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Entre a melancolia etnográfica e o requinte gastrosófico: relendo Tristes trópicos como uma antropóloga social do século XXI1

Denilson Baniwa

Já há muitas décadas, Tristes trópicos, de Claude Lévi-Strauss (1955), encontra-se na lista dos textos obrigatórios para os alunos de antropologia social e cultural, sendo produto do trabalho de campo do eminente etnógrafo francês. À medida que a temática da antropologia cultural, nesse período, alterou-se completamente — assim como se transformaram tanto o mundo no interior do qual pesquisamos quanto as condições dos povos com os quais realizamos nossas pesquisas —, a obra Tristes trópicos, de algum modo, recolheu-se rumo a uma distância familiar. Permanece a marca do etnógrafo solitário e o profundo lamento de Lévi-Strauss relativo à perda. O autor retrata “os indígenas” do Brasil como condenados. Eles estavam sendo convertidos, perseguidos, roubados, mortos por epidemias e armas, mesmo na época do trabalho de campo do autor, ao final dos anos 1930. E nesse momento, segundo a leitura de Lévi-Strauss, nada havia sido “real”. Teria Claude Lévi-Strauss ainda encontrado fragmentos de uma autenticidade anterior? Assim, qual seria a relevância de Tristes trópicos para a percepção da antropologia cultural hoje, no início do século XXI?

A releitura de Tristes trópicos é, sem dúvida, uma experiência empolgante. Somos, novamente, carregados pela linguagem eloquente do erudito acadêmico, por meio dos esboços, de precisão incomum, da paisagem e da arquitetura, e graças a seu diagnóstico da América Latina na primeira metade do século XX. Os leitores atuais empatizam com a devastação e as surreais consequências da colonização. Mas, já desde os capítulos nos quais Claude Lévi-Strauss torna-se etnógrafo e os trechos voltados ao seu trabalho de campo, parte da leitura não é de digestão muito fácil. Que tipo de etnografia seria essa, hoje?

As circunstâncias gerais são amplamente conhecidas e vale a pena relembrá-las. O jovem Claude Lévi-Strauss nasce em 1908, filho de um pai artista e de uma mãe bastante musical, que era também uma cozinheira de mão cheia. Ele cresce em um ambiente burguês judeu-alsaciano, em um momento de declínio da burguesia da França. Seus pais acabam em Cévennes, onde mantêm uma criação de bicho-da-seda. Por meio da filosofia, da literatura, do direito, do marxismo, da linguística, da geologia e também da história, Claude Levi-Strauss torna-se cientista e, de modo bastante acidental, etnólogo. Ele também era escritor, esteta e amante de Leicas, um profundo conhecedor da música europeia, um gourmand e talvez até mesmo uma espécie de gastrósofo (Loyer, 2019, p. 63). Lévi-Strauss é convidado a lecionar sociologia da Universidade de São Paulo nos anos 1930. O sistema educacional brasileiro moderno estava sendo constituído e jovens intelectuais franceses estavam oferecendo sua contribuição.

De acordo com seus próprios relatos, Claude Lévi-Strauss passou por seu “batismo”, desenvolveu sua prática e atingiu sua maturidade como etnólogo durante vários estudos de campo realizados junto aos “indígenas” — os Caduveo, os Bororo, os Nambiquara e outros grupos. Apesar de suas estadias breves, ele obteve insights preciosos com o auxílio de seus métodos de pesquisa e mensuração, da observação atenta, de fotografias, de gravações da língua e de conversas, o que serviria aos seus grandes interesses intelectuais de longo prazo: por um lado, seguir os vestígios dos exploradores do século XVI — por ele, de uma certa maneira, glorificados — e de seus encontros com os “indígenas” (que, segundo Lévi-Strauss, ainda eram algo autênticos à época desses contatos), e, por outro lado, “pesquisar os fundamentos inabaláveis da sociedade humana” (Lévi-Strauss, 1961/1965, p. 389).

Não há perspectiva mais exaltante para o etnógrafo que a de ser o primeiro branco a penetrar numa comunidade indígena (…) Portanto, eu reviveria a experiência dos antigos viajantes, e, por meio dela, o momento crucial do pensamento moderno em que, graças aos grandes descobrimentos, uma humanidade que se julgava completa e concluída recebeu de repente, como uma contrarrevelação, a notícia de que não estava sozinha, de que formava uma peça de um conjunto mais vasto, e de que, para se conhecer, devia primeiramente contemplar nesse espelho sua imagem irreconhecível da qual uma parcela esquecida pelos séculos iria lançar, só para mim, seu primeiro e último reflexo. (Lévi-Strauss, 2004, p. 307)

Após suas expedições no Brasil, Lévi-Strauss retorna à França em 1939. De lá, em 1941, consegue embarcar em um navio a tempo de escapar para os EUA, onde estuda antropologia social e entra em contato com eminentes acadêmicos da época, leciona e escreve como antropólogo, até que retorna à França depois de 1945. No Musée de l’Homme, faz o inventário da coleção que trouxera consigo. Em 1955, publica Tristes Trópicos, o livro que inaugura sua fama com o público acadêmico mais amplo. Outros autores mostram como o livro pôde se tornar tão famoso nesse momento específico, tanto na França quanto em outros países. Claude Lévi-Strauss se torna professor no Centre National de la Recherche Scentifique (CNRS) e é finalmente nomeado etnólogo no Collège de France e eleito membro da Académie Française. Torna-se assim um dos mais importantes etnólogos da França e do século XX, sendo considerado o fundador do estruturalismo etnológico.

Hoje, a pesquisa sobre a obra de Lévi-Strauss é tão volumosa quanto o próprio legado escrito desse acadêmico. Contudo, sua obra também se tornou um ponto de referência a partir do qual podemos reconsiderar seus resultados. Assim, David Price, por exemplo, descreve como, durante sua pesquisa sobre a liderança entre os Nambiquara, ele percebe que sua preocupação em relação “à correção ou incorreção de Lévi-Strauss interfere com sua habilidade de compreender a liderança Nambiquara” (Prie, 1981, p. 687). Acadêmicos apontaram as construções literárias e filosóficas presentes especialmente em Tristes trópicos. No entanto, por mais que concordemos que a obra tenha sido elaborada a partir da imaginação acadêmica ou literária ou alguma estratégia dessa natureza, o livro ainda é bastante reconhecido, lido e mesmo recomendado como um romance de trabalho de campo etnográfico, ou então como um relatório de campo ampliado.

Na antropologia social, Tristes trópicos é criticado como relatório de campo. Mark Munzel, de Marburg, localiza o livro como “uma acadêmica obra de arte total”, chegando a chamar Lévi-Strauss de um “autor de relatos fantásticos” e, Tristes trópicos, de “um predecessor da literatura fantástica”, com suas surreais viagens no tempo, mitos, construções de mundos, etc. (Munzel, 2008, p. 40). O antropólogo social Micheal Kraus, de Gottingen, comenta de modo sucinto: “independente do que aconteça nesse livro, Lévi-Strauss acaba decepcionado” (Kraus, 2000, p. 66). Isso porque, durante suas excursões de campo no Brasil dos anos 1930, Lévi-Strauss acaba mal podendo encontrar os indígenas históricos do século XVI. “O que viram na época, nossos olhos nunca mais avistarão. As civilizações que eles foram os primeiros a observar tinham se desenvolvido segundo linhas diferentes das nossas, mas nem por isso deixaram de alcançar toda a plenitude e toda a perfeição compatíveis com a sua natureza”(Lévi-Strauss, 2004, p. 308)

Para Lévi-Strauss, poucos entre os “indígenas” encontrados nos anos 1930 ainda pareciam genuínos — com exceção de alguns que ele considerava “real”, que haviam preservado um maior grau de originalidade que ele próprio teria sido o primeiro, possivelmente o último, a ver. O autor se decepciona com a decadência, a destruição, as perdas irrefreáveis que se desdobravam diante de seus olhos durante suas viagens. Todavia, os nativos por ele encontrados, em um estado supostamente ainda livre do contato com os europeus, emocionavam-no devido à delicadeza de suas interações entre si e à prontidão em resolver seus conflitos internos. Mas Lévi-Strauss acaba desapontado mesmo após esses encontros:

Esses utensílios rústicos mal merecem o nome de objetos manufaturados… Tudo isso apresenta um aspecto tão informe que o colecionador sente-se desanimado com o mostruário que parece resultar menos da indústria humana que da atividade, observada com lupa, de uma raça gigante de formigas (Lévi-Strauss, 2004, p. 261).

Alguns trechos deixam entrever como, durante suas viagens, produtos materiais eram extraídos dos “indígenas” para serem levados ao acervo do Musée de l’Homme, em Paris:

Que dificuldade para conseguir esses pobres objetos! Às vezes, a distribuição prévia, a toda a família, de nossos anéis, colares e broches de miçangas é insuficiente para estabelecer o indispensável contato amistoso. Até mesmo a oferta de uma quantidade de mil-réis em monstruosa desproporção com a indigência do utensílio deixa o dono indiferente. (Lévi-Strauss, 2004, p. 147)

Mesmo em campo, seus interesses de pesquisa nem sempre eram recebidos com muita boa vontade. Durante sua breve pesquisa de campo inicial, o etnólogo estava interessado em aprender a respeito do consumo de certas larvas brancas. Um homem Caduveo se recusa a mostrar-lhe como elas eram coletadas, o que Lévi-Strauss atribui ao fato de que ele conhecia o desprezo dos brancos por tal prática culinária. Como um futuro etnólogo, ele se sente compelido a lançar mão, em nome da ciência, de um pequeno estratagema:

Mediatamos longamente sobre nosso projeto, como conspiradores. Um índio febril, sozinho numa aldeia abandonada, parece uma presa fácil. Metemos-lhe o machado na mão, sacudimo-lo, empurramo-lo. Esforço inútil, ele parece ignorar por completo o que queremos. Será mais um fracasso? Paciência! Lançamos nosso derradeiro argumento: queremos comer “corós”. Conseguimos arrastar a vítima até defronte de um tronco. Uma machadada revela milhares de canais furados bem no fundo da madeira. Em cada um deles, um bicho grande, de cor creme, bastante parecido com o bicho-da-seda. Agora, precisamos nos decidir. Diante do olhar impassível do índio, decapito minha caça; do corpo escapa uma gordura esbranquiçada, que eu provo, não sem vacilar: tem a consistência e a delicadeza da manteiga, e o sabor do leite de coco. (Lévi-Strauss, 2004, p. 149)

Não há dúvida de que Tristes trópicos seja um livro rico em detalhes, escrito por uma testemunha contemporânea, um fino observador, um meticuloso coletor de notas, um acadêmico e um escritor erudito, e apresente ideias de amplo alcance, com as quais “[ainda] nos confrontamos (Kraus, 2000, p. 81).

Surge a questão: por que o título Tristes trópicos? A obra de Lévi-Strauss se insere em uma percepção intelectual que, desde o século XIX, buscou pensar e digerir a devastação do projeto colonial, o desejo ganancioso da Europa por matérias-primas e terras, a revolução industrial com suas realizações, e também, posteriormente, o declínio europeu decorrente da guerra e do fascismo. A obra também pôde enxergar as devastadoras consequências de tudo isso para uma parte da humanidade:

as sociedades que podemos estudar hoje — em condições que seria ilusório comparar às que prevaleciam há quatro séculos — são apenas corpos debilitados e formas mutiladas. Apesar das enormes distâncias e intermediários de todo tipo (…) elas foram fulminadas por esse monstruoso e incompreensível cataclismo que significou, para uma fração da humanidade tão vasta e tão inocente, o desenvolvimento da civilização ocidental (Lévi-Strauss, 2004, p. 308)

A partir daí, como Lévi-Strauss comenta em Tristes trópicos, a etnografia o salvou:

A etnografia proporciona-me uma satisfação intelectual: como história que une por suas duas extremidades a do mundo e a minha, ela desvenda ao mesmo tempo a razão comum de ambas. Ao me propor estudar o homem, liberta-me da dúvida, pois nele considera essas diferenças e essas mudanças que têm um sentido para todos os homens com exclusão daqueles, próprios a uma só civilização, que desapareceriam se optássemos por nos manter afastados. Por último, ela aplaca esse apetite inquieto e destruidor a que me referi, garantindo à minha reflexão matéria praticamente inesgotável, fornecida pela diversidade dos costumes, dos usos e das instituições. Reconcilia meu caráter e minha vida. (Lévi-Strauss, 2004, p. 56)

Sessenta e cinco anos depois, a história ultrapassou a obra. “Os indígenas”, hoje se denominando povos nativos, não estão de modo algum extintos — embora muitos ainda estejam e permaneçam traumatizados. Já desde o início do livro, os leitores são informados acerca das causas dos rumos tomados pela história até nossos dias, e a obra ainda é altamente tópica em sua orientação histórica. De fato, ficamos quase chocados ao perceber, durante a leitura, há quanto tempo começaram a se formar os atuais dilemas brasileiros, aos quais se juntam, em nossa época, a questão da mudança climática.

Além disso, o próprio Lévi-Strauss acabou se tornando uma figura histórica. Seu trabalho mais amplo, agora, é mantido no Collège de France juntamente com seus diários, notas e cartões de índice. Fascinados, hoje lemos tudo isso em paralelo com os diários de seus companheiros de viagem. Várias gerações de acadêmicos se debruçaram sobre sua obra. Mesmo a crítica feminista bem fundamentada, ou as discussões acerca do fato de ele haver mencionado sua esposa e companheira Dina Dreyfuss apenas uma vez em Tristes trópicos, são abordadas, hoje, em pesquisas críticas sobre o autor. Tais estudiosos também se perguntam “como foi possível que o pressuposto de uma tristeza geral nos trópicos e que um afastamento resignado do encontro concreto com a realidade humana… tenham se tornado a pedra de toque da produção científico-literária da etnologia (Kraus, 2020, p. 82).

A ideia europeia de que os povos nativos do continente americano seriam supostamente passivos e inspiradores de pena, mas também inevitáveis vítimas do colonialismo, e de que os trópicos seriam tristes, ainda hoje paira, cinzenta, sobre a percepção relativa a esse continente.

O Museu Etnográfico da Universidade de Zurich recentemente abrigou uma exposição intitulada “Sem mel, não temos nada para comer”,2 cujo tema é um grupo nativo que vive na fronteira da Bolívia, Paraguai e Brasil. Eles se denominam os Ayoréode, “os humanos”, e atualmente são, em sua maioria, moradores de favelas e agricultores sedentários e empobrecidos, dependentes de missionários. Eles têm sido descridos etnologicamente inúmeras vezes desde 1955. Mas foi apenas recentemente que os antropólogos Volker von Bremen (1991), Lukas Bessire (2014) e Felice Wyndham (2016) passaram a perguntar-lhes cara a cara: “quem são vocês? Quem vocês tem sido?”. Foi apenas recentemente que um cineasta paraguaio, Arami Ullón, pôde escutar o ativista Ayoréo Mateo Sobode Chiqueno e produziu o filme “Apenas el sol”, baseado em memórias e músicas dos sobreviventes recolhidas com um gravador, um documentário que atualmente tem despertado muito interesse, fazendo com que nos lembremos também do filme “Ujirei”, de 2018, do próprio Sobode Chiqueno.

Os Ayoréode — assim como os grupos estudados por Lévi-Strauss — eram nômades caçadores nas florestas áridas e savanas de espinheiros do Gran Chaco. Eles viviam em pequenos grupos nômades. Quando Lévi-Strauss esteve no Brasil, no final dos anos 30 ele talvez tivesse considerado os Ayoréode como membros de um bando, e já antecipado e lamentado sua decisão de se tornarem sedentários. “Dessa maneira, dia a dia, eu tentaria reconstruir a partir de seus últimos fragmentos uma cultura que… bem poderia desaparecer exatamente no dia de minha partida… (Lévi-Strauss, 1961/1965, p. 355).

Também os Ayoréode teriam recebido de Lévi-Strauss seu lugar entre aqueles indígenas originais, pois “[A civilização ocidental] cometeria um erro ao esquecer que [o colonialismo] lhe confere um segundo semblante, não menos verídico e indelével que o outro” (Lévi-Strauss, 2004, p. 308)

É bem possível que Lévi-Strauss tenha estado com os Ayoréode na década de 1930. Como um etnólogo de seu tempo, eles os teria encontrado, assim como ocorreu com os Bororo, os Caduveo e os Nambiquara, em um momento em que os primeiros grupos estavam prestes a decidir se deveriam se fixar, talvez por curiosidade, talvez devido à fome ou a pressões de todo tipo, provavelmente também em função dos embates da Guerra do Chaco no início dos anos 1930, que deixou uma marca tão profunda na paisagem e no povo, ou talvez em razão de pressões internas, ou então simplesmente em antecipação a grandes mudanças.

Lévi-Strauss teria sido um meticuloso coletor de notas e um paciente ouvinte dos bandos Ayoréode. Ele teria provavelmente, em primeiro lugar, documentado sua cor e a designação de seus membros, sua fisionomia e suas “características raciais”, a gramática de sua língua, seus mitos, seu sistema de parentesco, suas regras matrimoniais. Ele teria se interessado por suas relações entre si, suas vidas amorosas, e por sua — à primeira vista — humilde cultura material (todos os pertences contidos na bolsa a tiracolo de alguma mulher), por sua horticultura supostamente “primitiva” e por seu conhecimento acerca da natureza, dos alimentos comestíveis e dos venenos. Tudo isso para compreender quem eles poderiam ter sido anteriormente (Lévi-Strauss, 1978/2020, p. 149, pp. 328, ff.)

Ao fim, uma coisa ainda parece especialmente digna de nota: Lévi-Strauss, como alguém que possuía conhecimento sobre alimentação desde a tenra infância junto à sua mãe, como um gastrósofo em sentido amplo, possuía algo em comum com os nômades caçadores do Brasil que ele visitou por um breve período. Como todos os grupos por ele visitados, mas no caso dos Ayoréode de modo mais pronunciado do que em outros grupos, tendo em vista sua fixação pelo mel das abelhas selvagens (Rattunde, Betancourt e Noack (eds.), 2019), ele possuía intensa paixão pelo paladar:

Mas quem diz abelha diz mel, cuja colheita é possível fazer sem perigo, furando os abrigos das espécies terrestres ou descobrindo numa árvore oca favos de alvéolos esféricos, grandes como ovos. Todas as espécies produzem mel de sabores diferentes — recenseei treze —, mas sempre tão forte que, a exemplo dos Nambiquara, logo aprendemos a diluí-lo em água. Esses aromas penetrantes são analisados em vários tempos, como os vinhos da Borgonha, e seu aspecto estranho desconcerta. Encontrei algo equivalente num condimento da Ásia do Sudeste, extraído das glândulas da barata e que valia o seu peso em ouro. Uma pitadinha é suficiente para perfumar um prato. Muito próximo é também o odor exalado por um coleóptero francês de cor escura, chamado procruste chagriné. (Lévi-Strauss, 2004, p. 254)

Sua educação ofereceu-lhe um profundo apreço e um acesso quase natural aos sistemas de conhecimento culinários de culturas para além da europeia, o que é algo raro entre os etnólogos. Inclusive suas famosas grandes obras, La Pensée Sauvage e Mythologica II: do mel às cinzas apontam para o fato de que a culinária o ocupou durante toda sua vida.

Mas terá ocorrido a Lévi-Strauss a possibilidade de enxergar as coisas ao inverso? Terá o autor pensado que não era ele próprio que estava conhecendo os “indígenas” supostamente remanescentes, mas sim estes últimos que estavam pela primeira vez diante de um melancólico etnólogo francês? Graças a sua apreciação do mel selvagem, as personalidades do etnógrafo e dos indígenas por um momento se encontram enquanto partilham seus gostos refinados. Como observador meticuloso e ouvinte hábil, Lévi-Strauss certamente também descobriu indivíduos que refletiam sobre o mundo e sobre os colonizadores, os missionários e o sedentarismo. Talvez eles também chegassem mesmo a formular algumas ideias iniciais de uma “crítica dos povos nativos” (Graeber e Wengrow, 2021). Esperamos encontrar no arquivo de Lévi-Strauss os traços deixados por tais indivíduos. Ao fim, seria preciso compreender que as questões com que Lévi-Strauss estava às voltas certamente não eram as mesmas daqueles com quem ele havia estado. Os ocidentais ainda não podiam compreender sua “inteligência técnica” (Sigaut, 1994), seus profundos e detalhados conhecimentos sobre a fauna e a flora, sobre as abelhas selvagens ou as bromélias, reunidos em uma visão perspectivista do mundo — em resumo, seus conhecimentos não eram entendidos como uma alternativa àqueles dos povos contemporâneos e autorreflexivos.

Assim, faz sentido que hoje façamos uma leitura “a contrapelo” de Lévi-Strauss e de Tristes trópicos, juntamente com os arquivos de filmes, fotografias, anotações, desenhos e objetos. Faz sentido que tentemos ir além do autor e antropólogo francês. Ele deve ser lido com atenção e cuidado em todas as referências e detalhes de seu arquivo, para que então se descubra aqueles que ele encontrou e que foram por ele testemunhados. Isso não significa que alguma evidência de um “pensamento selvagem” original seja localizada, e sim que contra-histórias sobre povos inteligentes sejam recuperadas; povos em uma busca por vezes desesperada de seu próprio futuro. Os povos indígenas em todo o Brasil — conforme aprendemos com Tristes trópicos e graças ao meticuloso de poder de observação de Lévi-Strauss — trazem consigo todo o necessário para a elaboração de padrões de desenvolvimento alternativos. Contudo, conquistadores e colonizadores pretenderam lançar mão do projeto da “ignorância” (Dilley, 2010). Na ausência de um reconhecimento da coetaneidade, o que já começava, ainda que de modo rudimentar, a se mostrar a Lévi-Strauss, que chegou a partilhar um gosto com os nativos que visitou, ninguém era de fato capaz de escutar tais povos e falar com eles. Parece-me que a questão contrafactual relativa a quem poderia ter reconhecido quem no momento do encontro, e sobre qual seria o futuro comum a ambos, está finalmente começando a ser posta em nosso século.

Até aqui, os povos descritos em Tristes trópicos se prestaram a todo tipo de projeção.