Revista Rosa

Volume 6

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Ars longa, vita brevis

A distância entre dois pontos é uma linha, a distância entre linhas imaginárias é um território, é uma imagem, Marina da Silva, 2022

A vitória de Lula no segundo turno do pleito presidencial desafogou aquele grito de quatro anos preso em nossas gargantas. Só o fato de o campo democrático, constituído ao longo do pleito, ter ganho um tempo precioso para respirar e recarregar suas energias merece grande comemoração. O resultado positivo, no entanto, não pode nos tirar o pé da realidade.

O fato é que a democracia venceu por um triz. Foi a eleição mais apertada da história republicana, apesar da gestão desastrosa do candidato à reeleição. Tudo bem: a tentativa de reeleição foi inflada pelo poder da máquina estatal, despudoramente empenhada para ganhar o voto dos mais humildes e tirar a vantagem do adversário justo nessa faixa do eleitorado. Não deu certo, mas quase… Descontados esses fatores, resta o desafio de compreender como é que o representante de uma gestão tão abaixo do medíocre (péssima, incompetente, vergonhosa — faltam-nos adjetivos na tentativa de qualificá-la) conseguiu arrebanhar tantos votos. Não é normal. No mínimo, indica que nosso regime constitucional continua destrambelhado, rolando ladeira abaixo.

Desfiar publicamente a repulsa aos milhões que fizeram essa escolha pode dar algum consolo, mas não resolve o problema. O que se haveria de fazer, nesse caso? “Trocar de povo” (para lembrar a ironia brechtiana) está fora de cogitação…; de modo que é com ele mesmo — o povo — que temos de lidar. E se ainda quisermos extrair um consolo dessa parada difícil, que seja este: uma maioria, mesmo apertada, continua a rejeitar alternativas antidemocráticas. Dentro dessa rejeição, claro, cabem coisas muito diferentes e foi essa a grande proeza da candidatura Lula: juntá-las todas num mesmo balaio. Tendo vencido por um triz, há que se presumir que não teria vencido sem essa convergência. Mas não podemos esquecer que a maioria de seus votos proveio dos estratos mais pobres: os que vivem com até dois salários mínimos — em especial as mulheres —, moradores do Nordeste e de algumas periferias metropolitanas ao sul (mas não a do Rio de Janeiro, por exemplo). O mérito, nesse caso, parece ter sido mais do próprio candidato do que do balaio que ele encarnou.

Esses dois lados da vitória dizem muito de sua força, mas também de sua fraqueza. O bloco político que formará o novo governo terá de continuar se havendo com a ameaça autoritária, mais do que nunca influente no exército e nas ruas, e agora também no Congresso. Por esse lado, o balaio democrático não deixa de providenciar ao futuro presidente um excelente muro de proteção. Ocorre que, uma vez empossado, Lula terá de se haver também com as expectativas que gerou em seu eleitorado, de vencer a crise social que nos assola antes mesmo da chegada do bolsonarismo ao poder. E aqui a pendência a ser resolvida se desloca do campo autoritário para o interior mesmo do campo democrático. Justamente por esse lado, o governo terá de fazer escolhas, se quiser permanecer à altura daquelas expectativas. Para dizê-lo cruamente: terá de selecionar certos gatos de seu balaio, ainda que preterindo outros.

Em tempos normais, já não seria uma tarefa fácil. Mas agora chegamos a um ponto crítico, uma vez que o próprio tempo ficou rarefeito, assim como as alternativas disponíveis. Eis que as duas pendências — a da democracia com o autoritarismo e a da democracia consigo mesma — estão agora fundidas em uma só, a exigir resposta comum e consistente. É este o desafio central do governo em vias de se constituir, mas também de nosso regime democrático. Perfeitamente cientes disso, as forças sociais e políticas organizadas tratam de buscar a melhor posição no terreno onde, provavelmente, as disputas principais serão travadas logo adiante.

Logo adiante? De certo modo, as escolhas do governo já estão sendo disputadas. Basta ver o quiproquó causado pelo discurso do presidente eleito no primeiro encontro da chamada “equipe de transição”, instalada em Brasília e coordenada por seu vice. Em termos de conteúdo, Lula não disse nada de novo: simplesmente reiterou os compromissos de campanha, inclusive quando bateu na tecla de que seu governo não sacrificaria a “responsabilidade social” em nome da “responsabilidade fiscal”. Disse-o, é verdade, de modo um tanto veemente e emocional, o que pode ter parecido desafiador. Mas o que “pegou” de fato foi menos a forma do que o próprio conteúdo.

No fundo, o que causa tanto nervosismo em falas como essa de Lula é que parte das forças mencionadas acima — em particular aquelas que costumam representar o establishment econômico do país — vem dando de barato que o novo governo deixará de lado o discurso que o elegeu e adotará outra plataforma. Isto é, a mesma que há vários ciclos não consegue ganhar nenhuma eleição presidencial, mas que termina, de um modo ou de outro, emplacando suas diretrizes. Contudo, mesmo as emplacando e as submetendo ao teste da realidade, seus porta-vozes nunca parecem satisfeitos. Daí a insistência: querem mais; ou melhor, mais do mesmo.

Ainda que em seu discurso Lula tenha procurado traçar um limite para aquilo que estará disposto a negociar nesse terreno, permanece a dúvida quanto a que “rosto”, ao fim e ao cabo, seu governo oferecerá ao público. Pois, além das indeterminações de suas alianças heterogêneas, resta o imperativo institucional de buscar algum acordo com um Congresso que se mostrará, em princípio, pouco amistoso. Em resumo: como se não bastassem os milhões de eleitores que insistem, custe o que custar, ancorar a alternativa autoritária, o país ainda se verá obrigado a lidar com as obsessões e atavismos do “sistema”. O qual, em suas atitudes concretas, apesar do aparente desejo em contrário, acaba jogando ainda mais lenha à fogueira daquela alternativa.

Do novo governo esperamos que venha a aprender, e rápido, como fazer passar sua caravana, apesar de todo estardalhaço ao redor. Mas caberá especialmente às forças progressistas e a todos os movimentos sociais identificados com suas aspirações empurrá-lo para que, nessa travessia, faça as escolhas certas.