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Tristes trópicos ou as (re)encenações de um olhar

O pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara
Pareceu-lhe uma boca banguela

— Caetano Veloso, “O estrangeiro”

Denilson Baniwa

Assim iniciam-se os versos da canção “O estrangeiro”, do álbum homônimo de Caetano Veloso e lançado em 1989. A opinião de Lévi-Strauss, descrita em Tristes trópicos, é apresentada como uma voz contrastiva perante as afirmativas entusiasmadas do pintor francês e do compositor estadunidense diante da paisagem carioca. Veloso lança mão do parecer de Lévi-Strauss para criar uma dissonância crítica frente ao senso comum — um artifício decorrente da visão caleidoscópica do compositor baiano acerca da condição brasileira e que vem sendo fomentada desde a Tropicália. Tristes trópicos tornar-se-ia uma referência não somente em “O estrangeiro”, mas em outras composições de Caetano Veloso,1 que lera a referida obra pela primeira vez durante a juventude, no final dos anos 1960. “Tristes trópicos me arrebatou”, revela o compositor. “O estilo (eu nunca tinha lido Proust) também me impressionou […]. Mas foi a visão do Brasil que apareceu ali que esquentou meu coração” (Veloso, 2009, s.p.).

Tristes trópicos chegavam ao Brasil em 1957, com a tradução de Wilson Martins e revista pelo autor, sendo a única edição nacional até 1996, quando o livro seria reeditado pela Companhia das Letras e traduzido por Rosa Freire d’Aguiar.2 A primeira edição chegava ao Brasil dez anos antes da Tropicália, fomentando não somente a leitura de Caetano Veloso, mas também de outros agentes culturais do período, como Hélio Oiticica, por exemplo, que incluiria no catálogo de sua primeira exposição internacional em Londres em 1969 uma fotografia retirada por Lévi-Strauss e contida no referido livro.3

Nestes breves parágrafos introdutórios já fica claro que o impacto de Tristes trópicos na esfera artística brasileira antecede a sua real apreciação dentro do âmbito acadêmico nacional. Pode-se dizer que a interpretação de Brasil oferecida em Tristes trópicos seria, em certo sentido, um prenúncio daquilo que seria artisticamente abordado décadas depois pelos tropicalistas, por sua vez leitores de Oswald de Andrade: a tendência brasileira para conjuminar o arcaico com o moderno, se quisermos ficar com a célebre expressão de Celso Favaretto (2007) acerca da vertente musical tropicalista. O olhar de Lévi-Strauss, à época de sua estada no Brasil tão jovem quanto os artistas da Tropicália porém vivendo em décadas distintas, contribuía para uma suspensão do discurso, nacional e idealizado, construído em torno da natureza e sociedade brasileiras, sem com isso deixar de adotar uma pitada de ironia em suas conclusões e nem se desviar de autocríticas acerca do proferido.

Não se pode esquecer que o estilo da escrita do livro, conjuminado com a visão sobre o Brasil, foi um dos elementos de interesse para Caetano Veloso. Em um sentido mais amplo, o estilo pode ter contribuído para atrair leitores não estritamente pertencentes ao campo da antropologia. Tristes trópicos são uma espécie de escrita etnográfica e relato memorialístico, lançando mão do discurso narrativo e de seus processos de elaboração. A partir de um “travelling mental” (Debaene, 2008, p. 1675) materializado em escrita, o já experiente Lévi-Strauss convida o leitor a seguir a sua trajetória como etnólogo na juventude, mas sem com isso apelar para o padrão clássico de uma narrativa de vida, tradicionalmente centrada na precisão da cronologia da biografia e no desenvolvimento linear dos acontecimentos. O jogo irônico transparece em alguns títulos de capítulos, como se estivera jocosamente lidando com uma espécie de discursividade presente nos relatos de viagem do período da Conquista e sobretudo nas narrativas exotizantes (cf. Debaene, 2008, p. 1675). No discorrer das páginas entrevê-se a encenação de um olhar que se constitui a partir da experiência com a diferença e ao mesmo pelo reconhecimento da falha de tal projeto. O espaço tropical e sua civilização que vão sendo desmontados diante dos olhos do leitor ao mesmo tempo que o autor Lévi-Strauss problematiza a visão do jovem Lévi-Strauss, quem ainda elaborava os preceitos investigativos que iriam caracterizar a sua produção científica na maturidade. Assim, temporalidades se cruzam e muitas vezes suas fronteiras se apagam, nem sempre estando explicitamente demarcado quando o olhar do passado é reencenado e quando se dá a dicção no presente da escrita em retrospecto.

Recordemos brevemente a estada do autor de Tristes trópicos no Brasil. Com apenas 26 anos, Claude Lévi-Strauss aporta no Brasil em março de 1935 para compor o quadro docente do curso de Sociologia da Universidade de São Paulo,4 inaugurada um ano antes, e permanecendo no país, porém com idas e vindas da França, até março de 1939. Em novembro de 1935, ele faz a sua primeira expedição etnográfica com as comunidades indígenas cadiuéu e bororo, retornando à França nos finais do ano seguinte. Em 1937 retorna à São Paulo para o terceiro e último ano de docência na USP, de março a novembro, e logo após regressa ao território francês. Em março do ano seguinte, Lévi-Strauss retorna ao Brasil para uma segunda expedição etnográfica, iniciada em maio e que abrange o planalto mato-grossense (Cf. Lévi-Strauss, 2008, p. XLV). Esse percurso foi extremamente importante para a formação do olhar do então jovem profissional, e reconhecido pelo próprio em declarações ao longo da vida.5

Lévi-Strauss chega em terras brasileiras como uma figura deslocada, um “aprendiz de etnologia” (Peixoto, 1998, p. 97) e de viés anglo-saxônico. Nesses primeiros anos, seu pensamento não era credor — pelo menos assim não o reconhecia inicialmente — das produções de Durkheim e Comte e que, segundo Lévi-Strauss, estavam em voga no âmbito do ensino da sociologia na universidade brasileira (cf. Peixoto, 1998, p. 97). Ademais, a sua atuação acadêmica seria modesta e, em certo sentido, eclipsada pelo visível protagonismo de pesquisadores conterrâneos que, como ele, integravam a missão francesa em território brasileiro e pertencentes ao quadro de docentes estrangeiros da USP, como Roger Bastide, na sociologia, e Jean Mangüé, na filosofia. Contudo, é interessante pensar que essa condição de deslocado não seria somente algo que recaíra sobre Lévi-Strauss. O seu próprio olhar buscava entender aquela paisagem e sua civilização, pois ambas pareciam lhe apontar certas características que a sua bagagem intelectual e experiência de vida ainda não haviam plenamente experimentado.

Paralelamente, as expectativas iam sendo desmontadas e, por conseguinte, o construto de um olhar sobre o território alheio. Um exemplo é o capítulo VIII, intitulado “O caldeirão”. Em certo momento, Lévi-Strauss enxerga a paisagem do Rio de Janeiro a partir de uma análise comparativa daquela com Nova Iorque. Enquanto a cidade nova-iorquina lhe remete à sensibilidade das paisagens europeias, já o território citadino carioca lhe causa estranheza e desagrado, não condizendo com o epíteto de cidade maravilhosa que lhe é conferida.6 Para Lévi-Strauss, o Rio de Janeiro é um cenário desproporcional em relação à grandiosidade de sua escala natural, que parece se concentrar em um território exíguo. Assim é descrita a baía de Guanabara quanto vista do navio costeando a cidade:

Nova Iorque é uma cidade, mas o espetáculo que ela propõe à sensibilidade europeia é de outra ordem de grandeza: o de nossas próprias paisagens […]. Depois disso, sinto-me tanto mais embaraçado para falar de Rio de Janeiro, que me desagrada a despeito da sua beleza tantas vezes celebrada. Como direi? Parece-me que a paisagem do Rio não está na escala de suas próprias dimensões. O Pão de Açúcar, o Corcovado, todos esses pontos tão louvados parecem ao viajante que penetra na baía como tocos de dentes perdidos nos quatro cantos de uma boca banguela […].7 Se quiser abarcar um espetáculo, é necessário tomar a baía do contrário e contemplá-la das alturas. Do lado do mar e por uma ilusão inversa à de Nova Iorque, é a natureza que aqui se reveste de forma de um prédio em construção.

(Lévi-Strauss, 1957, p. 78)8

Referir-se à paisagem carioca como uma edificação inacabada e cuja visualização é mais aprazível quando vista de um plano aéreo, ressoa o registro do plain voisin que tanto demarcará a leitura da cidade no auge de sua modernização urbanística na primeira metade do século XX.9 Para Lévi-Strauss, esta perspectiva visual seria a única que tornaria suportável para a confrontação visual com tal paisagem, a seu ver discrepante, desigual em sua escala grandiosa. Por outro lado, podemos considerar o parecer do autor como um discurso ironicamente dissonante que ressalta o avanço das edificações na malha urbana carioca, ou em um sentido mais amplo, a modernização desenfreada que marcaria a então capital do país.

“O Rio é mordido pela sua baía até o coração” relata Lévi-Strauss ao desembarcar no centro da cidade (1957, p. 80). Complementando tal metáfora, é como se o território carioca tivesse recebido uma dentada de uma boca desprovida de dentes, “como se a outra metade […] tivesse sido devorada pelas ondas” (Lévi-Strauss, 1957, p. 80). É como se o espaço urbano tropical tivesse sido consumido pelo desgaste do tempo até o seu cerne, permanecendo assim alguns poucos vestígios de uma etapa anterior e mais plena. A metáfora do Pão de Açúcar e do Corcovado como sobras de uma natureza revestida da “forma de um prédio em construção” (Lévi-Strauss, 1957, p. 78) também permite uma leitura do Rio de Janeiro como cidade historicamente marcada por uma espécie de autodevoração, como vinha ocorrendo desde o início do século XX, a partir de projetos urbanísticos que desmontavam a topografia local e deslocavam a população pobre para espaços periféricos.10

Ademais, as ruas cariocas parecem desconhecer os limites entre as esferas privada e pública, pois suas lojas amplamente envidraçadas evidenciam que “a rua não é somente um lugar onde se passa; é um lugar onde se fica” (Lévi-Strauss, 1957, p. 84). É neste ambiente que Lévi-Strauss sente o desfazer do peso das fronteiras sociais que regiam o espaço urbano europeu, entrevendo na cidade carioca uma quase ausência da linha divisória entre a casa e rua, e que operaria como uma introdução para um afrouxamento da oposição entre o homem e a mata vivenciado em suas expedições (cf. Lévi-Strauss, 1957, p, 85).

Em seu perambular pela urbe carioca, que não guarda nenhum vestígio de sua população nativa, Lévi-Strauss não está sozinho: “Percorro a Avenida Rio Branco, onde outrora se elevaram as aldeias tupinambá, mas tenho no bolso Jean de Léry, breviário do etnólogo” (Lévi-Strauss, 1957, p. 80). Ele apresenta o livro História de uma viagem à terra do Brasil, de Jean de Léry e escrito em 1578, como uma espécie de guia regular, ou nas palavras de Frank Lestringant, “de espelho no qual o etn­ólogo do século XX se reconhece em cada detalhe” (2000, p. 86), sem com isso desconsiderar certas divergências conceituais entre ambos.11 O gesto metonímico de substituir o título do livro pelo nome do autor intensifica a imagem de Léry como um companheiro histórico e caro a Lévi-Strauss enquanto percorre a malha urbana carioca.12 Deste modo, ele põe em cena um diálogo entre os olhares do etnólogo e do aventureiro, como um cruzamento temporal de pareceres e impressões, especialmente no capítulo IX, “Guanabara”, que remonta o trajeto do viajante francês sobre o Rio de Janeiro (cf. Lévi-Strauss, 1957, pp. 80-88). Ademais, ambos se aproximam pela “tentação do primitivismo” (Lestringant, 2000, 83), pois a ambição de Lévi-Strauss seria “a de sempre encaminhar-se para as fontes. O homem nada cria de verdadeiramente grande senão no início; seja em que domínio for, só o primeiro movimento é integralmente válido” (Lévi-Strauss, 1957, p. 437). Esta afirmativa elucida a busca pelo resgate de um instante primeiro, vislumbrado como um aspecto genuíno porque originário.

O olhar encenado em Tristes trópicos é portanto obnubilado pela fantasmagoria do relato do primeiro encontro, levando-o a considerar a narrativa de Jean de Léry como fruto de uma cena originária, ou seja, do primeiro contato visual do europeu com cultura e sociedade nunca antes vivenciadas. Entretanto, Lévi-Strauss deixa revelar um certo queixume nostálgico, a bem da verdade irônico, por não vivenciar em sua época o mesmo que Léry. De certa maneira, o registro da nostalgia perpassa as miradas sobre a paisagem americana assim como para si mesmo, vendo-se como um etnólogo fadado a conviver com o fracasso constante de não conseguir realizar a experiência originária por ele imaginada, ou seja, a de encontrar uma população nativa que ainda não tivesse travado contato com o homem branco europeu. Neste sentido, fica implícito que quase tudo que viesse depois de um encontro irrealizado com o originário, poderia ser encarado como uma espécie de degenerescência. É o índice da falta que percorre a visão de Tristes trópicos para o contexto brasileiro, que ressoa imagens de incompletude.

Este aspecto encontra-se na forma como é apresentada a cidade de São Paulo, assim como as de Nova Iorque e Chicago, posteriormente visitadas. Lévi-Strauss assinala que o primeiro espanto não foi o da novidade, mas o de constatar a “precocidade dos estragos do tempo” (Lévi-Strauss, 1957, p. 97). Deterioramento precoce no entanto conjugado com reparos constantes e sobretudo com um crescimento veloz da malha urbana, conforme assinala ironicamente: “A cidade [paulistana] desenvolve-se com tal rapidez que é impossível encontrar-lhe um mapa: cada semana exigiria uma nova edição” (Lévi-Strauss, 1957, p. 97).

Lévi-Strauss lança mão de um registro clássico do “viajante amargurado” (Daebene, 2008, p. 1698),13 presente nas narrativas de viagem. A ânsia pela novidade dá lugar ao tédio e ao azedume. É assim que ocorre na sua errância pelo planalto central após deixar Cuiabá: “A aventura se dissolveu no tédio. Há semanas que o mesmo campo austero se desenrola aos meus olhos, tão árido que as plantas secas mal se distinguem das folhagens de um acampamento abandonado que subsistem aqui e ali” (Lévi-Strauss, 1957, p. 341). Com isso, Tristes trópicos oferecem ao leitor a performance de um etnólogo ciente de que seu olhar reaviva, em certa medida, uma tradição histórica e europeia de leitura da população e entorno não europeus. Embora fosse praticamente impossível desvencilhar-se da tradição, isso não o impedia, por outro lado, de pô-la em xeque e de problematizá-la.

Podemos pensar que em Tristes trópicos reside uma certa narrativa da decepção, onde o encontro com o maravilhamento é uma expectativa frustrada. É possível entrever na perspectiva do jovem etnólogo a ressonância histórica de um certo olhar eurocêntrico e que o já renomado Lévi-Strauss não o isenta de críticas. Conforme sabemos, o olhar eurocêntrico projeta sobre os territórios não-europeus um misto de desejo e de expectativa ansiosa pelo encontro com o “exótico”, com o que se encontra duplamente fora, isto é, fora de seu território usual e, sobretudo, fora do seu escopo ótico. Por outro lado, também é possível afirmar a existência, no âmbito histórico, de acontecimentos que visibilizam o olhar eurocêntrico frustrado, ou seja, o momento em que este reconhece a inexistência daquilo que fora expectado, ou então quando o olhar eurocêntrico lança uma visada autocrítica ao admitir a incapacidade de apreensão daquilo que não lhe pertence e que lhe permitiria a reiteração, por via contrastiva, de sua autorrepresentação como espaço inconteste do saber e da história. Neste sentido, o olhar eurocêntrico — esta “máquina redutora ocidental”, conforme as palavras de Jean-Frédéric Schaub (2014, p. 11) —, já se apresenta fraturado devido ao pensamento crítico que surge em decorrência de tal demanda. A nosso ver, a problematização dessa maquinaria produtora de pensamento e de modos de ver e catalogar da diferença parece ser um dos pontos mais inquietantes de Tristes trópicos, onde o argumento confunde-se com a dúvida, nem sempre sendo possível entrever quando começa o olhar do jovem etnólogo e quando se inicia a visão do profissional já renomado e crítico acerca das formas etnocêntricas de olhar para o outro.

Paralelamente a essa discussão acerca do aspecto formativo do olhar, é inegável aquilo que fora por ele produzido enquanto interpretação, e que pode ainda assim trazer questões relevantes para a discussão acerca do espaço tropical. Para Luiz Roncari (2018), a peculiaridade da visão de Lévi-Strauss sobre os trópicos reside na sua agudeza de perceber as dissonâncias temporais que constituem o espaço brasileiro. É como se o Brasil fosse um país cuja incongruência temporal resultasse de sua atenção aferrada ao presente, sem uma consideração para a construção paulatina da história, ou seja, de reconhecimento positivado do passado como temporalidade que marca as demais sociedades, especialmente as europeias. É como deixa entrever a diferença que o autor de Tristes trópicos traça entre as cidades da Europa e as do continente americano:

Para as cidades europeias, a passagem dos séculos constitui uma promoção; para as americanas, a dos anos é uma decadência. Porque elas não são apenas recém-construídas: são construídas para se renovar com a mesma rapidez com que foram erguidas, isto é, mal […]. Lembrariam antes uma feira, uma exposição internacional, edificada para alguns meses.

(Lévi-Strauss, 1957, p. 96)

A cidade de São Paulo, por exemplo, seria vista como “um simulacro de edificações apressadamente edificadas para as necessidades de uma ‘tomada’ cinematográfica ou duma representação teatral” (Lévi-Strauss, 1957, p. 98). A artificialidade dos espaços citadinos brasileiros parecia reforçar o parecer de uma sociedade já triste porque decadente na sua ânsia pela modernidade puramente centrada no tempo presente e no provisório, no seu desejo pela aparência do novo e pela estetização quase estéril de formas a serem reparadas velozmente, no intuito de apagar quaisquer vestígios da história do tempo em suas edificações. Ainda segundo Roncari, a tristeza para Lévi-Strauss, “seria assim a infelicidade produzida pela sensação de se viver [no Brasil] num tempo único, plano e raso, num puro presente, carente de passado, vazio de memória, e cujo moderno atual já poderia ser visto como a próxima ruína” (Roncari, 2018, p. 139). Nada parecia escapar do presente, que se apresentava como a temporalidade regente. Seria esta “nossa condenação ao presente, ou então a de termos de buscar sempre o novo e o moderno e as suas frustrações” (Roncari, 2018, p. 138 — grifos de Roncari) o aspecto nevrálgico da sociedade brasileira, que estaria estampado no contexto local e que teria sido então captado pelo olhar arguto e irônico de Lévi-Strauss.

Em relação ao Rio de Janeiro, talvez esta cidade fosse por demais urbana para Lévi-Strauss, e ao mesmo tempo por demais infrutífera na sua aspiração (ou seria um destino autoimposto?) ao moderno — isso sem contar a tentativa daquela de lidar com um ideário de progresso que se buscava conjuminar com uma visada afirmativa da natureza local, encarando-a como traço distintivo da região. Neste sentido, a paisagem citadina carioca surgia para Lévi-Strauss, por um lado, como reflexo do fracasso de um capitalismo local descompassado, e que ainda deixava entrever as marcas do colonialismo, e, por outro, como imagem devolutiva do insucesso de sua expectativa pessoal por uma urbanidade tropical quiçá menos espelhada no imaginário europeu e mais sedimentada sobre os rumos de sua própria história.

No tocante à natureza, Lévi-Strauss considera a do Rio de Janeiro intocável, fora do alcance humano, ao contrário da do interior paulista de Santos, com a qual sente “[…] o primeiro choque dos trópicos. Um canal verdejante nos circunda. Esticando a mão, poder-se-ia quase agarrar essas plantas que o Rio ainda mantinha à distância, em estufas bem altas. Numa cena mais modesta, o contato com a paisagem se estabelece” (Lévi-Strauss, 1957, p. 91). Contudo, a sua relação com a vegetação brasileira parece expressar sentimentos ambivalentes: por um lado, reconhece-a como dotada de uma materialidade embriagante, conjuminada com um registro olfativo incomum para o etnólogo europeu:

Vista de fora, essa natureza é de uma ordem diferente da nossa; ela manifesta um grau superior de presença e de permanência. Como nas paisagens exóticas de Henri Rousseau, esses seres alcançam a dignidade de objetos […]. O que a flora provençal me trazia então no seu aroma, a do trópico me sugeria agora por sua forma.

(Lévi-Strauss, 1957, p. 92)

Por outro, a natureza parece decompor-se devido ao avanço de um urbanismo que opera como ícone de uma modernização local desordenada, algo característico não somente de Brasil, mas de todo o continente americano. Mesmo quando Lévi-Strauss encontra um naco de vegetação não explorado pelo humano, ainda assim este não guardaria um traço da selvageria que lhe daria uma vivacidade particular:

Na América habitada, tanto a do Norte quanto a do Sul […], só podemos escolher entre uma natureza tão impiedosamente domada que se tornou mais uma fábrica ao ar livre do que um campo […] e outra que […] foi suficientemente ocupada pelo homem para dar-lhe o tempo de saqueá-la mas não o bastante para que uma lenta e incessante coabitação a tenha elevado à categoria de paisagem. Nos arredores de São Paulo, como mais tarde no Estado de Nova Iorque, em Connecticut e mesmo nas Montanhas Rochosas, aprendi a me familiarizar com uma natureza mais hostil e menos cultivada, e, entretanto, privada de verdadeiro frescor: não selvagem, mas decaída

(Lévi-Strauss, 1957, pp. 94-5)

O que Lévi-Strauss alega é a presença de uma “vegetação monótona” (Lévi-Strauss, 1957, p. 95), desordenada e lentamente renascida após a ocupação e saque humanos, sendo assim uma espécie de memória dos combates e dissimulada “sob o aspecto de uma falsa inocência” (Lévi-Strauss, 1957, p. 95). O registro da monotonia e de uma certa selvageria nada interessante para olhares ansiosos seriam retomados na descrição da vegetação ao longo da linha telegráfica instalada pela Comissão Rondon: “As paisagens completamente virgens apresentam uma monotonia que priva sua selvageria de valor significativo. Elas se recusam ao homem, desaparecem diante do seu olhar em lugar de desafiá-lo” (Lévi-Strauss, 1957, p. 287).

Já ao discorrer sobre o continente americano como um todo, Lévi-Strauss considera os seus espaços urbanos e naturais como “objetos definidos por suas formas, suas cores, suas estruturas particulares, que lhes conferem uma existência independente dos seres vivos que os ocupam” (Lévi-Strauss, 1957, p. 145). A materialidade dessa instância natural quase autônoma não deixava de ser marcada pelo extrativismo, o que, na ótica do autor, descaracterizava o entorno, tornando-o degradado, embora ainda fosse possível, por meio desta mesma degradação, obter alguma experiência distinta daquela encontrada em território europeu. Pelo menos no tocante ao olhar de Lévi-Strauss, este configura-se em uma ambivalência inconclusiva, situada entre a diferença e o encontro do mesmo, entre o choque e a indiferença, entre o esvaziamento da surpresa e o apelo ao reconhecimento, chegando a afirmar que “[s]eja na Índia ou na América, o viajante menos se ‘surpreende’ do que ‘reconhece’” (Lévi-Strauss, 1957, p. 86).

Apesar da clave da monotonia e do primitivismo serem recorrentes na narrativa de Lévi-Strauss, o autor muda de tom ao relatar a vegetação amazônica, que lhe proporciona uma experiência ímpar a ponto de descrevê-la de forma maravilhada. Trata-se de uma das poucas passagens que o autor narra um certo entusiasmo com o entorno tropical brasileiro e que, a nosso ver, remonta fantasmaticamente às crônicas dos primeiros viajantes absorvidos por uma vegetação que, no entanto, lhes trazia a recordação de seu contato com a natureza europeia:

Vista de fora, a floresta amazônica parece um amontoado de bolhas congeladas, um montão vertical de intumescências verdes; dir-se-ia que uma perturbação patológica afligiu uniformemente a paisagem fluvial. Mas, quando se fura a película e se passa para dentro, tudo muda; vista do interior, essa massa confusa torna-se um universo monumental. A floresta deixa de ser uma desordem terrestre; tomá-la-íamos por um novo mundo planetário, tão rico quanto o nosso e que o tivesse substituído […]. [O] espectador europeu maravilha-se de reencontrar aí o frescor de suas primaveras, mas numa escala tão desproporcionada que o majestoso desabrochar das flamâncias outonais se lhe impõe como único termo de comparação.

(Lévi-Strauss, 1957, pp. 363-364)

Evidentemente, não há leitura sem balizamento com a bagagem de conhecimento e vivência pessoais. Na passagem acima encena-se o reencontro com uma experiência já conhecida porém agora mais intensa, como um excesso de estímulos que reconectam o observador com acontecimentos pregressos e de maneira não convencional. Contudo, ainda se encontra neste olhar desconcertado de Lévi-Strauss perante a escala monumental da floresta amazônica um contraponto à paisagem europeia, vista por ele como fruto da ação humana e que ocorrera de maneira paulatina a ponto de geralmente não ser possível vê-la como um construto:

Nós ignoramos a natureza virgem, nossa paisagem é ostensivamente escravizada pelo homem; às vezes, ela nos parece selvagem, não porque o seja realmente, mas porque as trocas se produziram num ritmo mais lento (como na floresta) ou ainda — nas montanhas — porque os problemas apresentados eram tão complexos que o homem, em lugar de lhes dar uma resposta sistemática, reagiu, no curso dos séculos, por uma multidão de processos parciais […]. São tomadas como uma selvageria autêntica de paisagem, quando resultam de um encadeamento de iniciativas e de decisões inconscientes.

(Lévi-Strauss, 1957, p. 94)

O que podemos empreender dessas passagens é a visão estetizada do mundo, e fundada em parâmetros que no entanto não se apresentam producentes para um encontro efetivo com a realidade dos trópicos. Em Tristes trópicos o leitor se depara com encenações de aproximação de um olhar que luta por deslocar-se de si mesmo, pois a recordação da espacialidade europeia retorna constantemente, assombrando de forma proustiana as experiências atuais. Por ser um olhar extremamente obnubilado pela subjetividade, percebe-se portanto a carência de diretrizes outras que permitam o confronto com o diverso sem enxergá-lo sob a clave da degradação e de um suposto momento anterior mais pleno porém perdido no percurso do tempo.

Recordar a estada no Brasil impele Lévi-Strauss a produzir um certo balanço final daquele período e que, a nosso ver, não parece ocorrer no quadragésimo e último capítulo, mas no de número XXXVII, “A apoteose de Adriano”, situado na nona parte intitulada “O regresso”. Lévi-Strauss relata uma espécie de impossibilidade de ater-se ao povo americano, e à sua respectiva cultura, tal como havia planejado. Após certo tempo de expedição, ele observa a presença de um duplo movimento: enquanto as novas experiências, além de nada estimulantes, iam se dissipando cada vez que achava tê-las apreendido, a sua própria cultura ressurgia paulatinamente, substituindo as imagens acumuladas pela vida expedicionária a ponto de praticamente alçar o primeiro plano em sua memória:

Por um singular paradoxo, em lugar de me abrir um novo universo, minha vida aventureira antes me restituía o antigo, enquanto aquele que eu pretendera se dissolvia entre os meus dedos. Quanto mais os homens e as paisagens a cuja conquista eu partira perdiam, ao possuí-los, a significação que eu deles esperava, mais essas imagens decepcionantes ainda que presentes eram substituídas por outras, postas em reserva por meu passado e às quais eu não dera nenhum valor quando ainda pertenciam à realidade que me rodeava.

(Lévi-Strauss, 1957, pp. 402-403)

O encontro com o diferente revelava, no final das contas, o confronto com o mesmo, ou seja, com determinados traços da sua cultura que havia sido deixada para trás e em prol da pesquisa etnográfica. Talvez se possa dizer que existe nesse percurso a constatação da impossibilidade de um real contato com o outro, já que os recursos que se possui para empreender tal contato acabam por fim sendo limitados, pois somente levam à possibilidade de leitura de si mesmo, de sua própria cultura e de forma torcida, espelhada. Não é o outro que se revela, mas os construtos cultural e histórico, assim como a subjetividade, que sustentam o olhar do observador perante o diferente e a sua ansiedade por interpretação. Desse modo, é praticamente improdutivo tentar se desvencilhar das referências, tal como enuncia Lévi-Strauss ao se deparar com uma vinda à consciência de uma peça de Chopin quando estava sitiado na região do planalto mato-grossense:

Durante semanas, nesse planalto do Mato Grosso ocidental, sentira-me obsessionado (sic), não pelo que me rodeava e que eu jamais reveria, mas por uma melodia repisada que minha lembrança ainda mais empobrecia: a do estudo número 3, opus 10, de Chopin, em que me parecia, por uma derrisão a cujo amargor eu era também sensível, resumir-se tudo o que eu deixara para trás.

(Lévi-Strauss, 1957, p. 403)

A recordação musical insistente e contra a qual Lévi-Strauss lutava, pois aquela o afastava de uma experiência efetiva com o entorno mato-grossense, leva-o à seguinte indagação: “Então era isso, a viagem? Uma exploração dos desertos da memória, mais que a dos desertos que me cercavam?” (Lévi-Strauss, 1957, p. 404). Ademais, o que percebemos é que, em parte, o encontro efetivo com o entorno não se realiza, já que o olhar está sedimentado sobre uma certa construção estética que lhe permite somente a deparar-se com o mesmo, protegendo-lhe assim da aversão inclusive sensorial que lhe causam as diferenças de diversas frentes (física, biológica, topográfica, social) atuantes nos trópicos.14

Ao se confrontar com a incapacidade para escapar dos sistemas (socioculturais, políticos, estéticos, etc.) que o constituem, Lévi-Strauss, desejoso por um encontro com a diferença, acaba em certo sentido entrevendo criticamente em si mesmo a ressonância de uma mirada (euro)cêntrica, superior e ao mesmo tempo envergonhada, e a qual se esforça por problematizar — o que não deixa de ser um intento de deslocar-se de tal centrismo. “Como poderíamos declarar válidas essas sociedades, a não ser com base nos valores da sociedade que nos inspira a ideia de nossas pesquisas?”, indaga o autor (Lévi-Strauss, 1957, p. 411). Jogos de espelhamento e contrastes são, portanto, inevitáveis. A imparcialidade, ou em outras palavras, a recusa da própria bagagem cultural, histórica e social em prol da dita objetividade analítica para um suposto encontro real com a diferença se apresenta, no final das contas, como a autoimposição de um exercício praticamente impossível de ser efetuado e que revela sobretudo o desejo de categorização e hierarquização das sociedades: “Para sempre incapazes de escapar às normas que nos modelaram, nossos esforços para pôr em perspectiva as diferentes sociedades, inclusive a nossa, seriam ainda uma maneira envergonhada de confessar a sua superioridade sobre todas as outras” (Lévi-Strauss, 1957, p. 411).

Confissão envergonhada que não deixa de estar envolta pela perda de um olhar ingênuo sobre o outro, que constantemente lhe devolve a imagem de viajante europeu. Lévi-Strauss expressa a sua decepção ao deparar-se com os índios do Tibagi que, segundo ele, não eram “completamente ‘verdadeiros índios’, nem sobretudo ‘selvagens’” (Lévi-Strauss, 1957, p. 160), o que lhe deu “uma lição de prudência e de objetividade”, contribuindo assim para despojar “de sua poesia a imagem ingênua que o etnógrafo estreante forma de suas experiências futuras” (Lévi-Strauss, 1957, p. 160).

Nas páginas de Tristes trópicos, Lévi-Strauss traz para o primeiro plano o impasse constitutivo da tarefa como etnólogo — pelo menos tal como ela era entendida na juventude —, ou quiçá o desmonte da expectativa que assolava a expedição, isto é, a da ocorrência satisfatória de um contato entre ele e o outro a ponto das diversas nuances e referências provenientes desse contato pudessem ser satisfatoriamente absorvidas pelo pesquisador. O desejo (do olhar) etnográfico vem no entanto a ser frustrado, pois as expectativas e pretensões são desmanteladas por contextos adversos, revelando uma incapacidade para controlar e otimizar o percurso desses encontros. A passagem a seguir sobre os mondé, embora um pouco extensa, nos permite entrever a encenação desta autocrítica:

Eu tinha querido ir até à ponta extrema da selvageria; não devia estar satisfeito entre esses graciosos indígenas que ninguém tinha visto antes de mim, que ninguém, talvez, veria mais tarde? Ao termo de um exaltante percurso, eu “tinha” os meu selvagens. Ai! eram-no demasiado! Sua existência tendo-me sido revelada no último momento, eu não pudera reservar-lhes o tempo indispensável para conhecê-los. Os recursos limitados de que dispunha, o abatimento físico em que nos encontrávamos, meus companheiros e eu próprio, […] só me permitiam um breve gazeio, em lugar de um mês de estudos. Lá estavam eles, prontos a ensinar-me os seus costumes e suas crenças, e eu não sabia a sua língua! Tão próximos de mim como uma imagem no espelho, eu podia tocá-los, mas não compreendê-los (sic). Recebia ao mesmo tempo a minha recompensa e o meu castigo. Pois não era culpa minha e de minha profissão, acreditar que os homens nem sempre são homens? que alguns merecem maior interesse e atenção porque a cor de sua pele e seus costumes nos surpreendem?

(Lévi-Strauss, 1957, p. 354)

A aparição de uma comunidade indígena que poderia chamar de “sua descoberta”, o momento de um acontecimento único que poderia não se repetir para as equipes expedicionárias futuras, parece ser evocado aqui como uma espécie de reencenação irônica do suposto contato originário tão vislumbrado e que só podia ser encontrado nos relatos dos primeiros expedicionários europeus. Porém, o despreparo técnico, o cansaço e o tempo exíguo contribuíam para pôr em xeque a capacidade profissional do jovem Lévi-Strauss, aqui julgado pelo parecer do Lévi-Strauss experiente e renomado. Através de um olhar que se desmonta, que revê a sua trajetória de formação e os primeiros passos incertos dentro do campo de investigação, tecendo críticas e ironizando seus próprios pareceres, Tristes trópicos contribuem inclusive para a discussão acerca da recepção de suas páginas. Ao longo da obra também fica evidente que quanto mais o olhar desapontado do etnólogo perante os trópicos vai se revelando, mais o pacto com as expectativas do leitor eurocentrado é rompido. Ademais, a apresentação da região tropical e sua população muitas vezes sem deslumbramento pode ser entrevista como uma resposta do autor às célebres narrativas de exploração em terras distantes e que, segundo Vincent Debaene (2008, p. 1698), possuíam a função ideológica de mascaramento da destruição sofrida pelas culturas de diversas partes de globo e exploradas pela civilização ocidental. Assim, Tristes trópicos desestabilizam o deleite da leitura eurocentrada e ansiosa pelo tom pitoresco e inclusive exotizante, pois para Lévi-Strauss nem para isso se prestavam os trópicos, que eram “menos exóticos do que inatuais” (Lévi-Strauss, 1957, p. 86)15 — um parecer que, por outro lado, reduz as particularidades dos trópicos — algo que causa estranheza ao olhar eurocentrado do etnólogo — a uma análise universalizante, assim como as produções culturais da região (cf. Geertz, 1988, p. 48).

Conforme vimos, em Tristes trópicos Lévi-Strauss reencena o seu olhar sobre a paisagem brasileira, apresentando em retrospecto pareceres ético-críticos acerca do papel do etnólogo, e inclusive dos impasses culturais que assolaram a sua expedição pelos trópicos. Esses aspectos podem ser encarados como pistas de compreensão da problemática que Lévi-Strauss suscita ao propor a encenação do olhar estrangeiro perante o diverso. A reencenação do olhar de Lévi-Strauss é complexa em decorrência de suas ambiguidades, pois se trata de uma mirada marcada por movimentos de avanço e recuo diante do contexto tropical, demonstrando interesse por este e ao mesmo tempo suspeita acerca de seu futuro. Neste ponto, talvez seja interessante retornar à imagem da “boca banguela” com a qual fora descrita a Baía de Guanabara a fim de concluirmos este ensaio porém com uma reflexão metafórica, partindo da relação entre o olhar de Lévi-Strauss e a paisagem dos trópicos. Aquela imagem pode ser extremamente potente para se pensar como os trópicos exibem os “dentes arrancados” pela exploração de rastro histórico e que durante séculos recaiu sobre a sua espacialidade. Este fato parece ter sido reconhecido pelo olhar perquiridor de Lévi-Strauss que, a despeito das opiniões entusiasmadas típicas de certos viajantes, logrou enxergar o aspecto faltoso, a condição de incompletude constitutiva de um território onde a incongruência e o deterioramento parecem materializar-se em sua topografia e sociedade. Entretanto, sem possuir uma bela dentição que pudesse agradar o jovem etnólogo, os trópicos não deixaram de por fim abocanhar o olhar do estrangeiro ansioso pela novidade. Quiçá assim o fizeram, por uma parte, antropofagicamente e à maneira de Oswald de Andrade e, por outra, de forma risonha, pois “o canibal ama rir”, conforme ressalta Frank Lestringant (2021, p. 15).16 Desmontado de seu centrismo e ao mesmo tempo autocrítico, o olhar do jovem etnólogo terminou por ser devorado, ou quem sabe também se deixou devorar, pelo mastigar falho daquela boca risonha.