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Gal canta: Brasil

Re_Cover Tropical, Mavi Veloso

A última aparição pública de Gal Costa se deu no recém passado 30 de outubro, logo após a definição dos resultados da eleição presidencial. Na imagem compartilhada em rede social, Gal aparece fazendo uma selfie: já de noite, vem iluminada por um aparelho televisor fora de quadro, veste roupão azul e óculos de grau, está de cabelo solto, negro e volumoso como lhe era característico. Gal olha para a câmera fazendo o “L” de Lula com a mão. Na legenda, a frase de campanha do candidato, agora já no passado, tornada constatação pela eleitora: “o amor venceu o ódio”. Com “Lula presidente”, um emoji de coração. A imagem, porém, não é uma fotografia, mas um fragmento de vídeo cuja duração não passa de um segundo. Assim, como se tivesse apertado o botão errado, parada, ainda que em movimento. Na última imagem de seu imenso arquivo, o derradeiro gesto político de uma das mais brilhantes intérpretes do Brasil.

Na linhagem das grandes estrelas do cantar brasileiro — de Araci Côrtes, passando por Carmen Miranda, até Elza Soares —, Gal ascendeu ao panteão das divindades canoras da música popular brasileira ainda nos anos de 1960. Lá ela viveu por décadas, até o último 9 de novembro. Súbito, acordamos para o assombro de seu desaparecimento. A quebra de um elo no círculo perfeito da constelação Doces Bárbaros, sentida como o fim de um grande ciclo coletivo e multigeracional da vida cultural e afetiva no Brasil. A voz de Gal marcou a construção do imaginário brasileiro, vibrando sobre as mutações sociais e políticas do país desde os “anos de chumbo” da ditadura, passando pelo “desbunde”, a redemocratização, a consolidação da sociedade do espetáculo nacional e do consumo de massas, a fundação da Nova República, até o estranho não-se-sabe-o-quê do pós-golpe de 2016. A pessoa que fez de seu estar-no-mundo, sobre os palcos ou fora deles, em seus recantos, um acontecimento político e estético de desconstrução e beleza, descansou aliviada nesse final de 2022. Ao final, o amor venceu o ódio.

O canto de Gal, hoje vivo em seus registros, mobiliza o ouvinte de modo a capturá-lo. Serve como função desestabilizadora do aparato sensório, onde o prazer da escuta se embaralha com dimensões táteis das texturas sonoras e projeções visuais dos traços virtuosos de seus desenhos melódicos. Solar e sedutora, a voz de Gal coloca em xeque as articulações normativas e repressivas que, desde a antiguidade clássica até o nosso tempo, são características das organizações macropolíticas andro-falo-logocêntricas. É o canto como desvio solo para um espaço amplo de possibilidades sensíveis, como convite à liberação micropolítica dos corpos e afetos. Assim que, quando no canto de Gal se escuta a palavra “Brasil”, o termo toma forma dissonante ao hinário de massas indistintas surgido no Estado moderno e retomado em delírio pela turba reacionária que sequestra o imaginário ao redor do termo. Na policromia da voz de Gal, a palavra “Brasil” explode em cores para além do binário em verde-amarelo.

Araci Cortês nos anos de 1920, Gal Costa em Índia, 1973.

“Ela ouviu João Gilberto mais e melhor do que ninguém”, escreve Caetano Veloso na contracapa do Cinema Olympia de Gal Costa, álbum ultra-tropicalista de 1969. No tropicalismo, o aprendizado bossanovista ultrapassa a forma estética para concentrar no sentido profundo da postura ética, apontada por Caetano como o grande legado de João desde o princípio. Em mais de uma entrevista ao longo de sua carreira, Gal deixou claro o profundo conhecimento dos mecanismos do canto, por ela adquiridos via observação e prática. Um estudo calcado na experiência rente ao fazer intuitivo da música popular. Assim, é em Gal que o processo criativo e reflexivo do canto enquanto fenômeno se manteve em movimento, fazendo da cantora a grande herdeira direta da inteligência performática do cantar joãogilbertiano. Nessa relação de influências, Gal soube transitar e trocar com João de forma autônoma e propositiva em múltiplos sentidos.

Revelados os registros em áudio do mítico especial que fizera com João Gilberto e Caetano Veloso para a TV Tupi, a certa altura do encontro se escuta Gal sugerindo, meio de canto, uma música a João. Diz ela, depois de chamar pelo nome do cantor três vezes: “eu poderia?… cê canta uma coisa?” No contexto da gravação, os dois se encontram no ensaio do programa que, de todo modo, já era o programa em si. Os temas cantados em conjunto eram via de regra trazidos por João. Nesse sentido, fica ainda mais relevante o pedido da cantora no que indica de sua vontade. Sem dar nome ao tema, ela canta a meia-voz a canção de seu desejo:

“Brasil, meu Brasil brasileiro…”, buscando pela “Aquarela do Brasil” de Ary Barroso. João, porém, desvia do pedido com seu jeito astucioso de falar por implicaturas: “Poxa vida, assim de cara eu…”. Gal lamenta com uma longa interjeição em “Ah…” e completa, em vão, “no tom que você quiser”. Pedido feito e não atendido. João não quis.

Durante o “ame-o ou deixe-o” de 1971, como cantar o Brasil? No início daquela década, pouco sobrara da exaltação do samba original, cantado pela primeira vez por Araci Côrtes para o Teatro de Revista em junho de 1939 e gravado em seguida por Francisco Alves, em agosto do mesmo ano. Trinta anos depois, quando Tom Jobim propôs sua releitura instrumental em 1970, a canção, ainda que exuberante, não disfarçaria um certo tom melancólico do país desbotado pelas tintas sangue e verde-oliva da ditadura. Fechando o lado A do álbum Stone Flower, a canção de 7 minutos e 09 segundos executada por Tom aparece reduzida ao seu substantivo topônimo “Brazil”, grafada com “z” e sem aquarelas, como ficou convencionada desde os anos de 1940 na versão export em língua inglesa. De resto, voltando ao repertório escolhido para o programa da TV Tupi, o que se ouvia eram temas de corte localizado, da Lapa à velha São Salvador, no micropolítico das relações afetivas com a geografia brasileira.

Seria preciso quase uma década para que, na virada dos anos 1980, o samba-exaltação de Ary tivesse melhor sorte, interpretada por outra chave, em retomada do imaginário nacional. Gal terminaria por gravar o tema sozinha, em um disco todo dedicado às composições de Ary Barroso e cujo álbum viria chamado pelo nome da canção, Aquarela do Brasil (1980). No ano seguinte, 1981, João correria atrás ao gravar sua versão de estúdio no disco coletivo “Brasil”, que abre com o tema cantado em jogral junto aos outros doces bárbaros: Maria Bethânia, Gilberto Gil e Caetano Veloso. A música voltava a circular sob a brisa da abertura e um horizonte de democracia. Na versão mais intimista registrada por João Gilberto no disco ao vivo em Montreaux, nada da grandiloquência épica de Francisco Alves havia sobrado para contar a história. João passava a dividir com Gal a posse das terras imaginárias de canções brasílicas como a “Aquarela” de Ary, o “Canta Brasil” de David Nasser, gravado também por ambos no mesmo início dos anos oitenta, e outras tantas obsessivamente acessadas pelo criador da Bossa Nova ao longo das décadas seguintes.

Gal, porém, não ficaria sujeita ao Brasil formulado na era de ouro do rádio como João. Sua voz daria dimensões mais explicitamente críticas ao presente conflitivo da reformulação democrática brasileira. É no “Brasil” de Cazuza que a voz de Gal serviria de canal para seu mais contundente e rascante retrato da nação. Descrito com escárnio pelo maior poeta-letrista da geração anos 1980, o Brasil de Cazuza escancarava, a um só tempo, as chagas coletivas do país que claudicava no reestabelecimento da democracia, assim como a revolta pessoal para com a doença que o levaria precocemente, no auge do gênio e da juventude. O Brasil descrito por Cazuza era burguês e pobre de espírito, exclusivista e excludente, misógino, desigual e, sobretudo, desimportante. Não foi por acaso que a mesma cantora que recoloriu a “aquarela” brasileira de Ary Barroso se tornaria, dez anos depois, a primeira e definitiva intérprete do país em desencanto descrito pelo poeta do Baixo Leblon. Entre a versão do autor, em seu Ideologia, e a versão para o consumo de massas lançado por Gal como tema principal da telenovela Vale Tudo, ambas no mesmo ano de 1988, “Brasil” redefiniu a perspectiva imaginária do nacional frente às desilusões críticas dos primeiros anos claudicantes da Nova República (1985–2016?). Com a morte do poeta-letrista em 1990, Gal inscreveria o tema na história, cantando seu “Brasil” com o peito desnudo, causando furor e escândalo pela ousadia de bancar seios à mostra em cima dos palcos — “mostrar meus seios foi uma postura política. Como uma arma!” diria Gal ao Globo.

As palavras articuladas no cantar de Gal Costa ganhavam identidade e se transformavam em sincronia com o mundo ao redor. Desde seu “baby” flutuante e doce, com camiseta estampada em “I love you” de Caetano Veloso, até o “honey baby” dilacerado de Jards Macalé e Waly Salomão em “Vapor barato”, Gal vocalizou no termo importado a transmutação estética, comportamental, política e social do desbunde nacional. Mais adiante, entre tons de esperança e o rasgo da autocrítica, sua voz deu vida ao vocábulo “Brasil”, sempre em transformação. Na disputa atual, a patriotada clama pela propriedade de um termo a todos comum. Gal nos ensina a cantá-lo, não como hino, uníssono e marcial, mas como canção, melodia. Lá onde o amor vence o ódio e a palavra é polissemia, convite de entrada e poesia, Gal canta: Brasil.