco, se afastar, repelir, usar as mãos para criar tempo de sobrevivência. Nada de karatê, nada de krav maga: apenas postura ativa que qualquer corpo consegue exercer.

Costumo dizer que praticar defesa pessoal é como aprender primeiros socorros. No dia seguinte ao curso de primeiros socorros, nos lembramos quais são os sinais para identificar um derrame, como operar ressuscitar com massagem cardíaca, o protocolo de cuidado de um trauma. Passadas duas semanas, já esquecemos os sinais; passado um ano, desconheço a postura para massagem cardíaca. É preciso constantemente relembrar o mapa mental, e olhar para as situações de perigo como uma oportunidade de ativá-lo. Meu comentário não é sobre culpabilizar a pessoa que sofreu o ataque, dizendo o que ela “deveria ter feito”. Trata-se de imaginar cenários em que se poderia fazer diferente: como podemos aprender a sobreviver nesses momentos cruciais em que protocolos de ação eficazes permitem criar saídas de cuidado com a vida. Nas oficinas de defesa pessoal que conduzo, este é o cerne dos encontros: simular problemas até encontrarmos diversas soluções possíveis de resolvê-los, variando os corpos, habilidades e forças de cada participante. Afinal, não é sobre se preparar para um luta sabendo o que vai acontecer. É sobre, muitas vezes no improviso, descobrir o que fazer nesses sete segundos.


Nos últimos anos, acompanho a oferta crescente de turmas e aulões de defesa pessoal e, percebendo como essa oferta se dá, fico ressabiado. Há quem pense que é só especificar a turma (“aulas exclusivas para mulheres!”, “aulas para o público queer!”) e o trabalho está feito (“treinou uns golpes, aprendeu a se defender!”). Ensinar combate real e resposta à agressão para mulheres é fazer igual ao ensino regular de luta, mas com uma turma “exclusiva para elas”? Não, não é.

Acho que há muitas pessoas até bem-intencionadas, que pensam que basta adaptar o ensino regular da arte marcial para um público e, shazam!, está feito o trabalho de defesa pessoal. Mas essa inocência irresponsável não pensa como é trabalhar respostas à violência com pessoas que provavelmente já foram alvo de violência. Como esses professores lidam com os gatilhos que surgem na prática, quando os aprendizes relembram seus traumas? Como eles abordam de maneira cuidadosa a prática de contatos corporais para simular defesas de violências de caráter sexual? Como ensinam autodefesa sem reproduzir as violências que nos levam à busca pela defesa?

Isto é: não basta ensinar técnica. Nós, habitando nossos corpos, precisamos de certos recursos, contextos e ferramentas para que possamos conectar o movimento do corpo com a atenção requerida para usá-lo em nossa defesa. Tal atenção pressupõe um estado de segurança e conexão que, quando falamos de pessoas oprimidas estruturalmente, a discussão vai para além do ambiente e técnica de luta: trata-se também da possibilidade de expressão de sentimentos e perspectivas, em um espaço de aprendizagem que permita pensar a violência para além do contato corporal. A expressão viva das pessoas deve ser a base do aprendizado por meio do acolhimento.

A repetição exagerada da noção de empoderamento (e sua saturação semântica) cumpre um papel aqui. Primeiro, nenhum curso “empodera” mulheres ou pessoas LGBTQIAPN+. Aliás, ninguém empodera ninguém. Conforme o uso que Paulo Freire fazia do termo, empoderamento é um processo relacionado à tomada de consciência da situação de opressão, das situações de opressão em que a pessoa aprendiz se encontra. Ciente dessas situações, a pessoa percebe que a força de ação no mundo, sua força produtiva, é chave para sua condição de libertação — pois é tomando-a pra si e para sua potência que ocorre a ressignificação do seu trabalho e de sua intervenção no mundo. A pessoa se empodera, então, por perceber sua própria potência. Ela resgata sua condição de poder que lhe foi roubada pela opressão em que vive e luta.

Quando eu comecei a ensinar em contextos específicos de defesa pessoal para mulheres, eu montei uma metodologia que meu irmão Matheus Guarino, advogado e educador popular, chamou de “soco e chute como prática de liberdade”. Basicamente, é a mobilização da pedagogia crítica de Paulo Freire & bell hooks para o ensino de arte marcial, com foco na situação de opressão quando manifesta em violência contra nossos corpos.. Meu caminho é abrir espaço para escutar as pessoas que estão ali para aprender. Daí, a partir da vivências das pessoas a quem ensino, o grupo decide quais os caminhos que queremos percorrer no aprendizado. Ao invés de chegar com um currículo que “todo mundo tem que aprender”, eu parto da investigação de situações-problema: perguntando à turma de aprendizes, vamos descobrindo o que trouxe elas até a oficina de defesa pessoal. Depois de escutar várias pessoas aprendizes, começamos a perceber algumas situações-problema que são comuns a vários episódios de violência. Nos termos de Freire, elegemos um “tema-gerador” para a prática: abordagem de desconhecidos na rua, agarrão em balada, companheiros nos assediando. Daí, as vivências das pessoas são o modo de se chegar no conteúdo programático: o conhecimento prático de defesa pessoal em si.

Tudo isso requer, da pessoa que ensina, uma capacidade apurada de escuta ativa. Recriar situações de violência, simulando-as para o aprendizado, é muito delicado: requer modulação do uso da força, percepção dos limites dos aprendizes, além de um uso muito preciso da simulação para que a pessoa aprendiz possa testar sua própria capacidade de ação. Por isso, começamos com práticas de escuta no grupo. Tais práticas permitem criar confiança: minha para com as aprendizes, e entre as pessoas, umas com as outras. Assim, quando um exercício se mostra desafiador ou alguém precisa de apoio emocional, qualquer pessoa do grupo pode oferecer acolhimento, não apenas eu. Após alguns encontros, percebo que as pessoas começam a oferecer intencionalmente escuta ativa umas às outras. Isso media toda a prática de luta corporal. Por isso, em uma aula de duas horas, praticamos movimento em apenas metade do encontro. O tempo acaba sendo distinto de uma aula de luta onde não há conversa. O tempo da pausa, aqui, é nosso aliado: ouvimos, nos fazemos presentes, paramos, falamos. Não temos pressa em aprender.

Toda prática é um convite: eu não obrigo ninguém a passar por situações de treino. Porque elas são fisicamente perigosas (não existe prática de defesa pessoal isenta da possibilidade de dano) e emocionalmente extenuantes. Imagine meu estado depois de duas horas de prática onde eu simulo uma ação de agressor jogando a aprendiz no chão com intuito de violentá-la sexualmente. Quanto mais intenso meu uso de força, mais a pessoa aprendiz pode sentir e testar sua capacidade de reagir e se defender. Por isso, aprender defesa pessoal requer simulações profundamente realistas: só aprendemos aquilo que fazemos, e, por isso, muitas vezes precisamos ser capazes de atuar como potenciais agressores para que nossos colegas de treino possam testar de verdade suas capacidades. Todavia, fingir que se é um agressor é difícil. Por isso, é preciso que haja um apoio emocional também para o profissional que ensina.

Outro requisito é que a autoridade de quem ensina não pode se tornar uma subjugação da experiência de quem aprende. Entretanto, é isso que muitas vezes acontece em turmas regulares de lutas ou artes marciais: o professor “sabe” o que funciona, o sistema “já têm um currículo”, a “tradição impõe” a ordem dos aprendizados “porque é melhor assim”. Pensemos o meu caso: como um homem branco, de classe média, cis, hétero, ainda que bissexual, pode saber o conteúdo que irá funcionar para que outras pessoas aprendam a se defender? É preciso ouvi-las e com elas construir o conteúdo programático do ensino: independente da tradição, das graduações e faixas, da antiguidade do sistema de ensino.

Há de se mirar, também, nos limites do horizonte de ensino. Se a sensação de medo de uma mulher branca está calcada num imaginário racista — que vê todo corpo negro e masculino como uma ameaça — não há como fornecer a ela segurança apenas com técnicas e exercícios de luta. Será preciso que ela tome contato com seu racismo internalizado e desfaça parte de suas fantasias de branquitude para que esse medo possa ser cuidado e interrompido. Nas oficinas de defesa pessoal é comum que os relatos misturem situações objetivas de ameaça com juízos subjetivos de medo, misturando elementos reais de ameaça com preconceitos e racismos vários. Além de apontar as contradições que constituem nossa relação com o fenômeno da violência, é importante também conhecer a realidade. Por exemplo, no Brasil, a maioria esmagadora das violências sexuais contra mulheres é feita dentro do ambiente doméstico, por parentes e pessoas íntimas. Ou seja: menos que um estuprador desconhecido (o homem hiperracializado que inspira medo na feminilidade branca), a pessoa deveria estar atenta à aterradora estatística que mostra que o perigo habita a própria família — parceiros habituais, companheiros, maridos, tios, etc. Não há empoderamento sem tomada de consciência do real e, para defesa pessoal, é preciso compreender minimamente as causas sociais da violência (e como ela se manifesta) para que possamos evitar que ela chegue aos nossos corpos, às nossas vidas.


Defesa pessoal é sobre o que fazemos no intervalo curto entre perceber uma ameaça e agir para interrompê-la. Diferente do senso comum, não é tanto sobre aprender luta como uma profissional. Trata-se de perceber a potência atual do nosso corpo e agir ativamente para prevenir uma violência ou interromper, responder, e minimizar os danos de uma violência que já está em curso. É usar de meios múltiplos, inclusive a força, para cuidar da vida.

Essa proposta de autodefesa é fruto de meus encontros enquanto educador. Quando comecei este trabalho, em 2015, em Niterói/RJ, eu ensinava kung-fu Garra de Águia e iniciava um mestrado em estudos sócio-jurídicos na Universidade Federal Fluminense. Foi na companhia de amigas que investigavam violência de gênero, teoria feminista e estudos queer, que propus a primeira oficina, nascida como um projeto de extensão universitária. Passada essa fase, de turmas enormes, longas e gratuitas no campus da universidade, continuei realizando oficinas entre Niterói e Rio de Janeiro, agora como um trabalho constituinte da minha profissão de educador. Após alguns anos, conheci o trabalho do Piranhas Team: coletivo carioca dedicado ao combate à violência contra mulheres e pessoas LGBTQIAPN+, por meio de oferta de aulas de artes marciais, oficinas e ações de acolhimento. Minhas oficinas se somaram às turmas regulares do coletivo, numa rica proposta de comunidade, formação política e aprendizagem nas artes marciais.

A violência, mesmo quando acontece entre dois corpos singulares, é um fenômeno social complexo. Se um ensino de defesa não aborda as causas sociais da violência, ele termina por reforçar estereótipos que, ao fim, são causa de outras violências. Repetindo: não se cuida do medo de uma pessoa apenas ensinando socos e chutes, se aquele medo advém de estereótipos racistas. Da mesma forma, sem escuta e diálogo, é impossível alcançar o inédito viável de cada aprendiz, o desfazimento, ainda que parcial, da teia de opressões na qual crescemos, seja como alvos, seja como partícipes.

Pense em um animal de estimação: seu gato ou cachorro. Mesmo reconhecendo você como cuidador ou cuidadora, seu animal provavelmente impõe limites ao que você consegue fazer com o corpinho dele: ao dar um remédio, talvez seu cachorro rosne, morda; seu gato se debata, fuja, arranhe. É que bichos, por mais adestrados que sejam, ainda conservam aquilo que Luiz Fuganti chama de uma “qualidade de espreita”: uma capacidade de se manter desperto para as linhas de fuga que mantém nossa potência viva. Há um limite do que alguém, mesmo que amamos, pode fazer contra nós. Nossa sociedade, mais que nos domesticar, nos pacificou em opressão: precisamos recuperar nossa prática de liberdade, nossa capacidade de ser mais, nossa espreita na vida.

Isto quem me ensinou foram Paulo Freire e bell hooks, nos livros, e minhas aprendizes, na prática. Em 2021, encontrei novamente o terceiro elemento de toda práxis: companhia. Ao chegar a São Paulo, fui acolhido pela família do Shàoshèng Centro de Cultura Oriental, um espaço dedicado à cultura, medicina e artes marciais chinesas, localizado na Santa Cecília, região do centro de São Paulo. Junto da equipe do Shàoshèng — meu mestre Gil Rodrigues, seu irmão Márcio Augusto e minha professora Julia Ruiz — e do instrutor e fundador do Piranhas Team Halisson Paes, desenhamos um modo de realizar o trabalho do Piranhas ali: se no Rio de Janeiro o Piranhas oferece turmas regulares de artes marciais para mulheres e pessoas LGBT+, em São Paulo preferimos trabalhar com oficinas que tivessem um ou dos meses de duração. De nossas conversas, nasceu a Oficina da Shàoshèng + Piranhas Team, projeto que segue com turmas abertas a cada temporada.

Em nossa primeira turma da oficina em São Paulo, tivemos mais um encontro permeado de boa fortuna: Helô D’Ângelo, quadrinista e artista ímpar, participou da oficina e compôs uma série de webcomics do que fazíamos. Com sua incrível capacidade de tradução gráfica do aprendizado que fazíamos, nasceu o Pequeno manual de defesa pessoal, publicado pela Bebel Books em 2021. O livro é uma partilha de coisas que Helô vivenciou na condição de aprendiz e elaborou enquanto artista: juntos, fomos revisando tecnicamente o livro para que os desenhos e narrativa pudessem transportar a pessoa leitura para a situação de aprendizagem, despertando a centelha da defesa pessoal em mais e mais pessoas.

Talvez aqui você perceba que este texto termina sem grandes dicas práticas de defesa, ou mesmo aprofundamento nas questões teóricas relevantes do tema. Quis mantê-lo simples, com os pés no chão e atenção ao movimento, tal qual precisamos para nos defender. É um texto-convite, para próximas aprendizagens: com o Pequeno manual, com uma conversa com suas amizades, com a busca de aliadas na luta ou de espaços de aprendizagem de defesa pessoal. Um despertar para a urgência de fazermos do nosso corpo refúgio e arma, movimento e vida.