Revista Rosa

Volume 6

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Transe1

Bruno Dunley

Quando socialmente compartilhado, o encanto extremista de direita leva ao êxtase, ao deslumbre, ao transe coletivo.

É o que se viu no ataque ao Capitólio de Washington de 6 de janeiro de 2021. Naquele dia, ao lado do Xamã de QAnon, uma massa enfurecida de seguidores de movimentos extremistas e fantasias de conspiração de todo tipo jogou-se, literalmente, contra os muros do congresso norte-americano. Essas pessoas arriscaram suas vidas convictos de que estavam lá para defender a honra e a liberdade do povo estadunidense e de seu líder, Donald Trump, suposta vítima de fraude eleitoral. Por sua vez, enquanto as pessoas aglomeravam-se diante do palácio, o então presidente dos Estados Unidos continuou a fazer o que havia feito nos últimos meses: proferir ilações e mentiras sobre sua derrota, incitando seus fãs a persistirem na luta pela “democracia” e pela “verdade”.

Diversos estudiosos e jornalistas viram, naquele ato, a consequência de anos de ameaças explícitas e implícitas ao estado democrático de direito, perpetradas cotidianamente por Trump e seus fiéis. A passagem, fervorosamente ansiada, da palavra à ação.

Tais leituras realçam um dos pontos cruciais do debate político contemporâneo: o papel das palavras, do que se diz, publicamente, “por aí”. Nossas falas, nossos tweets, nossos posts no Facebook não são meros enunciados: são gestos. Gestos que podem se traduzir em ações de maior impacto e alcance, ainda mais se são chefes de Estado como Trump a pronunciá-las.

Os extremistas de direita discordam dessa visão: para seus integrantes não há limites para a liberdade de expressão: tudo pode ser dito, inclusive que o partido nazista deveria ser refundado, como fez, em fevereiro de 2022, Monark, apresentador do Flow Podcast.2 Segundo eles, palavras são apenas palavras, e todos têm o direito de dizer o que passa por suas cabeças, mesmo que isso atinja, direta ou indiretamente, os seus destinatários. Mesmo que o que se afirma lhe possa causar danos morais, psicológicos ou físicos. Como já disse Bolsonaro, a liberdade de expressão irrestrita é um direito “sagrado”.3

No entanto, para entender a fundo o que move a extrema direita conspiracionista, é preciso sair do universo da língua e olhar para outros aspectos da vida e da comunicação social.

Apesar de terem cumprido um papel fundamental em fomentar os ânimos dos manifestantes, as declarações de Trump não explicam, sozinhas, um evento como o ataque ao Capitólio de Washington, assim como as falas provocatórias de Bolsonaro não explicam, por si só, as manifestações bolsonaristas em frente ao Supremo Tribunal Federal. Ao lado delas, é preciso considerar a dimensão emocional e afetiva do pertencimento coletivo. O que entra em jogo, aqui, é algo que excede a ordem do racional. Ou melhor, que o engloba dentro de suas lógicas.

Os adeptos do extremismo são movidos por sensibilidades e paixões de vários gêneros, todas caracterizadas por alto grau de intensidade. Junto à maravilha, o que funda a identidade e a unidade dos atuais movimentos extremistas de direita é o puro sentir, o gozo, verbalmente indescritível e racionalmente inapreensível, proporcionado pelo fato de estar, e de se sentir, juntos.4

Estamos diante de um fenômeno contagiante, que se alimenta do contato sensível, corpo a corpo, entre os sujeitos. O vínculo entre aqueles que fazem parte do grupo é epidérmico: a comunidade é, em primeiro lugar, uma sensação, um afeto. Um “nós” que é percebido e vivido à flor da pele. Assim como à flor da pele são vividas suas performances. Por isso que é muito difícil convencer quem aderiu às crenças conspiratórias a mudar de ideia: porque o que está em jogo não é a ideia, mas a pessoa. A pessoa em carne e osso. Ou melhor, o grupo de pessoas em carne e osso ao qual ela está amarrada, com seus fervores e tremores coletivos.

O contágio sensível não se dá apenas no espaço físico, mas também nos ambientes digitais. O que significam, por exemplo, as mensagens “URGENTES”, escritas assim, em maiúsculo, que recebemos em nossos celulares? E as incitações ao compartilhamento amplo e imediato que as acompanham, tais quais “REPASSE!!!”, “COMPARTILHE AO MÁXIMO!!!”? Seu real significado não reside no que nelas está escrito, mas em sua própria materialidade: no uso das maiúsculas, nos pontos de exclamação, nos gritos de quem mandou áudios peremptórios contra o tal do “vírus chinês”, as vacinas da covid-19, os inimigos internos e externos de Trump e Bolsonaro que estavam prestes a instalar o caos no Brasil e nos EUA. A força de uma notícia falsa que consegue se passar por verdadeira no Whatsapp, no Telegram ou no Twitter depende muitas vezes disso: não apenas do “que” é dito, mas do “como” se diz. Na era da pós-verdade, a verdade não é um mero problema de conteúdo. É também um problema de estilo, de forma, de modos de dizer.

Tanto nas ruas quanto nas redes, o que importa não é o teor do discurso político, mas sua força expressiva, sua capacidade de contagiar. É por meio dela que se consolida o vínculo comunitário.

Pensemos, ainda, no assalto ao STF por parte dos “300” guiados por Sarah Winter, ou nas manifestações bolsonaristas de 7 de setembro 2021 e 2022, vividas, por seus promotores e opositores, como o prelúdio de um iminente golpe de estado. Antes mesmo de suas pautas, o que marcou tais acontecimentos? O arrebatamento emocional, o deslumbramento dos sentidos.

O mesmo vale para as conversas que acontecem, cotidianamente, nos grupos de Whatsapp e Telegram, repletas de mensagens exclamatórias como aquelas acima mencionadas. Os militantes do extremismo vivem em um perene estado de fibrilação afetiva. Estão sempre alertas, com seus nervos tensos, saboreando sua própria excitação, prontos para a ação.5

Participar, hoje, de um movimento extremista de direita é uma experiência extática. É um rito, um teatro, uma festa. É um transe.

Não por acaso, o termo “transe” foi muito utilizado para explicar o que aconteceu no Brasil entre 2013 e 2022, anos marcado pela ascensão do extremismo de direita. As jornadas de junho de 2013; os protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff, com seus trajes e coreografias; a campanha eleitoral de Bolsonaro em 2018; as manifestações contra o isolamento social: o que se viveu ali foi um gigantesco transe coletivo.6

Uma variação do termo “transe” foi usada, inclusive, como epiteto para definir a nova direita surgida das ruínas do governo Dilma: “direita transante”.

Criada em 2016 por Pedro Augusto Ferreira Deiro, um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL), principal organizador dos atos contra Dilma e o PT, a expressão salientava, segundo seu autor, o caráter ética e esteticamente jovem, revolucionário e empolgante dos movimentos antipetistas daqueles anos.7

O adjetivo refere-se ao verbo “transar”, do qual seu criador explora todas as nuances: transar na acepção sexual do termo, mas também transar no sentido de “deleitar-se”, “curtir”, “gozar (de)”. No entanto, e justamente em razão de tais significados, “transante” pode ser também associado ao substantivo “transe”: a um estado de exaltação e excitação dos sentidos, aos impulsos extáticos do corpo e do espírito, como aqueles que se experimentam em uma rave, em um carnaval ou em um ritual místico-religioso.

Não soa estranho que os atuais populismos-conspiratórios estejam fortemente ancorados em crenças religiosas, em particular as evangélicas-neopentecostais. Muito do sucesso de QAnon depende, por exemplo, de suas referências explícitas e implícitas à narrativa cristã.8 Em seus atos, os qanons carregam cruzes. Para eles, a luta do bem contra o mal é uma cruzada. A tempestade prometida por Trump, um apocalipse. Há, em QAnon, um gosto pela escatologia, isto é, pelos anúncios proféticos sobre o fim dos tempos e a chegada dos messias que nos livrarão dos demônios que nos oprimem.

É o mesmo gosto que caracteriza as falas de Bolsonaro, inspiradas, por sua vez, nas narrativas de líderes evangélicos como Edir Macedo e Silas Malafaia. Há anos, Bolsonaro alerta sobre o “caos” que está prestes a se abater sobre o Brasil, autoproclamando-se, paralelamente, como o “Salvador” do qual a nação precisa. No dia de Páscoa de 2020, o presidente da República fez um paralelo entre o fato de ter sobrevivido à facada sofrida durante a campanha eleitoral de 2018 em Juiz de Fora e a ressurreição de Cristo. Durante uma conferência com líderes religiosos brasileiros, ele afirmou: “Eu queria falar uma coisa, já que hoje se fala em ressurreição. Eu não morri, mas estive perto da morte (…). Outro milagre aconteceu. O perfil para chegar à presidência não era meu, nada tinha para chegar, sequer tinha partido até março de 2018”.

Todavia, a proximidade entre fenômenos como QAnon, o bolsonarismo e o evangelicalismo não concerne apenas às semelhanças entre suas narrativas. Ao lado destas, há de se considerar a dimensão sensível de suas performances e práticas rituais.

Pensemos nas orações coletivas que caracterizam os encontros bolsonaristas, como aquela conduzida por Magno Malta no dia da eleição de Bolsonaro,9 ou, ainda, na fala em “línguas” proferida por Michelle Bolsonaro na ocasião da confirmação de André Mendonça no STF.10 Há, aqui, um elo entre religião e política cujo cerne é o transe, a alteração dos estados de consciência psicofísica, o contágio coletivo, o envolvimento emocional.

A conexão entre populismo, conspiração e religiosidade excede, porém, as fronteiras do cristianismo. QAnon, o antivacinismo, as histórias sobre as relações entre a covid-19 e o 5G, têm relações profundas com outras experiências espirituais, ligadas, em sua maioria, ao universo do “bem-estar” (wellness): new age, yoga, ayurveda, astrologia, terapias alternativas, curas quânticas com óleos essenciais, ervas, pedras, cristais. Um fenômeno que foi batizado como “conspiritualismo”, termo com o qual se quis evidenciar o vínculo entre o conspiracionismo e as diversas formas de espiritualidades presentes no mundo.11

Que fique claro: não estou dizendo que todo mundo que acredita nessas práticas seja um conspiracionista. Assim como não são todos conspiracionistas os evangélicos: nem nos EUA, nem no Brasil, nem em qualquer outro lugar do mundo. Longe de mim querer generalizar tão abruptamente sobre o assunto. Estou dizendo que o populismo-conspiratório se apropriou sutilmente desse universo, manipulando-o e utilizando-o para seus fins específicos.

Como no caso do evangelicalismo, essa apropriação passa pelo corpo e pelo sentir. Em defesa de seus ideais e escolhas, como aquela de não se vacinar contra a covid-19, os conspiritualistas insistem nos saberes intuitivos do corpo. Contra o novo coronavírus criado em laboratório, o corpo, graças às suas virtudes e conhecimentos ancestrais, vai saber reagir. Basta tomar um ou outro chá, seguir com os exercícios diários, meditar, vibrar positivamente.

Também o conspiritualismo é movido pelo contágio sensível e emocional entre seus adeptos. O que o sustenta é o pertencimento afetivo a uma comunidade de “iluminados”, que tiveram o privilégio de descobrir a “verdade” por trás da cortina de fumaça levantada pela elite globalista.

Muito mais haveria a se dizer sobre o assunto. Mas paro por aqui e faço uma advertência: não se deve cair no engano de considerar o transe do extremismo como um fenômeno inconsciente, dirigido inteiramente de cima para baixo. Não, não estamos diante de zumbis, robôs ou fantoches teleguiados, que agem sem saber o que querem ou o que estão fazendo. Essa é uma visão arrogante e elitista, incapaz de enxergar tanto os núcleos de verdade por trás da ficção conspiracionista quanto o desejo de encanto que todos temos e visamos satisfazer.

Como já disse no capítulo anterior, as fantasias de conspiração surgem, muitas vezes, em resposta à crueldade da sociedade capitalista. Para fazer frente às amarguras da vida, as pessoas buscam se encantar. Perante a desilusão cotidiana procuram, em algum canto de suas existências, um pouco de maravilha. Ante o individualismo exacerbado de nossos tempos, buscam comunhão. Elas têm o direito à magia, ao encanto e ao transe que quiserem. Para os críticos que os observam de fora, tais fenômenos podem até parecer irracionais, absurdos e fanáticos. Mas para quem os vive de dentro, a experiência é aquela de uma emancipação coletiva divertida, extasiante, inspiradora, legítima e devida. Se não entendermos isso, toda luta contra o extremismo — qualquer tentativa de desmonte de sua narrativa —, continuará sendo ineficaz.

O problema não é o transe em si, mas o que está por trás dele: um discurso autoritário e excludente, que execra o estado democrático de direito; que preza o suprematismo dos homens brancos e a misoginia; que defende o armamento da população e é contra direitos civis conquistados, ao longo do último século, a duras penas.

O problema não é a diversão no sentido de “curtição”, mas a diversão no sentido de “desvio”, “mudança de foco e atenção”. Toda essa energia que poderia ser usada para lutar contra injustiças reais acaba, quando canalizada nos populismos-conspiratórios extremistas, sendo desperdiçada. Os caçadores de complôs vestidos de revolucionários que lutam contra o “sistema” são, na verdade, os maiores defensores do sistema.12