Revista Rosa

Volume 7

7

Sobre animais e a escrita de Maria Gabriela Llansol

Prazer do reino animal, prazer de escrever com um aparo que traça as palavras como deslocações de insectos.

— Maria Gabriela Llansol,
Jodoigne, 3 de janeiro de 1976.1

Para viver, é preciso procurar nas trevas; é preciso percorrer o lugar não mais alto que a altura de um animal, e achá-lo revestido de múltiplos espectáculos.

— Maria Gabriela Llansol2

Brigida Campbell

Em Herbais, Llansol vivia na companhia de animais, e estar entre eles, dar-lhes de comer, trocar carícias, partilhar o silêncio eram rituais que, tal como a escrita e o cuidado de si, ritmavam o seu cotidiano3 — em Contos do mal errante, lemos: “saio todos os dias, ao menos para ir dar de comer às galinhas, e ir buscar o carvão […]. Não neva, está simplesmente um tempo de inverno, sem gelo, só com os animais do interior, e sem notícias”.4 Llansol observava os movimentos singulares dessas forças vivas e nomeava as galinhas, os gatos e os cães, imaginando também outros animais que a escrita evocava — “o urso, a raposa, o javali, o lobo”.5 Llansol olhava para esses animais e, cruzando o seu olhar com o deles, se sentia também vista por eles; ela arriscava tomar para si a destinação que, mesmo sem palavras, cada animal lhe endereçava.6 Num fragmento do diário de 9 de julho de 1979, ela escreve a partir do eremitério dos Brontë, onde havia “uma prática de não distinção consciente dos mundos”,7 e ao qual ela faz chegar Emily Dickinson, as beguinas, Juan, crianças e um cão — na versão que resta no caderno manuscrito, lemos que o olhar dos animais lhe dizia silenciosamente talvez aquilo que diz o olhar de qualquer outro:

Eu concluí, mas não ousei dizer-lhes, que era necessário encontrar uma saída para as ciladas do imaginário; quando veio, num dos dias seguintes, o momento de exprimir-me, em face deles, não encontrei, finalmente, as minhas próprias palavras, mas as de um discurso litânico de Buda: “mesmo se eu quisesse, ó monges, explicar-vos de várias maneiras as coisas da animalidade, eu não poderia, ó monges, exprimir por palavras, até que ponto o nosso sofrimento e o dos animais é profundo”.

Aqui se interceptam, se formam, os laços da humanidade e da animalidade.8

Nessas palavras de Buda, às quais Llansol recorre para exprimir-se e diferi-las na voz do seu diário, podemos escutar um deslocamento decisivo no pensamento e na relação com os animais. Em O animal que logo sou, Derrida afirma que a questão do animal, tal como domina no senso comum e no discurso filosófico ocidental, destina-se a saber se o animal pode pensar, raciocinar, falar graças ao poder ou ao ter logos, ao poder-ter o logos, e “esta questão determina aquela de tantos outros poderes ou haveres: poder, ter o poder de dar, o poder de morrer, o poder de inumar, o poder de vestir-se, o poder de trabalhar, o poder de inventar uma técnica etc., o poder que consiste em ter, por atributo essencial, tal ou tal faculdade, portanto tal ou tal poder”.9 Se Derrida vê essa fórmula da questão repetir-se no pensamento maioritário ocidental sobre o animal, sua escrita busca diferi-la, reescrevê-la (e assim, para ele, abrir o gesto desconstrutor dos discursos que fazem dela o seu alicerce, e que repetidas vezes sustentam e buscam legitimar as piores violências contra os animais). Derrida busca uma linha de fuga através do modo como Bentham formula a interrogação sobre os animais (e é aí que o seu pensamento se aproxima daquele de Llansol) — escreve Derrida: “A questão prévia e decisiva seria a de saber se os animais podem sofrer. ‘Can they suffer?’ Eles podem sofrer?, perguntava simplesmente e tão profundamente Bentham”.10 Através dessa breve formulação, tudo se inverte: a questão em relação aos animais já não diz respeito a um poder (saber se eles têm o poder de raciocinar, de falar, com tudo o que se segue), mas interroga-se sobre um não-poder11 — escreve ainda Derrida: “Poder sofrer não é mais um poder, é uma possibilidade sem poder, uma possibilidade do impossível”.12 Diante dessa questão, continua ele, a resposta é inegável: “Ninguém pode negar o sofrimento, o medo ou o pânico, o terror ou o pavor que podem se apossar de certos animais e que nós, os homens, podemos testemunhar”.13 Ainda que a partir daquela formulação muitas outras questões possam derivar-se — entre elas: como nomear o sofrimento dos animais? Quais responsabilidades derivariam desse testemunho? —, o decisivo, ainda com Derrida, é que a resposta não deixa dúvidas, e “nenhuma dúvida, tampouco, sobre a possibilidade então, em nós, de um elã de compaixão, mesmo se ele é em seguida ignorado, reprimido ou negado, contido”.14

É nesse ponto que o pensamento de Derrida, a partir de Bentham, toca o fragmento de Llansol, a partir da oração de Buda. Escapar às “ciladas do imaginário”, necessidade da qual parte o fragmento, é apostar na possibilidade de desfixá-lo, e assim desfazer as fórmulas, mesmo quando estas são dadas em questões, e diferir o pensamento através de palavras que arriscam responder também ao que na experiência é desconhecido, ainda que indubitável. Na busca de um idioma, Llansol recorre à oração litânica de Buda, na qual lemos que, mesmo se ele quisesse (o que indica que talvez ele não queira) explicar de muitos modos “as coisas da animalidade”, ele não poderia exprimir por palavras aquilo que, ainda que no silêncio delas, é inegável: “até que ponto o nosso sofrimento e o dos animais é profundo”. É nesse ponto — chamado de compaixão por Derrida — que, para Llansol se formam “os laços da humanidade e da animalidade” (e o seu fragmento, ainda que no caderno ela arrisque, depois, continuá-lo, interrompe-se com um longo traço, o que talvez não seja senão a materialização do silêncio sem o qual esta afirmação se torna inaudível).

Para Llansol e para Derrida, o sofrimento é compartilhado com os animais: ela escreve “o nosso sofrimento e o dos animais” e na conjunção e adivinhamos os laços que ligam a pluralidade de uns e de outros; Derrida afirma que na resposta àquela questão:

reside, como a maneira mais radical de pensar a finitude que compartilhamos com os animais, a mortalidade que pertence à finitude propriamente dita da vida, à experiência da compaixão, à possibilidade de compartilhar a possibilidade desse não-poder, a possibilidade dessa impossibilidade, a angústia dessa vulnerabilidade e a vulnerabilidade dessa angústia.15

Todavia, se essa inversão da questão abala os alicerces da problemática do animal, isso não significa, nem na escrita de Llansol nem no livro de Derrida, forjar uma continuidade ignorando as rupturas ou os abismos que separam os homens e os animais. A reformulação da questão e a sua inegável resposta (os animais sofrem, e nós sofremos também com eles e por eles) levam não à diluição dos limites, mas à sua multiplicação e variação: não há um limite único e indivisível entre duas bordas, de um lado o homem em geral e de outro o animal em geral; o que há é uma multiplicidade heterogênea de viventes, cuja pluralidade não se deixa reunir numa figura única da animalidade simplesmente oposta à humanidade. Negar esse limite (ou fixá-lo como indivisível) seria não só uma falta contra a exigência de pensamento, mas também contra a autoridade da experiência — o olhar de cada animal, e não é indiferente se ele for um pássaro ou um cão, dá a ver a variabilidade desses limites abissais, e na ausência da palavra, apelam ao exercício de outras formas de relação. Llansol (e a seu modo também Derrida16) escreve atenta a esta duplicidade: responder à multiplicidade dos animais, assumindo a responsabilidade de não sucumbir ao desconhecimento calculado dos limites infinitos e variáveis que deles nos separam; e, no mesmo gesto, lembrar que entre nós e eles há um elo ou um elã: cada um deles, tal como cada um de nós, é capaz de sofrer.

Num fragmento do diário de 14 de fevereiro de 1981, reescrito e publicado em Da sebe ao ser, Llansol interroga-se sobre como os animais observariam os homem:

É no princípio longínquo
que me custa começar perguntando
como é que os animais observariam o homem,
se eles não podiam presenciar suas imagens através de nenhum sinal;
se eles só podiam manifestar-se, de preferência, pela fome e pela
propagação da espécie […]?17

Llansol testemunhava que os animais a olhavam, e, nesse fragmento, o seu esforço de escrita é o de dar amplitude histórica a essa experiência e imaginar que os animais olham os homens desde tempos imemoriais. Todavia, se essa convicção íntima permanece como o fundo inegável da sua escrita, há ainda um segundo movimento, não menos decisivo (ainda que nesse ponto a formulação do último fragmento citado seja imprecisa, como veremos): na relação com os animais, o homem encontra um limite de legibilidade, uma persistente reserva de desconhecido, e a presença dessa alteridade desafia a sua inteligibilidade. Naquele fragmento de Da sebe ao ser, escutamos esse limite quando, formulando uma questão, Llansol suspende a resposta, e dessa suspensão poderíamos derivar que se tornar sensível ao olhar que os animais nos destinam não é sobreinterpretar aquilo que, a seu modo, cada um deles poderia sugerir ou significar nos seus ruídos, ou na sua linguagem de traços mudos. “Como é que os animais observariam o homem?”,18 interroga-se Llansol, e se ela resiste à tentação de responder imediatamente, é por entrever que residiria na resposta uma primeira tentativa de domesticação ou reapropriação antropomórfica: escutar os animais, ver que eles nos olham não seria emprestar-lhes as palavras que eles não dizem. Todavia o fragmento citado de Da sebe ao ser é ainda impreciso: ver que os animais nos olham sem nos apropriar da sua voz implicaria ceder a outra forma de violência, isto é, a reduzi-los a formas de vida cujos rastros legíveis indicam apenas a sua luta pela sobrevivência (a fome, a propagação da espécie)?; seria privá-los de outros modos de se manifestar (e assim, nalguma medida, suspender a compaixão)? Talvez não. Se Llansol resiste à tentação de projetar, na sua voz, os traços mudos dos animais é porque deseja escapar à projeção apropriante, mas isso não significa necessariamente afirmar uma interrupção cortante ou escavar entre os homens e os animais um abismo sem eco.19

Os animais, como outras forças às quais a escrita de Llansol oferece hospitalidade, exigiam que ela inventasse uma língua para responder a formas vivas, uma língua despida das armadilhas da domesticação e dos cerceamentos dos possessivos (um animal, ao contrário das ilusões domésticas, não se pode possuir, como bem dizia Derrida).20 Ela continuará sempre a escrever e, se naquele fragmento de Um falcão no punho as palavras lhe faltam, e ela recorre à oração de Buda na busca por inventar um idioma, noutros fragmentos ela arriscará, de outros modos, essa invenção. Na escrita de Llansol, repetidas vezes, ouvir os animais na fragilidade dos seus sinais implica desmunir-se, sem medo, daquilo que cobre de ruídos (e de impotência) a nossa relação com eles e que muitas vezes não é senão o que se julga ser próprio do humano — por exemplo, em Na casa de Julho e Agosto lemos: “Alice disse-me, silenciosamente, que quanto mais me calasse, mais os rebeldes animais se revelariam a mim. Serei — deu-me essa esperança — admitida entre eles, em meu juízo, se abandonar a dura linguagem destes sinais; já uma gata vem roçar-me as pernas […]”;21 “Os lobos que nasceram com o Eufrates uivam à beira do abismo e eu, para ouvi-los com a maior exactidão possível, procuro afastar-me do meu entendimento humano”.22 Nesses fragmentos, a aposta é a de que a ausência das palavras na relação com os animais não é uma privação ou uma falta que seria preciso preencher ou resignar-se e lamentar, mas, sim, uma potencialidade que abre outras formas de encontro — Llansol escuta no silêncio dos animais uma linha de força para a sua escrita. Por um lado, para ouvir os animais, é preciso que aquela que escreve afaste o pensamento da ansiedade da projeção, da busca precipitada pelo sentido e até mesmo da linguagem articulada em palavras (trata-se de calar-se e ouvir, ou de afastar o entendimento e escutar). Por outro, é preciso deslocar a escuta e, deslocando-se com ela, arriscar abrir espaço para que o silêncio não seja a ausência de ruído, mas a criação de espaços de ressonância (escutar os animais não seria escutar a voz antes da fala, o som antes do sentido, e permanecer aí, nessa terra de ninguém onde reverberam todos os sons?).23 É preciso responder ao silêncio dos animais com a criação de um espaço de escuta (talvez uma câmara de silêncio interior) na qual reverberam “formas raras (que nada impede que sejam banais) de afecto”.24 Na continuidade do fragmento de Contos do mal errante, citado no começo desta leitura, essa possibilidade é por Llansol vislumbrada: “o futuro é uma banda estreita, à beira de um lago com reflexos altíssimos, e lentamente chegam o urso, a raposa, o javali, o lobo — os animais em vias de extinção. Seu pêlo é a fala, a nossa mútua compreensão transmite-se também pelo bafo, os dentes, o medo, e a corrida”.25

Para Llansol, o exercício da escuta e do silêncio na relação com os animais era inseparável do seu desejo de com eles ou por eles escrever26 (e aqui vislumbramos mais uma vez os desafios aos quais ela se dispunha, e é também por isso que a sua escrita é tão fascinante). Nas suas páginas, a leitura encontra um bestiário — Coração de Urso e o cavalo Pégaso, o peixe Suso e o cão Jade (que desde A restante vida senta na mesa com os outros), um pássaro azul, a serpente Lilith, Potropato, um falcão, a gata Branca, Fotone e tantos outros, para me ater aos fragmentos escritos durante os anos do exílio. Nenhum deles é um exemplar de uma espécie ou gênero, mas um vivente insubstituível,27 e ela buscava dobrar a língua e inventar um idioma que testemunhasse o encontro com cada um deles (talvez seja por essa exigência de invenção da língua que Derrida escreveu que o pensamento do animal, se pensamento houver, cabe à poesia28). Se por eles e com eles ela desejava escrever, seria preciso arriscar escapar às múltiplas armadilhas da domesticação: não domesticar os animais e, na mesma medida, não domesticar a língua; não domesticar a si mesmo, supondo que somos capazes de ouvir e responder apenas ao que nos fala em linguagem humana; se não petrificar de medo ou impotência ao sentir que entre nós, os vivos, o informe circula. Nos fragmentos de Llansol, escrever, endereçar-se aos animais respondendo também a eles é abrir espaço para que o silêncio penetre a língua, interrompendo as palavras e lhe impondo, por vezes, o ritmo de uma gaguez — em Causa amante quem escreve sobe ao dorso de um cavalo, desloca-se pela paisagem e os seus pés suspensos traçam a trajetória do livro, do Brabante ao mar de Portugal:

quando a escuridão da estrebaria é profunda, subo ao dorso do cavalo que me ofereceram para partir; […] as patas do cavalo que me sustém são verdadeiramente possantes, e nossa fragilidade é o silêncio; quando me dirigem a palavra, o que ainda não fizeram, sinto-me tomada pelo pânico da confusão das línguas.

Meu cavalo Maravilhoso é um quadrúpede verdadeiro a que dei este nome para o premunir da lenda que, fatalmente, irá tramar-se sobre ele […].

Quando passarmos por uma toalha de água,

ou outra expressão de água,

pequena ou grande,

hei-de reflectir por que razão os meus pés, levantados do país pela massa volumosa do seu corpo, andam, arrastam o Brabante até o mar de Alissubo.

De facto, tenho a impressão que nadam, voam, falam. […]

Maravilhoso nutre-se de silêncio,

sua palha,

silenciosamente,

é o silêncio.29

Nesse fragmento, a escrita de Llansol vislumbra que responder aos animais é arrastar a língua a um limite — por um lado, o deslocamento e o desfazer das fronteiras surge na errância do cavalo, e por outro, a sua presença nutre-se de silêncio e é ela mesma o inapropriável que acompanha aquela voz. E se, com o cavalo, a escrita afirma a errância, com outros animais ela aprende outros movimentos: escavar, farejar, rastrear, esconder, avançar, ruminar são verbos que dão ritmo à escrita de Llansol. Talvez aquilo que os animais oferecem, aquilo que na sua presença é dádiva, não pode ser dito na linguagem do reconhecimento — todavia, na escrita de Llansol, isso permanece infinito e indelével. Entre as palavras, os animais deixam marcas da sua passagem: o silêncio, o ritmo, os rastros, as pegadas, a errância, a compaixão, ou ainda traços que não se podem medir, mas pressentir a imensidão.30