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Nem sabemos se é mesmo ela,1 mas isso importa?

— considerações sobre Risque esta palavra, de Ana Martins Marques

Estudos, Gustavo Diógenes

Se alguém me pedisse para explicar o que é ruído branco, eu iria dizer que é quando a televisão, aquelas das antigas, estivesse ligada em nenhum canal, no meio da madrugada, fazendo aquele chiado que dá muita gastura e os pontinhos da tela ficassem se mexendo, dando a impressão de que estão se mexendo muito rápido, de forma meio alucinada e hipnótica, a ponto de nos fazer dormir. Essa é uma imagem possível para tentar definir esse tal ruído, já que a explicação da Wikipédia é bem mais complexa, se fala em sinais, e eu não consegui entender direito, não consegui fazer imagem.

Eu pensei em ruído branco, mas, na verdade, eu queria ter escrito sentimento oceânico. Talvez porque internamente eu tenho a sensação de que esses termos se comunicam, que eles têm algo em comum, mas nem um nem outro aparecem no último livro da Ana Martins Marques, o Risque esta palavra (Companhia das Letras, 2021), se bem que poderiam. Eu pensei se numa língua qualquer, desconhecida, distante, estrangeira, ruído branco pudesse ser uma espécie de termo equivalente, um sinônimo de sentimento oceânico e que sentimento oceânico pudesse ser uma variante de sentimento de mundo. Mas eu não sei se nessa outra língua os poemas de Drummond fariam sentido, ou mesmo os da Ana. Não faço a menor ideia, porque é difícil imaginar o(s) sentido(s) que um poema pode atingir ao ser traduzido para uma língua que não falamos… Precisamos de chão. Mas já posso escutar algum leitor mais criterioso me interpelando, me perguntando, já que esse termo [sentimento oceânico] se aproxima muito mais da mística e eu não diria que o livro da Ana é um livro místico, ainda que tenha seus mistérios, o que é esse livro da Ana?

É difícil dizer exatamente o que é, sobre o que é um livro de poesia, ou mais especificamente esse livro de poesia da Ana, já que mais da metade de qualquer livro de literatura é pura fantasia imagética do leitor, o grande cocriador de mundos, que vai lendo, conforme sua capacidade de entrega e aderência, completando os poemas e misturando tudo com a sua própria vida e com outras leituras, outras bibliotecas, se identificando ou não, só que esse livro da Ana é um livro que fala muito de mar. O mar aparece. O mar está lá. Então, tem uma sensação oceânica que o atravessa e em algum momento do livro eu até duvidei de mim mesma e me questionei sobre ter ou não ter mar em BH, “mas se Belo Horizonte não tem mar, por que ela fala tanto de mar?, que mar é esse que ela busca, tão obsessivamente?”, e isso muito antes de chegar ao poema em que a Ana realmente fabrica um certo mar nas montanhas mineiras, em um dos poucos momentos do livro em que a autora chega a precisar topografias.

Mais uma vez leitores menos dispersos que eu vão pedir a palavra, porque há, de fato, algumas paisagens que podemos localizar, e eu reiteraria principalmente paisagens portuguesas (e vocábulos portugueses bem corriqueiros, não só termos brasileiros), como se esse mar que vai se abrindo ao longo do livro fosse também um grande mar da língua portuguesa, tantas vezes reiterado na expressão “sal da língua”. Mas o que eu sinto, de maneira geral, lendo o livro da Ana, é que os lugares não são necessariamente lugares, são antes ideias de lugares. Ou até mesmo lugares nenhum, como a seção do livro que envolve postais “de parte alguma”, inscrevendo um grande paroxismo no coração da linguagem referencial.

É um pouco como Platão, na República, quando ele fala da cama e da ideia de cama, eu tenho essa mesma sensação lendo a Ana: é o quarto do hotel e a ideia do quarto de hotel, como um lugar mental, é a piscina e a ideia de piscina… É algo de muito concreto que tende a ser abstrato, ao mesmo tempo em que esse lugar é investido de experiência, sendo o poema esse resto, esse algo que sobra, que temos que lidar no mundo, são lugares que lidam com o vazio. Algo que permanece e impermanece desses lugares-ideias, nessa investigação sobre a memória, e não necessariamente lugares-ideais, porque o livro caminha muito mais pela tradição drummondiana da afirmação de uma certa negatividade, do que por caminhos mais previsíveis, fáceis. A Ana trabalha com muita elegância, mesmo quando o poema quer fazer o caminho das pedras. Mas talvez seja um pouco arbitrário afirmar isso [sobre a negatividade] com tanta veemência, porque Ofélia, quando cai, cai cantando, nesse livro com tanta vontade de música e de dança, fazendo-nos pensar que, em poesia, trata-se sempre de movimentos, de tensões e não de afirmações rígidas. É a criação de certos ritmos.

Em algum momento do livro, eu também senti que “ela está tentando se livrar de algo, talvez de si mesma, de algo que já foi e não sabe muito bem o que fazer com isso, com as cinzas dos cigarros, com as mãos”, mas é porque esse é o primeiro sentido embutido principalmente no título, que se aproxima muito da expressão “riscar alguém do mapa”, dar um sumiço em alguém, fazer algo desaparecer para sempre, deliberadamente. Mas o livro da Ana é também bem mais sutil e vai tentando trabalhar com esse grande duplo da vida que carregamos por todo lado que é a morte, e logo durante uma pandemia aparecer um livro assim, quando todos estamos morrendo um pouco, aprendendo a morrer, e coletivamente, num país como o nosso, desgovernado, onde nem sabemos se “restará as cinzas dos teus caprichos”.

Independentemente de restarem ou não essas cinzas para contar alguma parte da história, como no caso do primeiro Bandeira, onde as cinzas se inscreveram, na transição da lírica do séc. XIX para o séc. XX, é a própria escrita da Ana que vai fazendo seu caminho particular das pedras pelo mundo, e é com alguma alegria que o leitor pode escolher entre ler esse seu novo trabalho, o Risque esta palavra, ou mergulhar no seu primeiro livro, A vida submarina (Companhia das Letras, 2021), voltando no tempo, já que ele foi reeditado novamente agora, criando caminhos paralelos, proliferando novas vidas debaixo d’água.


Dois poemas de Ana Martins Marques

Prosa (I)

Num evento literário
a romancista conta
que tinha sido casada com um poeta
eu passava anos trabalhando num livro
ela diz
todo o tempo
muitas horas por dia
pensava nisso
o dia inteiro
falava nisso
quase o tempo todo
fizemos juntos uma viagem
curta
ela diz
ele tinha um livro

Num ensaio sobre Marina Tsvetáieva
Joseph Brodsky diz
que ninguém sabe o que perde a poesia
quando um poeta se volta para a prosa
mas é certo que a prosa
ganha muito

Afinal a poesia
― a imagem também é de Brodsky - é aviação
e a prosa, infantaria

Numa entrevista
João Cabral de Melo Neto diz
que a poesia tem alguma coisa de laboratório
― é como se a literatura fosse uma fábrica ― ele diz
― que produz romances, contos, ensaios
mas tem um laboratório onde se faz pesquisa
para todas essas coisas ― esse laboratório
é a poesia

Na livraria
quando pergunto
sobre a estante de poesia
o livreiro aponta
e diz
os livros de poemas ficam ali
perto do chão

Tudo isso foi dito
em prosa


Minas à beira-mar

Scene III. A desert country near the sea.

William Shakespeare, The Winter's Tale

A Boêmia fica à beira-mar

Ingeborg Bachmann

Assim como a Boêmia
também Minas faz fronteira com o mar
― cada corpo confina com o que lhe falta
(cercado ao norte pela morte
ao sul pelo azul)

Deitei (se eu não, outros como eu)
a cabeça nas ondas, experimentei o sal
da língua, lancei (se não eu, outros como eu)
o corpo ao perigo e fui (alguém foi)
ao funo

Deixou o mar e extinguiu-se uma cicatriz
na pele das montanhas, estas mesmas que agora
esvaziam-se de si ― a exemplo do mar
quando recua