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Um cometa para cada racismo

Resenha de O cometa, de W.E.B. Dubois

Cometa, Pedro Martins

Um cometa passa pela terra deixando um rastro de morte, ficam apenas dois sobreviventes. Um deles, o funcionário de um banco, que pela descrição tem um cargo no qual faz serviços desvalorizados, porém, ao mesmo tempo, fundamentais. Sobreviveu porque, no momento em que o cometa passou, estava no subsolo do banco, onde os gases lançados pelo cometa não conseguiram alcançá-lo. A outra sobrevivente é uma mulher que estava trancada em uma câmara escura revelando fotos. Os dois circulam pela cidade em busca de outros sobreviventes, mas só encontram um cenário ininterrupto de morte. Pelos caminhos pelos quais os personagens vão trilhando vai se descortinando uma série de vivências e constituindo-se uma série de relações: deles consigo mesmos, com o lugar onde estavam, para onde vão e entre si.

Ambientado na cidade de Nova York, parece uma sinopse comum. Em um mercado editorial saturado de histórias sobre tragédias humanas apocalípticas — que para nós nunca foram tão verossímeis — olhando de fora a história parece apenas circular pelo óbvio. Isso seria verdade caso não estivesse falando de um conto publicado por W.E.B. Dubois pouco mais de cem anos atrás, em plena pandemia de gripe espanhola. Seria verdade caso o autor não usasse esse mote fatalista para navegar pela incômoda afirmação que fez no alvorecer do século passado: “o problema do século XX é o problema da linha de cor”. Para o autor, a diferenciação racial é o ponto culminante para compreender o desenvolvimento do século passado. E a construção de duas personagens situadas em lugares diferentes da linha de cor é bastante constitutivo do conto e das complexidades abordadas pelo autor.

Dubois foi uma das figuras mais importantes da luta antirracista no século XIX e XX e um intelectual profícuo. Além de mais de vinte livros de não ficção (entre ensaio, autobiografia, pesquisa, enciclopédia, biografia), Dubois proferiu palestras, escreveu em revistas e jornais, publicou 6 romances e diversos contos. Sua qualidade está evidente no conto. A sensibilidade sociológica aparece mesclada com seu talento para a escrita e uma busca impressionante pela multiplicidade. Isso já estava manifesto em obras anteriores como “As almas do povo negro”, onde o autor mistura ensaio com sociologia em uma variabilidade incrível de métodos de pesquisa, análise e apresentação textual.

Originalmente, “O cometa” aparece no livro Darkwater: voices from within the veil. Trata-se de uma coleção de textos, além do formato ensaístico característico, na qual Dubois aparece como autor de contos, poemas e orações. Ele não parece se contentar com uma única forma. Em todas elas reinventa seu olhar para questões que o inquietam elaborando a partir de sua sensibilidade. É importante dizer, o que estou chamando de “sensibilidade sociológica” é a capacidade de compreender e expor as situações dentro de uma gama multivariada de eventos e relações sociais sem utilizar de mecanismos de causalidade simples e unidimensionais. Em Du Bois, nunca há uma resposta simples e fácil.

Tal sensibilidade está ancorada numa vasta experiência de pesquisa empírica — que ele já havia acumulado quando escreveu seus livros — e no seu compromisso com a luta antirracista. O que alimenta a construção e caracterização da escrita dele é o anseio e a possibilidade de conhecer a realidade estadunidense (e depois mundial) de forma profunda. A sua oposição a determinada sociologia (ainda em nascimento) que observava as populações negras apenas da “janela do carro” possibilitou uma caracterização mais complexa do problema racial.

Em O cometa uma das estratégias mais interessantes é a forma como o autor apresenta a vivência racial a partir da experiência concreta da discriminação. Isso fica consideravelmente evidente no fato de ele não precisar dizer que o personagem principal é negro para que essa compreensão seja alicerçada ainda nas primeiras páginas. A primeira vez em que é explicitado diretamente o pertencimento racial de alguém é na metade do conto, mas antes disso já sabemos quem ele é e o que o aflige.

No começo do conto navegamos por um fragmento nova iorquino do ponto de vista desse personagem. A forma como as pessoas interagem com ele expõe seu lugar naquela sociedade, ou melhor, o lugar que ele é reiteradamente colocado. Essa estratégia é interessante tanto do ponto de vista estético quanto sociológico. Tanto porque não insere forçosamente a narrativa em um quadro relacional pronto e estático, dando fluidez, quanto porque explicita que a questão racial é primordialmente algo relacional que se caracteriza pela ação e percepção de um grupo de pessoas para com o outro. Cem anos depois, essa concepção continua sendo uma importante contribuição.

Além disso, essa estratégia coloca o racismo como um problema existencial. Algo que o autor já havia esboçado em seus escritos anteriores. Elevar o racismo a uma questão existencial é mais do que colocá-lo em questão, é atribuir um ponto de vista e inaugurar uma crítica a partir de uma existência concreta, pulsante. Não há um problema do negro, como insistiam outras pessoas, há o problema da existência humana, por isso a linha de cor, e não o negro, é o problema. É como se houvesse um cometa na vida de cada pessoa negra e essa tragédia se repetisse, de modo atemporal.

A pergunta que emerge a partir da metade do conto: o fim do mundo seria suficiente para acabar com o racismo? Isso é colocado em suspenso. Caso o mundo, como conhecemos, deixasse de existir também seriam refeitas as formas de ver o humano? E o conto, em sua intrigante complexidade, parece não dar uma resposta final a essa pergunta. Parece desdobrá-la em várias.

Se o problema do século XX é a linha de cor, também seria o problema do fim do mundo. Qualquer que seja sua forma. Dubois escreveu esse conto logo após o fim da primeira guerra mundial, no meio de uma pandemia. Embora nada disso esteja diretamente colocado no conto, o texto documenta historicamente o sentimento. Mas vai além, documenta esse sentimento do ponto de vista da crise racial que se instalou nos Estados Unidos desde antes da existência institucional do país. O racismo, como face mais brutal e presente da formação estadunidense e do mundo contemporâneo, convive paralelamente com outras modalidades de fim do mundo

Se ele é um profeta do apocalipse há controvérsias. Mas, sua afirmação continua real para o presente século. Mais do que isso, ela se estende indefinidamente, e algum desavisado poderia fazê-la no início desse século da mesma forma que ele o fez no anterior. Continuaria brutalmente verdadeira.

Em parte é por essa conclusão que Saidiya Hartman navega no texto que acompanha o conto, na belíssima edição da Editora Fósforo. Em parte porque como toda obra complexa esse conto permite interpretações não lineares, múltiplas, heterogêneas. Aliás, essa resenha é uma tentativa de interpretar aspectos do conto buscando manter e enfatizar essa dimensão. Como um dos que constituíram a tradição crítica negra, Dubois está preocupado em acrescentar camadas de complexidade ao universo existencial, que foi reiteradamente achatado por uma narrativa única, incisivamente branca. Hartman, como herdeira da tradição crítica negra, lê o conto de maneira a multiplicar essa complexidade. Além disso, ela constrói seu argumento relendo a história para buscar outras alternativas àquela apresentada pelo autor. Tudo isso, pensando no contexto da Covid-19 que abateu desigualmente o mundo a partir de 2020. Certamente essa edição, composta pelo conto de Dubois e pelo ensaio de Hartman, traz à tona um fragmento importante da polifonia própria dos fluxos de conhecimento do Atlântico Negro (para lembrar brevemente de Paul Gilroy, outro intelectual negro).

Em um momento em que questões relativas aos pontos de vista e a localização das pessoas ganham uma proporção incontornável, sugiro que Dubois, nesse conto, tem uma importante contribuição. Como hoje parecemos cada vez menos inocentes das escolhas enunciativas dos textos é interessante observar como Dubois escolhe produzir uma narrativa que às vezes se confunde com o ponto de vista de um personagem, às vezes transita para o outro. É interessante porque ele assim o faz observando a relação entre um homem negro e uma mulher branca. A escolha desses personagens confere uma dramaticidade, que talvez seja um tanto opaca para as leitoras e leitores no Brasil contemporâneo. É importante lembrar que nesse período se multiplicavam os linchamentos públicos de homens negros, acusados de estuprar mulheres brancas. Essas acusações, no contexto estadunidense, se legitimavam numa percepção generalizada de que o encontro entre um homem negro e uma mulher branca era um encontro evidentemente impuro. Ao ancorar sua narrativa na possibilidade de amor, ou de relação transcendente (como aparece no texto) entre esses dois personagens, ele constrange as ideias de pureza e de delimitação da diferença, que no momento da relação entre ambos parecem sumamente superficiais.

De alguma forma Dubois convida seus leitores a suspender momentaneamente as hierarquias raciais. A possibilidade de uma conexão transcendental na diferença evidente e ao mesmo tempo superficial, garantem um certo caos perceptivo, explicitado na atitude de ambas as personagens. O desfecho parece cru e abrupto. Parece conduzir para outros caminhos. A forma como as hierarquias se fazem, desfazem e se fazem de novo no interior daquela relação apocalíptica, a maneira como se aproximam e se afastam parece denunciar a imaterialidade e a materialidade da diferença racial. Isto é, ao mesmo tempo que é uma diferença artificial ela segue produzindo incessantemente a desigualdade material. Se é verdade que toda ficção científica/especulativa é mais do que uma tentativa de adivinhar o futuro é também uma tentativa de observar o presente e reinterpretar o passado, essa obra parece nos ajudar a observar o racismo como uma produção — temporal — do passado, futuro e presente e a denunciá-lo em sua corrosiva superficialidade.