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49 dias — uma conversa interna com o livro Expedição: nebulosa, de Marília Garcia

Linha, vento, Fernanda Galvão

                no final de maio deste ano, o último livro de poesia da marília garcia,

o expedição: nebulosa chegou por aqui, na minha bolha

 

e qd ele chegou,         decidi deixar ele passar na frente de outros livros,

pra ver se ele me fazia sonhar um pouco antes de dormir,                 sonhar acordada,

me tirar de onde eu estava, me mover de mim        me deslocar        

 

como se isso fosse responsabilidade de alguém outrem,

e não eu        

 

* * *

        

                        daquela leitura noturna, quase onírica, fiz algumas notas rápidas,

enquanto lia

 

mentira

 

não fiz nenhuma nota escrita no livro

nenhum apontamento enquanto estava lendo

 

só numa segunda leitura,

agora, uns 49 dias depois, calculando assim

por cima, os dias corridos

 

na primeira leitura, só fiquei desenhando espirais,

mtas espirais

 

e sublinhando e circulando umas palavras

 

vendo como elas iam aparecendo

desaparecendo         de um poema para outro

no livro        conectando os poemas

uns com os outros        como se o livro todo fosse só um poema

feito de vários poemas

 

                        como se a espiral fosse a imagem

        que me devolvesse ao livro

        que correspondesse à sensação de leitura

        que eu estava tendo

        lendo o livro        girando

 

mas, qd acordei, comecei a escrever

umas notas no celular

e fiquei pensando no bartleby, do melville,

 

não que o livro da marília tenha alguma coisa a ver com esse livro do melville

onde aparece um escrivão e um muro         e outros embates, claro

um livro que atravessa os primórdios da experiência do capitalismo

como o conhecemos nessa sua versão         2.0/2.1

séc. XX/séc. 21

 

mas, nesse livro, como os funcionários trabalham         alternando os turnos

como se fosse uma alegoria do trabalho

essa alternância de turnos me interessou         naquele momento                pra pensar o intervalo        

a pausa entre os turnos        e o trabalho que fica acumulado

de um turno ao outro                pq eu não anotei nada no livro durante a noite         

somente espirais        mas eu tomei mtas notas mentais enquanto lia o livro        

 

e passar a limpo essas notas da minha cabeça          i.e.                 escrevê-las, de fato

na verdade, transcrever meus pensamentos do dia anterior

no dia seguinte

numa forma coerente                não era descansar, como eu queria        sonhar acordada

era trabalhar        pra mim

        era esticar um tipo de fio

        o fio da duração da leitura

        esticar o tempo do pensamento         das sensações tidas

        durante a leitura

 

        era tentar me lembrar                num outro lugar

        com outro estado de consciência        com outro tipo de corpo

        aquilo que o livro havia me provocado primeiramente

 

        era tentar organizar

        de um modo lógico, racional, coerente        textual

        o fluxo de sensações desordenadas

        que a leitura do livro me provocou

        na noite anterior

 

esticar o fio da memória        da noite pro dia

seguinte

não me parece tão difícil assim

é uma tarefa exequível,

realizável

 

mas a coisa começa a se complicar mais qd temos

que esticar esse fio por mais tempo

pq a gente começa a duvidar da memória

das nossas habilidades internas

de guardar         e o fio começa a puxar         a tensionar

a nos dar ansiedade

por isso escrever é tb tão difícil

pq é lidar com essa coisa inacabada

que se arrasta de um dia para o outro

como a própria vida                 se escrevendo

de um dia para o outro                        acontecendo

 

podemos até não nos dar conta

mas o tempo todo estamos fazendo isso                         mais do que imaginamos

tomando notas internas do mundo                pq nossa mente está o tempo todo registrando tudo inclusive aquilo que a gente nem vê                  nem se deu conta que viu

então, escrever tb passa a ser essa aventura de tentar recuperar

não só o que vimos conscientemente                o que nos marcou de alguma forma

mas aquilo que passou desapercebido tb

que está numa camada mais imperceptível        

 

e essas notas mentais                 nem precisam ser tão complexas assim                 

até pq        elas estão acontecendo o tempo todo

principalmente com as coisas que temos pra fazer

as coisas mais banais                         coisas que nos atravessam no “meio” do dia

sempre no “meio” de alguma coisa mto importante que já estamos fazendo

 

e esse no “meio” de alguma coisa mto importante                 que já estamos fazemos

por mais que essas coisas que surjam bem no “meio”        nos lembrando mesmo que

temos que fazer outras coisas                        mais ou menos importantes

urgentes         urgentíssimas                imediatas        interrompemos         

esse no “meio” é só uma ilusão discursiva

 

como se fosse uma ilusão de ótica         da linguagem

como se a linguagem fosse alguma coisa que tivesse olhos de ver

e não fosse apenas um “meio” de ver, um canal de observação

um modo de fazer contato com o real        seja lá o que for isso

 

esse hábito de interromper         de pegar o celular         de interromper no “meio” de uma outra coisa        

virou um hábito tão comum        que banalizamos um pouco as suas consequências         

em nossos estados de presença        esse tipo de interferência

 

talvez por isso a pergunta que mais tenha me marcado no livro da marília tenha sido

a de um poeta que fazia poemas improvisados        que a marília recuperou         lá na pg. 39

 

        quanto tempo dura o presente?

 

e repetiu algumas vezes ao longo do poema

é uma pergunta que o david antin faz em seus talk poems

mas que poderia ser uma pergunta do buda pro ananda

no surangama sutra        ou pro shariputra

no sutra do coração        o prajnaparamita

 

onde escutamos o que os discípulos do buda escutaram

qd o buda disse o que eles ouviram e transcreveram depois

que vazio é forma         e forma é vazio

 

pq os ensinamentos do buda começam com essa fórmula, quase mágica,

“assim eu ouvi”        então, ouvimos o que eles ouviram

qd ouviram o buda in loco

voltamos no tempo        da presença

de qd buda esteve presente         dando os ensinamentos

há mais de 2500 anos

 

essa pergunta do antin        que ela recupera         nos devolve prum estado de presença

tão intenso

que é capaz de esvaziar completamente outras noções         outros parâmetros que nós humanos inventamos

para sustentar o tempo        os acontecimentos        as narrativas das nossas próprias vidas

 

como se houvesse uma borda (mas não há)         entre as coisas        que separasse uma coisa da outra

como se houvesse limite (mas não há)         nem a morte é um limite

é só uma espécie de intervalo                entre estados de coisas        diferentes

estados de consciência

 

escrever tb é criar essas bordas imaginárias         brincar com elas         pq        de alguma forma

é tentar demarcar algo         marcar espaços dentro desse fluxo contínuo                do tempo

que não percebemos como contínuo                mas como descontínuo        fragmentário cheio de brechas         idiossincrasias

 

e fazer ciência tb                 tb é delimitar                  pra observar

pra estudar          e dizer coisas sobre essas coisas        que foram “separadas”

e ver como se comportam        por um determinado tempo

durante um determinado intervalo        de tempo

 

mas tudo isso é retórico demais        sendo empírico demais

só que a gente acredita mesmo nisso         nessas marcas retóricas         nos resultados obtidos

que são as marcas das nossas próprias vidas                nossas biografias

o laudo dos exames        nossas teses de doutorado        as conversas com as pessoas

como se fossem mesmo verdades        mas a poesia não, a poesia é só ficção, reinvenção

como a ficção é só ficção,

 

só que a poesia da marília tem esse desejo de misturar um pouco tudo isso

tomando a experiência como verdade, pq é um tipo de verdade, sim,

a verdade da sensação, da constatação        e partindo do particular pra atingir

os limites de algo mais universal        que pode ser comum a todes        

mas que permanece mto particular        pq ainda é a visão da marília                a percepção dela

 

então, sua poesia tem essa magia quase científica, da ciência dos fenômenos

e não é à toa que ela procura misturar esse vocabulário frio

dos laboratórios do mundo da ciência                com um vocabulário quente 

das sensações internas        de um jeito que pode até parecer meio frio        por que você não escreve com        emoção? (p. 13)        mas que, na verdade, tenta lidar

tenta sustentar um certo tipo de tensão

de um fio de alta tensão         da escrita

da alucinação que, no fundo, é escrever poesia        perceber o que percebe

administrando esses fluxos externos                 internamente

na página         na circunstância de uma forma        de um ritmo

vivo         tudo extremamente vivo        circulando        no livro        em outros livros seus tb

 

lembrei agora com isso de quente e frio da emily dickinson         que dizia que poesia era calor,

de um jeito mais bonito do que esse                 qd a llansol traduziu alguns textos seus

como ana fontes                e agora, eu digo, junto com a marília,         termodinâmica

de um jeito científico                 mas nem tanto                 já que

 

uma das marcas da sua poesia é ter um requintado grau                 de observação de si

caminhando no rastro (portanto, animal tb, intuitivo e bastante sensorial)

das grandes tentativas de mapear        seus próprios limites                 pra colocá-los em xeque, querendo sempre ir além        

                                        e de como ela percebe o que percebe

e de como a sua percepção cria         vai criando um real meio mágico         pq é maravilhoso tentar ir além        de um jeito que aproxima         cidades         lugares distantes        pessoas mortas        eventos do passado                no presente                do espaço        tempo

                às circunstâncias        da vida no instante         da escrita                 da apresentação

do texto em leituras                que vão variando o texto                circulando

 

pq ela está mto interessada, eu acho,                 em pensar a partir desses limites inventados

dessas barreiras         pra investigar o não-limite         o vazado        o buraco das coisas

da própria linguagem                e tb do humano

 

por isso, é uma poesia do teste, da resistência, do ensaio, do tubo de ensaio,

palavras que estão em seus outros livros e que se presentificam aqui

em mais uma variação na fórmula que está experimentando nesse livro

aparecendo na forma de uma expedição

mais uma palavra que tb tem a ver com o léxico científico        que agrega algum valor

nesse sentido                mas tb com os livros de criança                de aventura        

 

e o título já deixa tudo à mostra        pq poderia ser tb                 o de uma notícia de última hora

de algum jornal          informando         mais uma empreitada humana        em busca de ultrapassar

os limites de seus próprios limites         expedição: nebulosa

 

agora, escrevendo este texto, depois de um tempo em que li o livro

49 dias depois         eu digito no google                 qual a forma de uma nebulosa?

 

e me surpreendo com imagens que aparecem e que lembram olhos

como se as nebulosas fossem esses aglomerados de coisas

de restos de coisas que já foram         que formam grandes olhos de ver

 

mas essas são imagens externas das nebulosas

e quais seriam as imagens internas de uma nebulosa?

ver uma nebulosa por dentro?

 

começo a imaginar micro-organismos vistos de mto perto

como pequenas totalidades inteiras múltiplas plurais         poeira cósmica         restos mortais

sendo cada imagem         um ângulo possível de se observar        por dentro

de se aproximar         de alguma coisa        como um pequeno-grande universo inteiro

 

é tudo tão, tão relativo

e é incrível

que seja assim

 

cada olhar, um mundo

 

* * *

 

não sei em que momento do livro         em que parte da espiral de leitura         da minha leitura em espiral                 eu comecei a sentir a presença da laurie anderson

no livro da marília

 

eu comecei a me lembrar do filme dela, heart of a dog [coração de cachorro], de 2015

mas, que eu me lembre, no livro da marília, apesar de ter mtas presenças,

presenças humanas e não humanas tb

não tem cachorros                tem outros animais, sim,

mas não tem cachorro                        ou tem?

 

        pensei que pudesse ser por conta da poeira

 

alguma coisa no ar

uma partícula de poeira        um cisco

no olho do poema        (p. 11); logo no início do livro

no poema “paisagem com futuro dentro”

 

pq, nesse filme, a laurie fala mto da poeira que ficou no ar

na cidade de nova iorque, após o ataque das torres gêmeas em 2001

de uma sensação de peso        no ar

 

        ou por conta do coração

do poema “arquivos cardiográficos” (p. 78)

já perto do final do livro         a marília fala de coração

e o victor hering tb falava de coração        e ela retoma o coração dele na paisagem

e coração por coração…                coração de cachorro!

 

mas não era só uma questão de uma lembrança temática

como um parque temático, que é ornado com determinados temas

que evocam algo, como se fosse meramente ilustrativo

decorativo

 

era uma lembrança física, uma lembrança da voz da laurie

da cadência da voz dela, falando, falando,

 

e eu até me questionei pq         se a laurie fala em inglês

e a marília escreve em português

como eu poderia estar escutando a presença dela ali,         nos poemas?

onde estaria esse encontro?         onde se daria essa coincidência?

em que lugar da língua?         em que frequência da voz?        

em que cadência?

 

eu tinha uma memória mto viva

mas virtual         da voz da marília

de qd ela fez uma apresentação na pandemia

na pivô, uma apresentação online de um poema1

um poema que reaparece como uma seção no livro

a penúltima seção do livro “ENTãO DESCEMOS

PARA O CENTRO DA TERRA” (da pg. 83 a 105)

 

e pra mim

ouvir a voz da marília lendo seus textos

é como ouvir a voz off

de algum narrador de documentário

de filme

como o herzog ou o farocki

com a diferença que a voz dela

é uma voz de mulher

 

temos poucos exemplos em português

em documentários

de vozes assim, femininas, vozes de mulher

vozes que fomos ensinados a identificar

como vozes de mulher

narrando filmes de documentário

 

ou sou eu

que não tive mto acesso a mtos documentários

feitos por mulheres e não tenho mta lembrança

dessas vozes         não tenho um arquivo mental dessas vozes

 

como eu tenho da voz da marília lendo

que é uma voz de mulher

e que eu acho parecida com voz de documentário

sustentando por um tempo longo

o tempo de um documentário

um tipo de narração

a narração de um poema

uma narração que é extremamente poética

 

tb pq o livro dela tem esse lugar do documental

da experiência dela como testemunha do real

da sua própria experiência

e o poema se transforma nesse lugar de relato

de falar sobre essa experiência de percepção do real

um real extremamente poético

é um testemunho poético

 

temos poucos exemplos em português

em documentários

de vozes assim, femininas, vozes de mulher

vozes que fomos ensinados a identificar

como vozes de mulher

narrando filmes de documentário

 

qd tivemos um exemplo assim,

de uma voz feminina que alcançou alguma “visibilidade” nacional

e é curioso pensar na voz em termos visuais,

foi num filme indicado ao oscar,

o filme democracia em vertigem, de 2019,

da petra costa,

e lembro das piadas que as pessoas fizeram

com esse filme no zap

debochando da voz dela

imitando o jeito que ela falava no filme

pq era uma voz de mulher

 

mas eu não vi esse tipo de piada com o filme o processo, da marília ramos, de 2018,

apesar de terem feito mto piada com a dilma

piadas misóginas, ao longo do processo de golpe,

que ela sofreu e que até hj sofre

por ter sido a única presidenta do brasil

e por ela ter uma lógica toda própria

de usar a linguagem do seu jeito

mto particular

 

é estranho pensar nesses termos

voz de mulher         voz feminina

mas qd eu escrevo isso         

tenho certeza que as pessoas vão entender

o que estou tentando dizer

qd digo voz feminina                voz de mulher

 

mas o que faz uma voz ser feminina?

o tom? mais agudo

menos grave? uma voz mais fina

e não grossa? ou o quê?         é um modo de dizer?

uma forma mais “sensível” de perceber

o que percebe? uma forma mais poética?

 

tantas coisas cabem nessa categoria

feminina eu acho

inclusive poético

 

definitivamente poético

é coisa de mulher

 

a alexa e a siri         por exemplo

tb são vozes de mulher

e a voz do google translate tb

 

mulheres que não existem        

mas existem                mulheres secretárias

mulheres robôs

 

* * *

 

recentemente a laurie anderson voltou a falar

na minha bolha de realidade

no final de março, deste ano, eu assisti a uma fala dela

no my meditation journey2

um programa do tergar,

um centro budista no canadá

onde o yongey mingyur rinpoche dá ensinamentos

 

                e deve fazer umas duas semanas que eu vi

         no cebb fortaleza um filme sobre o mingyur com o mingyur3

        e o mingyur é um mestre budista que eu ainda

        não conheço mto bem, não li nenhum livro dele ainda

 

        o filme era o wandering… but not lost!,4 de 2020, dos diretores

        paul macgowan e james gentry

        onde o mingyur “refaz” no filme

        uma viagem que já havia feito em livro, escrevendo,

        um livro publicado em 2019 que eu ainda não li

        In Love with the World: What a Buddhist Monk Can Teach You

        About Living from Nearly Dying, e ele só “refaz”

        no livro        pq já havia feito de 2011 a 2015 um retiro

        onde experimentou tudo isso que é mostrado no filme

        onde experimentou como testemunha de si

        da sua própria mente                 na vida real

 

        e é lindo ver no filme como o mingyur narra

        as suas sensações, as suas percepções

        o que ele experimenta

        e como o que ele vai experimentando

        vai se abrindo em direção ao mundo

        até se tornar ilimitado

        não havendo mais muita distinção entre dentro

        e fora

 

        e é refinadíssimo o grau de percepção de si

        que ele tem

        e de realização que ele tem         pra perceber o que percebe

        pra chegar nesse estado de consciência        de abertura

        pq a gente até pode sentir o que ele sentiu        com relação ao dentro

        e ao fora        integrados

        mas a gente só sente por alguns segundos

        e não consegue sustentar esse estado

        por muito tempo

        

        e ele        com a realização de mente que ele tem

        ele sustenta por uma duração mto maior

        que eu nem saberia dizer o quanto equivaleria

        pq         no budismo         o tempo se trata de outro tempo

        éons         kalpas                ghatikas

        mas eu não estou dizendo isso pra ressaltar

        ainda mais        nossa diferença         de uma mente comum

        uma mente que opera num mundo dual        que não percebe os fenômenos        

        como coemergentes                com a diferença de uma mente

        de um mestre realizado        um rinpoche

        que percebe os fenômenos psicofísicos sem tantos obscurecimentos mentais

        eu estou dizendo tudo isso pq         estamos no caminho

        em alguma etapa do caminho

        e do mesmo jeito que ele narra

        se observando                observando o funcionamento da sua mente

        a gente tb pode se observar                observando

 

        algumas pessoas, dessas observações que fazem das coisas, do mundo

        fazem ciência

        e a marília, que observa o fora, reverberando dentro

        faz poesia         e tudo o que mais couber

        nessa palavra guarda-chuva        gigante                que ela estica

        até chegar no ensaio                documentário

 

que eu me lembre, nessa conversa do tergar,

a laurie anderson não falou do big science

que é um álbum lançado por ela em 1982

 

nem do “superman”, que é uma faixa desse álbum

onde ela fala sobre a voz, ela fala com uma voz

onde ela conversa com uma voz

and the voice said

uma voz que poderia ser

uma voz alien                uma voz paranormal

uma voz de uma inteligência artificial

uma voz robô        

 

no meditation journey, ela não falou sobre a voz

que eu me lembre

        ela falou sobre suas experiências

de meditação

e eu nem sabia que eu já sabia que a laurie anderson

era budista!

 

qd eu vi o filme heart of a dog, em 2015,

eu nem me liguei nisso, eu não internalizei essa informação,

pq talvez, em 2015, o budismo não me interessava tanto

como me interessa agora        naquela época,         eu me fixei no cachorro,

na narrativa dela do 11 de setembro,

 

eu estava em outro contexto da minha vida

eu nem via ou ouvia nada sobre budismo naquela época

por mais que eu estivesse ali, em berlim,

vendo aquele filme em que ela falava sobre budismo!

eu não registrei isso        não internalizei

 

então, foi uma coisa incrível descobrir em 2022

que a laurie era budista, como ela mesma diz,

no último fragmento do texto

“Laurie Anderson por Laurie Anderson”

publicado no livro anéis de fumo

(trad. por joão lisboa, que selecionou os textos,

e publicado pela assírio & alvim, em 1997)

 

A verdade é que sou mesmo budista. Mas uma budista desconfiada. Gosto de ver com os meus próprios olhos milagres verdadeiros. Como me disseram que podia descobrir o nome do próximo Dalai Lama inscrito sobre a superfície de um lago no Tibete quis ir até lá vê-lo e, se calhar, acabei por ver muito mais do que imaginava. Talvez quando, daqui a mil anos, alguém descobrir as minhas canções elas sejam encaradas como histórias e aforismos budistas. Era simpático… O que me atrai nas histórias budistas é que são extremamente simples e centradas na acção. O budismo é uma óptima filosofia para pessoas não autoritárias. É incrivelmente revolucionário declarar que ninguém possui qualquer espécie de poder. A maioria das pessoas não aguenta essa pressão, supõe que alguém tem sempre de mandar. Não sou uma erudita budista mas a primeira experiência que tive com o budismo foi num mosteiro em West Massachusetts onde se lidava com a memória da dor. Na psicanálise, racionalizamos essa experiência. Lá, é uma experiência física em que, durante várias semanas, não falamos. O meu objectivo era aprender a concentrar-me mas, logo à chegada, disseram-me que, se lá estava, era porque tinha uma dor qualquer. A disciplina era duríssima e, no final, explicaram-nos que, provavelmente, nunca mais iríamos repetir o que aprendemos. Claro que dissemos todos que não mas tranquilizaram-nos. Não era importante. Esqueceríamos quase tudo mas não tudo. Avançaríamos um pouco e depois esqueceríamos outra vez. E outra vez e outra ainda… Era o oposto de qualquer outro ensinamento. Porque, de facto, esquecemos muito. O nosso cérebro não é tão poderoso como imaginamos. Essencialmente, estamos aqui para ser felizes e não para sofrer. Pode parecer muito frívolo mas cada vez mais acredito que estou neste mundo para me divertir.

 

 

e ali, na conversa do tergar, ela estava falando de coisas

que pertenciam ao meu mundo mais atual

ao meu mundo de agora

 

        como o livro do benjamin labatut,

        quando paramos de entender o mundo

        que eu havia lido há pouquíssimo tempo

 

coisas que eu compartilho com o tom,

o tom nóbrega, qd falo com ele,

como o budismo, a laurie anderson,

a poesia, a performance, tantas outras coisas

 

mas, escrevendo este texto,

acabei voltando tb pra coisas que não existem mais

na minha relação com o tom

à distância         pela escrita

ou que existem de outro jeito

 

acabei voltando pra exposição que visitamos juntos

juntas         em londres         em 2016

no wellcome collection5

e que pode ser “vista” virtualmente6

(eu acabei achando um vídeo na internet

e fiquei revendo a exposição)

 

eu lembro de pouquíssima coisa dessa exposição

eu nem tinha dinheiro pra comprar o catálogo

mas eu lembro da gente lá, andando

conversando        falando sobre os trabalhos

 

qd o tom ainda não assinava como tom,

mas como luísa, luísa nóbrega7

 

tinha uma televisão com a laurie anderson cantando

o clipe da música superman, e aqueles         a   a   a   a   a   a   a                   

da música

se prolongando no espaço da exposição

e a luísa falando        já naquela época

(hj, a luísa é um fantasma)

sobre a voz na transição, antes de fazer a transição

falando que a voz afina

a voz engrossa

a voz volta a ser diferente

a voz volta a ser adolescente

 

se alguém me perguntasse qd o tom começou a transicionar

eu não saberia dizer exatamente qd

eu tenho uma memória mto vaga         borrada         dessas imagens

a luísa estudando canto lírico pra cantar na residência da delfina         em londres

e a gente fazendo coisas juntas        gravando juntas        she said        she said

e a gente andando de ônibus                passeando pela cidade        e as caixas de hormônio

no meu quarto                em berlim        qd emprestei minha casa pra ela virar elu

 

esse lugar de incerteza         de estar         e não estar mais        de deixar de ser

de vir a ser         de devir        e da voz

como essa marca tão importante da identidade

começar a mudar

a voz começava a imprimir uma nova impressão digital         no tom

um outro tipo de reconhecimento facial

uma nova identidade

 

eu nem penso mto na luísa na verdade

penso que a luísa nunca existiu de fato

apesar de ter existido em algum momento

e eu ter convivido com ela

luísa não é luz

luísa é ilusão                

 

o que existiu, se é que existiu alguma coisa,

era uma espécie de ilusão de identidade

na forma de luísa

(hj, a luísa é um holograma)

e é fácil pensar na luísa assim

como ilusão                mas e o tom?

e eu? e a marília? e a laurie? e a voz que a laurie

conversava com ela?

será que é fácil tb?        ou é bem mais difícil de ver a ilusão?

 

o budismo me ajuda a contemplar tudo

como ilusão

 

mas voltei a pensar nela aqui,

na ilusão da luísa

junto com o tom,

junto com a laurie,

junto com a marília,

junto com a voz que conversa com a laurie,

quase como se fosse uma entidade sobrenatural

pq a marília está, no seu livro, trabalhando o luto do victor hering

que morreu em 2018

sendo tb atravessada pelo luto da mãe

que morreu em 2021

 

e ela faz um poema belíssimo pensando sobre o eco

que está na seção “EXPEDIÇÃO: NEBULOSA

(10 atos + diálogo)”

 

tanto o echo do escultor richard serra

quanto essas presenças fantasmáticas em eco,

como a do victor hering,

que ela reescreve

como se fosse um diálogo de narciso e da ninfa eco

mas um diálogo da marília e do victor

um ano depois da morte dele

 

eu nem fui atrás de ver como se escreve o eco

da ninfa eco em grego

se é realmente oikos

ou se é um outro eco         

que se relaciona com ela

 

mas oikos, em grego, que se escreve οίκος

mas se lê em português icos

oikos é um prefixo que está

em mtas palavras importantes de várias línguas

como economia / ecologia / ecossistema / eco…

 

só não sei se tb tem a ver com ecco!

com aquela interjeição italiana que é tipo uma eureka!

uma grande descoberta

 

de qualquer maneira, oikos se relaciona com casa

com morada, essa é a tradução que me disseram

qd perguntei o que significava

 

e a palavra que consigo melhor aproximar dela

pensando na tradição latina, não é nem uma palavra em português,

é demeure, uma palavra em francês,

que tem a ver com morada

e com morte tb, com meure

que mora dentro de demeure

 

estou falando isso         e até parece que eu mesma estou refazendo

as espirais que desenhei no livro da marília                pq oikos é a palavra que mais vemos

nos cemitérios gregos

nos túmulos das pessoas,

quer dizer, pelo menos no cemitério que visitei qd estive lá

no keraimekos,

nos túmulos das pessoas enterradas no keraimekos,

pq esse é o cemitério mais antigo de atenas

é um cemitério que a gente tinha que ir ver

pq era um lugar turístico

é um monumento

 

então, essa voz que permanece em eco

no livro da marília

pra mim tb é oikos 

escrita nas lápides dos mortos

mas entendida como casa, morada

 

infelizmente, não fui atrás de nenhuma foto que fiz

desse cemitério         nos meus hds pra mostrar aqui pra vocês

a recorrência dela                 pq meus hds são mto caóticos

e eu iria perder mto tempo procurando essas imagens

 

e talvez eu nem tenha feito fotos

talvez tenha só escrito num caderno da viagem a palavra oikos

transliterada pro nosso alfabeto

 

e eu só me lembro dessa palavra, oikos, entre tantas outras palavras gregas que aprendi estando lá,

pq essa palavra me marcou

eu vi que ela aparecia mto         escrita

nas lápides das pessoas

 

e fui conversar com meu amigo ianis,

que estava hospedando a gente em atenas,

naquela viagem, que eu estava fazendo com a barbara,

 

pq era ótimo conversar com ele sobre essas coisas

de palavras e linguagem

ele é artista tb e tb tem formação em arqueologia,

e ele se empolgava mto, desdobrando a língua,

tenho mto carinho por ele, Γιάννης Δελαγραμμάτικας

e pela sua companheira Ινώ Βαρβαρίτη

 

depois que ficamos marcadas pelo oikos

levamos essa palavra prum projeto que fizemos juntes,

eu, barbara, tom, marion, e nossa amiga russa, a Татьяна

gravamos ela numa faixa fúnebre, numa faixa de uma coroa de flores

 

é mto estranho revisitar essas coisas agora

por mais que essa faixa fúnebre ainda esteja aqui, ao meu lado,

ao lado do lugar onde estou escrevendo,

como algo que sobrou de uma performance, o resto de alguma coisa

que já acabou e que eu ainda carrego esse eco

sem vida, morto

um resto que já passou

já era

 

* * *

 

não sei em que momento esse texto                deixou de ser uma resenha

do livro da marília e começou a se transformar num ensaio

como se fosse uma conversa interna com a marília

com o livro dela

 

mas eu senti vontade de escrever esse texto                 sobre o livro dela

essa segunda leitura        

qd terminei de rever o filme da laurie anderson, heart of a dog

 

eu queria entender melhor pq eu tinha sentido a presença da laurie anderson

no livro da marília

na minha primeira leitura        eu queria entender melhor aquela sensação

que eu tive

 

então, eu fui atrás de rever o filme heart of a dog

que está disponível no amazon prime

mas eu fui atrás de um streaming grátis

e encontrei um que tinha legendas em russo

que eu supunha serem em russo!

 

eu lembrava de mtas coisas do filme

como a relação da poeira e do luto do cachorro

mas eu não lembrava nada dela narrando

a morte do gordon matta-clark

seu amigo e da questão do bardo

e do budismo

 

e revendo o filme

entendi que era isso a presença que eu tinha sentido

a laurie e o gordon

a marília e o victor

 

a érica e a luísa

 

e essa parte do filme é emocionante a parte da morte do gordon

pq a laurie abre uma perspectiva

pra olhar o trabalho do gordon a partir de fatos biográficos

como a separação dos pais e o suicídio do irmão gêmeo

que nos levam a rever todo o trabalho dele a partir de questões internas

que são mto difíceis de lidar

 

e qd o gordon soube que ia morrer

ele resolveu fazer um evento social no hospital (agora estou traduzindo

de memória         as palavras da laurie no filme, que narrava em inglês)

e tinha dois lamas budistas         um de cada lado do gordon

e no momento em que o gordon morreu

os dois lamas que estavam ao lado do gordon gritaram

— gordon, you are dead!!!

 

— gordon, você está morto!!!

eles gritaram no pé do ouvido do gordon

pq        pros budistas         o último sentido a se apagar

é o da escuta

 

pq         pra eles         era mto importante que o gordon pudesse ouvir

que estava morto

que tivesse consciência         dessa nova forma         da sua consciência

que ele se soubesse morto

e que pudesse se reconhecer nessa nova forma        morto

 

depois disso, a laurie fala de como ele apareceu como fantasma

na casa dela         e tb fala várias outras coisas

e fala de como lidou com o bardo do seu cachorro

durante os 49 dias do bardo                e o que ela mesma ia fazendo durante o bardo

 

no budismo                 (isso agora sou eu, não é a laurie)         

o momento da morte é um momento importantíssimo

pq nós temos a oportunidade real de atingirmos a iluminação

qd estivermos atravessando o bardo da morte

por isso existe todo um trabalho a ser feito durante o bardo

durante os 49 dias do bardo

que eu não sei pq são 49 dias         só sei que são 49 dias

 

e no poema/seção “ENTÃO DESCEMOS PARA O CENTRO DA TERRA”

do livro da marília        a marília inicia a escrita dizendo “escrevi este poema/ ao longo de 98 dias/ num caderno:/ eu queria que ele fosse uma linha passando/ pelos dias” (p. 85)

e 98 é exatamente o dobro de 49

mas eu tb não sei de onde a marília tirou essa medida

pq ela escolheu essa medida

 

nem sei se a marília tem alguma relação com o budismo

se ela se interessa pelo budismo, num plano filosófico,

não de práticas religiosas, contemplativas

 

mas fiquei com vontade de conversar com ela        sobre essas coisas

sobre os 49 dias que apareceram         que me parecem ser 98 dias         no seu livro

 

e de como eu acabei transformando o sim

no fim do seu livro        em som

o sim que ela havia transformado da morte de sua mãe

 

na minha leitura em espiral         virou som

 

mas que ainda permanece presente         em eco

em oikos         embaralhando nossas percepções de tempo

espaço                        no presente

 

qd tudo é fluxo         contínuo         des-

contínuo        intermitente        

        

inclusive, a morte                                        luísa

até a iluminação

 

* * *

 

as quatro grandes invenções

da humanidade        tb são conhecidas como

as quatro invenções chinesas

 

elas são uma espécie de salto da humanidade,         em termos de desenvolvimento

da técnica,

que culminaram numa mudança de paradigma        da nossa espécie

uma espécie de mudança de consciência

 

pq depois delas         a humanidade nunca mais foi a mesma

não volta mais a ser o que era

não volta atrás

 

elas são: a impressão, a pólvora, a bússola e

o papel;

 

não vou falar aqui dessas quatro invenções juntas,

o que daria mto pano pra manga,

ainda mais se pensarmos em questões coloniais,

que nos atravessam

da mesma forma como a expedição tb atravessa

questões coloniais

como a primeira expedição científica

brasileira        que aconteceu no ceará

com uma comissão científica

aconteceu sob os auspícios de dom pedro II

 

mas         sobre essas quatro invenções                queria apenas dizer

como me comoveu saber que a impressão se refere a um texto

com dizeres do buda,                 o sutra do diamante

 

        Como estrelas, enganos visuais, como uma lâmpada,

        Uma farsa, gotas de orvalho ou uma bolha,

        Como um sonho, um relâmpago ou uma nuvem,

        Assim deveria ser visto aquilo que é condicionado8

 

e é mto emocionante saber que o que temos, em termos de registro, em termos de memória

impressa        das primeiras impressões        feitas pela humanidade

são de um texto que transmite         ensinamentos do buda

 

ensinamentos sobre o 5 agregados          forma, sensação-percepção, cognição, formações mentais e

consciência        os 5 skandhas                que são categorias que incluem tudo o que experimentamos no mundo psicofísico        

 

e sobre essa impressão do sutra do diamante, a wikipédia informa:

        — A invenção chinesa da impressão em xilogravura, em algum momento antes do primeiro livro datado de 868 (o Sutra do Diamante), produziu a primeira cultura impressa do mundo. De acordo com A. Hyatt Mayor, curador do Metropolitan Museum of Art, “foram os chineses que realmente descobriram os meios de comunicação que dominariam até a nossa era”;

        — Uma cópia da dinastia Tang — versão chinesa do Sutra do Diamante foi encontrada entre os manuscritos de Dunhuang em 1900 pelo monge taoísta Wang Yuanlu e vendida para Aurel Stein em 1907. Eles são datados de 11 de maio de 868. E é, nas palavras da Biblioteca Britânica, “o livro impresso mais antigo”;

        — é também o primeiro trabalho criativo conhecido com uma dedicatória explícita de domínio público, já que seu colofão no final afirma que foi criado “para distribuição gratuita universal”;

 

sutra do diamante

uma imagem        cortante

 

* * *

 

em 2013        eu fiz um projeto coletivo

e mandei pro victor heringer um convite

com essas três perguntas        por e-mail

 

érica zíngano  4 de ago. de 2013, 06:19

 

para victor.d.heringer

 

 

— o que as cigarras fazem no inverno?

— se você fosse um objeto, que objeto gostaria de ser. por quê? descreva esse objeto.

— escreva sobre um acidente que lhe aconteceu. esse acidente mudou a sua forma de observar a realidade? como?

 

mandei juntos com umas explicações do projeto

 

e os retornos das pessoas foram montados         num pdf                coletivo

que virou uma publicação         um trabalho                 numa exposição

 

o victor me mandou esse poema

de volta

 

                        TRIL¬ O

 

                a cigarra só canta porque morre

                de resto não faz nada

 

                a cigarra canta & chama a chuva

                diziam meus antigos

 

                vem a chuva & rega o campo

                o campo o milho

                o milho o homem

                o homem inventa o trem

                o xarope de milho

                o coturno

                o mcnugget

 

                a cigarra descansa no trilho

                faz frio na transiberiana

                passa o trem cantando

                por cima da cigarra

 

 

e um link http://youtu.be/w_3Bi2OLOwg

 

agora         sempre que eu penso em cigarras

eu penso no victor

 

principalmente qd escuto a música

até breve         https://www.youtube.com/watch?v=sSyPUiqx_6s

do walter franco

 

fico pensando numa outra música                do walter franco

coração tranquilo        https://www.youtube.com/watch?v=Z7NESXCm1yg

 

um beijo, victor

 

até breve