Revista Rosa

Volume 6

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A destruição da Mata Atlântica — pequeno dossiê visual

A viabilidade socioeconômica e civilizacional da América do Sul, e em particular a do território a que se dá há cinco séculos o nome de Brasil, depende da capacidade de suas sociedades de conservar e restaurar suas florestas, sobretudo a Amazônica, garantindo a integridade física e cultural dos povos e das demais espécies que a habitam há séculos ou mesmo milênios.1 A Amazônia é hoje o centro do mundo, como afirmam Eliane Brum,2 Antonio Donato Nobre3 e os organizadores do Fórum Social Panamazônico e da Assembleia Mundial pela Amazônia. De sua conservação depende efetivamente a estabilidade do clima e, portanto, o destino da humanidade. Contudo, no momento em que se encerram as celebrações e retrospectivas sobre os 200 anos da proclamação da independência do Brasil, é importante também voltar os olhos para os 520 anos de ocupação e destruição da Mata Atlântica. Pois nada se compara ao ecocídio perpetrado nesse bioma, vítima do mais precoce, extenso e abrangente extermínio das florestas tropicais no último meio milênio. Todos têm em mente os dois mapas da Figura 1, mil vezes reproduzidos, que comparam a extensão original e a atual do segundo maior bioma da América do Sul.

Figura 1 — Mapa reconstitutivo do bioma Mata Atlântica em 1500 e em sua configuração atual

Fonte: SOS Mata Atlântica e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Segundo o Atlas dos remanescentes florestais da Mata Atlântica 2019-2020, hoje, apenas 12,4% desse território original de mais de 130 milhões de hectares (1,3 milhão de km2) são recobertos por fragmentos de florestas primárias ou bem recompostas com mais de 3 hectares, conforme critério de mensuração da área florestal adotado desde 2007 pelo convênio Inpe-SOS Mata Atlântica.4 Nas seções 3 e 4 deste artigo, examinarei a precariedade da situação atual da Mata Atlântica, as perdas recentes, a continuidade e mesmo a nova aceleração desse desmatamento nos últimos anos. Por ora, examinemos rapidamente o dossiê visual do longo processo de sua destruição.

1. Representações visuais anteriores a 1822

O Brasil é o único país do mundo que se designa pelo nome de uma árvore e é também o único a designar seus habitantes — os brasileiros — por um sufixo de profissão (-eiro), qual seja, a atividade multissecular de derrubada do pau-brasil (Paubrasilia echinata, antiga Caesalpina echinata), até sua quase extinção.5 Na Bahia e em Pernambuco, conservam-se ainda alguns exemplares dessa espécie, considerada pelo Ibama como ameaçada e, a tal título, incluída na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).6 Em novembro de 2022, a espécie será possivelmente inserida no Anexo I (o das espécies mais extremamente ameaçadas) da Convention of International Trade in Endandered Species (CITES).7

Os primeiros relatos, representações e documentações cartográficas dos territórios atlânticos invadidos pelos portugueses e franceses no século XVI, enfatizam a atividade de extração do pau-brasil. Evidentemente, esse é apenas um aspecto da devastação da Mata Atlântica, pois outras madeiras, como a da canafístula, são igualmente extraídas. Além disso, já desde o terceiro decênio do século XVI a floresta seria sempre mais substituída pelas plantations de cana-de-açúcar, de algodão e de pimenta, sobretudo no nordeste, mas também na região de Cabo Frio e de São Vicente no litoral paulista. O número de engenhos de cana-de-açúcar no litoral brasileiro mais que decuplica entre meados do século XVI e meados do século XVIII, redundando em exportações de açúcar que atingem 60 mil toneladas em 1610, como mostra a Tabela 1.

Tabela 1 — Número de engenhos de cana de açúcar no Brasil entre 1570 e 1760 e exportações de açúcar em arrobas (1 arroba = 15 quilos)

Fonte: Vera Lúcia Amaral Ferlini, A civilização do açúcar. São Paulo, 1984, p. 76

Como se sabe, Frans Post (1612–80) representou diversos engenhos em Pernambuco, mas, a meu conhecimento, a única representação de uma grande plantação de cana-de-açúcar nesse período encontra-se em uma aquarela de Zacharias Wagener (1614–68), pintada em Pernambuco entre 1634 e 1639 (Figura 2).

Figura 2 — Zacharias Wagener, Engenho Massaipe, Pernambuco, aquarela, 1634-39

Não apenas o canavial eliminou as matas, mas os fornos dos mais de 400 engenhos ativos nesses anos consumiam quantidades imensas de lenha. Lembre-se ainda outra dimensão da devastação: a importação de espécies exóticas, como os coqueiros, as jaqueiras e diversos animais (o gado bovino, equino, caprino e ovino, as galinhas etc.), fatores de desestabilização dos ecossistemas invadidos, mas também, e sobretudo, a exportação de espécies animais. Capistrano de Abreu, por exemplo, afirma que:8

A nau Bretoa levou do Cabo Frio, em 1511, cinco mil e nove toros de pau-brasil, trinta e seis escravos [indígenas], (…) dezesseis gatos, dezesseis saguis, quinze papagaios e três macacos. O carregamento da Pélérine [1532] era de cinco mil quintais de pau-brasil [1 quintal = 60 quilos]; trezentos quintais de algodão; trinta quintais de pimenta; seiscentos papagaios que já falavam francês; três mil peles de leopardos e outros animais, trezentos macacos, óleos medicinais etc.

Isso posto, a documentação a respeito é extremamente escassa e, a visual, praticamente inexistente. As poucas representações de devastação da Mata Atlântica até o século XVIII nos chegaram basicamente pela cartografia. Yuri Tavares Rocha elencou de modo talvez exaustivo os mapas conservados com esse tipo de representação,9 e bastará aqui recordar alguns exemplos no século XVI, começando pelo mais conhecido, o Atlas Miller, de Pedro Reinel e Lopo Homem, datado de 1519 e conservado na Bibliothèque Nationale de Paris (Figura 3).

Figura 3 — Atlas Miller, de Pedro Reinel e Lopo Homem, mostrando o mapa da costa brasileira, ilustrada por António de Holanda com cenas de abate de pau-brasil pelos indígenas, 1519

Paris, Bibliothèque Nationale

Os nomes grafados no mapa ao longo do litoral mostram o extenso conhecimento da costa brasileira já em 1519, assim como os contatos com os indígenas, representados pela primeira vez em frenética atividade de fornecimento de madeira. Cerca de dois decênios mais tarde, essa atividade reaparece em dois grandes relevos em carvalho conservados no Musée des Antiquités em Rouen. Elas decoravam um Hôtel particulier, situado outrora na rue Malpalu, 17 (hoje Rue de la République), em Rouen, e demolido em 1837. Os relevos são datados em geral de 1535-50 e atribuídos a um artista francês anônimo (Figura 4).10

Figura 4 — Artista francês, relevos com abate de árvores por indígenas Tupinambás no Rio de Janeiro e entrega da madeira a europeus, provavelmente franceses da Normandia, que a embarcam em uma caravela

Carvalho, 1535–50. Rouen, Musée départemental des Antiquités.

Trata-se de um artista bastante familiarizado com a cultura figurativa da Galerie François I, em Fontainebleau, que Rosso Fiorentino (1494-1540) e Francesco Primaticcio (1504-70), à frente de uma equipe de artistas italianos e franceses, começavam a decorar justamente a partir de 1533. As posições de algumas figuras são claramente reminiscentes de certas esculturas ou relevos antigos, mediadas possivelmente pelo conhecimento direto dessa galeria, em especial de seus estuques.

Como já referido, é no âmbito da cartografia que se desenvolvem as representações da extração do pau-brasil, primeiramente na costa e em seguida continente adentro a distâncias de muitos quilômetros do litoral. No terceiro quarto do século XVI, três grandes cartógrafos inserem-nas em seus mapas. O primeiro é Giacomo Gastaldi (c. 1500-66), ativo a serviço da República de Veneza e autor em 1548 da mais completa edição da Geografia de Ptolomeu, após a de Martin Waldseemüller (1513), na qual se incluem já mapas completos das três regiões das Américas, do Labrador à Terra do Fogo. Gastaldi ilustra com seus mapas a obra de Giovanni Battista Ramusio, Delle Navigationi et Viaggi, conhecida em três edições de 1556, 1565 e 1606.11 Na edição de 1556 (Figura 5), vê-se uma cena de escambo entre indígenas e portugueses, que lhes dão, em troca da madeira, o que parece ser um cálice de metal (Figura 6).

Figura 5 — Giacomo Gastaldi, xilogravura com mapa do Brasil, do Norte ao Sudeste

Giovanni Battista Ramusio, Delle Navigationi et Viaggi, Nel Quale Si Contengono Le Nauigationi al Mondo Nuouo, alli Antichi incognito, fatte da Don Christoforo Colombo Genouese, che su il fu il Primo a scoprirlo a'i Re Catholici, detto hora le Indie occidentali. Veneza, Stamperia di Giunti, 1556, pp. 427-28.

Fonte: Biblioteca da Universidade de Heidelberg <https://doi.org/10.11588/diglit.9379#0936>

Figura 6 — Giacomo Gastaldi, detalhe do mapa de Giacomo Gastaldi (1556), até o Rio de Janeiro, mostrando a extração e o escambo do pau-brasil entre indígenas e os europeus. (Ver Figura 5)

O segundo é Sebastião Lopes, cartógrafo do Armazém das Índias em Lisboa entre 1558 e 1596, que assina um mapa de 1558 e a quem se atribui extensa obra cartográfica. Seu Atlas de 1565 traz a mais saliente representação da atividade de abate do pau-brasil pelos indígenas. Como observa Yuri Tavares Rocha, a figura é representada com um machado de metal, provavelmente obtido já em troca de fornecimento do pau-brasil e de outras árvores (Figura 7).

Figura 7 — Sebastião Lopes, Atlas, c. 1565, Chicago, The Newberry Library

Outro grande cartógrafo que deixou representações do gênero, desta feita no litoral da baía da Guanabara, é André Thevet (1520-190), capelão franciscano da expedição de Nicolas Durand de Villegagnon, comandante da frota que Henrique II cedera a Gaspard II de Coligny para fundar em 1555 a França Antártica. A primeira obra de Thevet, redigida após seu retorno à França, intitula-se Les Singularitez de la France Antarctique, (Paris, Maurice de La Porte, 1557/ Antuérpia, Christophe Plantin, 1558). Ela contém uma xilogravura, mostrando o abate e o transporte do pau-brasil (Figura 8).

Figura 8 — Indígenas derrubando uma árvore de pau-brasil

Xilogravura de Les Singularitez de la France Antarctique, autrement nommee Amerique, & de plusieurs terres et isles decouvertes de nostre temps de André Thevet (Paris, Maurice de la Porte, 1557), p. 17

Em 1560, André Thevet, nomeado “cosmographe du Roy”, publicará sua obra maior, La Cosmographie Universelle, illustrée de diverses figures des choses plus remarquables veues par l’auteur, & incogneues de noz Anciens & Modernes (Paris, Pierre l’Huillier, 1575, 2 volumes). O volume relativo à América contém uma representação circunstanciada da atividade de extração e comércio do pau-brasil (Figura 9).

Figura 9 — Derrubada e comércio do pau-brasil. Água-forte ilustrando a obra de André Thevet, (Cosmographie Universelle, 1575, Volume 2)

Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional. Observação: a gravura traz a legenda: “Come ce peuple couppe et porte le brèsil es navires”.

Naturalmente, dessas figurações escultóricas e cartográficas está ausente qualquer preocupação ou conotação crítica sobre a devastação da floresta litorânea no Novo Mundo. É fato que o famoso colóquio com um ancião Tupinambá, que Jean de Léry inserirá em sua Histoire d’un Voyage faict en la Terre du Brésil (1578),12 e que conhecerá uma fortuna considerável até o século XVIII,13 tem um sabor fortemente crítico. Mas esse diálogo, tal como a “voz pesada” do Velho do Restelo nos Lusíadas (IV, 94-104), é com toda probabilidade um artifício retórico de cunho moralizante sobre a insanidade da cobiça e da ambição desmesurada que entusiasma o século XVI europeu. Pode-se ainda evocar alguma passagem igualmente famosa de Montaigne, mas tais exceções apenas confirmam a regra de que, até meados do século XVIII, o tema da destruição da natureza pelo homem não havia aflorado na consciência geral das sociedades senão como um signo de progresso. Em 1697, Leibniz assim concluía seu De Rerum Originatione Radicali (parágrafo 16): “é preciso reconhecer um progresso contínuo e absolutamente ilimitado de todo o universo, de modo que ele marche sempre em direção a uma maior civilização. Assim sendo, nossa Terra, hoje já em grande parte cultivada, o será cada vez mais”. Ainda em 1780, data da publicação da sétima e última parte de Époques de la nature — intitulada Lorsque la puissance de l’homme a fécondé celle de la Nature —, Buffon considerava que, bem longe de destruir, o desmatamento fecundava a natureza: “a face inteira da Terra traz hoje a marca da potência do homem, a qual, ainda que subordinada à da natureza, fez com frequência mais que ela, ou ao menos a fez maravilhosamente fecundada”.14

No que se refere à pintura, não havia lugar no âmbito do emergente interesse pela representação da paisagem para o problema de sua destruição antropogênica, que, entretanto, vinha ganhando escala e rapidez nos próprios territórios europeus durante a Idade Moderna. Essa questão se colocava ainda menos, é claro, no Brasil até inícios do século XIX. Seria inútil procurar qualquer representação dessa atividade nas obras de Frans Post (1612-80), Albert Eckhout (1610-66) ou nas tapeçarias tecidas nos ateliês dos Gobelins, em Paris, entre 1687 e 1800 (Les Grandes Indes, Les Petites Indes e Les Nouvelles Indes). E, no entanto, Cristiane Barreto e José Augusto Drummond mostram que a devastação do nordeste já era claramente detectada em relatos contemporâneos de cronistas, viajantes e naturalistas, entre outras fontes,15 a partir das quais é possível reconstituir a progressão histórica do desmatamento nessa região, tal como mostra a Figura 10.

Figura 10 — Mapas da supressão da floresta na Zona da Mata no Nordeste brasileiro

Verde escuro: áreas com vegetação primária. Verde claro: florestas e vegetação secundária, com predominância de vegetação em regeneração, nos estágios médio e avançado e mosaicos indiferenciados de áreas primitivas e de uso direto. Laranja: áreas antropizadas, com mosaicos de áreas cultivadas ou destinadas à pecuária, vegetação secundária e vegetação em regeneração, em menor proporção. Vermelho: áreas urbanizadas, com predominância de edificações, solo impermeabilizado ou exposto, curso d’água retificados ou alterados entre outros.

Fonte: Cristiane Barreto & José Augusto Drummond, “Devastação e proteção na Mata Atlântica nordestina: formação da paisagem e políticas ambientais”. Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), Universidade de Brasília (UnB), 2019. <https://www.canalciencia.ibict.br/ciencia-em-sintese1/ciencias-biologicas/329-historia-ambiental-da-mata-atlantica-nordestina>.

2. Os testemunhos visuais da supressão da Mata Atlântica no Rio e em São Paulo

A eliminação da Mata Atlântica no sudeste brasileiro, com exceção de pontos isolados no entorno de São Vicente, de Cabo Frio e da baía da Guanabara, foi relativamente tardia. Trata-se de um processo bem estudado.16 Até o início do século XIX, 81,8% do território correspondente aos limites atuais do estado de São Paulo (248.209 km2) era recoberto por essa floresta. Segundo Millet, em meados do século XIX, “estima-se que se sacrificara 510.000 hectares de matas (5.100 km2), com maior concentração naturalmente no Vale do Paraíba”.17 Uma fotografia de Marc Ferrez de 1882 (Figura 11) mostra um cafezal numa colina do Vale do Paraíba, antes, com toda a probabilidade, recoberta de florestas.

Figura 11 — Marc Ferrez, plantio de café no Vale do Paraíba. Foto de 1882.

Fonte: Rogério Oliveira & Adi Lazos, Geografia histórica café no Vale do Rio Paraíba do Sul. Editora PUC-Rio, 2018, p. 50.

As numerosas vistas de fazendas pintadas por Johann Georg Grimm (1846-87) indicam o desmatamento — não em ato, mas “por ausência” — da Mata Atlântica, tal como na foto de Ferrez. Carlos Roberto Maciel Levy publicou em 1980 uma monografia sobre o grupo Grimm e, sucessivamente, um ensaio, intitulado “Johann Georg Grimm e as fazendas de café”.18 As fazendas de café representadas pelo pintor dividem-se, segundo Levy, em duas etapas distintas: entre 1878 e 1881 e entre 1885 e dezembro de 1886, anos intercalados por uma viagem à Europa e ao Oriente Médio. Em ambas as etapas, Grimm pinta para fazendeiros de Minas Gerais, do Vale do Paraíba e da “freguesia” de São José do Rio Preto, em São Paulo, muitas vistas de suas fazendas, sempre do alto de uma colina próxima, o que permite perceber, provavelmente na maioria dos casos, a substituição da floresta por fazendas de café (Figuras 12 a 15).

Figura 12 — Fazenda Calçado em S. José do Rio Preto Figura 13 — Fazenda Aliança em Bemposta

Tela, 56 x 75 cm, 1878 Tela, 48,5 x 66 cm, 1880

São Paulo, Fundação Maria Luísa e Oscar Americano Rio de Janeiro, coleção particular

Figura 14 — Fazenda Floresta, S. José do Rio Preto Figura 15 — Fazenda Glória do Mundo

Tela, 61 x 82 cm, 1881 em Paraíba do Sul. Tela, 76 x 110 cm, 1886

São Paulo, coleção particular Prefeitura Municipal de Vitória, Espírito Santo.

Em 1886, um ano antes da morte de Grimm, a área desmatada no estado de São Paulo crescera para 28.000 km2, de modo que a área de cobertura florestal caíra de 81,8% para 70,5%. No início do século XX, em 1907, São Paulo perdera 59.600 km2 e as florestas cobriam então apenas 58% da área do estado. Vejamos o que ocorre nos 13 anos sucessivos em que o “modernismo” é gestado nos salões dos fazendeiros paulistas:19

Neste intervalo de quase 13 anos, o Estado vê-se despojado de cerca de 3.285.000 hectares de floresta [32.850 km2], de tal forma que um corte vertical efetuado em 1920 irá revelar um percentual de cobertura arbórea de cerca de 45%, ou seja, 11.200.000 hectares [112.000 km2]. É a floresta latifoliada tropical que está sendo inapelavelmente arrasada.

Em 15 de novembro de 1923, em uma carta a Tarsila do Amaral, então em Paris, Mário de Andrade exorta-a a voltar ao Brasil: “Vem para a mata-virgem, onde não há arte negra, onde não há também arroios gentis. Há MATA VIRGEM. Criei o matavirgismo. Disso é que o mundo, a arte, o Brasil e minha queridíssima Tarsila precisam”.20 O escritor decerto não se dava conta de que cerca de metade de sua “mata virgem” por então já se fora, e que nos 22 anos de vida que ainda lhe restavam muito mais dela desapareceria. De fato, seria apenas em 1933, dez anos após essa carta a Tarsila, que os cafezais de São Paulo atingiriam o pico de 1,5 bilhão de pés de café, avançando sempre mais sobre as florestas. Os três decênios sucessivos à carta de Mário de Andrade mostram, efetivamente, uma imensa aceleração nesse processo de perda da Mata Atlântica, pois se até 1920 o estado ainda conservara quase metade de sua área de cobertura vegetal nativa (45%), apenas 32 anos depois, em 1952, a cobertura florestal fora reduzida a 18,2% do território paulista e 20 anos atrás, a cerca de 3%, como mostra a Figura 16.

Figura 16 — Área do estado de São Paulo recoberta por florestas entre 1800 e 2000 (%)

Fonte: M. A. M. Victor, A. C. Cavalli, J. R. Guillaumon, R. Serra Filho, Cem anos de devastação — Revisitada 30 anos depois. Brasília, 2005, p. 52.

<http://www.dokuwiki.lcf.esalq.usp.br/pedro/lib/exe/fetch.php?media=ensino:graduacao:cem_anos_de_devastacao_-_m._vitor_2005_1_.pdf>.

Os testemunhos pictóricos diretos desse desmatamento, embora poucos e restritos sobretudo às florestas do Rio de Janeiro e de São Paulo, são eloquentes. Três deles devem ser lembrados. O primeiro, ilustrado na Figura 17, é a litografia de Isidore-Laurent Deroy segundo um desenho de Johann Mauritz Rugendas (1802-58), talvez perdido, mas que pode ser datado dos anos 1822-1825.

Figura 17 — Johann Mauritz Rugendas, Défrichement d’une forêt

Litografia de Isidore-Laurent Deroy segundo um desenho de Rugendas (Dessiné d’après nature par Rugendas). Voyage pittoresque dans le Brésil, Engelmann, 1835. São Paulo, Pinacoteca do Estado, Inv. PINA07129.

Pode-se conjecturar que desenho e litografia documentem o desmatamento da fazenda Mandioca, cujas ruínas ainda se conservam na Serra da Estrela (RJ), no Caminho do Ouro, comprada pelo Barão de Langsdorff, que se aventurara em fazendeiro e procurava plantar milho. O desmatamento pode se dever também à produção de carvão, pois há vestígios de dez carvoarias na região.21 Os dois móveis do desmatamento são complementares e, de resto, a gravura mostra um dos escravos carregando um feixe de madeira que será em breve transformada em carvão.

O segundo e mais famoso testemunho pictórico da destruição da Mata Atlântica refere-se justamente à produção de energia pelo carvão vegetal. Ele surge por volta de 1843, por obra de Félix-Émile Taunay (1795-1881), pintor fundamental para a consolidação institucional da Academia brasileira e que só há pouco mais de dez anos mereceu uma monografia (Figura 18).22

Figura 18 — Félix-Émile Taunay, Vista de um mato virgem que se está reduzindo a carvão

Tela, 134 x 195 cm, 1843, Museu Nacional de Belas Artes (inv. 832).

Trata-se por certo do mais importante documento pictórico da devastação da Mata Atlântica, no caso particular da floresta da Tijuca no Rio de Janeiro. Ele é contemporâneo e por muitos aspectos indissociável do longo poema em três cantos de Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879), “A destruição das florestas”, publicado em 1845, uma espécie de canto fúnebre sobre o desaparecimento da Mata Atlântica nos arredores do Rio de Janeiro. No Canto III, intitulado “Meditação”, Porto-Alegre pareceria comentar em decassílabos a obra-prima de Félix-Émile Taunay:

Vinde comigo, Brasileiros sábios,
Ao lugar onde outrora se ostentava
Cheio de vida, de fragrância e esmalte
Monumento votado a infindos seres,
Odoroso teatro, onde mil cenas
A terra erguera ao som do hino eterno
Das várias estações! Vinde comigo
Prantear desse tempo viridante
As ruínas majestosas, convertidas
Em toros calcinados, e alva cinza!

A emergência dessa consciência trágica acerca das ameaças que pesam sobre uma natureza em perdição foi bem analisada por José Augusto Pádua em seu clássico livro, Um sopro de destruição.23 O quadro de Félix-Émile Taunay e o poema de Porto-Alegre ecoam há vinte anos de distância o discurso proferido por José Bonifácio de Andrada e Silva (1763–1838), que serviu de epígrafe ao livro de Pádua:

A Natureza fez tudo a nosso favor, nós, porém, pouco ou nada temos feito a favor da Natureza. (…) Nossas preciosas matas vão desaparecendo, vítimas do fogo e do machado destruidor, da ignorância e do egoísmo. Nossos montes e encostas vão-se escalvando diariamente, e com o andar do tempo faltarão as chuvas fecundantes que favoreçam a vegetação e alimentem nossas fontes e rios, sem o que o nosso belo Brasil, em menos de dois séculos, ficará reduzido aos páramos e desertos áridos da Líbia.

É importante lembrar que José Bonifácio de Andrada e Silva, Taunay e Porto-Alegre não são casos isolados no segundo quarto do século XIX. Explorar suas convergências com outros pensadores de seu tempo nos afastaria de nosso tema, mas é preciso ao menos lembrar que discurso, quadro e poema ecoam certa sensibilidade romântica, típica de pensadores como Alexander von Humboldt (1769–1859), Jean-Baptiste de Lamarck (1744–1829) e George Perkins Marsh (1801–82). É possível, a meu ver, caracterizá-lo já como uma consciência ecológica, antes mesmo da existência do termo ecologia, sem temor de incorrer em excessivo anacronismo. De fato, no terceiro quarto do século XIX, retomando as advertências de Humboldt e de Lamarck, Perkins Marsh formula numa linguagem impressionantemente atual sua percepção do risco posto pela crescente interferência antrópica sobre os ecossistemas. Assim, em seu The Earth as Modified by Human Action, ele se propõe a “apontar os perigos da imprudência e a necessidade de cautela em todas as operações que interferem em larga escala nos equilíbrios espontâneos do mundo orgânico e inorgânico”.24

Nos anos 1870, data da segunda edição desse livro de Marsh, tais preocupações estavam ainda bem longe dos homens que vivenciavam a destruição da Mata Atlântica na longínqua província paulista e é frontal o contraste entre a obra de Félix-Émile Taunay, cujo espírito crítico transparece já em seu título, e a terceira mais famosa representação do desmatamento da Mata Atlântica: o “Derrubador brasileiro”, de Almeida Júnior (1850-99). Pintada em Paris em 1879 e exposta em 1880 no Salon Officiel des Artistes Français, a obra foi objeto de várias análises, que apontam, seja uma possível influência de Manet, seja uma suposta “nostalgia da pátria distante”.25 Almeida Júnior empresta à figura do modelo a monumentalidade escultórica de um herói clássico em repouso. A ação humana sobre a paisagem não é figurada como uma agressão e é mesmo possível vislumbrar na fusão da figura em seu meio, bem como na sensualidade do modelo (um jovem italiano de nome Mariscalo), alguma alusão a uma entidade mítica da natureza, um fauno ou um sátiro (Figura 19).

Figura 19 — José Ferraz de Almeida Júnior, Derrubador brasileiro

Tela, 227 x 182 cm, 1879, Museu Nacional de Belas Artes

Tanto no quadro quanto em sua recepção crítica está ausente qualquer referência, emocional ou crítica, ao processo de desmatamento que começava então a ganhar escala, como mostra o gráfico da Figura 16. Se crítica a esse processo houver, ela virá bem mais tarde por intermédio de outra pintura. Pode-se, de fato, imaginar o Derrubador brasileiro como o primeiro painel de um díptico emblemático da história da destruição da Mata Atlântica paulista entre o século XIX e o século XX, cujo segundo painel seria O lavrador de café,26 que Candido Portinari (1903-62) pintará 35 anos depois, em 1934 (Figura 20).

Figura 20 — Candido Portinari, O lavrador de café

Tela, 100 x 81 cm, 1934, assinado e datado, c.s.d.: “PORTINARI 934”, Museu de Arte de São Paulo, MASP, inv. 519.

O lavrador de café é o herdeiro direto do derrubador brasileiro, no momento em que, como já referido, os cafezais paulistas haviam atingido seu ápice. O herói de Portinari, recriado no registro social dos anos 1930, tem a mesma grandeza épica do derrubador, e o horizonte desertado de florestas sobre o qual ele se recorta é justamente o “legado” de seu antecessor. Nessa cena desolada, o toco de um tronco de árvore no primeiro plano exibe em seu miolo um vermelho que se pode associar à morte antropogênica da floresta ou mesmo, à distância de séculos, ao já quase extinto pau-brasil. Esse detalhe fundamental funciona, em todo o caso, como um memento evocador da floresta eliminada. Não deixa de ser irônico o fato de que, neste mesmo ano de 1934, Getúlio Vargas assinava o decreto n. 23.793 que instituía o primeiro Código Florestal Brasileiro.27

3. O que resta da Mata Atlântica e o critério da biodiversidade

Em 2020, a Mata Atlântica como um todo ocupava ainda uma extensão de 16.185.632 ha (161.856 km2), o que equivalia, como afirmado na abertura deste artigo, a 12,4% de sua extensão original. Se o mapeamento considerar apenas fragmentos nativos ou bem conservados de mais de 100 hectares, essa porcentagem cai para apenas 9%.

É importante entender que os critérios e as estratégias metodológicas adotados por esse mapeamento do Atlas (SOS Mata Atlântica/Inpe) são diferentes de outras duas abordagens, complementares e não contraditórias, de mensuração propostas pela Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e pelo MapBiomas. Vejamos rapidamente essas diferenças de critérios:

  1. 1. O SOS Mata Atlântica/Inpe utiliza imagens captadas pelos satélites do programa Landsat (INPE) com 30 metros de resolução, ou seja, pouco menos de 1 hectare. Além disso, ela “considera apenas áreas de florestas nativas em estágios médio e avançado de regeneração, ou seja, áreas mais preservadas, e que são essenciais à conservação da biodiversidade no longo prazo. Assim, áreas de menor dimensão, ou que possuam vegetação muito alterada, não são contabilizadas”.28Enfim, a base de cálculo para estabelecer as porcentagens de florestas remanescentes é a área a que se aplica a Lei da Mata Atlântica (11.428/2006).29
  2. 2. A FBDS analisa imagens disponíveis apenas nos anos de 2011, 2012 e 2013, geradas pelo satélite RapidEye com resolução espacial de 5 metros. A base de cálculo é a área total do bioma.30 Tanto a FBDS quanto o MapBiomas destacam, enfim, o total de vegetação remanescente, independentemente de sua área e de seu grau de conservação.

A Tabela 2 mostra um quadro comparativo dessas três estratégias de mensuração dos remanescentes da Mata Atlântica, incluindo formações florestais e não florestais (Mapbiomas), vegetações bem conservadas e degradadas, com mais de 100 hectares, com mais 3 hectares e ainda fragmentos sem filtros por tamanho de área.

Tabela 2 — Áreas remanescentes da Mata Atlântica segundo três abordagens: Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica 2019-20; Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS) e MapBiomas

Fonte: Flavio J. Ponzoni (INPE), Jean Paul Metzger (USP), Marcia Hirota, (Fundação SOS Mata Atlântica), Marcos R. Rosa (Arcplan) e Tasso Azevedo, (Mapbiomas), “Qual é a área de cobertura da Mata Atlântica”, SOS Mata Atlântica, 27/III/2019 <https://www.sosma.org.br/artigos/qual-e-area-de-cobertura-da-mata-atlantica/>.

A Mata Atlântica permanece um dos cinco mais ricos entre os 36 hotspots de biodiversidade planetária. O critério de mensuração que privilegiei foi o da SOS Mata Atlântica/Inpe justamente porque é o único que inclui, como acima citado, apenas “áreas mais preservadas e que são essenciais à conservação da biodiversidade no longo prazo”. De fato, o que importa quantificar são florestas com área e grau de conservação ainda dotadas de funcionalidade ecológica, pois o que está em jogo na destruição em curso desse bioma é, acima de tudo, o risco sempre maior de extinções em massa de espécies da fauna e da flora, levando ao colapso final da funcionalidade de seus diversos ecossistemas.

O impacto dessa perda florestal em termos de perda de biodiversidade tem sido mensurado. O IBGE, por exemplo, considera que havia em 2014 mais de 3 mil espécies ameaçadas de extinção no território brasileiro. A Figura 21 mostra um quadro comparativo dos diversos biomas brasileiros no que tange ao número e aos diversos status de conservação das espécies avaliadas. Segundo os critérios de avaliação da IUCN, a Mata Atlântica era então, sem nenhuma surpresa, o bioma mais ameaçado, com 1.989 espécies sofrendo diferentes níveis de ameaça de extinção, vale dizer, 25% das espécies avaliadas. Além disso, 426 espécies encontravam-se então próximas de migrar para essa condição.

Figura 21 — Níveis de conservação da fauna e da flora nos seis biomas brasileiros em 2014

Fonte: Caio Belandi, “More than 3,000 threatened species of animals and plants in 2014”, IBGE, 05/11/2020

A Mata Atlântica não é a mais ameaçada apenas no âmbito dos biomas nacionais. Ela está entre as mais ameaçadas também no planeta como um todo. Um exemplo disso é fornecido pelas espécies de plantas dotadas de sementes (espermatófitas). Elas têm sido globalmente extintas desde 1900 à taxa média de cerca de três espécies por ano, uma taxa até 500 vezes mais alta do que a taxa de base (extinções apenas por forças naturais).31 Mas a Mata Atlântica, especificamente no sudeste brasileiro, tem perdido entre 21 e 30 espécies dessa categoria de plantas por ano desde 1900. Ela está, junto com o oeste da Austrália e a Índia, entre as regiões do mundo que mais perderam espécies dessa categoria, como mostra o mapa da Figura 22.

Figura 22 — Mapa dos padrões de extinção de espécies de plantas dotadas de sementes (espermatófitas) desde 1900

Fonte: Aelys M. Humphreys et al., “Global dataset shows geography and life form predict modern plant extinction and rediscovery”. Nature ecology & evolution, 3, julho de 2019, pp. 1043-47, Fig. 1a.

Ricardo Cardim documentou com mais de 500 fotografias alguns dos sobreviventes monumentais dessa floresta32 e Zé Pedro de Oliveira Costa analisa a dificuldade e a importância da preservação e restauração desses remanescentes florestais.33 Seu empenho na conservação dos primatas brasileiros é mais que justificado, pois 75% de todas as espécies de primatas do planeta conservam-se em apenas quatro países: Brasil, Madagascar, República Democrática do Congo (RDC) e Indonésia.34 Segundo o ICMBio, “o Brasil é o país com a maior diversidade de primatas do mundo, com uma riqueza de mais de 139 espécies e subespécies. No bioma Mata Atlântica estão presentes 23 delas, sendo que 17 constam na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção”.35

A extinção de espécies animais na Mata Atlântica é absolutamente trágica. Um inventário das espécies de aves, por exemplo, conclui que na Mata Atlântica:36

entre cinco e sete espécies de pássaros foram provavelmente levadas à extinção na natureza neste bioma nas últimas décadas, além de outras duas espécies que ocorreram em outras partes do Brasil. Essas extinções foram o resultado da perda de habitat em combinação com outras ameaças. Outras nove espécies de aves da Mata Atlântica estão criticamente ameaçadas, além de seis de outras partes do Brasil.

4. As perdas recentes e a nova aceleração após 2018

Desde 1990, sucedem-se as edições do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, quinquenais e depois anuais, promovidas, como dito, pelo SOS Mata Atlântica/Inpe. Sempre segundo esse Atlas (edição 2019-20), entre 1985 e 2020 o bioma perdeu 1.949.793 hectares (19,4 mil km2) de florestas primárias ou bem conservadas com área mínima de três hectares apenas, tal como discriminado na Tabela 3.

Tabela 3 — Desmatamento da Mata Atlântica entre 1985 e 2020

Fonte: Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica 2019-2020

https://cms.sosma.org.br/wp-content/uploads/2021/05/SOSMA_Atlas-da-Mata-Atlantica_2019-2020.pdf

Pode-se observar que nestes 36 anos a Mata Atlântica jamais perdeu menos de 11 mil hectares/ano (110 km2). Apenas no século XXI (2000-20) foram suprimidos 485.311 hectares (4.853 km2), considerados no mapeamento fragmentos de matas nativas ou bem conservadas (ecologicamente funcionais) de ao menos 3 hectares. No segundo decênio do século XXI (2011-20), ela perdeu 163.089 hectares (1.630 km2), uma perda de área de floresta maior que a do município de São Paulo (1.521 km2). A taxa média anual neste segundo decênio foi 16.308 hectares (163 km2), maior portanto do que a média anual do biênio 2008-10 (15.183 hectares).

Nova aceleração do desmatamento em 2021-2022

O segundo decênio do século pareceria mostrar uma estabilização da perda florestal. De resto, entre agosto de 2017 e julho de 2018, a supressão de florestas primárias ou bem conservadas atingiu seu menor valor em toda a série histórica (11.399 hectares). Esse desmatamento mínimo era ainda inaceitável, é claro, haja vista o caráter residual da floresta. E se o ritmo de destruição da Mata Atlântica diminuiu de 107 mil hectares, na média anual dos anos 1985-90, para pouco mais de 21 mil hectares em 2021, isso não se deve a uma tomada de consciência sobre a situação limite desse bioma. Deve-se basicamente ao fato de que já não há quase mais nada a destruir. E esse quase nada está sob forte pressão do agronegócio e das madeireiras, ambos com forte apoio no Legislativo e no Executivo. Há em trânsito no Congresso Nacional, por exemplo, diversos projetos de lei que impulsionam ainda mais a liquidação final da floresta, tais como o PL 686, que permite o desmatamento de excedentes da Reserva Legal em propriedades localizadas na Mata Atlântica; o PL 364, que retira a proteção dos Campos de Altitude; e o PL 195, que enfraquece os controles existentes sobre a exploração e transporte de madeira.37

A pior notícia, contudo, é que a estabilização do desmatamento parece ter sido efêmera, posto se verificar no terceiro decênio uma nova aceleração do desmatamento. Em 2021 (entre agosto de 2020 e julho de 2021) foram desmatados, segundo o SOS Mata Atlântica/Inpe, quase o dobro do mesmo período 2017–2018, ou seja, 21.642 hectares (216 km2) de floresta primária ou em estágios avançados de recomposição. Estamos falando de um crescimento de mais de 60% em relação ao registrado entre 2019 e 2020 (13.053 ha). “A perda de florestas naturais”, afirma o SOS Mata Atlântica, “área em que caberiam mais de 20 mil campos de futebol, corresponde a 59 hectares por dia ou 2,5 hectares por hora, além de representar a emissão de 10,3 milhões de toneladas de CO2 equivalente na atmosfera”.38 E essa aceleração confirma-se em 2022, pois apenas no primeiro semestre do corrente ano foram desmatados no conjunto da Mata Atlântica quase tanto quanto em todo o ano anterior, ou seja, 21.302 hectares (213 km2), como indica o SAD (Sistema de Alertas de Desmatamento), que detecta desmatamentos a partir de 0,3 hectares. “É como se 117 campos de futebol tivessem sido destruídos todos os dias, o que corresponde à emissão de mais de 10,2 milhões de toneladas de CO2”.39 Luís Fernando Guedes Pinto, Diretor de Conhecimento da SOS Mata Atlântica e coordenador da última edição do Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, lança o enésimo alerta:40

Se as derrubadas persistirem, vai faltar água, vai faltar alimento, vai faltar energia elétrica. É uma ameaça à vida, um desastre não só para o Brasil como para o mundo, pois importantes referências internacionais apontam a Mata Atlântica como um dos biomas que precisam ser restaurados com mais urgência para atingirmos a meta de redução de 1,5°C de aquecimento global estabelecida no Acordo de Paris. Mas estamos percorrendo o caminho oposto, em direção à sua destruição.

Enésimo e inútil alerta, pois alguém acredita que essa trajetória será revertida? Claro que há várias ações e projetos de recomposição florestal em curso. Desde 1993, por iniciativa do SOS Mata Atlântica, foram plantadas cerca de 42 milhões de mudas de árvores nativas desse bioma, equivalentes a mais de 23 mil hectares de áreas em processo de restauração florestal.41 Mas essa área é apenas pouco maior do que a que foi destruída tão somente em 2021 (21.302 ha). Além disso, em particular no estado de São Paulo, pesquisas efetuadas durante mais de 20 anos pelo Programa Biota/Fapesp e pelos múltiplos projetos que dele nasceram acumularam um patrimônio inestimável de conhecimento e de gestão do bioma. E naturalmente em outros estados da federação, há progressos efetivos em curso. Esses esforços de restauração florestal e de aprofundamento do conhecimento científico do bioma podem retardar a destruição. Eles não conseguirão detê-la porque ela é consubstancial ao sistema econômico imperante, a que se dá o nome de capitalismo. Isso porque esse sistema é impelido por uma pulsão expansiva — a acumulação do capital — que o impede de se reger pelo imperativo do limite. De tão óbvio, de tão assente em tantas linhas de evidência histórica e observacional, é quase embaraçoso afirmar mais uma vez o truísmo de que o capitalismo é incompatível com a conservação dos equilíbrios do sistema Terra, aí incluídas as suas florestas e, em geral, a sua biodiversidade. A destruição dos resíduos da Mata Atlântica é mais uma demonstração cabal dessa evidência. Mas diante de interesses e de axiomas da estrutura mental de uma sociedade pouco ou nada podem mesmo as mais elementares evidências.

“A biodiversidade — a diversidade nas espécies, entre espécies e dos ecossistemas — está diminuindo mais velozmente do que em qualquer outro momento da história humana”, afirma o primeiro relatório do IPBES, de 2019.42Estamos, de fato, nos precipitando em direção a uma aniquilação biológica43 e a uma fulminante descarga da energia bioquímica acumulada pela fotossíntese a partir da energia solar ao longo dos bilhões de anos da evolução.44 Essa descarga está nos conduzindo a uma espécie de “hipobiosfera”, um estado muito diminuído da biosfera.45 Nesse estado, o planeta será sempre mais inóspito ao projeto humano e à sobrevivência de um sem número de espécies. A ciência nos diz a todo o momento que ainda há tempo para evitar o pior. Mas é preciso que entendamos todos — cientistas e não cientistas — que uma mudança vigorosa de trajetória não está no rol de possibilidades de nossa forma de organização social. É preciso, portanto, superá-la com a radicalidade e o senso de urgência impostos pela extrema gravidade da situação atual. E superá-la não significa apenas assumir o controle democrático dos investimentos estratégicos e dos benefícios aportados por esses investimentos; significa uma mutação civilizacional, na qual a natureza deixe de ser apenas “recurso” e passe a ser reverenciada como um valor em si, um valor não econômico e não antropocêntrico.