Revista Rosa

Volume 8

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Alarmismo?

Quando de seu lançamento em 2006, o documentário Uma verdade inconveniente, de Al Gore, levantou polêmica: afinal, o aquecimento global de fato existe? Se sim, ele tem causa antrópica? Respondendo sim para ambas as perguntas, o filme gerou um extenso debate acerca da pretensa radicalidade de seu discurso ambientalista. Boa parte da opinião pública pedia uma reflexão ponderada, que não se perdesse no ceticismo denunciado pelo diretor, mas que tampouco cedesse ao que pareceu o tom alarmista do filme. Passados quase vinte anos, com o colapso ambiental em marcha, o discurso que à época soava alarmista parece explicar muito melhor a realidade atual. Neste momento em que a catástrofe bate à porta, sendo 2023 registrado como o mais quente dos últimos 125 mil anos, os líderes mundiais se reúnem na COP28.

Entretanto, a despeito da urgência, a conferência global, mesmo antes de começar, já parecia maculada. Documentos descobertos pela BBC indicam que a conferência seria apenas um ilusionismo. Por trás das cortinas, o país-sede tentaria vender petróleo e gás para outros países, usando a cúpula como balcão de negócios. Já não bastasse a conferência para mitigar o apocalipse climático ser realizada nos Emirados Árabes, foi escolhido como chefe o CEO da empresa petrolífera. Enquanto um dos debates centrais em torno do documento final a ser apresentado pela conferência girava em torno de inserir a proposta de eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, poucos dias antes do início da COP28 e mesmo em entrevista durante a conferência, Ahmed Al-Jaber disse que não há nada de científico em propugnar a diminuição do uso de combustíveis fósseis para combater o aquecimento global.

Para completar essa situação bastante desalentadora, no dia 13, o documento final foi um aceno à irracionalidade. Enquanto o planeta ferve em sucessivas ondas de calor, foi na confluência entre o lobby da indústria de combustíveis fósseis e a conivência de fracos líderes globais que se costurou mais um vergonhoso acordo pró-forma. Nele, lê-se que os países-membros devem avançar uma “transição dos combustíveis fósseis (…) de modo a atingir zero emissões líquidas até 2050 (!)”. Ora, é evidente que a humanidade não pode esperar por uma mera “transição” que leve décadas…

O mainstream da liderança política parece aceitar que as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris já são letra morta. Tacitamente, assumiu-se que o antigo limite de aumento de 1,5 °C em relação ao clima anterior à época industrial tornou-se uma ambição impossível. O novo teto estipulado como limite é de 2 °C. As metas foram alteradas, mas a estratégia que já fracassou parece ser ainda o caminho escolhido. O Estado realizaria apenas investimentos pontuais e tentaria, pela enésima vez, induzir uma política de regulação jurídica e financeira para incentivar o mercado a resolver a questão por meio dos créditos de carbono.

Essa aposta de incentivar o mercado a tomar a dianteira — aposta que já fracassa há pelos menos vinte anos — é sempre refeita, mas sem nunca deixar para trás a impressão que corremos o risco de criar uma espécie de desculpa para poluir. Mas o problema vai além: o gap temporal existente entre a criação dos créditos de carbono e a execução correspondente de contrapartidas ecológicas vai aumentar ainda mais o desequilíbrio ambiental. Isso contando que os tais créditos são de fato idôneos, o que em muitas vezes não tem sido o caso. Soma-se a isso que, se esse mercado não for capaz de fiscalizar as ações compensatórias, normalizará a prática de ostentar um discurso ecológico, porém seguir poluindo como antes — o chamado greenwashing. Todo esse pacote é uma forma da elite liberal mostrar serviço, mas, no fundo, trata-se de um negacionismo capitalista pseudoilustrado.

Por outro lado, a relação das extremas-direitas com o problema ecológico parece ter sido quase invariável tanto em sua argumentação quanto em sua estratégia. Há duas grandes estratégias do discurso negacionista: a argumentação laica envereda pela atribuição dos efeitos do aquecimento global a variações sazonais e esperadas do clima global; a argumentação religiosa aponta uma espécie de discurso escatológico em que estaríamos passando por provas divinas. Em ambos os casos, a agenda verde é assimilada exclusivamente a um projeto da esquerda para enfraquecer a economia e impedir que possa haver desenvolvimento legítimo para todos. A figura que se tornou o alvo preferido desses grupos é Greta Thunberg, jovem supostamente radical e que estaria alinhada à Rússia e China contra a economia e a geopolítica do Ocidente.

Mas o que se espera dessa argumentação? É importante primeiro que o ônus das impopulares reformas ecológicas recaia sobre o restante do espectro político. Nesse caso, o fascismo lograria a um só tempo não arcar com o descontentamento político e evitar a catástrofe. Caso não seja possível evitar o pior cenário, ainda haveria mundo para uma casta militarizada e protegida pelo Estado, enquanto o restante da população chafurda no inferno em busca de água e comida, à la Mad Max.

Até agora a delegação brasileira tem sido errática e até mesmo contraditória. Em seu discurso de abertura, Lula acertou ao dizer que “o planeta está farto de acordos climáticos não cumpridos” e que os países mais pobres são os que têm mais sofrido com o aquecimento global. Porém, no mesmo dia, e com a ratificação de Lula, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, estava em negociações para que o Brasil integrasse a OPEP+. E a emenda saiu pior que o soneto: a explicação posterior de Lula, de que o Brasil entraria no grupo a fim de alertar sobre “o fim dos combustíveis fósseis”, não foi nada convincente e, ao ser questionado sobre a situação, coube a Jean Paul Prates o rabisco final ao afirmar que a Petrobrás “será das últimas empresas a parar de explorar petróleo”. Se essa entrada pode ter de fato algum sentido geopolítico específico, certamente ela não contribui para o protagonismo que o Brasil almeja ter como liderança ecológica mundial.

Na mesma linha uma-no-cravo-outra-na-ferradura, Lula vai à COP28 com duas autoridades ambientais — Sônia Guajajara e Marina Silva — que fizeram discursos fortes. Mas, no dia seguinte ao encerramento da Conferência, a ANP realizou um enorme leilão de áreas para exploração de petróleo e gás, incluindo a bacia do Amazonas, que abarca regiões do Pará, onde, em Belém, será realizada a COP30. Diante desse quadro, é preciso que o governo se lembre que em termos de política ambiental, mas isso também vale para praticamente todas as áreas, não basta apenas desfazer aquilo que Bolsonaro realizou. Esse deveria ser apenas o começo. Os índices de desmatamento vêm caindo vertiginosamente, o que sem dúvida é um trunfo do partido. Mas é pouco.

Esses episódios apontam para aquele que é um dos grandes desafios de qualquer governo de esquerda: é possível conciliar desenvolvimento econômico, igualdade social e preservação ambiental? Em setores da esquerda, alguns dentro do PT, ainda se defende que não há caminho para o avanço econômico sem exploração de alternativas poluidoras e danosas ao ambiente. Ali onde o partido precisa avançar com rapidez é também onde os ministros Haddad e Marina terão que enfrentar grandes desafios. Embora estejam trabalhando juntos num Plano de Transformação Ecológica, ainda é preciso saber o quão sustentável será a promoção de desenvolvimento prevista pelo projeto, cujas boas intenções seguem ofuscadas pelo imbróglio sobre o petróleo na foz do Amazonas.