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O errante itinerário Nômade

A dialética como procedimento significa, pela contradição experienciada na coisa, pensar por contradições e contra elas.

— Adorno, Negative Dialektik

Isabella Reiche

No início era Junho de 2013. Comecemos então por esse mito de origem.

Junho não foi “raio em céu azul”1 e tampouco pode ser explicado por meio de operações sociologizantes ou reduções economicistas, porque mesmo que ambas as dimensões estejam presentes no fenômeno a luta política tem um caráter subjetivo irredutível. Junho foi uma expressão das contradições internas do lulismo. Foi um fruto de um ávido desejo de radicalizar uma pequena brecha, um avanço diminuto — mas real — na condição social de parte expressiva da população. Até aqui estamos de acordo. Entretanto, a UniNômade2 eleva essa radicalização a um patamar ímpar. Junho teria sido “um terremoto que abalou o sistema político”3 e promoveu uma abertura “daquelas que mudam a história e a antropologia”.4 Junho seria “não uma explosão efêmera, mas uma potentíssima bifurcação”, na qual “as possibilidades de democracia direta nos aparecem (…) potentes”5. Junho teria “pela primeira vez” atacado o “hard power, a estrutura fundamental do poder do Brasil, aqueles que mandam mesmo, independentemente de governos e coalizões”.6 Naquele momento, a “multidão” teria ido ao “deserto”7 e realizado a revolta pura contra o poder, a coletividade tomando em suas mãos o desejo de transformar tudo instantemente: “as jornadas de junho demonstraram que a multidão existe — e excede. Desperta esperanças, estimula desejos, produz comunidade, devém insurgente”8. Nesse tipo de discurso, há uma exaltação pura e simples do fenômeno: as manifestações teriam sido o grande Acontecimento político de nossa geração.

Ora, convém não exagerar na mitologia.

Esse ciclo começou em uma manifestação organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL) com a presença de algumas dezenas, talvez centenas de estudantes e trabalhadores de classe média baixa que lutavam contra o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus da cidade de São Paulo, e de forma mais ampla por um transporte público, gratuito e de qualidade. Essa manifestação foi duramente reprimida pela polícia, o que gerou uma indignação generalizada. Com uma nova rodada de repressão criminosa, as manifestações se alastraram por todo o país. A fagulha disparara uma cizânia de grandes proporções: manifestações que reuniram milhões de pessoas em centenas de municípios. Por algumas semanas, viveu-se um momento de contestação total do poder representativo. Depois de algum tempo, esse ciclo foi encerrado à medida que foi combatido pela esquerda governista — com críticas, estigmas ou falsificações — e apropriado pela direita emergente, conduzindo as manifestações ao esvaziamento das reivindicações sociais radicais e à passagem a um movimento “patriótico” anticorrupção e contrário ao governo. Retirada a presidente, em um golpe de quinta categoria, fingiu-se que tudo estava no seu lugar. Enquanto o novo governo se provava uma descontinuidade para pior, a extrema-direita, que se organizava por vias tortas e subterrâneas, forjou um líder e o alçou ao poder.

Podemos escandir esse discurso em qualquer um desses momentos, dizer que os nexos causais são precários aqui e ali, acusar anacronismos, particularizar e purificar os eventos de sua causalidade histórica posterior, montar linhas cronológicas contrafactuais em que nada disso teria ocorrido. E, no entanto, historicamente, foi o que ocorreu. 2013 não pode ser julgado à luz do que veio depois, mas também não se pode ignorar o caminho tomado pelo processo histórico — quer gostemos desse caminho ou não. Afinal, não vivemos em uma história contrafactual. O fato de o movimento ter sido apropriado por forças reacionárias não significa que ele assim fosse desde a origem. Contudo, foi o que ele se tornou. Se não pensarmos junho dentro do processo histórico mais amplo, fazendo um recorte de um acontecimento singular, sem passado e sem futuro, seremos incapazes de entendê-lo; se deixamos o fenômeno sucumbir diante do processo, subsumindo sua particularidade diante do universal, cometemos o anacronismo de enxergar o desenvolvimento posterior como já dado desde o início. De um lado, a interpretação de junho como Evento; de outro, a do Ovo da Serpente.

Apesar das manifestações de junho terem arejado a política ao fazer pressão popular e tirar o PT do piloto automático governista, o que se seguiu foi apenas uma esmagadora vitória das forças da reação. Falando em Partido da Ordem, Cava sugere um paralelo com a situação de junho de 1848, esmagado pela recomposição do sistema. Defender que junho foi soterrado apenas pelas forças dominantes do “Partido da Ordem”, pelo “Termidor vermelho” das eleições de 2014, pelas guerras culturais, depois por uma falsa oposição entre golpe e impeachment9 é perder de vista que, assim como o governo, nada disso invalida que a multidão carregava, desde o princípio, suas contradições. Tratava-se, quase desde o início, de uma multidão composta em parte por reivindicações democráticas e em parte por elementos fascizantes. Ora, mesmo com muitas dessemelhanças, o paralelo adequado seria com Maio de 68, pois os momentos de cada movimento foram o mesmo: início radical, dificuldade de institucionalizar a mudança e, por fim, a esmagadora vitória das forças da reação.

No entanto, essa avaliação crítica sobre junho desaparece em nome de uma hagiografia da multidão. Nessa mistura de desejo e análise, o elogio desenfreado chega até mesmo aos black blocks. Cocco chamava de totalitários, fascistas e nazistas (!) os críticos às manifestações (muitos equivocados, é fato, mas fascistas?). Totalitário era, dizia ele, o governo Dilma, guiado por uma “lógica do progresso duplamente totalitária”.10 No mesmo texto, tecia louvores à “tática black bloc”, elogiada como uma das “grandes invenções do movimento de junho”.11 A crítica à tática black block não se trata de censura moral, nem mesmo de pudor político, mas de rejeição à forma anárquica e desorganizada que pode ser capaz de defender contra a violência do Estado, mas que é incapaz de ir além da iconoclastia. Que ela tenha exercido uma função importante no confronto imediato com as forças da ordem e na proteção dos manifestantes, isso não significa que ela tenha que ser reconhecida como grande invenção. Aliás, pelo contrário: ela jogava mais água no moinho daqueles que queriam todo custo acabar com as manifestações.

É curioso como tudo parece ter freado a multidão de junho, mas nada de seu futuro é interno a ela mesma, nada que lhe aconteceu foi uma contradição que estivesse no seio daquela multidão. A impressão que se tem é que se ela tivesse livre-trânsito, sem que o governismo tivesse atrapalhado, sem que houvesse resistências do sistema político, sem que Dilma tivesse vencido as eleições de 2014, hoje viveríamos em uma situação edênica. O governo federal realmente teve uma reação grotesca, violenta e inapropriada. Quanto a isso, não há dúvida. Mas a ideia de que junho não prosperou apenas por conta do governo petista ter tomado um caminho errado é unilateral.

O grande ausente dessa narrativa é a direita. Nesse momento de um confronto entre o governo e as ruas, quem aproveitou para organizar os novos atores foram a direita e a extrema-direita. A direita estava muito bem organizada para se vender como o lado rebelde, o polo anti-establishment, especialmente para uma juventude que não se lembrava do país pré-PT. As contestações eleitorais de Aécio, as chantagens e pautas-bomba de Eduardo Cunha e a posterior radicalização promovida pela extrema-direita não encontram espaço na narrativa da UniNômade.

Porém, na concepção da UniNômade, a partir de 2013, tudo seria apenas uma extensão de acontecimentos disparados e afetados por junho: a ocupação das escolas pelos secundaristas, a greve dos garis, o nascimento da Lava-Jato, as manifestações pelo impeachment de Dilma (movimentos “anticorrupção”), a greve dos caminhoneiros. Sobre essa última, em entrevista dada 5 anos depois de junho, Bruno Cava pontua:

Assim como Junho, o Maio caminhoneiro pode vir a deixar de existir, ser destruído, ter suas lideranças neutralizadas e suas demandas neutralizadas/absorvidas, mas seguirá nos afetando, existindo como fantasma inconjuntural. Ainda é cedo para analisar o slogan da intervenção militar e, ao mesmo tempo, tarde demais.

Ele chega mesmo a falar que “Junho de 2013 e Maio de 2018 formam duas metades que se complementam”. Parece não ter relevância o fato de que os líderes da greve clamassem por intervenção militar, o que importa é a potência latente de destruir o sistema político brasileiro. Para Cava, junho prosseguiu como um “espectro” que a tudo afeta mesmo em sua “ausência empírica”12. De fato, as lutas prosseguiram, mas em novas dinâmicas e os movimentos posteriores, ainda que até mesmo inspirados em junho, já começavam a se distanciar dele, tanto em palavras e gestos quanto em formas de organização.

É impressionante como ainda hoje a UniNômade tenta recapturar a potência de junho sem perceber que esse ciclo já foi encerrado — e com a vitória da extrema-direita. O destino daquela potência, não destino inelutável, mas que de qualquer forma se consumou, foi desaguar no apoio ao impeachment e depois na eleição de Bolsonaro. No entanto, ainda hoje se insiste em falar no “Longo Junho”. É preciso uma análise imanente — sem colar etiquetas como “acontecimento” — sob pena de diminuir ou engradecer despropositadamente o fenômeno.

Contudo, o discurso da UniNômade sobre junho oscila entre duas posições. Uma de análise, na qual as manifestações se inserem em um conjunto de explicações causais detalhadas: contradições internas ao lulismo; conexão com o ciclo de lutas da década anterior; esgotamento do projeto tecnicista de Dilma; corrupção nas altas esferas governamentais; índices econômicos adversos; rejeição da violência policial; exigência de serviços públicos qualidade; e, sobretudo, as condições de mobilidade dos centros urbanos. Outra posição, porém, é a expressão de um desejo que fala em “Junho”, com J maiúsculo: um acontecimento inefável, quase místico, que foge a qualquer compreensão e é um enigma esfíngico, que só pode ser sondado servindo-se de uma linguagem que ecoa conceitos teológicos: “As várias causas históricas não são suficientes, contudo, para esgotar o seu sentido. Junho produziu um efeito que excede as próprias causas, uma espécie de suplemento móvel que se destacou da trama de causalidades e que passa a assombrar as conjunturas”.13 Essa passagem de junho para Junho é o passo decisivo para a mistura de mitificação com mistificação, que autoriza a comemoração acrítica do que deveria ser matéria de compreensão.

Aqui, a crítica política se torna crítica filosófica.

Nesse culto a junho é nítido o uso frequente de termos que nos remetem a certo deleuzianismo. Em seu próprio nome, a UniNômade declara filiação ao autor. Em termos filosóficos, essa idealização política da multidão de junho foi inspirada por uma leitura de Deleuze na qual há um privilégio das temáticas do mobilismo, da diferença, da multiplicidade, dos fluxos, das singularidades. Conceitos que tentam captar a realidade sem que sua dinâmica se perca, sem aprisioná-la em uma palavra estática e confortável à consciência. A essa linguagem subjaz a tese de uma fluência eterna do devir, evanescente e contraposta a qualquer forma de representação. Sobre essa tese, uma anotação de uma das influências centrais do deleuzianismo, Nietzsche: “Conhecimento e devir excluem-se. (…) Um mundo em devir não poderia, no sentido rigoroso, ser ‘conceitualizado’ [Begriffen], ser ‘conhecido’”.14 Com essa concepção mobilista, Deleuze elaborou um projeto de reversão da metafísica ocidental, pois é nela que estaria o gérmen do horror que se materializou na história: seu frenesi identificatório — foi ele o responsável por abrir o caminho e justificar a barbárie promovida pelos europeus contra o Outro. Portanto, qualquer pensamento comprometido com a crítica da dominação deveria promover o expurgo dessa metafísica.

No interior dessa tradição da identidade, a dialética seria uma lógica ainda mais insidiosa, porque usaria da artimanha da contradição para, ao fim, fazer com que o Outro fosse totalmente absorvido pelo Mesmo. Por isso, ela foi atacada como parte integrante dessa metafísica potencialmente totalitária. Segundo Deleuze, a década de 1960 era de um “anti-hegelianismo generalizado” na França, momento no qual “a diferença e a repetição tomaram o lugar do idêntico e do negativo, da identidade e da contradição”15. Para ele, a dialética seria incapaz de pensar a diferença enquanto tal, pois dependeria da aplicação de um esquema formal apriorístico, cujo modelo reduziria toda diferença à negação. A dialética surgiria como forma de mediação que a todo momento resulta na conciliação, em uma unidade de opostos que “aceita tudo”.16 Sobre a política resultante desse excesso de conciliação, Cava e Cocco sugerem que, nos anos 1960 e 1970 na França, Hegel seria apenas um “codinome para Stalin”.17 O antídoto filosófico para esse stalinismo mal-ajambrado dos franceses, que se justificava recorrendo à dialética, seria impedir que a diferença chegasse a se tornar uma negação, apreendendo-a como pura diferença, na qual o Outro apareceria como uma figura irredutível ao Mesmo.

A reação a esse Hegel afrancesado, expressão, em larga medida, dos cursos ministrados por Kojève,18 levou alguns a uma unilateralidade radical. É nessa linha que se pode entender a recepção que a UniNômade faz do deleuzianismo:19 uma confusão entre dialética, hegelianismo, culto ao Estado e stalinismo, como se um termo levasse necessariamente ao seguinte. Se a crítica aos três últimos conceitos é necessária, o que dizer da dialética? Não haveria outra forma de lidar com essa tradição? Para suprimir a dialética, procedeu-se à absolutização — e até mesmo à hipóstase — da diferença, a fim de fazer jus à incessante mobilidade do real.

Um autor que retrabalhou a tradição dialética a fim de extrair suas potencialidades foi Adorno. Também leitor de Nietzsche e consciente da homologia entre a metafísica da identidade e a dominação social, o frankfurtiano se recusa, mesmo consciente das dificuldades, a abrir mão da identidade tout court. Na Dialética Negativa, ele escreve: “nada pode ser pensado sem identificação, toda determinação é identificação (…) o ideal da identidade não deve ser simplesmente descartado”.20 Simplesmente. Ou seja, a identidade deve ser resguardada, mas não como ela aparece na tradição. Tendo o dever ético e político de respeitar o não-idêntico, a razão é obrigada a continuar pensando, o que exige a identidade: essa é a sina da filosofia.

Adorno é igualmente crítico da dominação que o universal hegeliano exerce sobre o particular, forçando o não-idêntico a se tornar negativo. Mas ele não estava disposto a deixar Hegel e Marx de lado para recair em um kantismo, nietzscheanismo ou heideggerianismo mal disfarçados. A noção da não-identidade em Adorno aparece como uma forma de fazer a Aufhebung da dialética hegeliana; a não-identidade é gerada a partir de uma contradição específica:21 aquela que reside no atrito entre a singularidade do objeto, particular e concreto, e o pensamento identificatório do sujeito, universal e abstrato. A não-identidade não é uma diferença universal a priori, pois quando se universaliza a diferença é a diferença que se perde. Sobre essa universalização, após citar um trecho da Dialética Negativa, Peter Dews comenta: “o argumento de Adorno é que a pura singularidade é em si uma abstração, o resíduo do pensamento identificatório”.22

O caminho tomado por Deleuze é outro. Trata-se de escapar da suposta dialética platônica do Uno e do Múltiplo tal como ele a projeta em Hegel, pois nela o Uno teria primazia e comandaria o processo, aniquilando as singularidades. Nos rastros de Nietzsche, ele formula uma ontologia mobilista antidialética; porém, essa opção de ontologizar o devir na esperança de preservar a diferença não é mais que uma maneira de formatar o objeto às nossas expectativas de identificação. Por ora, a diferença pura só pode existir como horizonte utópico — apenas em uma sociedade reconciliada a diferença poderia existir sem ser coagida pela dialética. Adorno ataca reiteradamente toda ontologia — mesmo mobilista — por ela não permitir a abertura necessária às mediações e exigências que o objeto impõe ao pensamento. A contradição não é uma diferença domesticada, mas uma forma de pensamento imposta pela própria realidade social, que opera a redução da diferença à negação. O pensamento deve acompanhar esse movimento imanente e negativo do objeto.

Não aceitando esse movimento do negativo, a filosofia da diferença cai em contradição, a despeito de sua intenção professada, ao considerar a imutabilidade do mutável. Os campeões do antiplatonismo revelam-se apenas platônicos colocados de ponta-cabeça e a identidade, que deveria ser abandonada por inteiro, retorna pela porta dos fundos como infinita: “O paradoxo deste puro devir, com a sua capacidade de furtar-se ao presente, é a identidade infinita”.23 Sem mediação, a identidade é reduzida a uma abstração vazia e, então, a crítica que pretendia extirpar que pretendia extirpar o suposto platonismo do pensamento moderno tornou-se apenas um anti-hegelianismo idiossincrático.

Apesar das críticas em contrário, o conceito dialético de identidade não pode ser confundido com a identidade tal qual ela se encontra na tradição pré-dialética.24 O mal-entendido é desfeito pelo próprio Hegel, que critica a identidade vazia, a “identidade-de-entendimento”, “a qual abstrai da diferença”; no entanto, assevera que não se pode “ficar na mera diversidade”, sendo necessário reconhecer “a unidade interior de tudo que existe”25. Na dialética, por mediações, alcança-se uma identidade enriquecida, porque ela preserva a memória da diferença, na qual o particular não desaparece, mas entra como pressuposição da identidade. Se a diferença for decretada de fora, além de reabilitar a identidade mais abstrata, ela se torna apenas um rótulo, uma fantasia do sujeito, e recai no idealismo e no voluntarismo.

Agora, a crítica filosófica da diferença nos leva de volta à política.

Na esteira de junho e contra o voto crítico em Dilma, parte da UniNômade acreditou que era a candidatura de Marina que poderia encampar aquela potência da multidão. Apoiadores de Marina denunciaram, com razão, a virulência com que a campanha de Dilma a tratou, quando, na verdade, ela deveria ter se concentrado, desde o primeiro turno, em derrotar o candidato do PSDB. Grande parte das críticas feitas por Cava e Cocco ao papel do PT na disputa eleitoral de 2014 são acertadas: a tentativa de silenciar junho de 2013, de ignorar as aspirações que motivaram as lutas dos manifestantes, de desdenhar da crise econômica que se desenhava no horizonte, de atacar uma candidata muito mais qualificada que Aécio. No entanto, no segundo turno, começou uma campanha para dizer que não havia nenhuma diferença substantiva entre PT e PSDB; qualquer um representaria o sistema político tentando se recompor contra a multidão, e, portanto, seriam apenas “duas faces de um mesmo esgotamento”.26

Ao mesmo tempo que souberam identificar as dificuldades que o PT tinha imposto a si, ambos não tiveram o mesmo tom crítico com relação à candidatura de Marina. Houve uma tentativa de construir uma terceira via baseada numa militância ecologista, mas logo essa iniciativa foi colonizada. O programa econômico de Marina não era nada mais que um neoliberalismo sonhático. À época, um dos economistas da campanha, declarou em entrevista à Folha: “Tenho visto cada vez mais todos os economistas convergindo para uma agenda neoliberal”.27 É difícil entender como essa plataforma poderia funcionar. As pautas ecológicas e indígenas exigiriam ir muito além da conciliação com um neoliberalismo recauchutado. O que nos permite pensar que o neoliberalismo verde de Marina seria possivelmente tão contraditório quanto o neodesenvolvimentismo tecnicista de Dilma. É verdade que Dilma fez esse giro neoliberal logo depois que foi eleita, traindo suas promessas de campanha — o que explica porque boa parte de seus eleitores demonstrou apatia quanto ao impeachment, já que haviam acreditado na muito propalada “virada à esquerda”, jurada de pés juntos pela militância petista. Talvez um pouco por conta dessa retórica, talvez por considerá-la ainda a melhor opção possível, é preciso lembrar que muitos que estiveram nas ruas em junho votaram em Dilma, mesmo que, depois, tenham perdido a batalha para levar o governo à esquerda.

Nesse mesmo período, houve um curto-circuito. Enquanto a UniNômade celebrava o espírito de junho e se posicionava a favor de Marina, uma de suas grandes influências teóricas fez questão de vir ao Brasil e falar explicitamente a favor da candidatura de Dilma. Ocasião que nos leva, mais uma vez, a uma incursão filosófica.

Antonio Negri foi, e talvez ainda seja, um nome maior da teoria e da política da UniNômade, pois o problema central de Negri é convergente com aquele dos franceses: preservar as lutas, mas livrar-se da dialética. Primeiro, da dialética hegeliana, depois, da dialética tout court. Essa investida total contra a dialética se inicia ao final do ciclo operaísta, no qual, na conclusão do curso Marx além de Marx, ministrado entre 1977 e 78, Negri escreve: “Negar a dialética: essa eterna fórmula do pensamento judeo-cristão”.28

Esse projeto de crítica se aprofunda com a redescoberta que Negri faz de Espinosa, via Deleuze e Matheron.29 Ex-aluno de Althusser, se tornou um especialista em Espinosa, Pierre Macherey lançou, em 1979, um livro cujo título é autoexplicativo: Hegel ou Espinosa. Nos momentos finais da obra, ele escreve: “É Espinosa quem refuta a dialética hegeliana”.30 Em A anomalia selvagem, escrito na mesma época e publicado dois anos depois, Negri retoma a tese de um espinosismo como refutação avant la lettre do hegelianismo: “Parece-me importante insistir sobretudo na crítica (antecipada) a Hegel”.31 O horror à dialética se fundamenta no suposto fato de que ela seria um esquema teleológico que degrada a dinamicidade da prática humana. No entanto, mesmo um grande crítico, que não se deteve nos estereótipos de ocasião, reconhece que não há esse finalismo vulgar em Hegel:

Se a explicitação fornecida pela História hegeliana é apenas a elaboração da definição completa da coisa, a lenta constituição de sua ousía, no sentido aristotélico, seria insuficiente ainda, e até incorreto concebê-la como um processo programado autoritariamente, como o desdobrar-se de uma noção completa já formada (no intelecto divino)32

Sem dúvida, Gérard Lébrun é crítico da dialética. Contudo, na contracorrente da filosofia da época, especialmente das correntes dominantes da filosofia francesa, ele teve um rigor admirável em sua leitura de Hegel e mesmo se estivermos em desacordo com sua crítica, Lébrun fez um trabalho muito bem-vindo de limpar o terreno, de ler Hegel — colocando a Lógica em um lugar tão elevado quanto a Fenomenologia do Espírito. Nesse Hegel redescoberto, ele demonstra com conhecimento abrangente, farta documentação e comentários precisos que a finalidade hegeliana é interna e nesse aspecto Hegel se aproxima de Aristóteles. A enteléquia hegeliana é, assim como a aristotélica, uma possibilidade, não uma certeza — ela não elimina a contingência. O fim aparece como pressuposto ao longo do movimento do objeto, mas pressuposto que se ativa por meio de uma força que o impele ao movimento33. Essa força é a negatividade. Essa seria uma leitura mais rigorosa do desdobramento da dialética da teleologia e da Ideia em Hegel.34 Sem isso, perde-se a noção de processo.

Negri, porém, descarta a dialética em proveito de uma ontologia do imediato, pretendendo acompanhar Spinoza em seu desprezo por qualquer finalismo da matéria35: “Em Spinoza, a realidade não é manipulável, ela não pode ser organizada em uma dialética, ela não pode ser moldada por qualquer manobra teórica”36. Diferentemente dos althusserianos, que decantaram o spinozismo a ponto de o tornarem um anti-humanismo teoricista avesso à prática espontânea,37 o spinozismo de Negri se aparenta muito com o de Deleuze, ou seja, uma “philosophie pratique”, uma filosofia que abriria espaço para uma expansão selvagem do Ser. Essa verdade do spinozismo como ontologia mobilista e materialista, como filosofia da contingência e da liberdade, surgiria na segunda parte da Ética (do capítulo 4 em diante). Nessa “segunda fundação”, Negri descarta a objetividade da noção de atributo, o que nos parece incorreto,38 e valoriza desproporcionalmente a prática humana como o que permitiria o “absoluto na relação entre substância e modalidade”39. Nessa interpretação historicista — criativa e contestável —,40 residiria uma ontologia materialista que se apresenta como teoria do antagonismo social imanente à produção, desvelando a necessidade de uma luta política imediata41.

Essa redescoberta de Spinoza não tem por propósito apenas rejeitar a dialética42 e ativar uma ontologia do antagonismo social hic et nunc, mas também dar início a uma nova teoria política, que seria plenamente desenvolvida por Negri em uma trilogia escrita com Michael Hardt. Retrabalhando, por meio da filosofia deleuziana, um conceito de Spinoza, Negri explica que o novo sujeito revolucionário é uma “multiplicidade que recusa representar-se na Aufhebung dialética”:43 a multidão. Reativar o conceito de multidão seria investir contra uma filosofia política da relação povo-Estado. Essa tradição, afirma Negri, é composta por Hobbes, Rousseau e Hegel. Contra ela, Spinoza surge como filósofo de uma prática constitutiva do real, precursor de Marx, em uma sequência materialista herética já esboçada por Althusser e validada por Negri: Maquiavel, Spinoza e Marx.44

Acontece que essa divisão entre filósofos da mediação burguesa de um lado e filósofos da revolta imediata de outro não se sustenta. Também seria possível questionar o lugar de Maquiavel e Rousseau, mas pensemos em Marx. Primeiro, o entusiasmo por Spinoza não foi partilhado por ele, que desfez qualquer filiação com o spinozismo redivivo do Idealismo Alemão. Em A sagrada família, Marx se coloca ao lado do materialismo francês do XVIII45 contra a metafísica do século anterior. Para um pensamento que, como o de Negri, reivindique em alguma medida a tradição marxista, seria preciso olhar com desconfiança para Spinoza. Segundo, a ideia de que Marx teria criticado “todas as formas dialéticas”46 é entendida de maneira inadequada. Paradoxalmente, criticar toda as formas dialéticas não significa abandonar a dialética sem mais. Se o praticismo imediatista de Negri se aproxima do marxismo de A ideologia alemã, na qual todo discurso teórico é entendido como mistificação e reduzido a pó pelo materialismo historicista, o estatuto da dialética se altera na obra da maturidade. Já nos Grundrisse, mas especialmente no Capital, a filosofia aparece pressuposta e a dialética idealista é criticada de forma imanente ao ser investida na economia política. Por isso, entender a teoria madura de Marx como uma eliminação da dialética é um equívoco em termos teóricos.

Mas não só. Essa compreensão também leva a equívocos políticos.47 Se em Negri Marx aparece como filósofo da revolução imediata, não foi assim que a maior parte da tradição o entendeu. Afinal, Marx falava que a libertação da classe trabalhadora era obra dessa própria classe, mas ele nunca deixou de acentuar a necessidade da organização dessa classe, especialmente na forma de um partido revolucionário. Esses motivos são mais que o suficiente para considerar que a ideia de mediação não é irrelevante no pensamento de Marx e que o praticismo pode se tornar inoperante devido a certa dialética da práxis, certa contradição interna à luta, capaz de fazê-la realizar o oposto daquilo que desejava48. Sem essa crítica da prática imediata, crítica que está pressuposta no pensamento do velho Marx, não haveria o que salvar da política marxista depois da prova dos nove do totalitarismo.

No interior do marxismo, Negri se vincula a uma longa tradição do comunismo de esquerda, que vai dos conselhistas ao autonomismo. Essa tradição teve contribuições teóricas importantes na crítica do autoritarismo bolchevique, mas acreditou que a classe trabalhadora tenderia espontaneamente à consciência revolucionária. Ao abrir mão de qualquer forma de organização, ela não conseguiu fazer um aporte prático relevante, relegando o trabalho revolucionário a uma mera questão de esclarecimento dos operários. A crítica ao leninismo criou um vácuo em termos de organização. No interior da tradição, talvez a melhor resposta a esse problema tenha sido a de Rosa Luxemburgo: um partido de massas muito vinculado às bases. Assim não se abria mão nem da ideia de partido, nem do movimento dos trabalhadores. Nem vanguardismo, nem espontaneísmo.49 Pois entre a consciência da dominação e a consciência da organização política, há uma distância. Certamente não um abismo, como pretendiam os que falavam, e ainda falam, no socialismo como uma consciência adjudicada, pensada pela intelectualidade e enxertada na cabeça dos trabalhadores.

A organização se faz pela prática, mas se a reflexão teórica não existe no dia a dia, mediada por partidos, sindicatos, revistas, intelectuais e pelos próprios trabalhadores, a chance de uma revolta ser incapaz de institucionalizar qualquer forma política é enorme. Negri corre esse risco ao formular uma teoria da revolução sem um projeto de organização, teoria na qual a rebelião multitudinária parece ter uma propensão natural a se tornar revolucionária, sem que nenhuma mediação seja necessária para tanto. No autonomismo, a tática suprime a estratégia, a revolta é cultuada em si, sem projetar nenhum horizonte de emancipação. Assim sendo, para resistir a futuras rebeliões, a recomposição dos poderes constituídos tende a ser ainda mais brutal e conservadora e além dessa restauração a revolta corre o risco de ser capturada por forças ainda mais retrógradas, capazes de direcionar os afetos para uma luta reacionária.

Para além do problema da organização, há outros déficits que afetam o conceito de multidão. A multidão é “composta de um conjunto de singularidades — e com singularidades queremos nos referir aqui a um sujeito social cuja diferença não pode ser reduzida à uniformidade, uma diferença que se mantém diferente”,50 o que nos parece uma forma mais edulcorada de dizer que ela é formada por mônadas ultraindividualizadas postas lado a lado. Uma coletividade sem consensos, apenas diferenças, sendo o único denominador comum o de ser contra: contra o Estado, contra a lei, contra os partidos. Ora, se a multidão não é necessariamente cega e irracional, parece arbitrário pensar que sua potência e imaginação criativa serão sempre positivas. Ela pode também exercer apenas um poder de destruição, poder que pode ser ainda mais severo porque essa multidão não pode ser representada, ela sempre exerce o poder em seu nome, apenas se apresenta.

Conjunto de singularidades, essa multidão seria o sujeito revolucionário contra o Império em uma espécie de comunhão sem fronteiras dos oprimidos mundo afora, não podendo ser entendida como um povo unitário delimitado em sua forma jurídica e política pela soberania do Estado nacional. As determinações nacionais se tornam secundárias frente às semelhanças das lutas, pensadas sob um prisma transnacional, para o qual só existe uma imensa multidão em luta contra um poder global. O fato de que essas lutas têm um caráter particular e que a correlação de forças é específica a cada sociedade fica escamoteado. Mas não só as determinações nacionais, também aquelas de classe. Se Negri tentou evidenciar que o conceito de multidão abarca a ideia de exploração, parece que na economia das determinações, a noção de classe se perde no meio da multidão, o que abre espaço para protestos de bolhas de classe média que agem como representantes de um interesse geral dos explorados.

Finalmente, como teoria política, a filosofia de Negri e Hardt afirma que a democracia seria o poder da multidão, e nada mais. Exercitando o poder como potentia, a multidão seria capaz de, com seus afetos e sua imaginação coletiva, criar novas relações sociais e formas inovadoras de poder constituinte contra a potestas, o poder constituído. Na esteira desse conceito, Cocco escreveu que: “o poder do Estado tem que ser limitado e aquele da multidão precisa ser o mais absoluto possível, ou seja, o mais democrático”51. Essa exigência de absolutização do poder multitudinário nem de longe parece democrática. O que nem sempre fica claro, mas subjaz toda a construção do conceito, é a ideia de que a divisão entre direita e esquerda se tornou obsoleta em proveito de uma outra que é a de multidão contra o poder. A aposta é de que o poder destituinte da multidão poderia, quase como num passe de mágica, tornar-se instituinte sem nenhuma forma de mediação e, assim, destruir o poder do Estado. Enfim, o sonho de que a multidão não só destronasse o rei, mas que tomasse o poder, como se ela pudesse assumir o controle por si só. Por um caminho tortuoso, essa ideia do poder da multidão é ainda aquela antiga noção do poder… popular, segundo a qual bastaria expurgar os representantes e então o povo seria mestre de si — sem clivagens, sem contradições, sem diferenças. A utopia política da diferença se interverte e passa em seu contrário. No lugar do enaltecimento esperançoso e desmesurado, seria preciso uma teoria crítica da multidão e de sua potência.

Nessa mistura de deleuzianismo filosófico e neospinozismo autonomista, aparecem lado a lado a ausência de mediação, o culto ao acontecimento, a exaltação unilateral da rebeldia, a falta de organização, a celebração acrítica da multidão. Junto desses elementos, surge também, como vimos, o furor contra a soberania estatal, considerada o poder. O Estado aparece como um vetor unilateral de dominação e não como um campo de batalha. Estamos às voltas, de novo, com um tipo de unilateralidade e, mais uma vez, com equívocos políticos. Pois partindo dessa premissa, tudo aquilo que for contra o Estado, ou contra o “hard power” da elite política, é automaticamente considerado como um movimento positivo. Disso para a defesa da Lava-Jato, foi um pulo.

Em entrevista de 2016, Cocco assevera:

A novidade da Lava Jato não está apenas num combate ‘pra valer’ à corrupção, mas no fato de que ela conseguiu atacar as dimensões sistêmicas da corrupção e, portanto, não está ‘pegando’ os ‘desvios’, mas o modo de funcionamento da economia e do Estado, ou seja, o modo de reprodução do patrimonialismo mafioso e neocolonial.52

Mas o fato de que o medonho conluio entre procuradores federais e um juiz de primeira instância de Curitiba estivesse apenas atacando a corrupção do outro para encobrir a própria, ou seja, que a operação fizesse parte dessa corrupção sistêmica, não parece ter levantado suspeita.

Em entrevista de setembro de 2017, Cocco diz que as críticas às prisões preventivas indiscriminadas praticadas pela operação eram fracas, “discurso de advogados”.53 Para atropelar a constituição e o código de processo penal, Cocco tem uma justificativa: “as condições infernais de tratamento judiciário e prisional reservado aos pobres”. Nessa lógica, não se deveria garantir que o sistema penal e carcerário funcionasse adequadamente para todos, mas usar o fato de que ele funciona de maneira criminosa contra os pobres para que ele também seja criminoso contra os demais, tudo ao arrepio da lei — o resto seria apenas “garantismo” animado por “cinismo” 54. O que importa é que a Lava-Jato teria sido impiedosa contra a corrupção estatal, mas que a Constituição esteja em frangalhos é um pormenor jurídico; que a economia esteja destroçada por uma sanha punitivista, um detalhe.

Na mesma entrevista, Cocco usa a delação de Palocci para explicar que “não há nenhuma nuance, nenhuma diferença entre o governo Lula (liderado por Palocci e Meirelles), o governo Dilma (liderado por Mantega e Barbosa) e o governo Temer (liderado por Meirelles), quem manda são sempre os mesmos interesses das grandes empresas e de seus lobistas”. É notável o uso da palavra nenhuma. Em qualquer Estado assentado sobre o modo de produção capitalista, é a burguesia que domina, direta ou indiretamente, o aparato estatal. Mas ficar apenas nessa análise nos levaria a um revolucionarismo abstrato. Afinal, faz sentido dizer que não havia nenhuma diferença entre tais governos? Por mais que o PT tenha adoecido de governismo, não é o caso. Além disso, caberia ao menos tomar cuidado com a Lava-Jato e seus métodos: a delação de Palocci se provou, pouco tempo depois, inútil, quando não mentirosa.55

Alguém poderia pensar que eram apenas posições de uma época que muitos embarcaram em uma canoa furada. Mas não. Em resenha publicada no Estado da Arte em abril de 2021, intitulada #Nósnão, Cava escreve:

desviado dos enredos admonitórios do bem contra o mal, Idelber reconhece como a Lava Jato foi uma verdade, como foi efetiva e mudou a paisagem. E mais: como a Lava Jato em todas suas múltiplas vertentes se baseou na exposição de uma verdade: os discursos heroicos, épicos, do Brasil finalmente reconciliado com a trajetória de seu destino maior não passavam de viabilizadores da safadeza de sempre. Se a ditadura desenvolvimentista de Geisel deixou como herança maldita a hiperinflação, o desenvolvimentismo ditatorial de Dilma legou-nos a hipercorrupção. É uma realidade histórica que não se apagará pela ação de panfletos partidários.56

Ou seja, em 2021, Cava persistia na visão de que a Lava Jato teve ao menos um lado positivo, uma verdade. Mesmo depois das revelações da VazaJato, das piruetas jurídicas para validar a prisão em segunda instância, da ridícula peça de Moro que “fundamentou” a prisão de Lula, da irresponsável devassa que a operação causou na economia nacional. Para fechar com chave de ouro, o anátema liberal do paralelo entre o desenvolvimentismo de Geisel e o de Dilma. Não há crítica imanente do governo Dilma, apenas um rótulo: “ditatorial”. Preferem acreditar em uma verdade do juridicismo salvífico do que propor uma análise detalhada da operação.

Enquanto a Lava-Jato corria solta e o PT era fustigado, o golpe contra o governo Dilma começava a engrenar. Nesse período, a UniNômade publicou uma série de textos nos quais a tese dominante era a de que não se tratava de um golpe. O título de um deles é literal: “O Golpe que não houve”.57 Em texto no qual Cava parece endossar a ideia de novas eleições, ideia defendida por Marina Silva e Luciana Genro, ele escreveu: “O discurso do golpe de estado segue firme e forte na boca dos militantes governistas, embora não haja evidências de um golpe de estado em orquestração”.58 No texto, os protestos de 2015–2016 surgem como uma continuação natural do espírito de 2013 e para preservar esse espírito, Cava diz que “não era caso de ser contra ou a favor do impeachment como não faz sentido ser a favor ou contra uma piada”.59 A comparação de um processo político altamente complexo com uma piada soa despropositada e blasé, mas, se insistirmos nela, seria preciso pontuar: o impeachment foi uma piada de muito mal gosto e faz todo sentido não apenas não achar graça como ser contra.

Não chamar as coisas pelo nome é um erro político grave. Dizer isso não significa encampar as teses oficiais do PT. Dialeticamente, é possível compreender a essência do processo — golpista — e continuar fazendo as devidas críticas ao PT. Para analisar a contradição existente, nosso primeiro editorial, que foi também a apresentação da revista, dizia que se tratava de um processo “golpista-eleitoral”.60 O governo Dilma merece um juízo severo, mas era preciso saber que o que estava por vir seria infinitamente pior. Se não por toda a questão econômica, social e política, também porque haveria muito menos espaço de disputa. Por isso, naquele momento, seria preciso dizer em alto e bom tom “somos contra o golpe” e não tergiversar sobre a história do conceito de golpe, por que o golpe de agora não é igual ao de 1964, como as leis e o ritual jurídico foram devidamente obedecidos ou não, etc.

É nesse cenário do pós-golpe que a UniNômade consuma publicamente a ruptura com Negri.

O passado marxista de Negri ecoa constantemente quando ele percebe os perigos fascizantes da multidão. Mas o spinozismo sem peias faz a UniNômade descambar para uma espécie de adesão irrestrita à multidão e seu movimento, seja black block, seja contra o governo, seja para derrubar uma presidente, seja para o que for. Não pode haver contradição no interior da multidão, apenas multiplicidades que desejam o mesmo: a radicalização da democracia. O que se liquida é a crítica in toto, ou se vai junto com a multidão, ou se é um fascista, conservador, reacionário que quer coagular o poder constituinte. Mas o desejo pelo comum foi corrompido. Movimentos acéfalos são propícios a derivas autoritárias. Pois essa ausência de um líder, na maioria dos casos, não é um desejo, mas uma lacuna.

A multidão espera que chegue o Messias que vai guiá-la. A não ser que ela esteja em constante sintonia com alguma organização viva e dinâmica, ela recairá nos braços de um tirano. Negri o percebeu: “Os protestos parecem inventar novas formas de luta. O poder constituinte está aí e, neste aqui e agora, se apresenta como incontornável, mas também vulnerável a aventuras reacionárias”.61 Havia, sim, um gérmen neofascista no interior daquelas manifestações. Claro que isso não seria o suficiente para classificá-las — de forma generalista e errada — de fascistas, o que foi feito por parte do governo. Seria preciso abrir canais de diálogo e propor reformas radicais que atendessem aos anseios mais à esquerda.

Em 2014, Negri concede uma entrevista, bem ponderada, em que se mostrava favorável aos movimentos de rua e fazia a crítica da forma como o governo lidava com eles, inclusive apontando para o erro de receber os grandes eventos internacionais.62 Dois anos depois, em outra entrevista, Negri defendia uma posição bastante razoável, na qual criticava o avanço da direita, mas nem de longe isentava o PT dos erros cometidos, especialmente daqueles do governo Dilma, destacando a completa incompreensão do partido sobre o que se passou em 2013.63 Em outra entrevista, de 2017, Negri mostra-se mais uma vez lúcido, criticando duramente o PT e apontando alternativas para a crise profunda na qual a esquerda se encontrava, mas sem deixar de assinalar que “também no Brasil o ciclo neoliberal está distante de sua conclusão, mas é evidente que o “golpe de Estado”, além de atingir o PT, atingiu o sistema e a Constituição de 1988, enfraqueceu-o, talvez tenha bloqueado as articulações e a capacidade de mediação do poder”.64 Por fim, o texto de Negri sobre a eleição de Bolsonaro funciona bem tanto como análise política de conjuntura quanto como autocrítica de suas posições autonomistas.65

O que Negri percebeu — e que escapou a Cava e Cocco — é que quem estava preparado para capturar essa potência da multidão era a direita e que logo toda aquela força das ruas se voltaria para um projeto contrário à esquerda, fosse ela institucional ou não. Por conta disso, apesar de ter se impressionado positivamente com junho, Negri não nutriu ilusões quanto àquela multidão e conteve suas expectativas quando percebeu que ela começava a se dirigir por um caminho perigoso. Além disso, o fato de Negri aderir, mesmo que criticamente, à ideia de que o impeachment foi um golpe foi indigesta para seus correligionários brasileiros.

A UniNômade, porém, queria ser mais negriana que Negri e, reivindicando seus ensinamentos teóricos, dizia que ele estava completamente errado. Para eles, quando Negri aceita a “narrativa” do golpe — traindo a multidão de junho —, ele reabilita um discurso totalitário, que clama pela defesa do partido. No texto que marca de forma definitiva o afastamento, lê-se: “O tal golpe nada mais é que o nome da matriz irresponsável de narrativas com o que se impossibilita ex ante qualquer análise material, diagnóstico consistente ou posicionamento teórico-político eficaz”. Apoiar o PT nesse momento seria apenas recapitular o servilismo de parte da esquerda que durante décadas se ajoelhou para Stálin (!), o que demonstraria que Negri ainda não acertou as contas com o socialismo real. Em um dos últimos parágrafos, há, de uma só vez, uma crítica a Dardot, Laval, Harvey, Negri, Boaventura Sousa Santos e Atílio Bóron. Criptostalinistas, todos estariam errados.66

Recentemente, foi sobre a Guerra da Ucrânia que mais uma vez essas ideias vieram à baila. Cava e Cocco se colocam resolutamente contra Putin, mas pouco falam sobre Zelensky e a Otan. Qual a posição do corpo editorial da Rosa? O texto diz que a guerra foi deflagrada por Putin, mas faz uma menção importante à “arrogância do bloco liderado pelos Estados Unidos, que teve livre curso após a derrocada da União Soviética, especialmente quanto à política militar projetada para o continente europeu”.67 Não parece que essa posição esteja em convergência com aquela da UniNômade. Ainda nessa linha, o texto de Cava sobre Gorbatchov, publicado no número 7.1 desta Revista Rosa. Qual o sentido de tentar sondar as intenções do último líder soviético? Gorbatchov seria um bom exemplo de socialismo democrático? Sendo materialistas, não deveríamos nos preocupar com os efeitos práticos de sua liderança, não deveríamos pensar na crise econômica que se abateu sobre a Rússia durante os anos 1990 e possibilitou a ascensão e consolidação do nacionalismo reacionário de Putin? Esse último tema, a nosso ver fundamental, aparece apenas de relance, no parágrafo final do texto.68

Isso nos leva, enfim, à pergunta que motivou esse texto: o que distancia o projeto crítico da Rosa daquele da UniNomade? Tentamos evidenciar os pressupostos teóricos e políticos de uma diferença que apenas na aparência é pequena e sutil — essa distância está muito longe de ser uma filigrana teórica ou uma ninharia política. Rosa é uma revista que preza pela pluralidade e pela democracia, mas que segue uma diretriz clara, expressa por seu texto de apresentação. Politicamente, Rosa pretende ocupar o espaço entre o adesismo acrítico e o idealismo voluntarista: uma crítica de esquerda que não seja conivente com os desfeitos da própria esquerda, mas que tampouco sirva de bucha de canhão para o outro lado. Se para a UniNômade o “socialismo” e a “ideia de esquerda” parecem “esgotados”,69 Rosa reafirma a polaridade esquerda e direita — porque, na prática, essa polaridade nunca desapareceu — e insiste que a saída se encontra à esquerda, desde que ela seja crítica, democrática e ecológica.

No caso brasileiro, essa diferença se traduz em reconhecer que: a crítica ao PT não invalida que o impeachment tenha sido um golpe; que a oposição se aproveitou do fato de o governo não ter sabido lidar com a atmosfera de radicalização; que a partir de certo ponto já não se tratava mais de uma multidão em rede, mas de manifestações claramente organizadas, guiadas e capitaneadas por grupos de direita e, às vezes, de extrema-direita; que o espírito de junho foi capturado, sobretudo, pela extrema-direita, em um processo intrincado e que ainda não foi devidamente entendido, mas que culminou com a eleição de Bolsonaro. Ou seja, reconhecer que houve, para ambos os lados, um esgotamento do ciclo junho, que se encerrou e, por isso, mesmo que novas agitações, protestos ou movimento ocupem as ruas, já não devemos pensá-lo pelo prisma de junho, sob pena de não reconhecer o novo que poderá estar diante de nós. Não entender essas rupturas é trair o próprio espírito de junho que Cava e Cocco tanto defendem.

No final de um dos textos de seu recente livro de ensaios, comentando sobre a Realpolitik, Rodrigo Nunes diz que “uma política que se pretende transformativa precisa necessariamente trabalhar ao mesmo tempo dentro dos limites do possível e sobre esses próprios limites, de modo a ampliá-los”.70 Quer gostemos ou não, hoje não há, fora do PT, uma força de centro-esquerda ou de esquerda suficientemente estruturada para alcançar vitórias eleitorais diante do neofascismo, ou seja, em termos eleitorais, o PT continua sendo o limite objetivo da política progressista, sem esquecer também do minoritário Psol. Desde que sejam devidamente pressionados, são eles que hoje podem expressar as demandas progressistas no interior do sistema político. Ao mesmo tempo, o horizonte do PT nos parece rebaixado, daí trabalhar sobre seus limites, mas também — e sobretudo — para além desses limites. A missão de Rosa é ajudar na rearticulação de uma esquerda que não se contente com a experiência petista, mas que não ceda à ilusão do imediatismo da revolta.