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Naturalismo, psicanálise e ciências da vida no horizonte contemporâneo

Psicanálise e ciências

Rogério Barbosa

O status epistemológico da psicanálise ainda é incerto e objeto de discussão. A psicanálise pode ser considerada uma ciência? Em caso afirmativo, está mais próxima das ciências da natureza ou das ciências humanas? Se não se enquadra em nenhuma dessas categorias, seria uma ciência singular? Nesse caso, qual seria a sua singularidade em relação às demais? Se há uma heterogeneidade radical entre a psicanálise e a ciência como prática e forma particular de produção de conhecimento, como se pode caracterizá-la? Seria essencialmente uma práxis eticamente fundada, sem os compromissos ontológicos e epistêmicos exigidos pelas ciências?

Se a teorização psicanalítica tem entre seus objetivos uma investigação sobre o processo de emergência da vida psíquica — que surge da imanência do plano natural para transcendê-lo devido ao desacoplamento em relação à ordem vital provocado pela incidência do simbólico — então a importância de alguma forma de articulação ou compatibilização da psicanálise com o universo de pesquisa das ciências deveria se apresentar sem muita resistência. A questão de quais condições são necessárias e suficientes para a emergência do psiquismo humano não pode ser completamente elucidada por uma única perspectiva, já que uma descrição suficientemente complexa da vida psíquica deve contemplar diversas dimensões (biológica, psicológica, sociocultural) e diversos níveis de descrição (universais, histórico e singular).

O reconhecimento de que cada disciplina aborda a complexidade do fenômeno estudado com suas próprias lentes (teorias, conceitos, objetos teóricos) construindo assim um vocabulário descritivo e uma ontologia que lhe são próprios implica o reducionismo metodológico inerente a qualquer pretensão de conhecimento. Esse reducionismo deveria ser visto como resultando não só na possibilidade, mas na necessidade do diálogo entre perspectivas epistêmicas e ontológicas diferentes.

Nada é mais avesso a essa perspectiva que a pretensão do reducionismo explicativo — traduzido sinteticamente na fórmula “X’ nada mais é que “Y”. Esse tipo de atitude que, se não exclui necessariamente o diálogo, estabelece de saída o próprio campo como tribunal epistêmico máximo, não é privilégio de nenhum campo de conhecimento. O enorme avanço das tecnologias de investigação biológica, e das neurociências em particular, permitiu, por exemplo, que Francis Crick açodadamente declarasse:

Você, suas alegrias e tristezas, suas memórias e suas ambições, seu senso de identidade pessoal e livre arbítrio, são de fato nada mais que o comportamento de um vasto conjunto de células nervosas e suas moléculas associadas. Como a Alice de Lewis Carrol poderia ter dito: você não é nada mais que um pacote de neurônios.1

Impossível não se opor a um reducionismo desse quilate e a seus efeitos, tanto no plano teórico quanto na cultura. Mas a crítica feita a esse fisicalismo eliminativista por parte da comunidade psicanalítica frequentemente confunde o exame crítico dos postulados das neurociências com a recusa do cientificismo biologizante presente na chamada neurocultura, ou cultura do sujeito cerebral2 — uma superposição indevida que tende a dificultar o estabelecimento de uma interpelação mútua entre a psicanálise e as ciências da vida.

O questionamento da relação entre psicanálise e ciência tem sido parte fundamental da história da psicanálise. Mas não é possível abordar essa questão nos dias de hoje da mesma forma que na época em que Freud criou a disciplina. Isso ocorre porque tanto a psicanálise quanto as demais ciências passaram por transformações significativas em suas epistemologias e ontologias e, como consequência, a maneira como se definem e se relacionam não é a mesma de quando a psicanálise foi criada, na passagem do século XIX para o século XX.

A oposição entre ciências humanas e ciências naturais que surgiu nessa época resultou de uma defesa contra a extrapolação progressiva do modelo da física de Newton e Galileu para todos os outros campos do conhecimento. No entanto, esse movimento acirrou de tal maneira esses polos que acabou cristalizando a visão do humano como absolutamente exterior à ordem natural. Firmou-se como axiomática a antinomia entre natureza e liberdade, entre o mundo determinístico dos estados físicos e o universo autônomo da subjetividade. Essa antinomia ontológica foi reduplicada na distinção dos métodos e objetivos adequados para a exploração dos dois reinos — a explicação dos fatos naturais e a compreensão dos processos humanos. Como lembra Simanke:

Muito frequentemente, o debate entre naturalismo e antinaturalismo — em suas variedades metodológicas, epistemológicas e ontológicas — transcorreu, por parte das ciências humanas, como se a versão positivista do naturalismo científico fosse a única concebível, de tal modo que a “resistência” ao positivismo implicasse, por si só, a recusa do naturalismo.3

Nesse quadro, a alocação da psicanálise como um projeto oposto à perspectiva naturalista facilmente se impôs.

Essa recusa teve como base a ideia de que a autonomia, a história e a liberdade, são atributos definidores da experiência humana. Se essas características são fundamentais para nosso entendimento do que é ser humano, então a presença de uma dimensão biofísica material — capaz de interferir e impor determinismo à existência do sujeito — não podia ser aceita na experiência subjetiva. A percepção da natureza como uma totalidade heterônoma, una e internamente integrada, caracterizada pela necessidade e o determinismo de suas relações causais, a tornava logicamente incompatível com as características de contingência e historicidade da experiência humana.

Por isso, durante boa parte do século XX, Freud foi aclamado como um pensador da ruptura entre natureza e cultura, e a sua criação, a psicanálise, foi descrita como um empreendimento radicalmente antinaturalista. A surpreendente publicação do Projeto nos anos 1950 perturbou um pouco essa interpretação, pois revelava Freud entrelaçando neurologia e psicologia numa mesma estratégia descritiva — neurônios e defesa, barreiras de excitação e recalque. No entanto, para muitos, o descarte do Projeto foi considerado o seu Rubicão pessoal. Somente após abandonar o projeto naturalista ele teria alcançado a sua verdadeira conquista, a criação da psicanálise. A peculiaridade do projeto epistemológico inicial de Freud foi deixada à sombra e sua posição como pensador da cultura prevaleceu sobre suas intenções iniciais.

No último quarto do século, porém, o alicerce conceitual que sustentava o dualismo metodológico do início do século começou a sofrer forte revisão, impulsionada pelas descobertas cientificas e inovações tecnológicas que mudaram drasticamente as ciências da vida. Essas mudanças vêm redefinindo o modo como concebemos o mundo natural, as relações entre linguagem simbólica e ordem vital, entre cérebro, mente e mundo. Nesse contexto, a discussão em torno das relações entre psicanálise e as ciências naturais ganham um novo contorno.

O naturalismo excêntrico de Freud

A interrogação acerca da cientificidade da psicanálise não foi levantada por Freud, pois para ele a afinidade entre psicanálise e ciências da natureza era clara. Freud não concebia os estados mentais como independentes dos processos físicos. Para ele a mente era parte do mundo natural, e a ideia de um psiquismo não encarnado estava, para ele, fora de cogitação. Por isso sua ambição era criar uma “psicologia cientifica” — capaz de elucidar a constituição e o funcionamento do psiquismo integrando o físico e o mental, compatibilizando explicações intencionais, baseadas em motivos e razões, explicações mecânicas, baseadas em causas físicas, e explicações evolutivas, decorrentes da ação do organismo humano na cultura. Esse era o seu “cavalo de batalha”, a sua “paixão devoradora”, como disse a Fliess.4

O Projeto de 1895 não foi a primeira, mas foi a mais ambiciosa e sistemática tentativa nessa direção. Não à toa, nele Freud mistura neurônios, barreiras de contato, descarga energética, e conflito, resistência, defesa e o papel crucial da alteridade frente à prematuridade do animal humano. O intento, afinal, não deu certo, mas a convicção que lhe deu origem permaneceu em seu espírito. Mesmo depois de haver abandonado o Projeto, em meio à escrita de A interpretação dos sonhos, ele escreveu a Fliess: “Não tenho a menor inclinação a deixar a psicologia suspensa no ar, sem uma base orgânica. No entanto, à parte essa convicção, não sei como prosseguir nem teórica, nem terapeuticamente, de modo que preciso me comportar como se apenas o psicológico estivesse em exame”.5

Em muitas outras ocasiões essa mesma convicção foi formulada de maneira inequívoca em trechos recorrentemente lembrados: no texto sobre Narcisismo, de 1914: “Devemos nos recordar que todas as nossas ideias provisórias na psicologia serão provavelmente um dia baseadas em uma subestrutura orgânica”; em Além do princípio do prazer, de 1920: “As deficiências de nossa descrição provavelmente desapareceriam se já estivéssemos em condições de substituir os termos psicológicos por outros fisiológicos ou químicos”; em 1938, já no final da vida, em Algumas lições elementares de psicanálise: “Também a psicologia é uma ciência natural — que mais ela poderia ser?”.

Muitas outras citações parecidas podem ser pinçadas na mesma direção. Por isso não parecem muito persuasivas interpretações que descrevem o abandono do Projeto como o momento de ruptura radical entre o Freud neurólogo e o Freud psicanalista — considerações que veem no uso de termos e expressões fisicalistas ou organísmicas na obra a expressão de um autoengano cientificista de Freud, um tributo à atmosfera e aos ideais científicos da época, ou um recurso metafórico (“um manual de neurologia fantástica”, como chegou a dizer Octave Manonni)6 para tratar do que eram, na verdade, fenômenos psicológicos cujo léxico ainda estava para ser construído.

Na verdade, a posição naturalista de Freud e sua defesa da cientificidade da psicanálise são bastante claras e consistentes ao longo de sua obra. Mas o que qualifica de maneira diferente seu naturalismo e o situa numa posição excêntrica à sua época é a recusa ao reducionismo tout court é o entrelaçamento constante que busca promover entre biologia e experiência, entre a dimensão material dos processos fisiológicos, a dimensão fenomenológica da experiência. De modo semelhante, ele defendia o status de ciência para a psicanálise, mas sua concepção de ciência era baseada não em protocolos estabelecidos com base no modelo da física, mas em uma série princípios que lhe garantiam um método aberto de investigação: a formulação de hipóteses fundadas na observação, a testagem dessas hipóteses por meio de pesquisas empíricas, o refinamento e revisão constante de conclusões pra partir de novas evidências e insights e, finalmente, o reconhecimento dos limites e incertezas inerentes a qualquer investigação cientifica — era, por assim dizer, uma definição de ciência “suficientemente boa”.

Freud foi formado em um horizonte epistemológico dominado pelo fisicalismo e pelo reducionismo, com seus grandes mestres alinhados a essas perspectivas, como Helmholtz, Fechner, Herbart e Meynert. No entanto, duas influências foram cruciais para a construção de sua perspectiva inovadora: a experiência clínica com Charcot e a aproximação com a neurologia dinâmica de Jackson.

Na França, diferentemente do que se fazia no ambiente intelectual alemão, a tradição clínica, embora se baseasse em premissas naturalistas, punha a ênfase no polo da clínica e da terapêutica, e não no da pesquisa etiológica e anatômica. Charcot reconhecia que a maioria das patologias mentais, como a histeria, não podia ser explicada por alterações orgânicas e enfatizava a descrição da dinâmica e estrutura dos sinais e sintomas. Já desde os anos 1980, Freud percebia que a relação entre fenômenos psíquicos e processos fisiológicos dependia de elementos extrabiológicos. Ao se deparar com os limites do conhecimento biológico da época, concluiu que era possível investigar a vida mental “como se apenas o psicológico estivesse em exame” — sem a necessidade de correlação entre o sistema funcional psicológico e a materialidade anatômica ou fisiológica do cérebro — e fez da clínica seu novo laboratório de experimentação.

Hughlings Jackson o apresentou a uma descrição do sistema nervoso como um sistema dinâmico, em constante interação com o meio e hierarquicamente estruturado, com circuitos de nível inferior controlando reflexos mais básicos e circuitos de nível superior controlando comportamentos complexos. Na perspectiva jacksoniana, o fenômeno patológico aparecia não como mero déficit, desvio ou disfunção, mas como resposta adaptativa possível a exigências impostas pela relação com o ambiente — ou seja, não como simples desorganização, mas como exercício normativo.

A abordagem dinâmica na neurologia e o primado da observação clínica foram a base para os desdobramentos teóricos por meio dos quais o naturalismo peculiar de Freud abriu caminho para a criação da psicanálise. Essa peculiaridade pode ser entrevista de maneira clara no Projeto, e um dos momentos em que ela se apresenta de forma muito eloquente é na análise da vivência de satisfação.

Esta é uma das ideias mais fundamentais do Projeto e permanecerá como um dos pilares da psicanálise, pois é uma peça-chave na maneira como Freud descreve a estruturação do aparelho psíquico e a emergência do desejo. A vivência de satisfação decorre da prematuridade que caracteriza a espécie humana e lança o bebê humano num estado de dependência total. Exposto a estados de necessidade ou privação que produzem tensões internas, o bebê tenta livrar-se delas. O choro, os gritos e a agitação são acolhidos pelo cuidador que decifra, nomeia e atende à necessidade que acolhe como uma demanda. O que era apenas descarga de tensão pela via motora ganha sentido e é introduzido como uma mensagem no universo simbólico instanciado pela presença de outros humanos ao seu redor. Desse modo, à função primeira de descarga se acrescenta outra, secundária — a de comunicar um estado de necessidade, e um apelo. A experiência de agonia e vazio causada pela fome é transformada em experiência de plenitude e satisfação pela provisão adequada que ela recebe do ambiente.

Mas de que modo essa experiência se liga à emergência do desejo nos humanos, já que o circuito privação-tensão-oferecimento do objeto-satisfação também pode ser suposto em qualquer mamífero? Aqui Freud acentua o papel crucial da linguagem e da ordem simbólica na inauguração do psiquismo humano. As manifestações corporais da criança na primeira experiência de satisfação não têm intencionalidade comunicativa. O bebê não comunica nada, apenas reage ao mal-estar que sente. Suas reações só ganham sentido na medida em que o outro, a mãe, envolve aquela manifestação errática com uma significação, tomando-a como uma demanda. Ao interpretar o grito como um apelo, a mãe refere a experiência da criança ao campo semântico e ao universo linguístico nos quais ela própria está tomada, ao campo desejante do qual ela já faz parte. Assim, desde o início, a existência humana é regida pela presença da linguagem, que medeia e modula a relação entre seus impulsos e os objetos para os quais se destinam. O universo infinito de sentidos propiciado pela linguagem subverte a relação direta entre necessidade e objeto, criando um campo em que o desejo se volta para objetos que se multiplicam, se substituem, se deslocam, jamais reeditando a experiência originária de plena satisfação. No momento inaugural do psiquismo, portanto, os mecanismos da máquina neurobiológica humana mostram sua imbricação originária com o plano da intersubjetividade. A ordem natural e a ordem simbólica precisam necessariamente se entrecruzar para que a vida psíquica aconteça.

Psicanálise e ciências da vida hoje

A tensão inerente ao naturalismo do tipo peculiar que Freud adotou encontra no cenário das ciências natureza atuais um caminho fértil para seu desdobramento. Isso porque os estudos sobre plasticidade, epigenética e emergência vêm promovendo uma verdadeira mudança do horizonte dessas ciências, uma transformação paradigmática dos seus postulados fundacionais.

O postulado básico do materialismo adotado nas ciências da natureza contemporâneas é a premissa da incompletude ontológica da realidade, algo que as coloca em afinidade eletiva para com a abordagem psicanalítica da experiência humana. Embora esse axioma conste de modo mais explícito na obra lacaniana, ele está presente nos conceitos axiais de todas as orientações teórico-clínicas. A natureza já não pode mais ser capturada nos termos em que era descrita no dualismo natureza-cultura. Ao contrário, ela comporta muitos dos atributos que essa visão supunha estar fora dela, como a historicidade, a imprevisibilidade, a incerteza, a inconsistência interna e a recursividade.

A ideia de natureza como totalidade homogênea, determinada e em permanente equilíbrio já não mais se apresenta como uma descrição adequada do universo natural. A imagem compatível com esse novo cenário epistêmico é a de um campo aberto e em permanente mudança, permeada por rupturas e inconsistências, sempre se desequilibrando e reequilibrando novamente, que incorpora um caráter dialético que lhe havia sido recusado enquanto a negatividade e o devir ficaram reservados à história.

Na biologia da mente contemporânea, determinismo e liberdade, necessidade e acaso se interpenetram produzindo uma historicidade comum ao cérebro e ao sujeito, permitindo à psicanálise e às ciências da vida explorar uma questão comum aos dois, a emergência da singularidade — material e simbólica. Como sublinham Ansermet e Magistretti,

As leis universais definidas na neurobiologia conduzem assim, inevitavelmente, a produzir o singular. A questão do sujeito, como exceção ao universal, se torna, portanto central tanto para as neurociências quanto para a psicanálise, trazendo a um ponto de reencontro inesperado esses dois protagonistas, tão habituados a serem antagonistas.7

A abertura dessa perspectiva vem ensejando nas últimas duas décadas uma imensa produção na interface ente os dois campos, bastante heterogênea em suas ambições e apostas.8 Mas ela também se depara com uma forte resistência. Embora esta possa ser encontrada em todo o espectro das orientações teóricas, essa resistência tende a ser mais acentuada no campo lacaniano, apesar de muitas aproximações entre os campos serem realizadas por adeptos dessa orientação. Essas vozes críticas sustentam que o conceito de real e a insubstancialidade do sujeito do inconsciente evidenciam a incompatibilidade insuperável dos dois universos.9

No início de sua trajetória, Lacan desenvolveu a partir de Koyré a ideia de que o traço fundador da ciência moderna é a premissa de que o real é governado por leis que expressam sua consistência interna, e a ciência é o método que nos permite desvendar essas leis, abrindo assim a caixa preta do real. Isso explicaria a estratégia de Lacan para aproximar a psicanálise do campo da ciência por meio de alguma forma de matematização da experiência analítica. Essa perspectiva permite descrever o inconsciente como sendo constituído por significantes organizados de acordo com as leis da linguagem, o próprio sujeito sendo causado por elas, sendo um efeito dessas leis. Essa causalidade própria à psicanálise seria a razão pela qual o projeto psicanalítico não poderia ser confundido com uma hermenêutica, aproximando-se mais do campo cientifico.10

Gradualmente esse postulado básico foi cedendo lugar a uma concepção do real fundado num materialismo de corte diferente, assentado na premissa da incompletude ontológica da realidade. O real que se apresenta então é um real “sem lei”, fissurado e inconsistente em sua essência, marcado pela contingência e, portanto, pela impossibilidade de ser exaustivamente conhecido. Essa ausência de lei, expressa no conhecido axioma “não existe relação sexual”, é o cerne do real que caracteriza a perspectiva psicanalítica — e que estabeleceria um contraste irreconciliável com o campo da ciência.

Esse contraste, porém, não se sustenta mais facilmente. Já no início do século XX a revolução na física trouxe a contingência e o princípio de indeterminação para dentro da realidade material. Na segunda metade do século o mesmo movimento foi também realizado pelas ciências da vida. Com as neurociências, a epigenética e os estudos sobre complexidade e emergência, a biomaterialidade da natureza mostrou-se muito mais instável e menos rigidamente estruturada do que se pensava. A descoberta dos fenômenos de neuroplasticidade redescreveu inteiramente o cérebro humano. O que antes era percebido como uma espécie de hardware de uma máquina pensante, revelou-se, como diz Catherine Malabou, um órgão que funciona “dialeticamente”, se organizando e se reorganizando continuamente, oscilando entre uma “flexibilidade maleável” e uma “fixidez resistente”.11

Desse modo, a negatividade e a contingência inscritas no real psicanalítico não deveriam ser tomadas como impossibilidade do diálogo entre psicanálise e neurociências. Pelo contrário, apesar do aparente paradoxo, essa negatividade aponta para uma dimensão estruturalmente inerente a ambos os campos e cria potencialmente um terreno fértil o compartilhamento de questões.

Algo parecido ocorre com as objeções que veem na insubstancialidade do sujeito lacaniano o obstáculo. Para Adrian Johnston,12 a grande oportunidade aberta pelas ciências da vida é justamente a possibilidade de incluir nas suas pesquisas o real, o sujeito e sua negatividade radical. Uma das formulações que seguem essa intuição é o conceito de anorgânico, que ele propõe como forma de superar dialeticamente o antagonismo natural versus não natural. A partir do reconhecimento das ciências biológicas de que há “algo mais que natural” na própria natureza, Johnston opõe o anorgânico ao inorgânico. Enquanto o inorgânico se situa por definição como fora do campo orgânico, em contraste externo com ele, o anorgânico se refere a uma negação do orgânico no interior do próprio orgânico. Ele exprime o impasse, o conflito, e a incompletude no interior da lei natural, que abre espaço para a emergência de algo não-natural — vindo não de fora do natural, mas de dentro, evidenciando uma fissura ontológica fundamental. O natural se torna essencialmente mais que natural, o biológico se torna mais do que bio-lógico.13 A contingência e a incerteza expressam o próprio funcionamento do fenômeno vital. Algo que ressoa na conhecida formulação de Ansermet e Magistretti: os humanos são “geneticamente determinados a não serem determinados pelos genes”.14

As ciências da vida atuais nos fazem enxergar o cérebro como um órgão cuja estrutura é atravessada por tensões e contraposições entre sistemas — estruturas subcorticais, afetivas, não representacionais, em tensão com estruturas neocorticais, representacionais, auto-reflexivas, por exemplo. Essa impossibilidade estrutural de relações harmônicas intracerebrais é o solo no qual o sujeito surge como resposta singular a ela.

Afirmar o sujeito como insubstancial e irredutível a qualquer forma de objetificação não significa dizer que não há relação alguma entre o sujeito e o cérebro. O sujeito não se encontra em exterioridade absoluta em relação ao neural. Ele é efeito do funcionamento da própria natureza incompleta do cérebro humano.

Qualificando o debate

Vemos assim que a ambição freudiana inicial voltou a fazer parte da agenda. A discussão das relações da psicanálise com as neurociências tornou-se incontornável e está presente em todas as orientações teórico-clínicas. O simples fato de que a expressão neuropsicanálise lacaniana deixou de ser um oximoro é, nesse sentido, bastante revelador.

O engajamento da psicanálise num diálogo desassombrado, aberto, e rigoroso com as diversas ciências que contribuem para a compreensão da vida subjetiva é de interesse mútuo. Para a psicanálise, porque permite que ela seja exposta e responda aos desafios colocados outras perspectivas teóricas o que lhe permite calibrar melhor seus próprios conceitos. Para as neurociências, porque para estudar o cérebro elas precisam partir de uma teoria da mente. São os conceitos dessa teoria que informam os fenômenos cuja dinâmica biológica as neurociências investigam. Achados empíricos precisam ser interpretados para ganharem consistência heurística. E para isso, como disse Kandel, a psicanálise continua sendo a teoria mais rica e complexa de que dispomos.15

Mas é preciso sempre lembrar que as neurociências não estão em posição de ocupar o lugar de sujeito suposto saber da psicanálise. A independência epistemológica de ambos os campos não está em questão. Como lembra Bazin, “assim como a biologia é independente da química, mas não a nega nem elimina, a psicanálise é independente das neurociências, mas tampouco a nega ou a elimina”.16 A interação entre os campos não tem como objetivo dar caução científica para os conceitos psicanalíticos. A autoridade teórica da psicanálise é extraída da clínica, a matriz fundamental de sua originalidade epistêmica. O diálogo tampouco visa resolver o gap entre o cérebro e o psiquismo. Para a psicanálise, se trata fundamentalmente de manter vivo o espírito inquiridor de Freud e, como sugere Zizek, explorar o alcance (e os limites) da conversa entre os dois campos, no esforço permanente de esclarecer seus “silêncios e impossibilidades inerentes” .17