Revista Rosa

Volume 6

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A vitória dos parentes: uma hipótese sobre a desidratação do bolsonarismo

Ulysses Boscolo de Paula

As eleições de 2022 foram uma espécie de tira-teima para a balzaquiana democracia brasileira, ameaçada pela emergência de uma liderança popular de extrema direita1 capaz de conferir coesão a um conjunto de sentimentos dispersos e desorganizados, que envolvem o ressentimento daqueles que se sentem excluídos pelos processos de modernização e complexificação da estrutura social, por meio do empoderamento simbólico e econômico de minorias demográficas (LGBTQIPA+) e não demográficas (mulheres, pessoas racializadas e pessoas pobres). Desse modo, se por um lado tínhamos o candidato do Partido Liberal vocalizando tais sentimentos, por outro, tínhamos Luiz Inácio Lula da Silva se apresentando como candidato de uma frente ampla em defesa da democracia, enquanto significante vazio2 cujo enraizamento popular foi operacionalizado pela identificação de sua figura com essas minorias que se percebem marginalizadas e oprimidas pelos segmentos hegemônicos

Em um artigo publicado em 2020, argumentamos que ressentimento é o afeto que catalisa os vínculos de identificação entre a candidatura de Bolsonaro e o seu eleitorado, sobremaneira, o evangélico.3 Como veremos, os dados analisados nos permitem afirmar que, embora o sucesso eleitoral de Bolsonaro em 2018 extrapole a questão religiosa, envolvendo aspectos sociopolíticos conjunturais, o discurso de fundo religioso serviu como elemento mobilizador de afetos traduzidos em adesão eleitoral ao candidato. De todo modo, não é possível imputar aos evangélicos um papel numérico decisivo no pleito de 2018 ou no de 2022, por não termos dados fidedignos para afirmar quantos evangélicos de fato votaram em Bolsonaro, mas, sobretudo porque estes não perfazem maioria do eleitorado. Em ambos os pleitos, as expressivas votações de Jair Bolsonaro não se devem apenas ao voto evangélico, porém é nesse segmento que ele conquistou as maiores margens quando comparado ao seu adversário, ainda que haja divergências entre os institutos de pesquisa sobre os números dessa vantagem. No texto de 2020, nosso propósito foi construir uma argumentação em torno da hipótese de que a adesão de extensas parcelas desse grupo religioso, ao que convencionou-se chamar de “bolsonarismo”, permitiu a criação de uma gramática de ação política (NATALUCCI, 2015) conservadora articulada pelo ressentimento, que funcionará como plataforma privilegiada para o discurso bolsonarista.

Neste artigo, todavia, nosso argumento será especular sobre dois movimentos. O primeiro indica a consolidação do discurso evangélico como caixa de ressonância do bolsonarismo, capaz de traduzir seus conteúdos econômicos e políticos para uma linguagem popular, passível de promover o seu devido enraizamento no tecido social. O segundo, muito mais incerto, indica uma possível redução dessa capacidade, ou ainda, o surgimento de uma certa resistência por parte dos grupos até então identificados como “bolsonaristas” com relação à candidatura de Jair Bolsonaro. Não obstante cabe aqui uma importante ressalva: no tocante ao primeiro movimento, estamos no terreno dos fatos, quanto ao segundo, adentramos em um plano mais especulativo.

Alguns fatores, todavia, corroboram esse exercício, sendo o principal deles, a própria derrota de Jair Bolsonaro em um contexto de inédita utilização da máquina pública na melhoria artificial das condições de vida das classes populares e médias. Sendo assim, cabe lembrar que, em março de 2022, foi anunciado pelo então presidente um programa denominado Renda e Oportunidade, destinado a liberar mais de R$ 150 bilhões em recursos para aposentados e trabalhadores através de saques do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e antecipação do pagamento de 13º para aposentados e pensionistas do INSS. No fim de junho, entrou em vigor uma alteração na legislação para reduzir os tributos sobre os combustíveis até o final do ano, interrompendo um período de sucessivas elevações no preço da gasolina e do diesel, o que provocou uma expressiva redução de preços com impacto imediato na taxa de inflação.

Da mesma forma, em julho do mesmo ano, foi promulgada uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) destinando R$ 41 bilhões, a serem computados fora do teto de gastos, para desembolsos do governo federal destinados a benefícios sociais que contemplam, dentre outros auxílios de menor magnitude,4 R$ 7,4 bilhões para motoristas de caminhão e de táxi, e R$ 26 bilhões para o reajuste do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600. Assim como no caso do combustível, os auxílios foram estabelecidos com prazo apenas até o final do ano, o que evidencia seu caráter eleitoreiro e completamente desarticulado de qualquer política pública devidamente estruturada. O caráter inédito no tocante à mobilização da máquina pública para garantir a reeleição não se deve apenas à elevação de gastos por parte do governo incumbente, mas pela sua magnitude e, sobretudo, pela crueldade na manipulação das condições de vida da população. Algo que fica ainda mais explícito diante do decreto de 12 de agosto de 2022, que regulamenta o crédito consignado para os beneficiários do Auxílio Brasil, com a possibilidade de comprometimento de 40% do valor concedido.5

Diferentemente desse argumento, que reforça o caráter fragoroso da primeira derrota de um candidato presidencial à reeleição na história da Nova República, a hipótese sobre um possível desembarque de alguns dos grupos formadores da cadeia de equivalências do bolsonarismo é arriscada, porém abre espaço para a concepção de estratégias para acentuar esse processo. Isso porque, para promover a reflexão sobre uma possível redução da efetividade eleitoral do discurso bolsonarista, adentramos em um terreno de dados conflitantes. Não há, por exemplo, um único indicador por meio do qual possamos com segurança comparar as intenções de voto em Jair Bolsonaro nos pleitos de 2018 e 2022 dentre os diferentes segmentos. Mesmo quando analisamos apenas a eleição atual, há conflitos entre as mensurações das clivagens econômicas e sociais, muito por conta da ausência de um censo atual, com base no qual as amostras pudessem ser calibradas com maior rigor.6

Ulysses Boscolo de Paula

No caso dos evangélicos, foi criado pelo Cebrap o Agregador de Pesquisas Eleitorais, que reúne as pesquisas divulgadas pelo Idea Big Data, FSB, Datafolha, Vox Populi, Quaest, MDA, Ipec, Futura, Ipespe, PoderData (GERARDI & ALMEIDA, 2022). Quando comparamos as intenções de voto dos dois candidatos ao segundo turno, observamos que a média aferida pelo agregador do Cebrap com base nas últimas pesquisas nos permite identificar no segmento evangélico aquele em que havia a maior diferença entre ambos, uma vez que 61% das intenções de voto do grupo iam para Bolsonaro e 30% para Lula, uma diferença de 31 pontos percentuais entre ambos, ou de 30 pontos percentuais, se usarmos apenas a última pesquisa do Datafolha. Essa opção nos facilita em termos de comparação com os demais segmentos e com o pleito anterior, no qual a diferença entre os evangélicos, na última pesquisa realizada pelo mesmo instituto antes da eleição de 2018, foi de 36 pontos percentuais (68% para Bolsonaro e 32% para Haddad).

Quando segmentamos o eleitorado por gênero, sabendo que as mulheres, como as demais minorias demográficas e não demográficas, mantiveram índices maiores de intenção de voto em Lula, observamos uma diferença consideravelmente menor: onze pontos percentuais, segundo o último Datafolha de 2022. Quando observamos a clivagem racial, a dispersão das intenções de voto foi a seguinte: entre brancos, a diferença em favor de Bolsonaro foi de 14 pontos percentuais; entre pretos e pardos, todavia, a relação se inverte. Lula abre uma vantagem de 9 pontos percentuais sobre o candidato rival, entre os pardos. Já entre aqueles que se identificam como pretos a diferença é ainda maior: 26 pontos percentuais. Apenas quando analisamos as clivagens de renda, observamos uma diferença próxima daquela mensurada entre os evangélicos, pois entre os mais pobres (aqueles que ganham até dois salários mínimos) a diferença é de 28 pontos percentuais em favor de Lula. Ademais, reforçando nosso argumento sobre o componente hegemônico do bolsonarismo (em termos de classe, gênero e raça), essa diferença se inverte em favor de Bolsonaro conforme aumenta a renda: entre os que ganham de 2 a 5 salários mínimos ela é de 14 pontos percentuais; entre os que ganham de 5 a 10 salários mínimos é de 28 p.p. e entre os que ganham mais de 10 salários mínimos, de 23 p.p.

Esses dados reforçam dois argumentos do texto. O primeiro, demonstrado de maneira mais determinante, indica que Lula foi o representante preferencial das minorias demográficas e não demográficas, aquelas que ameaçam a hegemonia das elites patriarcais. O segundo, cuja demonstração ainda é incerta, indica uma desidratação de Bolsonaro em seu principal reduto eleitoral: os evangélicos, pois comparando os dois últimos levantamentos do Datafolha, é possível observar uma redução de 6 pontos percentuais nas intenções de voto de Jair Bolsonaro (68% em 2018, e 62% em 20227).

Essa hipótese, que indica uma desidratação do bolsonarismo enquanto fenômeno majoritário, pode ser amparada nos resultados da eleição legislativa. No tocante aos evangélicos, segundo um de seus principais líderes nacionais, Sóstenes Cavalcante, o patamar de 30%, que era o esperado pelos líderes da Frente Parlamentar Evangélica por ele presidida,8 não foi atingido.9 O mesmo pode ser especulado quando consideramos os dados do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), que desde 1990 analisa a composição dos agrupamentos parlamentares. Segundo o levantamento,10 considerando nível de organicidade e envolvimento direto com as causas que defendem ou patrocinam, existem apenas seis bancadas com atuação efetiva no Congresso Nacional: Empresarial, Ruralista (ambas recordistas em número de parlamentares, com vínculo direto e formal com o setor), Sindical, Feminina, Evangélica e de Policiais/Segurança. Dentre estas, com base na discussão apresentada na primeira seção deste texto, podemos observar uma possível vinculação ideológica com os discursos bolsonaristas em quatro delas, que serão elencadas no quadro abaixo por ordem de importância, já com o comparativo dos resultados das eleições de 2022 e 2018, com o propósito de indicar essa possível redução da efetividade eleitoral do bolsonarismo.

Tabela 01 — Bancadas Parlamentares eleitas em 2018 e 2022
Bancada Descrição. Legislatura 2019-2023 Legislatura 2023-2027
Empresarial Defesa da reforma na legislação trabalhista e previdenciária, trabalho multifunção, autorregulação, redução de encargos, competitividade, Custo Brasil, reforma tributária, renúncias e incentivos fiscais, creditícios e monetários Total: 242 Deputados: 204 Senadores: 38 Total: 210 Deputados: 178 Senadores: 32
Ruralista O integrante da bancada ruralista é definido pelo quinhão de terra que possui ou pela aderência às pautas do agronegócio. Total: 107 Deputados: 80 Senadores: 27 Total: 81 Deputados: 57 Senadores: 24
Evangélica São membros das várias congregações evangélicas, cuja orientação religiosa é protestante, pastores ou não. Interesse em pautas como: união homoafetiva, pesquisas com células-tronco, defesa da família, Escola Sem Partido, ideologia de gênero, aborto. Total: 92 Deputados: 87 Senadores: 7 Total: 85 Deputados: 73 Senadores: 12
Segurança São membros das forças de segurança, apoiadores da flexibilização do porte e posse de arma de fogo e adeptos de legislação mais punitiva a criminosos. Temas de interesse: redução da idade penal, fim das penas alternativas, modificação do Estatuto do Desarmamento e do Estatuto da Criança e do Adolescente. Total: 70 Deputados: 61 Senadores: 9 Total: 66 Deputados: 56 Senadores: 10

Fonte: DIAP

Com base nos dados acima, observamos uma redução de todas as bancadas associadas aos temas de interesse do bolsonarismo, com exceção do número de senadores das bancadas Evangélica, que aumentou de 7 para 12, e da Segurança, que aumentou de 9 para 10. Isso nos permite inquirir acerca de uma possível redução da eficácia eleitoral de discursos com forte identificação com os significantes e demandas que compõem o bolsonarismo, mas também sobre sua alocação enquanto força política minoritária no Senado Federal, que emerge como seu principal locus de atuação durante a próxima legislatura.

Cabe aqui uma última reflexão sobre o Congresso Nacional eleito em 2022, ainda com base no relatório do DIAP, que acrescenta uma sétima bancada em seu levantamento: a dos Parentes, composta por parlamentares com parentesco com outros políticos, tanto nos estados de origem, quanto em outras regiões. Segundo o relatório, essa bancada contava com 199 parlamentares (175 deputados e 24 senadores) na legislatura de 2019 a 2023, e será ampliada para 205 (184 deputados e 21 senadores), na legislatura de 2023 a 2027. A partir desses indícios, é possível questionar interpretações de que o Congresso Nacional que emerge das eleições de 2022 seria mais alinhado a Jair Bolsonaro do que o eleito em 2018, ainda que os resultados estejam longe de serem favoráveis à esquerda. Os partidos identificados como de direita irão ocupar 259 das 513 cadeiras da Câmara dos Deputados, e o PL, legenda que o lançou à Presidência, tornou-se o partido com o maior número de deputados na casa, tendo triplicado o seu tamanho.

No entanto, quando as trajetórias pregressas dos parlamentares eleitos são levadas em conta, observa-se uma diferença substancial em relação aos resultados de 2018, quando o discurso bolsonarista de criminalização da política e dos políticos incentivou a eleição de novas lideranças. Nesse pleito, 30 dos 52 deputados eleitos pelo partido de Bolsonaro — na altura, o PSL — eram novatos. Em 2022, o crescimento se deu entre políticos experientes, que já transitaram por diferentes legendas, ou que fazem parte de famílias políticas tradicionais em seus redutos eleitorais. Dos 99 deputados que compõem a bancada do PL, apenas 17 são novatos. Segundo reportagem da Folha de São Paulo,11 publicada em 08 de outubro, mais da metade dos 52 deputados eleitos com Bolsonaro em 2018 se afastou dele e/ou não se reelegeu, apenas 15 foram para o PL e se reelegeram.

Ulysses Boscolo de Paula

A expansão do PL (+23 deputados), foi, todavia, acompanhada por uma expansão do PT (+12), cuja federação com PCdoB e PV será a segunda maior bancada da Câmara, com 80 deputados, e do Psol, cuja bancada atual de 10 deputados passará a contar com 14 em 2023. Por outro lado, quando consideramos outras legendas que fizeram parte da instável coalizão de governo de Jair Bolsonaro, é possível observar perdas, como no caso do PP, que teve sua bancada reduzida em 11 deputados, e o Republicanos, legenda amplamente identificada com os evangélicos da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), que perdeu 2 deputados. Partidos menos associados com o bolsonarismo, como MDB, União Brasil, ao contrário, ampliaram sua representação com +5 e +8 deputados, respectivamente.

A vitória dos parentes e dos políticos tradicionais, contudo, não é surpreendente. Existem incentivos institucionais para que os partidos invistam em nomes consagrados em um contexto no qual a superação da cláusula de barreira se torna um imperativo para a sobrevivência das legendas. Do mesmo modo, as emendas parlamentares, sobretudo as de relator (RP9), são um fator em prol dos políticos tradicionais. Criadas em 2019 e aplicadas em 2020, tiveram seu valor ampliado em 4,5 vezes desde então, totalizando R$ 3,5 bilhões em 2022, um valor que ultrapassa a verba concedida a maior parte dos Ministérios e que é alocado sobretudo em territórios nos quais os deputados possuem suas bases eleitorais, em uma triangulação que favorece prefeitos e vereadores dessas localidades, cujo apoio político demonstrou-se fulcral para a realização das campanhas dos deputados à reeleição. Nessa conjuntura, o estreitamento dos laços familiares e de proximidade configurados no que chamamos de Política Local,12 na qual a busca por votos é realizada a partir de uma relação mais personalista e direta com os eleitores, nos parece ser o saldo geral da eleição legislativa. Afinal, mesmo dentro desse exercício especulativo otimista, é preciso reconhecer que os estragos causados pelo bolsonarismo seguirão condicionando nosso horizonte político.