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Ler O acontecimento, de Annie Ernaux, no Brasil, hoje

Abalone 2, Fernanda Galvão

“Nunca me esquecerei desse acontecimento / na vida de minhas retinas tão fatigadas”: esses versos fazem parte de um dos poemas mais célebres da literatura brasileira, “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade. Trata-se de algo aparentemente banal, mas que o poeta caracteriza como um acontecimento: tinha uma pedra no meio do caminho. Desse modo, a caracterização indica que não, o fato de aparecer uma pedra no meio do caminho não é um evento banal; é inesquecível, mesmo que os olhos já tenham visto muita coisa.

Muitas vezes, mais do que os desavisados ou desinteressados supõem, a pedra pode ser um feto. Nesses casos, o caminho é o próprio corpo, e em um primeiro momento não são os olhos que veem o obstáculo, que é sentido na própria carne, de onde deve ser desentranhado. O acontecimento, l’événement: desse modo a escritora francesa Annie Ernaux intitula a obra em que narra o martírio de possuir o próprio corpo quando nele cresce um destino indesejado.

Durante a leitura do relato, como em tantos outros momentos para quem vive na periferia do capitalismo, torna-se claro que a temporalidade em tal sistema produtivo não é homogênea: Ernaux publica O acontecimento nos anos 2000, quando o aborto não é mais um crime em território francês. No entanto, uma leitora vivendo no Brasil, onde o aborto é proibido por lei (e a recente devastação empreendida no país pela extrema-direita parece ter tornado o ato de abortar ainda mais proibido), logo irmana-se à protagonista, uma estudante pobre que engravida no início da década de 1960, aos 20 e poucos anos, por achar que poderia ser livre como um homem.

Por conta da proibição do Estado e de sua condição social — que não limita apenas seu dinheiro, mas também seus contatos — a narradora engendra uma nova forma de olharmos para a jornada do herói, périplo recorrente na literatura ocidental. Em O acontecimento, a jornada da heroína consiste em apostar na recusa absoluta de uma maternidade não escolhida, arbitrária, que a tragaria para um destino de classe do qual ela tentava se desvencilhar (a filha grávida, o filho bêbado, são estereótipos lembrados pela narradora). Na verdade, a palavra maternidade aparece pouco em O acontecimento: sob um ponto de vista moralista, poderíamos dizer que a protagonista é fria, pois, além de não ceder em nenhum momento à tentação imposta socialmente de levar a gravidez adiante, ela não concebe o feto como filho, nomeando as células que crescem em seu útero como isso (ça). Mas aquilo que moralistas podem chamar de frieza, prefiro chamar de autonomia, ou obstinação. Uma vez expulsa do paraíso — não sou livre como um homem — a protagonista enfrentará a lei, a religião, repreensões alheias, dificuldades financeiras e até mesmo certos limites do próprio corpo para poder seguir seu caminho sem ser atravessada pela obrigação de ser mãe repentinamente, como se a descoberta do feto dentro de si também revelasse que a proibição do aborto consiste em enfiar submissão via útero.

A leitora brasileira logo irmana-se à protagonista: em nosso país, em 2023, o aborto é proibido. Certamente a pobreza enviesa a questão da proibição — não só do aborto. Mas ainda me lembro do frio na espinha quando uma amiga revelou que o dono de uma clínica onde pessoas ricas abortam era um militar aposentado. Estava na ativa na época da ditadura militar. Como ainda deve se sentir bem entre instrumentos cirúrgicos em um local clandestino. Em 2023, a leitora brasileira de Ernaux, de mãos dadas com a protagonista, quase lê com o corpo todo: sabe o quanto pode ser torturante querer escolher.

(No Brasil, entre 2018 e 2022, meninas de 10 anos, que têm direito legal ao aborto, foram obrigadas pela justiça a levar o crescimento do feto adiante. Dizem que os juízes tinham argumentos para assim decidir, talvez tenham recorrido às leis divinas; apenas a mobilização de parte da sociedade permitiu que elas tivessem seus direitos garantidos: pois uma outra parte apoiou a decisão judicial, uma das crianças cuja barriga crescia teve sua identidade exposta, e para quem se embasbaca com lunáticos em porta de quartel, saibam que houve quem foi capaz de acampar em frente a um hospital em que se fazem abortos permitidos pela justiça para dissuadir, para intimidar, para punir, para humilhar para, enfim, torturar quem lá dentro estivesse, adultos ou crianças: quanto a uma destas últimas, ela disse que, depois do acontecimento, queria poder voltar a jogar futebol. Deitada na cama, eu delirava tanto com as imagens da odiosa vigília na porta do hospital que acordei como quem tivesse recebido um balde de água sobre o corpo; logicamente, era suor, mas não o mesmo daquelas que entram e saem do Pérola Byington.)

Pode haver, entretanto, consolo na beleza. Depois de consumado o aborto, a protagonista de O acontecimento procura retomar suas atividades habituais, como a escrita de um trabalho de faculdade sobre as mulheres no surrealismo. A concentração para fazê-lo é parca. Então, no dormitório da Universidade, ela escuta A paixão segundo São João, de Bach; beleza e martírio, martírio e sublimidade: mesmo não conhecendo a língua alemã, a protagonista se sente salva, identificando a paixão de Cristo com os meses em que ela se arrastou procurando um modo de libertar seu corpo daquilo. O corpo dela, para sempre atravessado pelo acontecimento, só pode encontrar novamente algum sentido por meio de uma obra que encena uma tortura primordial.

A fazedora de anjos, Pedro Weingärtner, 1908

Em outro momento do relato, a narradora afirma que se fosse representar esse evento de sua vida por um único quadro, pintaria algo como uma natureza morta com os instrumentos que a mulher que realizou o seu aborto dispôs sobre uma mesa, instrumentos cuidadosamente observados pela estudante enquanto esperava que tudo ocorresse. Ao descrever o quadro que comporia, ela afirma que não deve haver em nenhum museu do mundo um Atelier da fazedora de anjos. Nesse momento da leitura, imediatamente me lembrei da tela A fazedora de anjos (1908), do brasileiro Pedro Weingärtner, falecido antes da revolução de 1930. Essa obra está exposta na Pinacoteca do Estado de São Paulo, e não é uma natureza morta como a idealizada por Ernaux, mas um tríptico que encerra, de forma elíptica, uma narrativa; no centro e no canto direito do tríptico, eis o ateliê da fazedora. Talvez a tela de Weingärtner evoque uma espécie de Medeia ao rés do chão, e no lugar de um destino trágico possamos vislumbrar repreensão e moralismo. De todo modo, estamos diante da representação de uma realidade, da realidade que estamos comentando a partir da narrativa de Annie Ernaux; estamos diante de um caminho, de uma paixão, de um acontecimento que pode atravessar a vida de qualquer pessoa com útero e que pode engendrar, para dizer o mínimo, tanto sofrimento. Uma pessoa capaz de gerar dispõe de alguma comunhão com todos os oprimidos do mundo.