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Zé Celso

Zé Celso, Adriano Janja

Sexta-feira, 7 de julho, 23h54

Remetente: Marcela Vieira

Destinatário: Paulo Goya

Paulo, como vc está?


Daqui, de longe, acompanhei as homenagens ao Zé Celso pelo Instagram e fiquei pensando em como esse teatro só poderia mesmo ter acontecido no Brasil, não é? Como será a partir de agora? Me diga vc, que também é fruto dessa geração e desse modo de fazer teatro.

Como está sendo tudo isso para vc? Vc foi ao velório?


Um forte abraço,

Marcela


Sábado, 8 de julho, 11h55

Remetente: Paulo Goya

Destinatário: Marcela Vieira

Marcela,


o Brasil seria uma tragédia! Mas infelizmente não o é.

E vc com teu trabalho e tuas pesquisas sabe melhor do que eu do que falo.

Tudo é burro. Mesquinho. Tacanho.

E se penso em termos de Teatro está tudo no campo do Drama.

O que aconteceu com o Zé Celso isso é da ordem da Tragédia. Da Tragédia Ocidental. Da grega. Nossa herança. Quer queiramos ou não.

Não fui ao velório. Só irei ao meu enterro.

Estou farto de tudo que vira Instagram. Rede social. Esse enterro esse velório era isso.

Victor Rosa que é uma pessoa que esteve muito próxima de mim nestes últimos meses, que foi a pessoa que arrastou o corpo das chamas, esse sim me preocupa e tem me preocupado muito. Fácil imaginar a dor, a dor dele é claro, que pode estar sentindo. O sofrimento que atravessa. Isso está dentro das regras da Tragédia. Como deve estar se sentindo Marcelo. Nem bem se casou, ah, este maldito contrato! (que nem é contrato do Masoch, segundo o Deleuze!) e que um mês depois, dia por dia, se encontra viúvo. Tudo que sinto, essas contradições eternas, é querer sentir a dor do outro. Quando sabemos que sabemos que é impossível sentir a dor alheia.

Vc fala das cenas dos vídeos. É o Coro grego. Zé tanto apostou nisso. Aliás a verdade histórica é que eu participei disso diretamente. Foi já no Galileu que esse papel do Coro começou. A função do Coro da tragédia. Misto do coro do Brecht.

Mas o que importa é a Memória a ser preservada. Zé contribuiu muito e temos que preservar isso. Mesmo com as contradições todas. Na grande briga ridícula sobre o entorno do predio da Lina. Quantas vezes perguntei, inclusive na frente do Zé, de que entorno se falava. Pois o que importa foi a construção da obra do Oficina. Uzina ou sei lá que titulo dão neste dia de hoje. Nunca percebi Cultura com entorno, com limites a serem demarcados.

O tempo todo o que atravessou esses dias foi a eterna lição que aprendi aquela no final do Hamlet. Horácio pedindo uma gota de veneno para acompanhar o Príncipe. E este lhe respondendo: Never mind! “Alguém tem que ficar pra contar a história”. Segue a pequena fala da ascensão do Fortimbras ao poder. Mas daí o grande Shakespeare arremata e cai o pano, ou vem o blackout…… O resto é silêncio!

Silêncio obviamente ensurdecedor. Vozes que reverberam. Sensação de esquizofrenia na veia.

Antígona e sua insistência em enterrar o corpo do irmão. Édipo se furando os olhos.

Só ecoa na minha cabeça. The rest is silence.

E dor de outrem que não sei sentir. Não posso sentir.

Perdi um dos meus namorados, foram poucos os lindos que tive na minha vida, e Denis, além de tudo, era lindo. Ligo pra dar pesames a mãe dele. Que não gostava muito de mim. E ela me joga na cara: “Vous ne pouvez pas connaître la douleur de la perte d’un fils!”. Eu lhe respondi ainda que muito perturbado com a frase: “Et vous non plus, Madame, la perte d’un amant”.

Sigamos em frente pois estamos vivos. E a vida é linda.