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Palavra e poluição1

Noite, Renata Haar

Creio que “fazer a fala2” seja uma de nossas responsabilidades ecológicas imediatas. Que a urgência, para ouvir o mundo e todos os seus viventes, não é a de se calar (mesmo que, em alguns casos, isso já seja razoável), mas sim a de exercer com cuidado nossas responsabilidades de viventes que falam, pois a forma como falamos (e como falamos entre nós) do mundo, no mundo, vale para o mundo.3

É mesmo possível que a fala seja uma das regiões mais poluídas do planeta, e que isso exija um verdadeiro reengajamento. De fato, há alguma coisa no exercício da fala que pode participar diretamente ou da contaminação ou do cuidado de nossos meios de vida. A fala pulsa, chove, escorre, respinga, a partir de e dentro de e em direção ao mundo, para o melhor e para o pior: nossas próprias frases falam menos das coisas do que se misturam a elas, linhas entrelaçadas a outras, linhas interrompidas por outras, frases embebidas de realidade e se derramando nela constantemente. — E não digo isso para fazer crer que tudo termina na fala, ou “acaba em um belo livro”; mas para dizer que é a fala que termina em tudo, que se propaga nas paisagens, se mistura a elas, e que pode tanto as poluir até um pouco mais quanto se adubar nelas, as irrigar.

Signos e dejetos de signos, frases e dejetos de frases formam os nossos meios de vida. Nesse sentido, a recente atualidade frequentemente revelou, se sequer havia necessidade disso, o que parecem ser os estados apodrecidos da fala, apodrecidos por conta de desvínculos, de reduções, de inatenção, de atabalhoamento, de negligência, de arrogância, de desdém. Os estados apodrecidos da fala política, da fala midiática, e de nossas próprias discussões, são também as frases que colocamos no mundo e entre nós, na rua, no trabalho, nas redes, nos tweets, esses “gorjeios”.

Que imundície espetacular da fala, que pilhagem da fala e de suas responsabilidades, que profanação do espaço comum, é isso que evidentemente se difunde na fúria de mentiras e de enormidades (por exemplo, na rede perifascista denominada, precisamente, Parler [Falar] — não há limites para a profanação das palavras).

Seria necessário seguir a lição de gramática dos escritores que partem para o ataque aos arruaceiros da língua no mundo político, no trabalho e em sua organização, em todos os espaços da dominação (observar como Nathalie Quintane, por exemplo, não se dá por satisfeita com nenhuma posição de fala, nem de outrem e nem dela mesma; Nathalie Quintane, que não permite que ninguém — ela mesma em primeiro lugar — se acomode, que não larga o osso, atacando-o novamente sem trégua, por todos os lados, e rói com ele a sua raiva, numa literatura que também se sabe comprometida, e que não procura se safar soberanamente).

Mas a imundície pode ocorrer muito aquém ou noutro lugar que não no registro do lixo, da brutalidade, do confisco, e mesmo exteriormente à questão da falsidade (violentamente assumida) e do cinismo de fazê-la circular ou de negar as evidências (ao dizer que “aquilo que existe não existe”, não aconteceu). Existem palavras que poluem, não quando são pronunciadas, mas quando são confiscadas para serem ditas numa única vertente do mundo comum: “fluxo”, “recursos”, “nós” …

Tão poluentes quanto, na primavera de 2020, contaminando as ondas e os laços, o eram os conselhos para nos apropriarmos desse lifestyle — um entre outros — que se tornou o confinamento: convidávamo-nos a tirar proveito do período, mesmo que tudo em nós devesse se erguer contra a possibilidade de ver ali uma forma de vida aceitável, tanto para os confinados quanto para aqueles que, “de fora”, permitiam que eles o fossem.

Tão poluentes quanto essas pobres palavras pronunciadas in extremis pelo primeiro-ministro ao público jovem, em 10 de dezembro, num discurso que não lhes concedia nenhum lugar, nenhum cuidado, nenhum tempo de consideração; nem pensar na reabertura das universidades, nas condições de vida dos estudantes, mas: “Por fim, penso especialmente nos estudantes”. Especialmente como, quão especialmente? Alguns minutos antes, o ministro da saúde assegurava o reforço do “contact tracing4, como se o “rastreamento” não estivesse funcionando.

Poluente ainda é essa obstinação das ciências dominantes em dialogar apenas consigo mesmas: quando economistas descobrem que o abandono do hospital público, da universidade, não era uma boa ideia, mas giram em círculos em sua língua inalterada — falando da educação como de uma “despesa de investimento”, incapazes de pronunciar palavras como “pobreza”, “amor”, “vida” —, é porque não ouviam nada e continuam a não querer ouvir coisa alguma, nada além do que se diz (se pensa) em sua parca língua.

Em 1988, em “Nossa fala” [Notre parole] (um artigo publicado pelo jornal Libération, que é também um poema desconcertante, esplêndido), Valère Novarina dizia que a TV mente, e que ela mente não porque diz supostas mentiras, descaradamente, mas porque mente na imagem que dá acerca da fala: ela mente a respeito do que é falar, do que podemos esperar da fala. “No fundo, sabemos muito bem que apenas os tubos, os vasos e os computadores se comunicam […]. Médiuns, mídias, comunicação, informação: essas palavras nos enganam; todas as mídias nos enganam, não por conta do que dizem, mas pela imagem da linguagem que nos dão: um encadeamento mecânico com emissor, receptor, mercadoria a difundir, ferramentas para dizê-la e coisa a transmitir. Ao final desse encadeamento, está o homem, foi o próprio falante que nada disse.”5

É exatamente isso a poluição da e pela fala. E é exatamente face a isso que podemos reivindicar (de nós mesmos, que também somos essa fala pública poluída) uma prática muito mais engajada. Isso justifica, aliás, que coloquemos o problema nestes termos: “nossa fala”, ou seja, que compreendamos que, na fala, um “nós” se tenta e se debate.

Penso também em uma cena de Palombella rossa [Pomba vermelha], na qual Nanni Moretti, como parlamentar comunista, demostrava o nível de raiva que a poluição pela palavra merece. Uma jornalista o entrevista. Ele conta em detalhes, impõe uma paciência apesar de seu entusiasmo e da rapidez de seu próprio relato, tenta encontrar o tempo de contar a lembrança de uma luta ecopolítica situada do outro lado do mundo, e de um engajamento meio delirante e sem noção, meio genial dos militantes da extrema-esquerda italiana:

Recordo-me do movimento dos índios e dos campos. Eles me disseram que eu devia requisitar dois aviões para levar o movimento deles até o Peru, para a Festa do Sol. E depois, que eu devia convencer o partido a destruir o Altar da pátria para dar lugar a uma comunidade a que teriam aderido todos os animais e plantas da região. Eles teriam aderido espontaneamente…

Mas a entrevistadora fica impaciente, avança para outro assunto, interroga-o acerca de seu divórcio, de seu estilo de vida, que ela considera ser bem “cheap”. É demais! Ele não consegue mais respirar. Então ele a estapeia, continua a estapear, e sua fúria faz muito bem ao espectador (mesmo que tivéssemos francamente preferido que a jornalista fosse um jornalista, em seu pequeno traje apertado). Ma come parla?! come parla!: “Mas como a senhora fala?!! Como se pode falar dessa maneira?”. Le parole sono importanti!: “As palavras importam”. Definitivamente, o modo de falarmos e de falarmos uns com os outros, do mundo, no mundo, importa para o mundo, o mundo enquanto lugar de vida, de partilha do comum, de relações.

Foi de fato necessário dizer em 2020 que a fala era, ela mesma, um vetor de difusão do vírus. O vento já o era, o vento salubre. Mas a fala! “Parece-nos cada vez mais claramente que o simples ato de falar engendra a emissão de gotículas suscetíveis de propagar o novo coronavírus.”6 (Uma novela de ficção científica foi escrita aqui, no AOC7, no seguinte contexto: Céline Curiol teve um pesadelo com uma epidemia de palavras patogênicas, cuja transmissão se faz através da fala, num “ambiente verbal íntimo e coletivo” contaminado. Chamava-se Falas infelizes [Paroles malheureuses]. E há pouco tempo a Academia de Medicina recomendava “calar-se no metrô” — o que seriam então das salas de aula, ou de qualquer local público, definidos pela fala endereçada?)

Durante o primeiro confinamento, a paisagem sonora também mudou brutalmente, sobretudo na cidade. O “barulho sísmico” que constantemente causamos diminuiu. E de uma só vez voltamos a ouvir distintamente os pássaros, como muitas pessoas comentaram. Os pássaros não precisavam mais se esgoelar ou cantar mais agudo para serem ouvidos, não precisavam mais fugir da cidade para fazer seus ninhos em paz, eles descansavam de nós e isso fez bem até para nós mesmos. Enfim os ouvíamos novamente! Era como uma reconexão repentina, inesperada e dissidente, a um mundo do qual estávamos cansados de estar desligados: os pássaros reencontravam um lugar, era o contrário, aparente, de uma primavera silenciosa.

Toda espécie de discursos começou a chover acerca deles, e entre nós. Havia testemunhos da alegria tênue, mas como que irrevogável, de ouvirmos novamente cantos de pássaros, e não apenas na cidade. Tínhamos ímpetos de observar “a natureza do arredor” e identificar os cantos: a possibilidade de voltarmos a nos ligar a algo do exterior em experimentos de ciência participativa, recarregando algo da ordem das conexões, faria dos mais desligados entre nós amadores verdadeiros, vigias, localizadores, recrutados e preocupados com esse exterior do qual estávamos antes privados. O Museu Nacional de História Natural e a Liga de proteção aos pássaros [LPP] lançaram, assim, a partir de 16 de março de 2020, a operação Confinados mas à espreita [Confinés mais aux aguets] (um dispositivo que o portal de informações LCI traduziu em seu sempre terrível vocabulário: “A LPP convida os franceses a tirarem proveito do período de confinamento”.

Havia reflexões atentas, sensíveis a uma nova repartição, a uma nova partitura do espaço sonoro — uma nova segmentação e uma nova musicalização desse espaço. Não porque a situação teria sido propícia, como ela raramente o é, à escuta (tendemos a dizer isso, mas não era, pois não basta estar parado para ouvir e receber algo do exterior, muito pelo contrário); mas porque era a ocasião de deixar de uma vez por todas a palavra com os pássaros, que “certamente tinham seu ponto de vista” nessa abrupta ruptura da poluição sonora e, consequentemente, naquilo que estava nos acontecendo. Foi o que Vinciane Despret sugeriu, citando Calvino e o modo como Monsieur Palomar, seu herói, parava para escutar um melro “dar sua opinião”.

Ademais, havia comentários precipitados, desatentos, muito rapidamente reconfortados, a respeito de um suposto “retorno” dos pássaros e dos benefícios que teriam existido então para eles. Não obstante, os pássaros continuavam a desaparecer, continuávamos a não saber seus nomes, as patologias se multiplicavam na fronteira homens-animais, a pilhagem social, a errância na fala e as mentiras públicas se amplificavam. Durante algum tempo não tínhamos nem mesmo o direito de acompanhar nossos mortos… Às vezes eram desarmantes a redução, o atabalhoamento daquilo que se dizia a respeito de um silêncio em tantas coordenadas e o que poderia realmente (politicamente, ecologicamente) repovoá-lo. Tudo isso tinha um quê de “discurso sujo”,8 um discurso poluente em si mesmo.

Teria sido preciso muito tato na escuta e na fala, muito mais atenção aos grandes entrelaces de linhas de vidas e de linhas de mortes que são atualmente as paisagens sociais, muito mais precauções, mais atenção real aos viventes, aos mortos desacompanhados, e à desigualíssima repartição das precariedades. Nem que fosse para nos dizermos que sim, que era de uma grande doçura ouvir os pássaros cantarem, porque sempre é e porque temos um encontro muito particular com eles; mas que realmente não sabíamos muito o que fazer com uma doçura experimentada de maneira tão forte naquele momento.

Atenção, falar de poluição na e pela fala não é acusar a linguagem; e muito menos lastimar um “empobrecimento” da língua ou mesmo da expressão — achar que tal ou tal pessoa “fala mal”, ou que certas palavras não são bonitas (as que vêm do estrangeiro, por exemplo). Não se trata de um estetismo, de um elitismo: a preocupação com um “belo estilo”, com um estilo “próprio”, nada tem a ver com isso.

Trata-se do desejo de pensar a própria fala como um ambiente compartilhado e vulnerável, uma zona a defender, e a defender na exata medida em que a cultivamos ou em que nela nos encontramos: um “comum” do qual tomar conta. O mundo não exige belos discursos (um “discurso sujo” também se impõe), ele exige que exerçamos nossas responsabilidades de organismos falantes e porosos. Que compreendamos o exercício da fala como uma responsabilidade ecológica: que falemos de outra forma do mundo e no mundo, entre nós e com os outros.

Que falemos de outra forma inclusive da natureza: que “articulemos” de outra forma, talvez de maneira mais leal, a natureza e a fala. Ponge sempre fez isso:

Basta que abaixemos nossa pretensão de dominar a natureza e que elevemos nossa pretensão de fisicamente fazer parte dela para que a reconciliação ocorra. […] A esperança está então numa poesia por meio da qual o mundo invada o homem a ponto de fazê-lo perder a fala, reinventando assim um jargão.9

Perder a língua e depois retomar língua, reinventar um “jargão” — que palavra fantástica, “jargão”: é preciso portanto uma linguagem bizarra, desfeita, refeita, nascida de convenções e de conspirações, um tanto opaca, um tanto bandida. Escutar o mundo vivente não será apenas calar-se, isso não é o suficiente, e talvez seja até o total contrário, ter que fazer algo de bom na fala.

Fala particularmente despoluente, assim como a de Ponge, despoluindo vigorosamente essa região do mundo tão poluída que é a fala, fala através da escuta do mundo e das coisas, mas também, e indissociavelmente, pelo esforço da língua, o furor da expressão.10 Ponge exigia direitos para o mundo, uma atenção que nunca enfraquecesse; mas ele fazia isso “em língua”. Falar era se abocar com o cosmos, tentar se ligar dentro dele através da fala.

A riqueza da fala, sua abundância, sua precisão, sua força, sua beleza, o cuidado tomado ao falar, tornam-se um índice, e até mesmo uma prova — a prova do que nos prende ao que nos faz falar (falar mais e, esperemos, melhor). Uma fala sem vínculos é “miserável” e “seca;11 os laços, em compensação, desatam as línguas, fazem e deixam escorrer a palavra, paciente, singular, comovida.

Talvez seja a uma obra já antiga de Bruno Latour, Politiques de la nature [Políticas da natureza],12 que devamos a reflexão mais direta, e a mais livre, acerca do que significa “fazer falar” a natureza, a fim de convocá-la para uma “assembleia ampliada”. Latour desdramatizava, descartava as questões intimidantes (desmobilizantes) de essência ou de definição ontológica, para enfatizar uma convicção prática, revelada sobretudo pelas controvérsias do saber: falar não é uma propriedade particularmente humana, os cientistas, os cidadãos, passam seu tempo fazendo as coisas e os fatos falarem.

Cada disciplina pode até mesmo se definir como um dispositivo complexo para “tornar os mundos capazes de escrever ou de falar”: um dispositivo, um protocolo, a invenção de um “aparelho fonador”, já que nada (e certamente não os homens) fala sozinho, e que toda coisa fala por uma outra coisa. Toda coisa fala por uma outra coisa, e através, e junto, e entre outras, e contra outras; toda coisa é falada por uma outra coisa; nada é mudo, mas nada faz a fala sozinho — assim como nada vive ou morre apenas por si.

Não há, então, de um lado a natureza, com a boca totalmente fechada, e de outro “nós os homens”, tagarelas e únicos detentores do privilégio da fala; há cenários de sentidos multiformes, difíceis também, onde humanos e não humanos (todos parcialmente ativos e parcialmente passivos, todos um pouco sujeitos e um pouco objetos) se misturam, distribuem potências e suas incertezas. E nem sempre o fazem corretamente, nem sempre o fazem de acordo com as composições mais justas.

O desafio, para “nós”, é então o de reconhecermos que a fala (assim como a capacidade de ação, e pelos mesmos motivos) já está em partilha, de observarmos como compartilhamos efetivamente os cenários do sentido (o que também quer dizer sua incerteza radical), e de verdadeiramente nos esforçarmos por “enunciados bem formados”, ou seja, por apegos justos e por desapegos quando preciso. Abordar a questão ecológica, ou seja, o cuidado com os outros viventes, não exige que esqueçamos nossa loquacidade (nossa “condição loquaz”, como a chama Michel Deguy), mas que exerçamos com cuidado nossas responsabilidades na fala.

A poesia me aparece como uma (talvez a primeira) dessas disciplinas que inventam “aparelhos fonadores” para tornar as coisas do mundo capazes de escrever e de falar; aparelhos em ocorrência sintática, enunciativa, métrica, sonora, que acolhem novas vozes, ou talvez (de sua forma sucinta, dizendo apenas o que diz) vozes não-vozes, falas não-falas, afrontando o enigma que sempre a fez falar. A poesia sabe há muito tempo criar cenários de linguagem onde escutar; não ao dar a palavra (a palavra não se dá, ela se constata), mas ao deixar os outros, em sua sintaxe, sinalizarem à sua própria maneira. (O Contrato natural se inicia, aliás, com a voz de Homero; Michel Serres começa por fazer ouvir a voz de Homero fazendo ouvir a voz do rio Escamandro transbordando de mortos, em plena guerra de Troia, queixando-se de atirarem tantos cadáveres nele).

Deve-se reconhecer essa expertise e essa precisão do poema em pleno desastre ecológico: ele não quer fazer as coisas da natureza falarem, ele não crê poder deixar que elas falem por si só, não a nós, tão duros de ouvido e de coração; ele quer falar-delas-com-elas-dentre-elas, falar com elas em alta voz, “escrever com pássaros no ouvido, em vista, em mente, fazer a consciência tomar um pouco de ar13”.

Poeta é, nesse sentido, aquele que recebe do mundo enunciados que o compelem, que mistura às suas frases enunciados de paisagens, de animais, de rios, de dejetos, de fantasmas, e também de máquinas, de artefatos, e de perfeitos desconhecidos; e, sobretudo, que se esforça em responder por eles. “Responder por eles” de fato, pois o poeta aceita fazer a fala. Ele assume ser aquele que fala, e até aquele por quem ele é falado (já que muitos hoje exigem que nos calemos para ouvir aquilo que a natureza tem a dizer) e, indissociavelmente, ser aquele que fala por outros, e com o mundo na boca. E o fato de que é o poeta quem fala não retira a fala de ninguém, nem reduz ninguém ao silêncio; é precisamente o contrário: só nesta condição — na condição de escutar a partir de sua própria língua, de engajar na escuta as suas próprias frases — ele sabe ouvir. Pois não basta abrir bem os ouvidos para ouvir as coisas do mundo. É preciso se colocar na língua, com sua própria voz. É também pela fala que escutamos.

Tudo se dá na praça
Sintagma que é uma grande esperança de
frases reunidas

(Stéphane Bouquet, Vie commune)

Foi na praça Sintagma, Syntágmatos, que, em 2011, se reuniram os atenienses mobilizados contra a política de austeridade na Grécia, e “pela real democracia”. É uma espécie de Praça da República14 em Atenas, aquela aonde vamos para tentar dizer “nós”, onde todos os encontros possuem uma significação política, e onde toda violência exercida é contra o povo inteiro. Mas esses versos também nos fazem imaginá-la como o local da sintaxe, lá onde a palavra endossa, pensa e trabalha laços, nós, associações e separações.

De fato, a gramática é, na língua comum, a ferramenta das relações: é ela quem define paisagens de conexões, de interdependências, de laços bem ou mal estabelecidos, que faz de toda frase uma espécie de biótopo, povoado de realidades que interagem, se fazem viver, se fazem morrer, se assombram, se amarram. É uma prática e um pensamento dos laços, com e no mundo, dentre a vida e com a morte.

A nova antropologia exige “novas narrativas”. Mas creio que ela também precisa de uma sintaxe, sobretudo neste momento; para não se precipitar no enunciado de um grande entrelace (the mesh de Timothy Morton), mas empenhar-se em qualificar relações e relações de relações, fraseá-las em sua pluralidade, sua surpresa, sua ambivalência.

Confiar na gramática é estar convencido de que a prática do pensamento, e até mesmo a verdade, não jaz nas palavras, mas nas frases, que são os ecossistemas das relações; é para dizer e saber de uma vez por todas em que pedaço de si, em que elo, em que região se está preso, e a quem, e como; e de quem e do quê se está desenganchado, liberado ou privado, a que mal se está ligado, livre de quem, livre do quê, e se tudo bem, se há mais ou menos vida na vida, se há lembrança dos ausentes, de quais, e se se sabe se relacionar como se deveria com outros completamente diferentes…

É isto o que se deve exigir de um pensamento ecológico e de uma política dos laços: que ela qualifique os tipos de vínculos; que ela não somente os constate, mas que os julgue. Pois, para sermos livres, não se trata de nos desfazermos de todos os laços, mas sim de estarmos bem conectados: sabermos a que damos valor, dizermos aquilo de que não podemos prescindir e que nos faz ser, dizer o que se deve, não para nos protegermos, mas para proteger nosso amor pela vida.

Penso, por exemplo, em tudo o que é e faz uma árvore na maravilhosa coletânea de poemas de Aurélie Foglia, Grand-Monde15 (foglia, “a folha”):

Essa árvore se sustém16
de tal modo ali
assediada pelo vento […]
que ela me serve sem notar de coluna verde-bral.

É o “verde” que mantém um local de verticalidade, de coluna. É o verde que em sua própria postura sustém esse corpo, e sustém esse poema deslocado, assim como ele sustém o mundo vivente, que depende dele, e que ele sustém na ponta dos galhos. Mas é um verde vulnerável, partido em dois. — Se a sintaxe é uma prática de laces e desenlaces, o verso a eleva à segunda potência: cortes, paciências, enjambements por sobre rupturas, extensão de uma linha, invenções de cenários de ligações, criação de novos vínculos no pensamento e na sensibilidade.

Ela está ligada às árvores, as árvores lhe importam, portanto isso a sustém. Aurélie Foglie afirma que árvores, ou, como ela as chama, “as Por muito tempo”, “sustêm tudo chovendo”. Elas sustêm chovendo, de fato, suas longas garras plantadas no céu… E a árvore escoa tanto de si mesma, e de sol, e de tão alto, e assim vemos muito bem que “é ela que faz a chuva”.

Suster, sustentar: decididamente uma questão de vínculo. Mais do que isso, porém: questão de manutenção recíproca; pois não se trata “apenas” de estarmos ligados, mas de sustentarmos uns aos outros, de sermos sustentados por aquilo (por quem) sustentamos, de sustentarmos somente por isso, e, no que nos concerne, nós os desvinculados, de reaprendermos a suster.

Sempre te vimos tanto
que esquecemos de suster a ti árvore descartada
pelo tempo

Dentre as responsabilidades ecológicas que possuímos em relação ao mundo, há então a fala: a maneira como falamos o mundo, ao mundo, como nos falamos no mundo. Seria necessário que o falar não participasse de mais uma poluição (de uma mancha, de um insulto, de uma desonra feita ao mundo, de uma negligência a mais, de uma ruptura a mais). Isso não significa, insisto nisso, que a linguagem esteja doente ou que estejamos sofrendo de uma doença de linguagem. Mas sim que a fala pode ser uma forma de saúde, um cuidado de si e do mundo, se nos dermos a esse trabalho.

Na verdade, vejo a fala como um dom: algo que damos, que colocamos no mundo assim como nele colocamos nossos gestos. Não seria para retornarmos a um “dom da palavra”, como um privilégio que os homens teriam recebido de um deus; nem ao que ocorre quando cremos “dar a palavra”, como se fosse uma esmola daquilo que seríamos ricos. Mas para dizer que damos algo quando falamos, que recebemos algo quando isso é falado, toma lá dá cá, e que devemos então prestar atenção ao que damos entre nós ao falarmos, ao que nos dizemos, ao que nos enviamos (o insulto cuspido nos possíveis aliados, que faz calar e que desarma, está em alta), ao que colocamos no mundo e entre nós.

Sei bem que espero muito da fala. É que a forma como ela chove, como ela pulsa, como ela se expande e faz suas ondas entre nós e com todo o resto, é frequentemente aquilo que torna a vida respirável, ou o contrário. E não estou sozinha:

Há um esconderijo de doçura no fundo da linguagem — é nossa única razão para falar. […] O poeta se preocupa em seguir o animal doçura até o território sob os signos, até seu ninho nos rostos, até o local secreto onde o animal sabe que deve se esconder e onde ele espera então ser encontrado. Onde toda a sua paciência é espera, e ele respira bem profundamente de propósito, com medo de passar despercebido. / Só falamos na trilha da doçura: falamos & falamos para encontrar, ao fim, o coração polpudo da linguagem — podemos chamá-lo a cabaça do figo — alguns o fizeram — mas é esta a coisa que procuramos: esse local ameno, essa volubilidade de falas que faz com que as bocas se abram para tudo & nada numa desordem fraterna. As maneiras de se dizer são legião. Há um burburinho sincero de insetos no fundo da linguagem, e essa é uma espécie de solução.

(Stéphane Bouquet, La Cité de paroles, Corti, 2018)

Cuide então da sua fala, e cuide de si mesmo na fala; faça sua parte, vincule-se e extraia-se como for preciso e através das frases; tome responsabilidades através da boca e através da voz, essa é uma tarefa ecológica que você tem a cumprir, é o primeiro “serviço ecossistêmico” que você tem a retribuir ao mundo comum.