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Botannica Tirannica: histórias de um ecossistema errante em três atos que podem ser lidos em qualquer ordem

Ato I

A ciência moderna e o Império colonial são causa e efeito um do outro. Por um lado, o Império exige que os cientistas e seus patronos creiam que as coisas da natureza podem ser capturadas em palavras, figuras, linhas, sombras e gráficos. Por outro, os naturalistas viajantes devem acreditar que os processos naturais podem ser desenhados, registrados em artigos científicos e catalogados.

A taxonomia é o seu saber instrumental. Ciência geral da ordem, ela é uma fórmula para tabular o mundo, organizado a partir de suas semelhanças e diferenças.

No bojo da colonização, a botânica se institucionaliza como uma tecnologia de poder. Não por acaso, a Comissão de Limites, que demarcou as fronteiras entre Espanha e Portugal, em 1751, foi acompanhada pela Expedição Orinoco.

A Expedição foi chefiada pelo sueco Pehr Löfling, discípulo dileto de Lineu, o pai da taxonomia, a quem ele dedica sua obra sobre a América hispânica. Em reconhecimento ao seu trabalho, é homenageado pelo mestre com um gênero botânico com seu nome: Loeflingia. O acontecimento não tem nada de incomum. A nomenclatura científica consagra reis, rainhas e preconceitos no seu processo de dominação da natureza.

À catalogação do mundo, segue a coleta das espécies que alimentarão as plantations. A colonização expropria não só a terra, mas também a planta da integralidade da vida.

Seu ambiente, suas funções medicinais e religiosas são submetidas ao ritual simbólico de apagamento pelo nome das coisas.

Nomear é tomar posse, e aos povos originários é negada a posse material e simbólica da natureza. O jatobá, por exemplo, deixa de ser a árvore dos frutos duros, sagrada para os povos originários, pelos seus poderes de cura, para tornar-se a Hymenaea courbaril, em referência ao hímen feminino, pela rigidez da casca de seus frutos.

A taxonomia antropormorfiza o mundo vegetal. Faz das plantas um espelho do homem. Dissecado, compartimentado e enfileirado em jardins botânicos europeus, o universo das plantas é convertido num espaço pretensamente neutro, no qual se projetam preconceitos patriarcais, raciais e religiosos.

Os princípios da evolução progressiva e da seleção natural contaminam da economia ao imaginário e vice-versa. O preconceito ganha lastro laboratorial e se enraíza no imaginário coletivo.

São muitas as plantas com nomes populares que abordam a mulher de um ponto de vista machista, como Maria-sem-vergonha, Beijo-de-puta e Peito-de-moça. Mas isso também ocorre na nomenclatura científica, na qual abundam plantas cujos nomes científicos remetem às ninfas gregas, semideusas belíssimas que nunca envelheciam e tudo propiciavam aos homens e à natureza, e batizam o gênero das Nymphaeas que encantaram o pintor Monet.

Mais comuns são as flores, geralmente brancas, que, nomeadas como virginiana, virginica, virginicum, entre outras, fazem referência direta à virgindade feminina e sua associação à pureza e à delicadeza.

Negros são alvo de preconceitos diversos, expressos nos nomes populares, mas também nos científicos. Plantas que têm a palavra kaffir ou cafrum no nome são altamente ofensivas. Termo derivado do árabe para infiel, caffir tornou-se um sinônimo genérico de negro com os colonizadores europeus ingleses; e cafre, mercadoria, na língua portuguesa, expandindo a noção racista que identificou os homens e mulheres negros como objeto.

A palavra é considerada hoje nos países da África subsaariana como um equivalente à repudiada palavra nigger, que hoje se convencionou dizer “palavra-N” (em inglês, N-word), pela violência racial que nela está contida.

Outros nomes derrogatórios são os que têm a palavra Hottentot. Esse era o modo como os holandeses generalizaram todos os povos não bantos da África do Sul. A palavra foi sinônimo de canibal, de selvagem e de alguns estereótipos físicos como lábios e nádegas protuberantes, como é patente na aviltante iconografia associada à Vênus Hottentot, uma princesa que foi levada para a Europa, onde foi humilhada em exposições de cunho supostamente científico e de entretenimento das elites brancas.

No pensamento colonialista, a crença na ciência busca compensar a pequenez humana frente à natureza e subjugar sua diversidade. Os princípios da evolução progressiva e da seleção natural contaminam da economia ao imaginário e vice-versa. O preconceito ganha lastro laboratorial e se enraíza no imaginário coletivo.

As denominações preconceituosas revelam-se também nas projeções da cultura dos brancos europeus nas formas das plantas, conjugadas a termos ofensivos aos povos originários, que são definidos como índios. Essa é a maneira como Cristóvão Colombo, que acreditava ter aportado nas Índias, chamou os habitantes nativos das Américas. Índios. São muitas as plantas em língua inglesa conhecidas como “Indian” + algum elemento da cultura branca, como Indian mocassin e Indian Hemp.

Plantas invasoras são chamadas de ciganas, um adjetivo associado a trapaceiro. O grupo étnico é roma ou sinti…

No caso dos judeus, o antissemitismo incide sobre características físicas e culturais, como a barba dos religiosos, e adere a mitos milenares, como a coroa de espinhos de Jesus Cristo e a lenda maligna do “judeu errante”, que denomina a planta Tradescantia zebrina em vários idiomas.

A lenda circula desde o século XIII na Europa. Conta a história de um homem, Ahasuerus, que ao ver Jesus percorrendo seu Calvário, teria gritado: “Crucifiquem-no!”. Em resposta, Jesus lhe impôs a penitência de esperar o seu regresso, vagando pelo mundo sem descanso, sem nunca morrer, até ao fim dos tempos.

Apesar dos estudiosos da igreja católica afirmarem que o tal homem era o romano Cartaphilus, um dos guardiões do palácio de Pilatos, a lenda do judeu errante atravessou o tempo como parte da tradição oral da sexta-feira da Paixão. Foi publicada na Alemanha no século XVII e popularizada pela versão de Eugène Sue, em meados do século XIX e pelas gravuras de Gustave Doré.

A lenda do judeu errante foi utilizada também em obras artísticas contra o antissemitismo, como o filme protagonizado por Conrad Veidt, o inesquecível assassino sonâmbulo de O gabinete do doutor Caligari (1920), e em pinturas de Marc Chagall. Mas, sem dúvida, a versão que prevalece até hoje é a da Alemanha nazista. O judeu parasita, milionário, agente de uma conspiração internacional para dominar o mundo.

A base da política de extermínio nazista é a eugenia, modalidade de racismo científico que tem suas origens na taxonomia dos botânicos do século XVIII. É Lineu quem primeiro divide os humanos em:

  • Europeanus (brancos): inteligentes, inventivos e gentis;
  • Asiaticus (amarelos): desatentos;
  • Americanus (vermelhos): teimosos e raivosos;
  • Africanus (negros): preguiçosos.

Esse modelo é sofisticado paulatinamente nas décadas seguintes, tendo como um de seus marcos os estudos de diferentes crânios de Blumenbach, pai da antropologia, e o princípio da seleção natural de Darwin, que impactou particularmente seu primo, Francis Galton, criador da eugenia e do nome dessa especialidade.

Com as obras do médico estadunidense Samuel Morton, publicada em 1839, e do escritor francês Conde de Gobineau, em 1835, estabelecem-se os pilares do racismo científico, que alimentaram o arianismo nazista, e que estão até hoje presentes no discurso do suprematismo branco.

É nesse quadro que a escravização de negros e de indígenas ganha legitimidade científica e que se elaboram as primeiras tentativas de racialização dos judeus.

Como as plantas e os animais, os corpos humanos são objetualizados, dissecados e não poucas vezes instrumentalizados como entretenimento de massa. Impossível não lembrar aqui do grupo de ameríndios botocudos que foram levados de sua terra natal, o Espírito Santo, para o Rio de Janeiro, para serem exibidos na Exposição Antropológica do Museu Nacional, na qual também eram exibidos representantes de outros povos indígenas, e de lá para a Europa, onde foram exibidos em várias cidades na Inglaterra.

Sabemos que não foram os únicos. Era comum na Europa a exposição de indígenas de todas as partes em zoológicos e em espetáculos de “entretenimento”. A violência colonial não cabe em palavras…

Francis Galton cunhou o termo “eugenia” em 1883, no livro Inquiries into Human Faculty and its Development. Sua motivação era compensar a “lentidão” dos processos de seleção natural, que Darwin garantia que levaria ao extermínio das raças selvagens.

Mas isso levaria séculos, e Galton se dedicou a criar mecanismos para melhorar a espécie humana, alterando a composição das populações e favorecendo a reprodução de determinados tipos em detrimento de outros.

Proposta como uma ciência, a eugenia logo se impôs como um movimento social. Nos Estados Unidos fazia sucesso desde 1907, chancelando leis de esterilização e proibição de casamentos inter-raciais. Outro país de vanguarda na área foi o Brasil, cuja Sociedade de Eugenia remonta aos anos 1920. Dirigida pelo médico Renato Khel, tinha entre seus membros o poeta Jorge de Lima, o educador Fernando de Azevedo e outros fiéis seguidores, como o escritor Monteiro Lobato.

Na Alemanha nazista, a eugenia tornou-se política oficial de Estado desde 1933. Os resultados desse delírio são conhecidos em números estarrecedores de mortos: 6 milhões de judeus, 250 mil romas e sintis, um número desconhecido de negros, mais de 200 mil doentes mentais e muitos milhares de homossexuais, comunistas e opositores do nazismo, classificados, por isso, como “associais”.

Para os eugenistas, a humanidade era um jardim que, para florescer, deveria livrar-se das ervas daninhas. “Erva daninha”, contudo, não se refere a nenhuma planta de qualquer espécie, gênero ou categoria específicos e reconhecidos pela taxonomia científica atual.

É apenas uma denominação para qualquer planta que cresça onde os humanos não a querem. Sua qualificação como mala hierba é outra herança do colonialismo. São as plantas que não servem à economia extrativista. São as plantas que sobrevivem nas condições mais adversas. São as plantas que não se extermina com facilidade. São as plantas que nem a radicalidade eugênica controla.

Ato II

Há cerca de um ano e meio pesquiso plantas com nomes racistas (contra negros, indígenas, roma, sinti e caló), machistas e antissemitas. Coleto tudo. Nomes científicos e vulgares. São centenas de espécies. Contabilizando as que têm nome misóginos associados à virgindade (virginiana, virginia, virginica etc.), passam de 3 mil. Quase dispensável dizer que essas plantas “virgens” são geralmente flores brancas, delicadas e muitas sugerem formas vaginais.

Não há como negar: a rima mais perfeita do colonialismo é mesmo o patriarcalismo.

Até a terra desconhecida é sempre tomada como virgem. Como se estivesse ali à espera de um senhor para conquistá-la, subjugá-la e dominá-la.

O processo de pesquisa começou quando fui apresentada a uma judeu errante em uma ocupação artística genial do Salvaro, sobre a qual escrevi o texto crítico a convite da Central Galeria. Naquele momento, gelei. Esse nome é um gatilho traumático para qualquer judeu pela carga de antissemitismo que carrega.

Atônita, lembro que cheguei em casa e fui buscá-la na internet. Não acreditava que pudesse ser verdade. Mas era. A busca no Google retornou livros sobre o judeu errante e anúncios dessa planta, que eu gosto tanto, em vários idiomas.

Desconcertada, passei a pesquisar as relações entre taxonomia botânica e preconceito. O resultado dessa pesquisa parcialmente descrevi no Ato I deste texto.

Minha maior surpresa foi perceber que grande parte dessas plantas, que têm nomes pejorativos e preconceituosos, são ervas ditas daninhas! E lindíssimas.

Esse termo tão desqualificador (daninha, danada, amaldiçoada) no pensamento hegemônico tornou-se, para mim, um símbolo de resiliência. “Podem me prender, podem me bater/ Podem até deixar-me sem comer…” cantou Elza Soares, dizendo que não sairia do seu lugar, o morro. As daninhas são como a verve da sua voz, encantando o samba de Zé Kéti: se não tem água, elas furam o poço. Sobem nas pedras, enfiam-se entre as árvores. Ressurgem. Resistem.

Como os escravizados que traficavam as palmeiras-imperiais, o símbolo do poder monárquico e da riqueza latifundiária brasileira, engolindo suas sementes e as traficando em suas fezes. Como os judeus, que atravessaram todas os ciclos de perseguição, da inquisição ao nazismo, e seguem vivos. Como os indígenas e seus saberes ancestrais. Como os povos roma, sinti e caló, a despeito de todos os dicionários que os associam, como gyspies ou ciganos, à trapaça e à pilhéria. Como as mulheres, apagadas de todas as histórias e violentadas em todo os sentidos.

Indesejáveis, indomáveis, malditas, as ervas daninhas são a metáfora mais perfeita da luta pelo direito à vida. Rebeldes, desafiam um mundo dominado por uma almejada ordem natural inexistente, voltada à produção de bens.

Apesar dos seus resultados abomináveis na Segunda Guerra, sociedades eugênicas perduraram até meados dos anos 1960, deixando marcas profundas na cultura contemporânea. E isso não se resume aos concursos de Misses e Bebês Johnson.

Nos saberes de ponta atuais, da edição do código genético à inteligência artificial, , vemos que se consolida a palavra-chave da eugenia: padronização.

Por algoritmos voltados à vida ou ao consumo, pessoas, plantas e bichos são submetidos aos mesmos princípios tecnológicos empregados industrialmente: projeto, controle de qualidade e previsibilidade do produto.

No campo das tecnologias de imagem, esses princípios estão presentes nos sistemas de vigilância, mas são aplicados também na fotografia e no audiovisual, para criar figurações tão ou mais reais que o real, podendo substituir humanos por modelos e atores que não existem, fazer políticos falarem coisas que nunca disseram, ou calibrar discursos revisionistas, que negam do Holocausto à chegada do homem à lua.

É o que se chama de deepfakes, e sua receita são recursos de inteligência artificial que criam novos dados a partir de outros dados, identificando e combinando padrões internos e desprezando as dissonâncias.

O processo das imagens generativas, feitas com inteligência artificial, é espantosamente parecido com o que Francis Galton utilizava em seus estudos eugenistas, para o qual criou um método fotográfico: o retrato composto. Nesse processo, Galton superpunha diversas fotos e apagava suas diferenças, a fim de identificar o criminoso genérico ou o judeu genérico

O retrato composto, escreveu Galton, não “representa nenhum homem em particular, mas retrata uma figura imaginária que possui as características médias de qualquer grupo de homens”. É mais ou menos isso que uma Rede Neural Generativa faz.

Mas e o que fica fora do padrão? Que lugar social poderá ocupar?

Ato III

Sabemos que a visão é um atributo biológico, mas o olhar é cultural. A dificuldade da cultura ocidental de ler o mundo fora dos parâmetros, das molduras e das janelas renascentistas é inegável. As telas e os livros o comprovam.

E se chegássemos a um ponto em que a visão computacional se tornasse tão hegemônica e não conseguíssemos mais enxergar o que fica fora do padrão, da mesma forma que temos dificuldade em compreender o que ultrapassa o cânone retangular ou quadrado da tela e da página?

Foi aí que resolvi me dedicar a uma espécie de “engenharia de uma filosofia reversa”: combinar entre si imagens que propositalmente rompem a cadeia produtiva das imagens mais reais que o real, alimentando o sistema com dados incongruentes, como plantas de diferentes espécies, mas sempre com nomes derrogatórios a judeus, a negros, a mulheres, a indígenas e a “ciganos” e forçá-lo a operar a sua síntese, gerando uma imagem que não pretende decalcar o real, mas operar em uma extranatureza.

É isso que está em pauta em Botannica Tirannica: um ecossistema de uma ciência errante, que só transita entre supostos erros de leitura, onde florescem seres híbridos, sem nome, sem raízes. Uma flora mutatis mutandis, ou que vive “mudando o que tem que ser mudado”.

Botannica Tirannica inaugura dia 28 de maio, 11h, no Museu Judaico de São Paulo, com curadoria de Ilana Feldman.

As imagens e vídeos aqui apresentadas integram algumas das séries da exposição. Trechos deste texto fazem parte da lecture-performance que apresento ao longo da mostra.