Revista Rosa

Volume 5

5

Erundina e a busca do povo perdido

Não vai ter golpe, Mauro Restiffe, 2016

Não é fácil pegar de primeira o sentido da Prosa da Rosa com a deputada Luiza Erundina,1 e a nossa intenção é oferecer uma chave de leitura. Lá no finalzinho da conversa, perguntamos: “Lula vencendo, pela experiência que a senhora tem em Brasília, existe o risco de ele não assumir?”. Ela responde: “Eu acho. Que essa direita está muito fortalecida e está muito espalhada. Eu tenho muito receio. A própria candidatura dele passa por riscos, porque para ele eliminar qualquer um desses…”. Todo mundo sabe quem é “ele”. E continua: “O povo precisa acordar e dizer o que quer. Está muito passivo tudo. E nós não estamos presentes na vida do povo, nós, os partidos da esquerda”.

No ano das eleições mais importantes da história do Brasil republicano, estamos prestes a viver a vertigem nauseante de um golpe de Estado e até de (mais) assassinatos. Uma pequena voz otimista assopra no nosso ouvido com a razão prudencial de costume: golpe? Os donos do dinheiro e os economistas já não fizeram uma carta aberta contra Bolsonaro? A Globo entregaria sua audiência de bandeja para a Record? Os Estados Unidos e a União Europeia encolheriam os ombros com indiferença? Mas outra voz, mais grave, faz um “contra-assopro” como num canto de fuga: golpe, sim. O novo golpismo não é daqueles com canhão na rua. É com o regulamento na mão. Um fato plantado contra as urnas eletrônicas, uma avalanche de notícias distorcidas, comoções populares, estado de sítio e o acordo para uma “transição democrática” costurada por cima.

A segunda voz nos convence. E também convence Erundina. Pois é pensando nisso que a primeira prefeita socialista da maior cidade da América do Sul ofereceu uma espécie de teoria política dialogada na Prosa da Rosa, procurando a resposta para combater a tragédia agora e no futuro. O núcleo do seu raciocínio está na sua concepção de soberania.

Qualquer político bem informado sabe que o termo tem duas dimensões. Designa a fonte do poder público, bem como o exercício desse poder. E todo mundo concorda que essa fonte, na ordem política brasileira, é o povo. “Todo poder emana do povo”, diz a Constituição, com o costumeiro estilo elevado, logo no seu primeiro artigo. Erundina também fala essa linguagem.

O que separa a Erundina do ramerrão que corre em Brasília é como ela usa o outro polo semântico do termo: a soberania como exercício do poder. Enquanto o grosso dos políticos segue estritamente o que diz a Constituição de 1988 (“A soberania popular será exercida pelo sufrágio”), numa chave em que o indivíduo realiza sua fração do poder público em ritos juridicamente previstos e mecanizados, Erundina diz um enorme na­na­ni­na­não. A essência da política é a mobilização permanente, criativa e desafiadora da experiência coletiva, os núcleos de base do bairro e da cidade que deveriam se espalhar sobre o país em forma de energia social como aqueles círculos concêntricos que se dilatam até as margens com pedras atiradas no lago.

A Constituição diz que a soberania como exercício do poder está concentrada no Estado. Erundina diz que ela deve continuar difusa e espalhada no corpo social. É preciso então criar e estimular essa energia, que não é outra coisa que converter a multidão em povo politicamente organizado. Esse talvez seja o maior desafio para a esquerda no século XXI.

A tarefa, de fato, não é fácil. Pois a multidão na história mudou. O peso da indústria caiu de 25% para 11% do PIB entre 1970 e 2020. Hoje o agronegócio responde por um quarto da economia nacional. A vida das cidades é feita de serviços e trabalhadores de aplicativos, nada de chão de fábrica. As comunidades eclesiais de base da igreja católica, progressistas que eram, refluíram para nunca mais voltar, e o país avança a passos de gigante para se tornar um grande templo neopentecostal.

Nesse cenário, o antigo repertório de ação coletiva para o confronto político esbarra na indiferença da maioria, e ações como assembleia, passeata e comício parecem trilobitas e outras exóticas texturas fossilizadas do Permiano. Insistir nas antigas técnicas ignorando o domínio do mundo digital é imitar as desventuras dos católicos do século XVI: enquanto os protestantes ganhavam o mundo ocupando a imprensa e pautando a opinião pública do Atlântico, os católicos os combateram… pregando sermões na igreja. A gente sabe quem levou a melhor.

A esquerda já teve um povo politicamente eletrizado. Agora não tem mais: “Os partidos de esquerda mudaram estratégia de relação com a sociedade e setores populares”, diz nossa entrevistada. Ter perdido essa batalha nas últimas décadas custa caro.

Primeiro. Não dá tempo de mudar o cenário para 2022. Existe um profundo descompasso entre as camadas do tempo político (fazer eleições e governar) e as camadas de tempo da politização social: criar núcleos de base, consolidar uma pedagogia sobre a ação coletiva, alinhar transversalmente bairro, cidade, estado, país etc. Não se fez isso entre 2002 e 2022. Não é agora que vamos fazer para as eleições deste ano.

Segundo. Para as eleições deste ano, é preciso engajar parte dessa soberania espalhada no corpo social usando as ferramentas da militância digital. Curiosamente, as esquerdas não têm estratégia definida para contra-atacar nesse campo. Justo elas, que são vítimas históricas das fakenews. Quem não se lembra da temida partilha das TVs coloridas Philco, Sharp e Gradiente se Lula vencesse em 1989? Nos anos 1990, o PT reagiu às fakenews decidindo rosear o seu vermelho histórico. E agora? “Não acho que tenha, [nos] debates todos que temos feito, [encontrado] uma condição ou um meio ou uma estratégia suficientemente eficaz para evitar que esse fenômeno da fakenews”, reconhece Erundina.

Terceiro. Nenhum governo de esquerda tem governabilidade sem politização social. Os centrões desta vida, os Tribunais de Contas, a cúpula do judiciário, os oligopolistas das empresas de comunicação e os algoritmos de Mark Zuckerberg, Elon Musk e Jeff Bezos, todos com seus vieses cognitivos de classe, pautam o que pode ou não pode ser proposto, o dizível e o indizível, o imaginável e o inimaginável. Formam a Constituição não escrita do nosso tempo. O contrapeso dessa Constituição, a âncora da governabilidade de esquerda, é a repolitização da maioria despossuída.

Quarto. Sem a multidão transformada em povo, a segunda voz cresce sobre a primeira, e ao som dela o golpismo de Bolsonaro vai dançar entre as travas institucionais da democracia como um elefante numa sala de cristais.

2022 cheira a tragédia, e Erundina tem uma teoria. Se não para evitá-la, ao menos para entendê-la.