Revista Rosa

Volume 7

7

O terceiro excluído: a derrota como inovação

Apresentação

Peso latino, Gabriel Castillo

Certa vez, o historiador alemão Reinhart Koselleck escreveu um punhado de páginas sobre experiência individual e conhecimento social que, com algum esforço, cabe no contorno de um aforismo. Os vencedores — diz ele —, inebriados com a causa imediata do seu sucesso, desprezam o movimento longo da história, pelo que pagam o alto preço de escrever má reflexão social. Os que sofrem a derrota, empurrados para uma distância reflexiva, exploram a causa dos seus infortúnios no mais fundo dos tempos, nos ritmos surdos e latentes da vida, formulando explicações mais fecundas sobre seu entorno e sua condição. Koselleck cita, entre outros, o historiador grego Tucídides, que sentiu na pele a experiência do banimento. O também grego Políbio, prisioneiro dos romanos e autor de uma espetacular história do mundo mediterrâneo. Santo Agostinho, que escreveu A cidade de Deus sob o impacto do saque de Roma pelo sequioso Alarico. E Maquiavel, o mais célebre desterrado da belíssima Florença dos Medici. A tônica é sempre a mesma. Da galeria antiga à moderna, o compasso da derrota define o arco da reflexão.1

Seria exagero dizer que O terceiro excluído: contribuição para uma antropologia dialética (2022), de Fernando Haddad, professor do departamento de Ciência Política da USP e hoje ministro da economia de Lula, se enquadra no modelo que Koselleck desenhou? Quando disputou a eleição presidencial de 2018 como candidato do PT, Haddad passou por uma das mais genuínas experiências que a derrota pode trazer. Seu partido se fragilizava, Lula permanecia preso na Superintendência da Polícia Federal de Curitiba e Bolsonaro conquistava Brasília com um projeto explícito de poder autoritário, divisionismo social, desigualdade econômica e agenda genocida (por omissão ou comissão). Naquele momento, a experiência primária da derrota como candidato se mesclou com uma experiência social mais profunda de catástrofe coletiva, levando Haddad a enfrentar questões simples, porém essenciais. Como o que até então parecia ser uma comunidade política democrática havia atingido um nível tão profundo e autodestrutivo de intolerância, violência e antagonismo ideológico? Motivado por essa assombração inicial, Haddad fez um mergulho profundo no tempo e procurou entender as bases antropológicas do dissenso humano no campo da cultura.

Lembrando que a humanidade é uma espécie única, geneticamente aparelhada de igual capacidade linguística, cultural e cognitiva, Haddad traça um limite entre evolução biológica e transformação cultural. Ao passo que o aparecimento de novas espécies biológicas (especiação) opera por princípios como semelhança e diferença, a humanidade se dividiria em grupos menores (especiação cultural) por meio da contradição. A contradição das contradições, que Haddad chama de “alienização”, seria o gesto humano de subjugar outros seres humanos a ponto de torná-los, culturalmente, quase outra espécie, um Outro que constitui e organiza de fora para dentro quem o exclui. Essa tese se desdobra então numa outra, de teor epistemológico. As ciências humanas, em seu diálogo com as ciências da natureza, deveriam rejeitar a aplicação de modelos evolucionistas ao estudo das sociedades porque eles perdem de vista o que é próprio dos homens: a contradição dialética. Em síntese, O terceiro excluído apresenta e desenvolve duas ideias centrais. A primeira, maior e mais inovadora, é que a contradição inicial e movente da história não está na relação dos humanos com a natureza, mas na relação violenta entre os próprios humanos. A segunda, um pouco menos autoral, mas ainda importante hoje em dia, é que a cultura deve ser entendida em termos dialéticos, e não evolucionistas.

O alentado dossiê que a Rosa agora publica reúne pesquisadores de diferentes áreas — antropologia, economia, biociências, direito, filosofia — que aceitaram o desafio de comentar as teses de Haddad, bem como o tratamento que ele dispensa ao diálogo entre as disciplinas que mobiliza. Leda Paulani reivindica mais peso ao capital na elaboração do conceito de “alienização. Marcelo Pavani e Maria Elice Prestes reprovam a leitura que Haddad faz das obras da biologia. José Eli da Veiga e Mauro Almeida ajustam contas com o conceito de dialética em Haddad. Fábio Almeida e Paulo Abrantes sugerem que o quadro analítico de Haddad não dá conta das relações entre biologia e cultura. E Carla Rodrigues analisa o papel da linguagem na tese central de O terceiro excluído. Tudo somado, são mais de 110 páginas em Word sobre alguém que fez de sua derrota ocasião para buscar um novo método de interpretação social. Como escreveu Koselleck, a história pode ser escrita pelos vencedores, mas o conhecimento histórico provém dos que sofrem derrotas (mesmo momentâneas).

— Boa leitura!